terça-feira, novembro 10, 2009

“SE TEM UMA COISA QUE EU NÃO TENHO... É MEDO!”

para ler ao som de Pecado, de Carlos Balk e Pontier y Francini.

“Yo no sé si es prohibido
Si no tiene perdón
Si me lleva ao abismo
Solo sé que és amor.”



Se pecar é querer-ser feliz, então meu amigo João Lucas pecou um bocado. (Ele e toda a humanidade!)
E se é verdade que não existe pecado do lado de baixo do Equador, então tá tudo certo e ele foi pro Céu! Não esse Paraíso idílico, níveo, modorrento, mas aquele que nós e o Milton(1) perdemos por desejarmos viver além da conta.
E o João Lucas viveu! Viveu, não, vive!!! Vamos acabar com essa finitude judaico-cristã que até onde me conste ele nem era partidário disso e eu muito menos! Parece que depois do acidente de um tempo atrás um pisca-alerta acendeu. Um contador de dias às avessas, diminuindo o tempo ao invés de somá-lo como deveria ser o que chamamos natural. E ciente disso ele investiu tempo, saúde, inteligência, desejo, tesão, insônia, sono, sonho, tudo quanto tinha pelo Direito – seu e alheio –, pela Arte, pela Vida, vertida na mesa dos homens de vida vazia-vadia(2). Mas, vida, ali, quem sabe, meu caro Lucas, foste feliz. Eu sei que foste. Quem te ama sabe que foste. Agora precisaste dar um tempo e apesar da curta temporada gregoriana que estiveste conosco em carne que nos faz sentir tanta saudade, temos que te deixar ir porque isso é devido a quem se ama!
Da minha parte, vai. Ainda parafraseando o Chico, sei que além das cortinas há palcos azuis e infinitas cortinas com palcos atrás e isso vai até o infinito, meu caro. Essa vida, mano, é só um véu e nos cabe tirá-lo. Mais um se foi pra ti. Espero que consigas ver melhor agora. Te conhecendo como te conheço, tenho certeza que sim!
Espeju, Lucas. Nós se encontra (não, eu não errei!) pra lá dos rio das Icamiabas, longe, longe(3), mundiados desse bem-querer sem termo.
Até lá!

HUDSON ANDRADE
10 de novembro de 2009 AD
12h08
Belém – Pará

(1) Paraíso Perdido. John Milton
(2) Vida. Chico Buarque
(3) O Uirapuru. Hudson Andrade

BROCARDOS (13)



“E disse o Senhor a Gedeão: Tu tens contigo muito povo (...). Fala (...): Aquele que for medroso e tímido, volte (...). E ele com trezentos homens saiu à batalha.”
(Juízes, 7: 2-3, 8)


Deus prometeu aos israelitas uma terra de fartura e paz, mas nunca disse que seria de graça. Foram quarenta nos dando voltas no deserto até chegarem a Madian onde um exército se estendia pelos vales como um bando de gafanhotos. E Deus disse a Gedeão que então comandava os batalhões de Israel que apenas com homens de valor lutasse e que assim seria vitorioso.
Não, este não é um artigo de caráter religioso. Nem é um artigo propriamente dito, mas um pensar sobre coisas muito próximas a mim e que, creio, faça parte da realidade de outras companhias de teatro.
O teatro é uma Arte e um ofício. As companhias precisam se entender não apenas como um agrupamento, sobretudo enquanto entidade com objetivos claros e comuns e mesmo como uma empresa, distribuindo tarefas bem definidas e provendo seu próprio sustento. Infelizmente carecemos desse entendimento e nos vangloriamos amadores no sentido menor do termo, tirando do bolso a produção de nossas pecinhas e juntando a renda da bilheteria pra comprar três cervejas, dois refris e tira-gosto de mortadela. E o pior é que muitos se satisfazem em trabalhar por comida, criando um vício nos contratantes que oferecem cachês missérimos porque sabem que se um não aceitar outros dez aceitarão. E trabalhos de qualidade vão para o limbo porque não conseguem se manter enquanto o entulho vai amontoando.
No cerne desse problema está uma multidão de gente medrosa e tímida que ainda não entendeu teatro como trabalho: com responsabilidades, horários, normas, necessidades, investimentos e até algum sacrifício. Se a estabilidade de uma empresa mais formal demora a chegar, avalie de uma companhia teatral?
Nessa busca por leite e mel, horas incontáveis de sexo e reconhecimento público muitos se decepcionam e abandonam tudo, criando algumas situações constrangedoras. Os cursos, mini-cursos, oficinas, workshops, palestras sobre teatro ficam cheias de pessoas ávidas, desinibidas, descoladas, ou extremamente tímidas querendo se soltar, ou que alguém disse que leva jeito pra coisa, ou que foi porque a namorada também vai, ou porque não tem mais vaga no curso de reike freudiano de linha branca. Se é só um dia, depois de algumas horas, mais da metade já sentou contra a parede. Se o negócio é mais sério e leva dias, ou anos, apenas meia dúzia de seis pessoas resistem e desses, uns dois, quem sabe três conseguem o entendimento real dessa profissão e se não podem viver exclusivamente dela (um sonho dourado nosso!), pelo menos a tem como algo se não prioritário, relevante. Estabelecem uma rotina de ensaios, lêem exaustivamente, pesquisam e dividem com a equipe seus conhecimentos, assumem tarefas burocráticas que garantam o funcionamento do grupo e rendimentos que lhes são diretamente interessantes; mantêm um clima de harmonia tentando herculeanente não deixar o ego, o orgulho, a vaidade falar mais alto. Ou o que é pior, mais baixo, aos cochichos, pelos cantos, nos pés dos ouvidos, que fulano é isso, que sicrano é aquilo, que beltrano podia-devia-seria.
Muito povo vem e a gente até quer ter todos por perto, achando mesmo que quantidade é sinônimo de qualidade. Ledo engano. Só com aqueles verdadeiramente valorosos é que venceremos.
Antes de investir tempo, dinheiro, trabalho próprio e alheio, pensa: Eu realmente quero isso? Pesquisa primeiro como é que funcionam as companhias, como são montados os espetáculos, os protocolos determinados para geri-los, no macro e no micro, que meu grupo de amigos não é, necessariamente, meu grupo de trabalho, ainda que meu grupo de trabalho precise ser um grupo fraterno. Veja suas próprias necessidades e disponibilidades, que essa é uma Arte difícil e um ofício ainda mais que hoje te paga mil reais por 10 minutos de cena e que por semanas vai te exigir grana de ônibus (tô falando da minha realidade), redistribuição de horários e alguma insônia.
Se ainda não é o teu momento, mesmo que ames, que querias, que até entendas o teatro, paciência. Façamos escolhas e escolhamos o que naquele momento é o que nos fará feliz. Continuaremos amigos. Mas pra frente, quem sabe não dá certo?!

BROCARDOS (12)


Racca! Entre os judeus a expressão Racca! era dita com asco, cuspindo-se de lado. A pessoa a quem era endereçada a injúria poderia se considerar absolutamente desprezada. A ofensa era tão séria que o próprio Cristo criticou duramente quem a usava. Nos dias de hoje, olhando desolado o mundo em volta, particularmente o Brasil, percebo que algumas criaturas merecem um sonoro Racca! com direito a cuspe, pipoqueiro, banda de música e todo o rito. Seguem alguns:
01. Nesses tempos de H1N1 manter as janelas dos ônibus fechadas é, no mínimo, uma insensatez. Independente da gripe A, outras doenças respiratórias podem ser evitadas por mantermos os espaços – sobretudo os coletivos – arejados. Pras bonitas (e bonitos também!) que supervalorizam seus penteados em detrimento do bem-estar geral: Racca!

02. Aos nossos governos municipal e estadual. Votei em Ana Júlia Carepa e, obviamente não votei em Duciomar Costa (esse pecado eu não levo pro Inferno!), mas hoje me vejo vítima e refém da incompetência de ambos. O pior é agüentar o risinho de alguns amigos e aquela cara de eu-já-sabia! Claro que seus motivos anti-PT e afins ainda são preconceituosos e maniqueístas, mas o resultado foi o previsto. Pelo descaso e desrespeito imoral com a saúde, segurança, educação, cultura, limpeza e conservação de praças, monumentos, vias públicas, pelos sumiços e pelas mochilas: Racca!

03. Emendamos, por natural, com o governo federal. Votei no Lula (esse pecado eu levo pro Inferno, ainda que não me arrependa dele dado o contexto de então!). Digo sempre que o PT perde pra ele mesmo e ele perdeu o meu voto (e de muitos outros, se a razão assim o permitir!). O caso é que agora as coisas beiram o caos e sentir vergonha não chega (muito menos medo, D. Regina!). Ao Lula, aos seus seguidores cegos, às bolsas disso e daquilo, a essa politicagem abjeta de auto-favorecimento e troca de favores: Racca!

04. Só pra manter na política, a cada sem-noção que eleger um só desses que aí estão: Racca! Racca! Racca!

05. A todo aquele que compensa seu deficit peniano com decibéis, principalmente se for um vizinho: Racca!

06. A todo o que se prevalece do desamparo alheio e usa qualquer religião para se favorecer: Racca!

07. Ao tecnobrega e todos os seus símbolos e variações distorcidas e esganiçadas: Racca!

08. E se no volume máximo: Racca!
09. Ao trânsito de Belém, sobretudo no complexo vi(ot)ário do Entroncamento: Racca!

10. Aos caras (e algumas mulheres que eu sei!) que mijam em postes, placas, muros, praças, enfim... Racca!

11. A quem, podendo, acha que porque eu estou no teatro não estou trabalhando e não quer pagar o ingresso justo – exceto pra gorda galinha do vizinho: Racca!

12. Se és emo, simpatizante, amigo, correligionário, amante de, namorado (a) de, e não fazes nada pela evolução humana: Racca!

E tu? A quem tu mandarias um sonoro Racca!

HUDSON ANDRADE
28 de agosto de 2009 AD
9h00

PENSANDO NESSE TAL DE AMOR



“O nosso amor a gente inventa pra se distrair. E quando acaba, a gente pensa que ele nunca existiu.”
(Cazuza)


A maior artimanha do Diabo, dizem, é nos fazer acreditar que ele não existe. A maior artimanha do Amor é exatamente nos fazer crer nele.
Nós nos relacionamos pela nossa necessidade antropológica de contato físico, casamos por convenções sociais, temos filhos pela manutenção do nosso patrimônio material e genético, transamos pela satisfação de um prazer individual e momentâneo. Depois de um tempo, dizemos: O Amor acabou! Daí os relacionamentos ficam frios, os casamentos enfadonhos, as trepadas espaçadas e burocráticas. Então partimos pra outra, certos de que dessa vez vamos acertar. E tudo se repete.
Como é que pode acabar aquele que é dito como o sentimento humano por excelência? A sublimação de todas as virtudes, o que cobre a multidão das nossas faltas? Como é que vamos da felicidade absoluta para a depressão mórbida? Do desejo incontrolável de estar junto para a apatia e o descaso? Das cartas todas ridículas para o esquecimento e até mesmo a indisposição (pra não dizer ódio, que isso aqui já está seco demais)?
Mas a culpa, afinal, nem deve ser do Amor. Eros é só uma criança inconseqüente brincando de índio. Que sabe ele da vida, da malícia do mundo, dos nossos jogos de sedução? Que culpa ele tem se só vemos o imediato?
No final das contas o problema é meu. Tem tanta gente aí super satisfeita. Senta num banquinho na porta de casa e tá tudo muito bom. Não sabe se é carnaval, semana santa, julho, ou natal e tá tudo muito certo. Não se pergunta se ama alguém, ou se alguém lhe ama, que essa palavra é tão clichê, ou esse sentimento parece que só cabe na novela e leva a vida sem um beijo e tá tudo muito justo. Ou tudo isso é tão significativo porque é simples e natural que aconteça que a rua tem todo o sentido, os dias a mesma importância, o amor é algo que simplesmente vem e quando o beijo acompanha, é terno e doce e calmo e dado porque um beijo só tem sentido se sair da gente. E eu aqui querendo e me consumindo nesses quereres. Leso!
Comecei com música e termino com música. Quase um pedido de socorro: “Só peço a você um favor, se puder: não me esqueça num canto qualquer.”*

(*) O Caderno. Chico Buarque.

sexta-feira, outubro 23, 2009

RETRATO EM BRANCO E PRETO


“Eu sou um ator que dança, ou um dançarino que atua?”. Fiz essa pergunta para a Ana Flávia Mendes, da Companhia Moderno de Dança na saída do Teatro Cuíra depois de assistir Taobonitodetaofeio, da Companhia de Investigação Cênica. “Esses limites não existem em muitos trabalhos e são muito tênues em outros. Poucos ainda assumem alguma rigidez”, posso resumir do que ela me respondeu. Na quarta versão de O Glorioso Auto do Nascimento do Cristo-Rei, da Nós Outros, criamos uma dança circular específica para aquele trabalho, com consultoria e coreografia de Ana Cláudia Costa, do Instituto Ocara; todos os trabalhos da Moderno têm inserções mais, digamos, cênicas, no sentido teatral da coisa. Investimos nessa idéia.
No seu segundo trabalho na Cênica, Danilo Bracchi aposta novamente nesse artista múltiplo e coloca atores pra dançar e dançarinos para interpretar textos e cenas. Dança, música, artes circenses, audiovisual, teatro, performance, tudo se mistura em Taobonitodetaofeio para falar dessa relação que temos com o nosso corpo, com o corpo alheio, com valores do que é igual e, sobretudo, do que é diferente. Tanta coisa (ainda da conversa com a Ana Flávia) criou uma obesidade (termo dela) de informações no espetáculo que acaba em alguns momentos carecendo de uma costura mais precisa. Mas nos seus sessenta, mais ou menos, minutos, não há espaço para o enfado. São surpresas, imagens (vídeos que me parecem homoeróticos demais e não acrescentam à encenação), sons, luz, que vão criando a expectativa pelo que vem depois, mesmo com aquela sensação de que tudo é algo fragmentado. Isso pode resultar do acúmulo de funções do Danilo como intérprete e diretor. Essa não é uma tarefa impossível, mas é de difícil execução e faz com que o diretor que está no palco perca a visão do conjunto. Digo isso da experiência própria de estar só atuando, só dirigindo e nas duas funções. Mas como eu ia dizendo, não há lugar para o tédio, ou o alheamento. Taobonitodetaofeio é um espetáculo empolgante, sobretudo para quem gosta de dança, ou não se prende a rótulos, ou clichês. Mais de uma vez eu quis estar em cena, dançando como meus amigos atores e atrizes, agora tornados intérpretes, termo mais geral que para mim reflete o que o artista deve ser: plural, não apenas em suas escolhas de trabalho, mas principalmente no investimento em sua formação.
A trilha sonora de Leonardo Venturieri é muito melhor do que a anterior, feita para Depois de Revelado Nada Mais Muda (ver RABISCOS DE LUZ). Não sei de sua experiência com música para teatro, mas ele me pareceu mais maduro, mais preciso; exceção a manter-se fora de cena, entrando ocasionalmente, com a roupa que estiver vestindo. Se a opção for por estar fora, esteja fora. Se for pela interferência ainda que ocasional, que se esteja preparado para compor com o restante do espetáculo.
O figurino de Taobonitodetaofeio é visualmente limpo, objetivo, bonito e funcional. Aníbal Pacha investiu em peças simples, permitindo o livre movimento dos intérpretes e suas trocas de roupa, e no uso do branco e do preto, cartesianamente opostos, mas indissociáveis, complementares mesmo, como os distintos que só o são pela existência do outro. Por serem iguais, me remetem a idéia de que o bonito é o que está na moda – vide o desfile que abre o espetáculo – e o que está na moda é um padrão previamente estabelecido. Ser diferente é estranho. Ser diferente é feio!
O cenário é um elefante branco. Essa expressão nos remete aquelas obras faraônicas e ineficazes dos governos desse país. Lembram? Mas é isso mesmo. Grande, parecendo inconcluso e usado pelos intérpretes em suas entradas e saídas de forma que só reforça esse inacabado.
Com a mantimento e repetição do espetáculo certamente aumentará a precisão de tudo. Do que é dito, do que é dançado. Isso o tempo garante. Ou talvez seja essa mesma a cara que se queira dar, de algo em construção, dinâmico, mutante, esse quê de Brecht que eu gosto tanto e que os intérpretes executam em vestir-se, desvestir-se em cena, conversar, observar, acarinhar-se, para num segundo, cúmplices, estarem todos prontos para o próximo passo. Atenção para a cena das máscaras – camisetas criadas por Maurício Franco – sobre o corpo nu dos artistas. Nenhuma apelação. Nenhum pudor. Poesia crua.
Vamor ver e rever Taobonitodetaofeio e Depois de Revelado Nada Mais Muda. Vamos esperar pelo que virá. Estarei ansioso e... ah! Quem me dera!!!

SERVIÇO:
Taobonitodetaofeio. Teatro Cuíra (Tv. Riachuelo, esq. com Primeiro de Março), até o dia primeiro de novembro, sempre aos sábados e domingos, 20 horas. Ingressos: R$ 20,00 (vinte reais).
Este espetáculo foi produzido com o patrocínio da Petrobrás, através do Prêmio de Dança Klaus Viana 2008, promovido pela Fundação Nacional de Arte – FUNARTE.

Elenco: Alessandra Nogueira, France Moura, Marluce Oliveira, Natália Simão, Ícaro Gaya, Danilo Bracchi.
Direção e coreografia: Danilo Bracchi
Assistente de direção: Cláudio Dídima
Consultoria dramatúrgica: Wlad Lima
Direção musical/trilha sonora: Leonardo Venturieri
Cenografia/arte gráfica/vídeo em Second Life: Nando Lima
Figurinos e adereços: Aníbal Pacha
Máscaras: Maurício Franco
Cabelos: Fernando Gomez e Carol Pabiq
Iluminação: Roma Muniz

Em memória de Ronald Bergman.

sábado, agosto 29, 2009

EU 22



“E eu que tinha apenas dezessete anos, baixava minha cabeça pra tudo. Era assim que as coisas aconteciam. Era assim que eu via tudo acontecer.” (Camilla Camilla. Nenhum de Nós)


Eu olho o mundo com olhos de distância. Aos 17 anos esse mundo não é assim tão grande, mas como é complicado. Tenho que ser adulto pra cuidar de tantas responsabilidades que eu não criei ou pedi, e não deixei de ser criança pra dormir fora de casa.
Ok. Exagerei. Da última vez cheguei tão bêbado e transtornado que não imagino como achei o rumo de casa. E não estava com as roupas com as quais saí. Acordei muito depois do almoço e diante da TV meu pai repetiu suas verdades, mas dessa vez o tom não era de ameaça – que eles, os pais, chamam de conselho – mas tinha algo de protecionista e de preocupação e por fim, de determinação. Aquilo não se repetiria enquanto eu comesse do seu feijão.
O que meu pai dizia ecoava surdo na minha cabeça, quicando nas paredes de osso e atravessando meu cérebro que parecia gelatina. Eu mal conseguia ficar de olhos abertos e quando não respondi que tinha entendido, veio o tapa.
Fazia anos que meu pai não me batia. Até minha mãe se assustou, mas não se atreveu a mover um único músculo em minha defesa. Puxou meu irmão pelo braço e foram se entrincheirar na cozinha. De lá começou a vir o cheiro de pipoca! Caralho! Isso é surreal, eu pensei. Meu pai aqui me agredindo com máximas e tabefes e minha mãe fazendo pipoca! Uma raiva cega subiu pelas minhas veias e eu fechei os punhos e quis esmurrar aquele homem ali na minha frente, mas me limitei a perguntar se podia voltar pro meu quarto. “Aproveita!”, ele respondeu, “enquanto ele ainda é teu quarto!”
Entrei no aposento ainda escuro e desarrumado, tranquei a porta por dentro e sentado na cama quis chorar, mas homem não chora. Quis calar, mas havia um menino dentro do peito que queria agradar aos pais, passar no vestibular, fazer natação, terminar o cursinho de inglês que ele tinha conseguido bolsa parcial. Quis chorar pra encher todas as latas de cerveja entornadas, pra apagar todo cigarro, até aqueles que ele tinha recusado fumar. Quis calar porque suas notas eram boas e ele ganhara uma medalha na olimpíada de matemática e cuidava do irmão quando a mãe ia ao comércio onde passava o dia inteiro de loja em loja. Quis chorar pela roupa que alguém tirara e pelas tantas mãos e bocas e tudo o mais. Quis calar porque tinha uma pessoa que ele amava. Mas aos dezessete anos a gente ama muita gente e odeia todo mundo.
Liguei o computador e entrei no MSN, mas teclava e falava ao celular ao mesmo tempo e com o mesmo desinteresse. Por fim, cansei e desliguei a máquina puxando pela tomada. Desliguei o celular disposto a não falar com ninguém, não interessava quem fosse.
Então vieram me chamar. Levantei de um pulo e segurei a porta pra que ninguém entrasse. “Tá trancado por quê?” minha mãe perguntou. Não sabia o que fazer, não sabia o que falar, só queria ficar na minha e o resto do lado de fora. Tirei a chave da fechadura e joguei garganta abaixo. Senti o gosto de metal e de sangue e o ar começou a faltar. Recuei engasgado, apertei o pescoço, dobrei o corpo pra frente, me joguei de costas contra a parede e cai chutando a cadeira e a prateleira cheia de livros, CDs e miniaturas coloridas de carros.
Um pontapé arrancou o trinco da porta que bateu contra a parede e voltou, brusca. Meu pai foi o primeiro a entrar. Minha mãe gritava de um lado para o outro. Meu irmão não parava de chorar. E eu acho que vi umas duas, ou três vizinhas.
Eu fazia uns sons estranhos e não conseguia respirar, meus olhos saltados lacrimejavam e tudo foi ficando escuro e silencioso.

HUDSON ANDRADE
27 de agosto de 2009 AD
9h15

Manda sugestões pra mim e me ajuda a escrever o final dessa história. Tô esperando.

quinta-feira, julho 23, 2009

ATO TERCEIRO. CENA II




“Deixa que o teu bom senso te oriente. Que a ação responda à palavra e a palavra à ação, pondo especial cuidado em não exceder os limites da simplicidade da natureza, porque tudo o que a ela se opõe, afasta-se igualmente da própria finalidade da arte dramática, que é, tanto em sua origem quanto nos tempos que correm, a de apresentar, por assim dizer, um espelho à vida.”

(Hamlet. William Shakespeare)


Não é à toa que o capítulo 9 da série Som & Fúria se chama “Monstros Raros”. Nessa semana aparecem alguns tipos que, infelizmente, não são assim tão raros: o diretor Oswald Thomas (Antonio Fragoso), que já esteve em cena antes quando da montagem de Hamlet, o ator Henrique (Daniel Dantas), chamado para viver Macbeth e o publicitário Sanjay, representado por Rodrigo Santoro. Cada um a seu jeito vive em um mundo muito particular em torno do qual devem gravitar todos os demais. Senhores de si, tentam senhorear os outros e há, acreditem, quem se proponha à coleira.
Sanjay é, na minha opinião, um aproveitador. Se seus caminhos são honestos, ou não, ainda não deu pra saber. Há quem o apóie e existe quem o detrate, mas isso há em qualquer lugar, em qualquer profissão, pra qualquer pessoa. Com uma estrutura organizadíssima e uma lábia totalmente fundamentada ele leva seus clientes pra onde quer. Se vai dar certo, é preciso pagar pra ver!
Thomas é um desses diretores herméticos, cheio de certezas, de um conhecimento processado pelas suas próprias experiências e, por que não, impávia, contra o qual não há contradição. A cada questionamento uma enxurrada de colocações feitas como que num dialético alienígena que pretendem fazer os atores parecerem os grandes idiotas que ele, claro, acha que são. E quantos encenadores não há assim, que devendo dividir e orientar fazem dos espetáculos a sua cozinha, ou a sua privada? Trabalhei com alguns profissionais e cada um tem um jeito muito particular de conduzir a encenação. Felizmente nenhum foi um Thomas na minha vida, ainda que em muitos momentos eu tenha ficado (ou me sentido) num escuro frio e pegajoso, sem saber o que fazer, o que dizer, pra onde ir, me sentindo sim, um idiota. Mas isso são meus processos: cerebrais diria Adriano Barroso, disciplinados na visão de Aníbal Pacha, (...) na não-fala de Wlad Lima. Em todos ao menos um ponto em comum, uma exasperação que nasce sei lá de onde aliada a um paternalismo (com a peça, consigo, ou conosco eu não sei!) que beira um precipício do qual alguém sempre acaba se jogando. Talvez seja exatamente isso o necessário: jogar-se. É importante dizer que é mister se sentir seguro com a direção. Entender que ela sabe os caminhos para os quais a encenação está caminhando; que haja respostas – nenhuma de mão beijada – e que o ator possa se sentir um artífice, nunca um marionete.
Atores. O que é o Henrique? Logo de cara ele pede pra se apresentar com um dos monólogos de Macbeth, pavão misterioso. “Já fiz essa peça três vezes”, repete incessantemente e pára o ensaio pra dizer que ele pensa que seria melhor se ele estivesse em tal lugar no momento de tal fala. “Claro!”, retruca o fantasma de Oliveira, “Ele não pode ficar quatro segundos de costas para a platéia!”. Daí me reporto ao texto do Shakespeare no topo da minha escrita. Henrique é o que chamamos de canastrão, mas adorado. Sua atuação empolada agrada apenas a pseudo-conhecedores-apreciadores da arte dramática. Houve um tempo de monstros sagrados, isolados no centro-frente do palco, em plano mais alto, iluminados profusamente, intocáveis. Enquanto estética isso foi se quebrando e ficando ultrapassado. Enquanto vaidade permanece até hoje e permanecerá sempre porque a vaidade parece ser atributo inerente dos (maus) atores. Ainda somos vistos como animais exóticos, capazes de mimetizar sentimentos, fingir e mentir de tal forma que ninguém saiba se o que falamos, seja no palco ou fora dele, é ou não real. Cria-se uma aura de desconfiança, mas também de admiração. Precavida, mas admiração. Parecemos viver num mundo à parte, doidivanas, contrários todos as leis honradas dos homens e de Deus*. Poucos fora do metier nos vêem como trabalhadores. Vêem apenas as gaitadas, a libertinagem, a tal fama e a tal fortuna que, quando não aparece, é recibo de incompetência e norte pra outros caminhos. É preciso entender e respeitar nossas longas horas de ensaios, nossa detalhada observação das pessoas e da vida, nossa entrega; os suores, as lágrimas, as noites em claro, alguns sacrifícios, uma necessidade quase patológica de ler, estudar, pesquisar, repetir, refazer, retomar, mandar deus e o mundo às favas e se agarrar a tudo como uma tábua de naufrágio. Não ter certezas. Não se sentir enorme. Não ter dúvidas. Nunca se sentir pequeno. Ser. E ser pra si e ser pro palco.
Isso, claro, para os que são atores e atrizes. Quem desconhece essa rotina, ou faz disso o seu cartão de visitas, não merece esse substantivo. Ou seria adjetivo? E sejam todos bem vindos ao Fantástico Mundo de Henrique!

HUDSON ANDRADE
23 de julho de 2009 AD
9h50

REFERÊNCIAS
1. Shakespeare, William. Hamlet. Tradução Pietro Nassetti – São Paulo: Martim Claret, 2001
2. (*) Pecado, Carlos Balk e Pontier y Francini
3. Imagem: Sérgio Britto em foto de Guga Melgar

quinta-feira, julho 16, 2009

SEIS SOLILÓQUIOS. O RESTO É SILÊNCIO.



“O grande conflito da série é o de equilibrar integridade artística e bilheteria.
Esse é meu conflito do dia a dia.”
(Fernando Meirelles)


Assim Dante Viana, o personagem de Felipe Camargo em Som & Fúria definiu Hamlet, de William Shakespeare. A série da Globo que entrou em sua segunda semana é um desses produtos primorosos com que a televisão tão raramente nos tem presenteado. Praticamente uma conjunção astral entre a direção de Fernando Meirelles (que também assina o roteiro), o elenco encabeçado por Felipe Camargo e Andréa Beltrão e uma produção afinadíssima. No capítulo de ontem, 15 de julho, dirigido pelo próprio Meireles e Gisele Barroco, encerra-se um primeiro momento em que se apresenta o retorno de Dante ao Theatro Municipal, agora como diretor artístico, depois de sete anos de ausência e traumas, para lutar contra si mesmo, egos inflamados e as picuinhas políticas que envolvem e entravam nossa cultura e arte. Assessorado, digamos assim, pelo fantasma de Oliveira (Pedro Paulo Rangel), que tal qual o assassinado rei da Dinamarca, pai de Hamlet, volta do túmulo para colocar alguns pontos em alguns is.
Em cartaz na temporada clássica do Municipal, a história do príncipe do podre reino da Dinamarca que vinga a morte do pai. Retornamos assim a frase que dá título a este texto. Longe de menosprezar a obra do bardo inglês, Dante se utiliza dessa linguagem para acalmar o protagonista do espetáculo, Jaques Maya, representado por Daniel de Oliveira, e encorajá-lo a ir ao palco. Informações precisas, objetivas. Foco. Um entendimento claro do que o autor precisava dizer e que se dito, satisfaria a todos. Já em outro momento Dante fizera isso, explicando a uma aspirante a atriz, Clara (Maria Helena Chira) quem era Ofélia. E no dito capítulo, de camarim em camarim, ele dá indicações de como aprimorar os personagens. E aí temos duas situações: o diretor atento que consegue extrair de seus atores o melhor através de indicações e como o ator se coloca em relação a isso, ao público, ao seu trabalho. Vemos o Oberon de Paulo Betti responder que não mudaria nada do que tinha feito, que era o último dia de apresentação e que a platéia era um bando de delinqüentes; e vemos a Elen de Andréa Beltrão acatar as indicações, entender que teatro é uma arte dinâmica e, como disse Dante, ter a chance de fazer bem feita a sua cena. Um momento de dúvida entre acomodar-se e arriscar-se a ganhar o mundo, e sua rainha Gertrudes entra em cena plena, enorme, silenciando uma assistência realmente indócil e desacostumada dessas coisas de clássicos e teatros, num crescendo que não poderia sair de dentro dela, mas que igualmente não cabia no peito, uma lágrima borrando a maquiagem, um texto fluido, cristalino. Não sou difícil de me emocionar e agora mesmo enquanto escrevo os olhos marejam, mas a cena foi absolutamente fantástica. Ontem, sentado sozinho na sala, chorando, quis levantar também e aplaudir, mas me contive por esses lapsos de racionalidade, não sem me sentir gratificado por fazer parte dessa arte, pela oportunidade de aprendizado, pela consciência das coisas que tenho oferecida tão generosamente por parceiros valiosíssimos como Adriano Barroso, Ailson Braga, Miguel Santa Brígida, Aníbal Pacha, Wlad Lima, Karine Jansen, Ana Flávia Mendes, Henrique da Paz, já anteriormente citados (nunca, nunca é demais!) com quem mais diretamente trabalhei e tantos outros que seria injusto nomear um sem indicar os demais, mas sobretudo os meus companheiros de Nós Outros, incluindo claro meus novos parceiros.
Para o público comum, sem qualquer desfeita com essa expressão, talvez tenha sido apenas um capítulo de uma minissérie. Algo emocionante, quem sabe. Para o povo do teatro, uma verdadeira aula, um Hamlet sintetizado em uns trinta, quarenta minutos entre o futebol e o telejornal sem que nada de sua esplêndida carga emocional fosse perdida. Alguém não deve ter pensado assim e torcido a cara. Paciência. Humildade não é demérito nem disponibilidade, submissão. Sempre se pode dar um passo a mais. Atores e atrizes que se acham grandes demais, bons demais, que já sabem coisas demais, hmmm, diriam Adriano e Ailson: se foderam!

SERVIÇO
Som & Fúria. TV Globo. De terça a sexta, tarde demais pra um programa assim, mas que bom que dá tempo de eu assistir quando chego do ensaio.
Direção: Fernando Meirelles, Gisele Barroso, Toniko Melo, Fabrizia Pinto e Rodrigo Meirelles.
Roteiro original “Slings & Arrows”: Susan Coyne, Bob Martin, Mark McKinney
Roteiro adaptado: Fernando Meirelles
Produção: Fernando Meirelles, Andrea Barata Ribeiro e Bel Berlink
Produção executiva: Ary Pini
Direção de fotografia: Adriano Goldman, André Modugno e Marcelo Trotta
Direção de arte: Cassio Amarante
Figurino: Verônica Julian
Montagem: Lucas Gonzaga e Lívia Serpa
Trilha sonora: Ron Sures
Produção de elenco: Cecília Homem de Mello
Coordenação de maquiagem: Anna Van Steen

HUDSON ANDRADE
16 de julho de 2009 AD
9h05

terça-feira, junho 23, 2009

EU 21



Para ler ao som de Cazuza – O Nosso Amor a Gente Inventa:
“O teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer. E o meu poesia de cego: você não pode ver. Não pode ver que no meu mundo um troço qualquer morreu. Um corte lento e profundo entre você e eu.”


Passei o dia inteiro meio sonolento. Uma modorra chata de bater cabeça se por dez minutos eu não fizesse algo. Dia quente, suarento, aborrecido. Segunda-feira típica. Quantas vezes tirei o celular do bolso imaginando tê-lo sentido vibrar? Quantas vezes eu ensaiei telefonar e desisti porque era o melhor a ser feito, ainda que a sensação de vazio me apertasse a boca do estômago.
Numa pausa, rabisquei num pedaço usado de papel: Cuida do teu amor que ele é mais frágil do que parece. E lhe dê o tempo apenas necessário e todo o respeito que merece. Daí coloquei isso numa mensagem, fui escolhendo pessoas aleatoriamente e enviando via celular.
Não demorou pra começarem as respostas. Algumas agradecendo, outras perguntando quem eu era que eu não estava em suas agendas; mas o que me chamou a atenção foram as respostas preocupadas, do tipo “o que foi que aconteceu?”. Saudades, eu respondia. Só isso...
Então quando uma velha amiga telefonou, eu não resisti e brinquei que ela relaxasse que aquilo não era um bilhete de suicida. Mas do outro lado ela parecia apreensiva. “Mas por que mandaste essa mensagem pra mim?”. Respondi que sei-lá, que ia escolhendo e mandando. “É que ela tem tudo a ver comigo. Eu tô me separando... tu sabias?”. Não, eu não sabia. E lamentei muitíssimo. Ela e o marido pareciam um casal super feliz. Mas todos parecem afinal, felizes, companheiros, cúmplices. De uma hora pra outra, a realidade: dois estranhos que compartilhavam o mesmo teto, a mesma ilusória vida. “Fico feliz que tenhas me escolhido!”, ela disse. “Obrigada. De coração!”. Fiquei emocionado. Um gesto besta fizera eco em alguém de forma positiva. Isso quase me tranqüilizou. “Mas o que aconteceu contigo?”, ela insistiu. “O que te motivou a escrever isso?”.
Aconteceu tanta coisa, eu pensei. Eu tinha idealizado um amor, um mundo sem curvas, uma vida compartilhada. Medi palavras, escondi coisas, sufoquei caprichos, atendi pedidos, alterei rotinas, tudo em nome de um relacionamento que só existiu na minha cabeça (E a quem eu podia culpar senão a mim mesmo, se é que aqui cabe culpa?!). Respondi firmemente que não tinha acontecido nada, minha linda. Nada! Só saudades. Só isso...
Ela não parecia convencida e disparou: “Mas se quiseres conversar, a gente pode marcar pra se encontrar.”, Respondi que claro que sim. “Bater um papo. Tô à disposição...”. E eu ia respondendo claro, claro, obrigado. Então aquele silêncio. A gente sempre se predispõe afinal, mas sabe que dificilmente vai haver algum encontro. “Bom, amor... tchau!”. Respondi um tchau.
Ao tu-tu-tu do telefone me ocorreu que eu tinha muito que fazer. Tanta coisa. Olhei o relógio. Corri os dedos no teclado.
Então parei. Olhei novamente o relógio e pensei que se eu me organizasse ainda daria tempo pra ir à casa do meu irmão beijar minha sobrinha, ou convidar aquele amigo que queria ver aquele filme pra ir ao cinema comigo, ou ir pra casa mais cedo e fazer o jantar...

Novamente aquela sensação de que não acabou, certo? Mas dessa vez acabou, se é que algum dia começou.

HUDSON ANDRADE
17 de junho de 2009 AD
17h45

sábado, junho 13, 2009

MUTANTES, EXTERMINADORES... NA DÚVIDA, DANCE.

Os quatro últimos filmes que assisti foram X-Men Origens: Wolverine, O Exterminador do Futuro 4: A Salvação, Dúvida e Valsa com Bashir, estes últimos no Líbero Luxardo, do CENTUR. Dúvida num domingo de temporal que foi de impressionar que o cinema, mesmo pequeno, estivesse lotado; Valsa num feriado solitário que doía.


WOLVERINE (X-Men Origins: Wolverine, EUA, 2009) é uma falácia. O roteirista David Banioff e o diretor Gavin Hood vãona cola do sucesso de X-Men, no peso da DC, no carisma do mutante com garras de adamantium. Empatia que é devida a Hugh Jackman e seu carão, costão, peitão, pernão, etc... Mas carisma só não basta para reaver os milhões que o próprio Jackman investiu no filme. Vejam, por exemplo, Russel Crowe. Ele podia ficar feliz com a boca escancarada cheia de dentes com o seu Gladiador e enveredar por continuações e filmes que só mudam o nome sem mudar o enredo, dos quais Hollywood é pródiga. Mas não. Los Angeles – Cidade Proibida, Uma Mente Brilhante e O Informante (mesmo feitos antes de Gladiador) estão aí pra mostrar o contrário, ainda que haja Mestre dos Mares. Mas e Hugh Jackman? A Senha, Van Helsing e agora Wolverine. Caras e bocas, músculos à mostra, testosterona vazando pela tela. História que é bom, nada. Aquelas subversões que sempre ocorrem de uma linguagem para outra, efeitos especiais estonteantes, brecha para um próximo filme e só. Ejaculação sem prazer.



O EXTERMINADOR DO FUTURO 4: A SALVAÇÃO (Terminator Salvation, EUA, 2009) é mais filme. Desses de ação, com todas as idiossincrasias que essa fala carrega quando eu as digo. Machos, mulheres masculinizadas – as não masculinizadas são dadivosas, servis e de grandes olhos lacrimejantes! –, atitudes heróicas, redenção e rajadas de metralhadoras pra matar um Aedes aegypti. Aqui a vaidade de um ator custou ao filme uma maior linearidade e consisão. Christian Bale foi chamado para viver Marcus Wright, personagem que acabou ficando com Sam Worthington. Bale aceitou o trabalho com a condição de viver John Connor, o líder da Resistência contra a Skynet, mas quando leu o roteiro, percebeu que Marcus era o personagem principal e exigiu mais falas e maior visibilidade em cena, o que provocou os tais problemas de linearidade do filme. O que mais se vê é Bale voando, saltando no mar bravio, lutando. “Eu sou John Connor” volta e meia ecoa no filme. Mas não adiantou. Mesmo passando para um próximo filme – e não duvidem que haja um próximo filme!- Connor é menor que Wright e é do condenado à morte que busca uma segunda chance que se vai lembrar. Bale deu um tiro no pé. E falando nisso e em próximo filme, A Salvação, cuja ação se passa em 2018, no apocalíptico futuro apenas sugerido nos filmes anteriores, nos coloca exatamente no ponto em que nos idos de 1984 começava O Exterminador do Futuro, ainda com Arnold Schwarzenegger como o monossilábico T-800 – que agora volta completamente digital, já que o ator não aceitou participar do filme dadas as suas ocupações como governador da Califórnia – e James Cameron – o idealizador de tudo – na direção. Daí ou temos um roteirista inteligente e criativo (?!) ou a desgraça estará feita. E sem um bom roteiro (e talvez até com um!) McG (As Panteras e As Panteras Detonando) não é Cameron e a Resistência terá uma batalha bem maior e mais inglória do que enfrentar T-800s!


DÚVIDA (Doubt, EUA, 2008) é dirigido por John Patrick Shanley, cujo roteiro é uma adaptação da peça teatral de sua autoria, vencedora do Pulitzer e de quatro Tonys, contando agora com cinco indicações para o Oscar. O filme tem um elenco espetacular encabeçado por Meryl Streep e Philip Seymour-Hoffman, protagonistas das melhores sequências de um filme cheio de grandes diálogos, palavras veladas, meias verdades, olhos baixos, enfrentamentos, torneios de força em que o poder está na persuasão enquanto as mãos se ocupam com terços e delicadas xícaras de café.
A irmã Aloysius Beauvier (Streep) é dessas mulheres imbuídas de um objetivo cego do qual não se desvia por mais consistentes sejam as evidências em contrário. Rígida, autoritária, centralizadora, esconde nessa capa de sisudez uma alma fragilizada, cheia de receios e dúvidas. Alertada pela jovem irmã James, vivida pela atriz Amy Adams, natural, numa performance tocante, de um possível assédio contra Donald Miller (o ótimo Joseph Foster),primeiro aluno negro da tradiconal escola St. Nicholas, pelo liberal padre Flynn (Hoffman), a irmã Aloysius inicia uma batalha que vai além de questões raciais, ou sexuais. É uma disputa por poder de alguém que busca uma brecha para se sobressair num 1964 em que ela é constantemente constrangida pelo seu sexo, sua posição na hierarquia religiosa, valores. Destaque para as sequências em que a irmã Aloysius conversa com a mãe do jovem Donald (Viola Davis) cuja linha de raciocínio não cabe no entendimento inflexível da religiosa e no embate final entre Beauvier e o padre Flynn, desses textos que nos pegam tanto pela escrita quanto pela atuação precisa de excelentes atores.
Num filme quase tão silencioso e sombrio quanto os corredores da St. Nicholas, sobram dúvidas: dos personagens, nossas, dos valores de cada um, do que é certo, do que é errado e se há certo e errado. Dúvidas que se espalham como plumas ao vento, impossíveis de serem totalmente resgatadas. Resta-nos manter distância – pretensa isenção –, ou buscar a verdade, custe o que custar.


VALSA COM BASHIR (Val sim Bashir, ISR, ALM, FRA, EUA, FIN, SUI, BEL, AUS, 2008) tem roteiro e direção de Ary Folman. Um semi-documentário de animação que tem como pano de fundo a guerra no Líbano. Bashir é uma referência a Bashir Gemayel, líder miliciano cristão de extrema-direita, opositor de muçulmanos nacionalistas e militantes palestinos, eleito presidente do Líbano e assassinado dois dias antes de tomar posse durante a guerra civil do Líbano, fato que provocou uma violenta cruzada entre os grupos rivais.
Ao ouvir um sonho recorrente do amigo Boaz, parceiro no front, o cineasta Folman percebe que ele mesmo não tem lembranças daquela guerra e decide procurar antigos camaradas e a partir de suas histórias, refazer a sua própria. Misturando recordações e explicações médicas sobre memórias e traumas, Folman vai remontando seu quebra-cabeças, não sem dúvidas, que parecem aumentar a cada nova entrevista, até achar-se no meio de um caos do qual ele tentou fugir seja por culpa, medo, ou simplesmente por não compreender uma guerra que, em essência, não tem explicação.
A narrativa é limpa, linear, objetiva; as histórias se sucedem com crescente intimidade entre quem conta e quem escuta – o que nos inclui. A animação, longe do virtuosismo da Pixar onde grãos de areia e pêlos dançam individualmente ao sabor do vento não é menos impactante. Yoni Goodman utilizou técnicas de animação em Flash, clássicas e 3D para amenizar imagens que, de outra forma, seriam duras demais pra suportar. Como as imagens jornalísticas apresentadas no final do filme e que bem gostaríamos também de apagar e esquecer. Destaque para a sequência inicial, o tal sonho de Boaz, com vinte e seis cães ferozes, e outra, noturna, de uma cidade destruída iluminada por foguetes sinalizadores. De um vigor e uma beleza impressionantes. A trilha sonora de Max Richter é um dos pontos altos de Valsa com Bashir e ouvir “This is Not a Lova Song” dos ingleses do Public Image Ltd. me trouxe umas tantas lembranças e me colocou de alguma maneira dentro daquela busca, por meus particulares anseios.
É muito bom isso de ir atrás de si. Apesar do medo que dá!

HUDSON ANDRADE
12 de junho de 2009 AD
9h00

quarta-feira, junho 03, 2009

QUERO VER VOCÊ VOANDO, QUERO OUVIR VOCÊ CANTANDO.


02 de junho de 2009. Morre Walter Bandeira.
Suspende-se temporariamente uma das vozes mais características do Pará. Inspiração para uns, deleite para outros, deboche para todos.
Walter é um comunicador. No teatro, rádio, seu projeto de novelas, pinturas e, sobretudo, música, ele deixa uma marca, dessas que ficam feito tatuagem, pra nos dar coragem pra seguir viagem. É claro que há a dor e o sentimento corriqueiro é de perda. Fato que a cultura brasileira fica sem um dos seus mais expressivos representantes, mas sobrevive o legado: o CD a ser lançado, as atividades na Escola de Teatro com rádio-novela, o riso fácil, litros de café, maços de cigarro, conselhos em voz grave, palavras ditas inteiras e compreendidas além; um cantar que vai crescendo e tomando e sempre recebendo os aplausos com uma reverência irreverente. Passado esse momento de susto, é hora de cuidar disso que o Walter não esperaria nada menos. Lembro de encontrá-lo uma madrugada dessas saído de um atendimento médico por hipertensão, pedindo um café. “Pra espertar!”, ele me disse, que tinha muito o que fazer.
Não fui ao velório. Melhor assim pra mim. Fico com a imagem do Walter em frente à Sé, no Auto do Círio do ano passado, bata branca, agarrado num “santo Antonio” de um carro alegórico, preocupado em não cair, mas cantando firme: “Olha lá vai passando a procissão... as pessoas que nela vão passando acreditam nas coisas lá do céu... eles vivem penando aqui na Terra, esperando o que Jesus prometeu. E Jesus prometeu coisa melhor...”. O poeta disse. O Bandeira confirmou.
A gente se vê, Walter, e toma um café que pros lados daí deve ser bem mais encorpado.
Beijos.
Tchau!

HUDSON ANDRADE
03 de junho de 2009 AD
8h35


crédito da imagem: J. Bosco, cartunista. Lápis de Memória. http://jboscocartuns.blogspot.com/2007/11/walter-bandeira.html

terça-feira, maio 26, 2009

EU 20



Para ouvir ao som de Vuelvo al Sur, de Astor Piazolla e Fernando Solanas.


Era apenas uma vez a cada semana. Um dia apenas. E o dia era aquele.
Eu me coloquei no lugar de sempre e fiquei esperando. E não conseguia sentar ou ler, ou fazer palavras cruzadas e até a música no MP3 parecia que me faria perder a ocasião.
Ele veio vestindo azul. Índigo nas calças, clarinho na camiseta. Óculos escuros que podia ser contra o sol forte, ou o sono interrompido, ou mal dormido. Veio vindo e passou por mim que novamente tinha recuado e não podia ser visto, ou notado. Mas senti o cheiro. O mesmo. Invariável. Em seu passo tranqüilo de mochila nas costas, se foi.
E as onze-horas que desabrochavam encheram de vermelhos, laranjas e amarelos a alameda.
Quanto tempo foi assim? Demais. E porque eu não lhe dizia de mim, não sei. “Só sei que me aturde a vida como um torvelinho, que me arrasta, me arrasta aos teus braços em cega paixão...”* E lá estava eu novamente.
E era aquele o dia, apenas uma vez por semana e tudo me inquietava e dessa vez quando as onze-horas abriram ele ainda não tinha vindo e meu peito se encheu de um não-sei-quê de ausência que sufocava e eu me joguei no banco, baixei a cabeça entre as mãos e, olhos fechados, apoiei os cotovelos nas coxas.
Foi quando senti o perfume. O mesmo. Invariável. E levantando a cabeça dei com ele à minha frente e não pude recuar. Não que eu quisesse. Sei lá.
Ele me olhou e sorriu e disse um oi amistoso, tudo isso talvez porque eu não parasse de olhá-lo e eu sorri e disse um oi e ato contínuo me pus de pé e barrei o seu caminho.
Por muito tempo ninguém disse nada. Verbalmente. Foi ele que quebrou o silêncio com um “Te vejo sempre por aqui” que me deu um calafrio.
- Sempre?! Eu?! – perguntei.
- Sempre! Tu! – Respondeu.
- Queres sentar?
- Eu preciso trabalhar.
Liberei a passagem:
- Claro! Desculpa!
- É só que eu realmente tenho que ir.
- Eu sei...
- O meu tempo é curto...
- Tanta coisa... eu também...
- Mas a gente podia...
- Claro! Claro! Seria ótimo...
- Quando?
- Agora!... Não! Agora não dá...
- É... a gente podia...
Avancei e lhe dei um beijo. Era aquele o dia. Só aquele.
Eu o beijei, ele me beijou. Natural que fosse assim.
- Tens que trabalhar...
- Tenho...
- A gente podia...
- Anota meu número...
- Tem o final de semana...
- Cinema... barzinho...
- Claro! Claro! Seria ótimo...
- Me liga... qualquer hora...
E já não era só um dia ainda que a gente só tivesse um dia, às vezes, pra se ver, que então era aquele o dia, que a gente esperava e fazia ter todo o sentido.

Simplesmente não consigo terminar essa história e isso desde ontem. Quem sabe por que se eu próprio não sei? Nada místico, nenhum mistério. Apenas talvez o pensar que essa história não tem porque acabar.
Publico assim mesmo, pra ver o que vem depois.


HUDSON ANDRADE
26 de maio de 2009.
11h35

(*) Traduzido de Pecado, de Carlos Bahr e Pontier Y Francini.

sexta-feira, maio 22, 2009

NÓS, NOSSO, VOSSO, TUDO (3): A ARTE DO ATOR EM BELÉM E EM QUALQUER LUGAR DO MUNDO



Transcrevo o texto do Adriano Barroso, ator, dramaturgo, direto e roteirista, que coordena o Projeto Outros 5 Anos, da Companhia Teatral Nós Outros. Além de uma opinião sobre a arte do ator, mostra um muito interessante ponto de vista sobre a nossa arte.

Ao final, preciosas dicas de livros pra quem quer se aventurar nesses mares revoltosos da arte cênica.




Na imagem, Téspis, consagrado como o primeiro ator, nas origens gregas do teatro.

A cada espetáculo novo, em cartaz na cidade, vemos surgir novos atores. Mas será que estão realmente preparados para encarar o palco?
Acredito que o grande trabalho do ator é a inquietação. Nunca há um método 100% seguro para que o ator esteja em cena. Nem deve ter. Atuar é a arte de correr riscos. Pode parecer somente uma frase de efeito, mas quem está sobre o palco com responsabilidade sabe do que estou falando; se um ator se sente totalmente seguro diante de seu personagem, é preciso ligar o sinal de alerta. Não há fôrmas nem fórmulas. Há trabalho.
Existem muitas teorias e métodos de mestres teatrais sobre a arte do ator, ao longo dos tempos eles têm concordado e discordado em muitos princípios, mas, pelo menos, para Stanislasvski, Grotowski e Chaikin, atuar é dividir-se, é dar a luz, trazer a público o que é velado no indivíduo. A representação é um testemunho do ator, que deve fazer um teatro com coisas que façam sentido para ele e para quem o assiste. O trabalho do ator começa com um estudo de sua própria natureza e não, como é comum para os iniciantes, distanciando-se de si mesmo.
O trabalho do ator é um exercício de entrega. Não vou aqui defender algum método de construção de personagem, não. Quero discutir, ou pelo menos, iniciar uma discussão sobre a qualidade e a preparação do ator que freqüenta os palcos de Belém. Como e por quê poderemos formar atores conscientes e responsáveis de seu ofício.
O teatro moderno trouxe para junto do encenador e do ator a figura do dramaturgista, aquele que é responsável por ajudar a “traduzir” o texto literário para a obra cênica.
Em Belém poucos grupos se utilizam dessa figura (um ou outro), isso não significa necessariamente um demérito para quem não a usa. Mas deve significar, necessariamente, mais um atributo para o ator na busca pela perfeita representação do que lhe é proposto. A dramaturgia do texto, da cena, da luz, do corpo do ator é necessária ser compartilhada por todos os que se associaram para edificar um espetáculo.
Não acredito em ator parasita. Aquele que só se alimenta do que lhe é posto na boca, e já mastigado, não é um ator.
O ator é aquele que é treinado para observar, absorver, digerir, experimentar em seu próprio corpo, e representar a realidade que está ao seu redor. A matéria de que se alimenta o ator é tudo. Tudo mesmo. Por isso um ator precisa estar “ligado” 24 horas por dia, atento a todas as informações que lhe chegam por via dos olhos, ouvidos, nariz, boca, extremidades, ou seja lá mais como for. Um trabalhador de teatro não é mais um na multidão - nem que ele queira - É um ser atento, um observador contumaz, um crítico... um ator.
Para tanto é preciso exercício. Não por acaso repeti tanto a palavra ATOR nos parágrafos acima. Quero chamar a atenção ao significado da palavra, aquele que atua, age. Ou, como diz com mais propriedade Patrice Pavis em seu Dicionário de Teatro: “O ator situa-se no próprio cerne do acontecimento teatral. Ele é o vínculo vivo entre o texto do autor, as diretrizes de atuação do encenador e o olhar e a audição do espectador.” Mas os atores não estão só no palco. Todos nós, de uma maneira ou de outra, atuamos.
Se tu ligaste a afirmação acima a aplicar uma mentirinha, ou fingir, de vez em quando, em benefício próprio, estás errado. Redondamente enganado. No teatro, é pecado mortal mentir ao público, uma falta de respeito. Uma atrocidade. Imperdoável! E, infelizmente, esse tem sido o principal engano de muitos novos atores em nossos teatros (tô falando de Belém mesmo).
Muita gente acredita que um bom ator se mede pela sua capacidade de fazer com que os outros acreditem em suas mentiras. Mentira e teatro não rimam. Outros ainda creditam ao ator a chamada “pegação de santo”, alguma entidade, sabe-deus-da-onde, baixa sobre a consciência do infeliz e o joga, durante uma hora e tantos, num estágio de inconsciência sobrenatural levando-o a desempenhar sua função na trama.
Se fosse só isso. Se fosse só decorar um texto, rezar para um santo baixar e subir no palco, não precisaríamos de tanto estudo sobre a arte do ator. A literatura sobre essa matéria é vastíssima, e é dever dos que entram nessa arte a busca pelo combate da ignorância.
A questão mais preocupante que vemos nos últimos tempos é a quantidade de pessoas mal preparadas subindo em nossos palcos. Nem bem se aprende a falar e lá estão eles azucrinando nossos ouvidos a gritar seus textos com a cara vermelha e a jugular estufada. Alguns poucos até vão bem neste ou naquele espetáculo, mas ninguém pode enganar todo mundo todo o tempo. É preciso preparação para estar no palco. Trilhar fase por fase. É uma grande responsabilidade. Ou alguém faz uma operação no primeiro ano de medicina?
Não se pode pular etapas. Um ator se faz passo a passo e dia após dia, ele precisa tomar consciência da expressividade do seu corpo, do registro de sua voz, da qualidade de suas emoções. O trabalho teatral é, sobretudo, o da cooperação, um diretor precisa ter estofo para encabeçar a direção de uma peça e um ator precisa ter um bom repertório para representá-la.
A primeira tarefa para quem deseja entrar nessa arte tão fascinante é procurar um bom orientador. Um ator sem boa formação é tão criminoso quanto um médico sem moral. Não estou aqui para apontar esse ou aquele profissional em Belém como bom ou ruim. Porém, não é tão difícil distinguir o joio do trigo. Qualquer profissional, de qualquer área, se mede pela conduta.
Tenho tido a oportunidade de assistir algumas peças de teatro ultimamente, e mais, tenho tido a oportunidade de conversar com muitos atores da nova safra. E, invariavelmente, tenho tido a oportunidade de me surpreender ante a tanta empáfia aliada à ignorância (essas duas rimam).
Todos querem negar. Todos optam pela experimentação, pela transgressão. Mas sem conhecimento da regra, como vão transgredir? Transgredir o quê? Negar o quê? Arrisco-me a dizer que 80% dessa nova geração de “atores” paraenses nunca leu Stanislavski. E pior, muitos o chamam de ultrapassado. O chamam assim porque só ouviram falar, de muito longe, “naquele negócio de memória emotiva”. Mas nem sabem que o mestre russo nos deixou uma trilogia de livros sobre a arte do ator belíssima.
Se a tragédia grega é chata, Shakespeare já foi muito montado, Brecht já deu o que tinha que dar, Artaud nunca ouvi falar, Grotowski idem, Chaikin ibidem, Barba não me satisfaz; ou vivemos um momento mágico dos pós modernismo, onde estamos próximo de encontrar uma dramaturgia totalmente nova e singular, ou estamos vivendo um momento de puro ócio infértil no teatro paraense (eu fico com a segunda).
Nossa profissão é um negócio muito complicado. Assim como há muita gente responsável e se esmerando mesmo para fazer um teatro competente, há outros tantos aventureiros se utilizando desse veículo atrás de benefício próprio. E no meio dessas duas pontas está uma carrada de pessoas tentando dizer algo através do teatro.
Não é fácil. Nem moleza. Ser ator é quase um sacerdócio (para manter meu tom exagerado) Nem sei porque tanta gente quer ir ao palco no meio de tanta dificuldade que é fazer teatro em Belém. Mas uma coisa é certa, se escolherem o teatro para falar, sejam inteiros.

A título de informação, aqui vão algumas ferramentas importantes para o ator.

O teatro e seu duplo, Antonin Artaud.
É uma obra decisiva para a renovação do teatro contemporâneo. Nesse livro, o autor, que também era ator, cenógrafo e encenador, defende um teatro dinâmico, vivo, em busca de uma arte autônoma, repudiando o teatro psicológico ocidental.

O Teatro e seu espaço, Peter Brook.
Brook distingue a palavra teatro em 4 diferentes significados: teatro morto, teatro sagrado, teatro rústico e teatro imediato. O livro é uma verdadeira aula que ajuda a distinguir o que faz o acontecimento teatral tornar-se algo vivo ou morto.

Em busca de um teatro pobre, Jerzy Grotowski.
Aqui tu vais encontrar uma série de artigos, entrevistas e comentários de encenações. É um livro muito ilustrado que ajudam a entender os exercícios desenvolvidos no seu método de treinamento do ator.

A linguagem da encenação teatral, Jean-Jacques Roubine.
O autor interpreta o fazer teatral setorizando a criação cênica; aqui poderás encontrar capítulo a capítulo o trabalho de cada elemento que compões uma obra cênica, do encenador ao ator, passando pela arquitetura teatral, posição do texto dramático, evolução do espaço cênico, etc.

Improvisação para o ator, Viola Spolin
É a exposição do sistema de ensino da autora. É uma abordagem da dramatização proposta em forma de problemas a serem desenvolvidos no palco e solucionados durante a atuação. Em seu valor pedagógico dos jogos e as técnicas, utilizados tanto na atividade teatral quanto em várias outras áreas, se assemelha (em importância) ao Teatro do Oprimido de Augusto Boal.

Preparação do ator, A construção da personagem, A preparação de um papel e Minha vida na arte, de Constantin Stanislavski.
Nesses quatro livros pode-se ter um panorama do pensamentos e das técnicas de um dos maiores atores e encenadores e mestres do teatro mundial. Leituras obrigatórias para quem deseja ser ator. Mesmo que seja para depois negá-lo.

segunda-feira, maio 18, 2009

NÓS, NOSSO, VOSSO, TUDO (2)

“A mim ensinou-me tudo
Ensinou-me a olhar para as cousas (...)”

Fernando Pessoa / Alberto Caeiro)

É. Começou a peneiragem.
Finda a primeira semana de trabalho, as ausências começaram a dizer de quem vai ficar fora desse processo. E a questão não são os compromissos que levaram a faltar, mas a falta em si. Se alguém ainda não se tocou que o negócio aqui é trabalho e trabalho árduo, pode enfiar sua viola no saco e vazar mesmo. Outra: escolhas. Vamos ter que fazê-las nossa vida inteira e doloroso e ruim é não fazê-las e se entristecer e prejudicar o trabalho alheio. Então as duas coisas se juntam, porque se eu tenho isso e aquilo e mesmo que eventualmente eu precise me ausentar, há de se convir que eu não estou inteiro nem aqui nem lá e que escolhas deverão ser feitas para o pleno exercício de um, OU de outro. E o que me for mais necessário, interessante, construtivo, etc, por ora, que receba o meu aval. Isso é honestidade consigo em primeiro lugar e com ou outros, além de uma civilizada demonstração de responsabilidade e respeito.
Claro que este trabalho tem particularidades e podemos flexibilizar em tanto quanto se trata de educação, mas isso tem um limite tolerável.
Não cobramos inscrição nem mensalidade porque há um investimento pessoal na compra de apostilas, livros, ingressos de teatro e até lanche, mas essa gratuidade não significa liberalidade, muito menos desqualificação. Os profissionais que nos orientam são de longa data e larga experiência e nossas atividades são pesquisadas e planejadas. Dispomo-nos, porque exigiremos disponibilidade. Oferecemos qualidade, porque não vamos nos contentar com pouco. E o fruto dessa disciplina, organização e exigência virá a seu tempo, num trabalho limpo, belo, agradável e que ofereça a nós e ao público o deleite de um espetáculo de teatro com “T” maiúsculo.

HUDSON ANDRADE
18 de maio de 2009 AD
15h32

BROCARDOS (11)

No último dia 07 o veículo Passat dirigido pelo deputado paranaense Fernando Ribas Carli Filho, 26 anos, voou sobre o Honda Fit em que viajavam Gilmar Rafael Souza Yared e Carlos Murilo de Almeida. Isso não é uma figura de linguagem. Dada a altíssima velocidade em que trafegava o Sr. Deputado, o carro que avançou um sinal de trânsito sem os devidos cuidados literalmente voou sobre o outro e isso atestam a completa destruição da lataria do Fit em oposição a integridade de seus pneus. Os jovens Gilmar e Murilo não resistiram aos ferimentos. Carli Filho agora está internado em São Paulo e apesar de não apresentar risco de morte, ainda inspira cuidados.

O acidente foi na cidade de Curitiba, onde reside e trabalha o deputado, mas após ter o quadro clínico estabilizado, ele foi transferido para um hospital paulista.
Apesar do relatório de paramédicos e testemunho de funcionários do restaurante onde o Sr. Carli Filho jantou antes do acidente evidenciarem o consumo excessivo de bebida alcoólica, somente após vários dias do ocorrido a justiça determinou o exame de dosagem alcoólica.
Em entrevista ao Fantástico ontem, a mãe do deputado disse, consternada, que se ficar provada a culpa de seu filho, ele responderá totalmente por seus atos.
Seus colegas na câmara afirmam que essa situação é intolerável e que eles tudo farão para que o deputado assuma todas as suas responsabilidades, que por ora só podem ser julgadas por desembargadores locais, dado o foro especial a que o Sr. Carli Filho tem direito.
Agora que duas famílias foram destroçadas e toda uma comunidade se mobiliza contra essa situação vergonhosa, pergunto eu: por que dirigia um automóvel o excelentíssimo Sr. Deputado se sua carteira de habilitação estava irregular e trinta multas de trânsito (igual a 130 pontos na referida certeira) – cinco delas na mesma Av. Monsenhor Ivo Zanlorenzi, onde aconteceu o sinistro – o impediam legalmente de trafegar em via pública? É isso? A lei existe para tolher os desmandos da sociedade, mas a segue quem o quer? A letra por si só encerra todo um código de moral e não há instrumentos que a tornem prática além de multas e possíveis detenções? Qual é o limite que deve chegar a ilegalidade de um cidadão para que ele seja chamado às favas, ou isso depende de que cidadão estamos falando? A justiça conta com instrumentos para localizar e punir os transgressores, mas os inúmeros delitos e os poucos agentes proporcionam que entremos num jogo de azar e sorte para numa incerta os supostos criminosos sejam encontrados? E em encontrando os tais, apesar de todas as evidências, é preciso observar se há ou não culpabilidade, intenção, privilégios? Será possível que o departamento de trânsito não possua um sistema que quantificando essas multas emitisse um documento impeditivo ao Sr. Fernando que o permitisse de forma acintosa e arrogante desprezá-lo, talvez escudado pela sua condição social, econômica e política? Tenho eu e os outros mortais o mesmo direito?
O que matou Gilmar Yared e Carlos Murtilo foi a total ausência de caráter do Sr. Deputado Fernando Ribas Carli Filho, amparada pela falta de educação e valores que agora se diz satisfatória (e vá lá que seja, que quantos recebem pérolas e as deitam aos porcos?!!!), uma certeza de impunidade que se enraizou no brasileiro do mais humilde ao investido em quaisquer públicos poderes; daqueles que, às gargalhadas, jogaram para baixo do tapete persa as multas, propinas, desmandos e bravatas dos seus correligionários; de qualquer governo, em qualquer esfera, e toda instituição que se contenta em escrever leis e não instrumentalizá-las; da conivência de todo aquele que por medo, ou conveniência não atestou, publicou e confirmou tudo o que levaria o caso a bom termo.
Essa piada de mau gosto todo mundo conhece: quando sair do hospital, debilitado e abatido, o deputado precisará de repouso, suporte psicológico, amparo fraterno. O processo, se instaurado, vai levar anos e anos para ser avaliado, julgado e cumprido. E ainda se pode concluir da inocência do réu, ou falta de elementos que o tornem culpado. E assim, daqui há alguns anos, pelas ruas e estradas, ao som do mar e à luz de um céu profundo, o Sr. Carli Filho respirará fundo e rirá de sua boa estrela, um novo mandato e tudo quanto se deve ao digno cidadão brasileiro.

HUDSON ANDRADE
18 de maio de 2009 AD
11h05

sexta-feira, maio 15, 2009

NÓS, NOSSO, VOSSO, TUDO (1)


Esta é uma nova sessão, para eu contar da fase 2 de um projeto chamado Outros 5 Anos, que a Companhia Teatral Nós Outros iniciou em 2007, coordenado por Adriano Barroso e Aílson Braga e que gerou Exercício Nº 1: O Homem do Princípio ao Fim e A Comédia dos Erros. Como todo blog, a idéia é fazer um relato do processo de trabalho que, se não diário, será, no mínimo, satisfatório. E absolutamente instigante.
Vamos lá!





E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

(O Guardador de Rebanhos VIII. Fernando Pessoa / Alberto Caeiro)

Dia 12 começamos um novo processo. Igual em 2007 reunimos a boa e velha Nós Outros com sangue novo e bom. Da outra vez foram convites mais particulares e tivemos Mary, Lucas e Ajax, ainda conosco, e o Ives, que tomou outros rumos. Agora batemos o tambor e apareceu gente de todo jeito. Gente boa, bonita e aparentemente disposta. Uns 2, ou 3 a gente já sabe que não vão ficar, por motivos vários. Outros vão durar mais. Alguns eu espero que realmente engrenem, porque serão de grande valia para a CIANO.
O Adriano tratou logo de dar aquele susto inicial – com uma hora de atraso! – dizendo “Eles já sabem a cagada em que se meteram?!” e prosseguiu, resumidamente, com o discurso do que é ser ator, da exigência da disponibilidade, estudo, leitura, exercícios, suor, trabalho, esforço e tantas dores para, no palco, gozar a delícia de fazer teatro. De qualidade. Bom! E a tudo isso o Aílson deu aval e fez-se as 22 horas, o primeiro dia!
E ter todos de volta e de novos; e ver aquele brilho no olhar de quem ainda está encantado e perceber que há tanto a fazer, tanta energia, a velha falta de espaço para trabalharmos digna e confortavelmente, as ausências, as dúvidas e a certeza de que, no final, que não tem quando nem onde a Nós Outros terá novas pernas, braços e um coração juvenil e uma cabeça madura.
O texto antes dessa escrita, do Pessoa (VEJA COMPLETO), foi o primeiro exercício que o Aílson passou. Pediu ainda que observássemos crianças respirando. E o Barroso pediu que pesquisássemos sobre Bertold Brecht, autor de Dansen e Quanto Custa o Ferro? nossos novos pré-textos.
Evoé ao teatro que me sangra e que eu amo tanto e no entanto eu...
Aos atores e atrizes, evoé!
O terceiro sinal bateu novamente.
Merda!!!

HUDSON ANDRADE
14 de maio de 2009 AD
9h30

CRÉDITO DA IMAGEM: Caraca Desenhos (http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://2.bp.blogspot.com/_P3fNOaoCVkk/R6T7iycYDbI/AAAAAAAAAQM/p3muCnTegDc/s400/o%2Bguardador%2Bde%2Brebanhos%2Bcopy.jpg&imgrefurl=http://caracadesenhos.blogspot.com/2008_02_01_archive.html&usg=__VuYwDtI08aaRtiPx6H5FST2uV3A=&h=400&w=283&sz=50&hl=pt-BR&start=20&tbnid=W_7GwhkGgsYH_M:&tbnh=124&tbnw=88&prev=/images%3Fq%3Dguardador%2Bde%2Brebanhos%26gbv%3D2%26hl%3Dpt-BR)

PALMO EM CIMA



Cartas de amor
Também ficam Sem Cor
quando Sem Perfume fica a vida
perde-se o tom, a luz
como um jardim Sem Margarida.

(Rita Melém)

Caio Fernando Abreu, nosso Caio F., é um escritor potencialmente complexo. Difícil? Talvez. Verdadeiro? Totalmente.há na sua escrita uma empatia tal que nos torna cúmplices de seus personagens e idéias. São pessoas que amam, matam, choram, gozam, enfim, vivem, garantindo então essa identificação ao som de Adriana Calcanhoto.
Por isso, para falar de tudo quando Sem Cor, Sem Perfume, Sem Margarida, o mais recente trabalho da Companhia Nós do Teatro quer falar, há e se ter verdade. E se ela existe em Antípodas e Uma História Confusa (os contos de Caio F.) e nos de Neto, como nos versos de Neto, Larissa e Rita Melém, vaga em cena. Falta ao trio de atores uma propriedade cênica que vai além de um bom texto e de um corpo disposto. Benone nos deixa muito à vontade para ver o espetáculo e igualmente deixou seus atores em zonas muito confortáveis. É preciso cuidar de tons muito agudos e fortes ao falar, ou muito baixos – mas não introspectivos –, de dizer do desejo sem o toque óbvio. Há que se dar ao espetáculo todo a mesma graça precisa de quando ao som de Vuelvo aos Sur – o ponto alto do trabalho! – as histórias dos personagens parecem que vão se encaminhar. É preciso assumir o triângulo amoroso e a paixão a que se propuseram.
Sem Cor, Sem Perfume, Sem Margarida tem uma encenação espartana e signos para os quais eu ainda busco sentido, mas o que mais grita para mim mesmo é a falta de precisão dos atores. Precisão que nasce da técnica e que obrigatoriamente precisa extrapolá-la para não ser um arremedo de realidade.
De algum paraíso, junto aos seus dragões, Rodrigues Neto (VER Brocardos (1), um dos fundadores da Nós do Teatro e grande homenageado com este espetáculo, deve estar meditando sobre isso e certamente vai lhes encher a cabeça de borboletas. Muitas. Negras;
Tomara!

FICHA TÉCNICA: Sem Cor, Sem Perfume, Sem Margarida. Texto a partir de poemas de Rodriguez Neto e Larissa Latif e de contos de Caio Fernando Abreu e Rodriguez Neto. Com: Jéssica Mirley, Markson de Moraes e Will Júnior. Iluminação: Sônia Lopes, Sonoplastia:Hélio Saraiva, Arte: Jéssica Mirley, Cenografia, figurino e direção: Beto Benone.Teatro Waldemar Henrique, 08, 09 e 10 de maio de 2009, 20h00.

HUDSON ANDRADE
11 de maio de 2009 AD
17h00

quinta-feira, maio 07, 2009

PORÇÃO DE REFERÊNCIA


Pegue um punhado de jovens intérpretes ansiosos por criar, acrescente uma boa dose de ousadia (cuidado para não desandar), temperos exóticos, muita carne, suor, mexa tudo vigorosa e constantemente para não empelotar e deixe cozinhar em banho-maria.
O resultado é Repertório Paralelo, que a Companhia Moderno de Dança apresentou nos dias 28, 29 e 30 de abril, no Teatro Waldemar Henrique. Repertório Paralelo é o resultado da experimentação dos integrantes da companhia – apresentados não apenas como bailarinos, mas intérpretes-criadores –, suas teses e estudos e, sobretudo, do trabalho contínuo de amadurecimento técnico e estético coordenados por Gláucio Sapucahy e a coreógrafa Ana Flávia Mendes. Em cena, sentimentos, ações cotidianas, a literatura furiosa de Nelson Rodrigues, as brincadeiras de criança, fotografias, o corpo e a própria dança ressignificados em coreografias solo, duos e trios, culminando com a improvisação final que reuniu toda a companhia em Luz em Cena, trabalho de Tarik Alves que investiga a luz cênica.
Repertório Paralelo não é um espetáculo no sentido estrito da palavra, mas como já se disse, uma experimentação. No entanto, modernamente, esse exercício acaba por se tornar um espetáculo à parte, como bem explicou o professor João de Jesus Paes Loureiro em conversa no final das últimas apresentações. O público então pode observar tanto o percurso criativo quanto o amadurecimento do processo até seu resultado, numa iniciativa que cria vínculos e um público interessado e cativo. Utilizar o Waldemar Henrique é uma grande sacada, porque a casa permite o uso de vários espaços e do mesmo espaço de várias formas.
Em Repertório Paralelo, assim como em Depois de Revelado Nada Mais Muda (ver RABISCOS DE LUZ), existem fortes elementos de outras áreas além da dança: vídeo, teatro, performance; vários setores se alinham na chamada dança contemporânea.Não que ela esteja buscando seu lugar, ou uma afirmação, mas porque ela é isso mesmo,numa tendência cada vez mais crescente de instigar os sentidos, desconstruir e ressignificar (estes próprios, termos altamente batidos atualmente) a dança e a arte em si.
Em três dias de apresentações os intérpretes-criadores da Companhia Moderno de Dança se revezaram em onze coreografias e dois trabalhos em vídeodança, uma modalidade dessa contemporaneidade que utiliza o vídeo e não artistas em cena. Em Repertório Paralelo os dois citados números de vídeodança são absolutamente experimentais e não deveriam ser apresentados ainda. Ok! Se eu não tenho referências suficientes para falar de dança, quanto mais de algo ainda mais recente? No entanto, a impressão que fica ao leigo que assiste não é de algo experimental e/ou em amadurecimento, mas de um trabalho primário e talvez mal feito. É claro que ele deve ser produzido, visto, discutido, refeito e aprimorado, mas isso deve ficar no âmbito da própria companhia até que haja madureza o bastante para trazê-lo à público. Dissecações e Bo(b)as Maneiras, os ditos trabalhos pecam exatamente por essa primariedade e destoam. As demais coreografias mostram diferentes graus de técnica, de bons a ótimos, extremamente criativos e possibilitando interação com a platéia que não se faz de rogada. Destaque para Labirintite, Pequeno Mundo Dilatado, Gesto Sanitário e Panocorpo Circulado. A mim incomoda que numa mesma coreografia não haja uma linearidade musical, ainda que as músicas utilizadas possuam algum encadeamento. Dão idéia de algo fragmentado, prejudicial num trabalho tão curto. Atenção para o figurino: antes de ser bonito ele precisa ser funcional e significante e por mais cotidiano que se queira parecer, a roupa do armário não é a roupa da cena.
Mexa tudo isso forte e constantemente para não empelotar, cozinhe em banho-maria, fogo brando, e quando começar a ferver, dê aquele toque especial que tudo perfuma e nos faz estalar a língua.
Rende três generosas porções. Ou mais.
Sirva quente!

FICHA TÉCNICA: Repertório Paralelo. Direção geral: Gláucio Sapucahy e Ana Flávia Mendes. Iluminação e Produção Técnica: Tarik Alves. Teatro Experimental Waldemar Henrique, 28, 29 e 30 de abril de 2009, 20h00.
Coreografias:
CLAVICÓRDIO – Christian Perrotta e Daiane Gasparetto
DISSECAÇÕES (vídeodança) – Ana Flávia Mendes
BO(B)AS MANEIRAS (vídeodança) – Feliciano Marques, Clediciano Cardoso e Márcio Moreira
SOASSIM – Bruna Cruz e Christian Perrotta
TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA – Márcio Moreira, Nelly Brito e Ercy Souza
LABIRINTITE – Daiane Gasparetto
CACO – Bruna Cruz, Christian Perrotta e Ana Paula
REVIRA(E)VOLTA – Andreza Barroso e Wanderlon Cruz
PEQUENO MUNDO DILATADO – Luiza Monteiro e Luiz Thomaz
GESTO SANITÁRIO – Christian Perrotta
PANOCORPO CIRCULADO – Ercy Souza e Luiz Thomaz
COISAS – Nelly Brito e Luiza Monteiro
LUZ EM CENA – Tarik Alves e Companhia Moderno de Dança

HUDSON ANDRADE
06 de maio de 2009 AD
17h25

ANTES DO TEMPO


Severa Romana foi escrita em 1968 pelo também escritor e jornalista Nazareno Tourinho e encenada pelaprimeira vez em 1969. Quarenta anos depois a história da moça grávida assassinada quando defendia sua honra volta à cena pela Companhia de Artes Cênicas Fato em Ato. O caso, real, aconteceu em Belém do Pará em 1900. Severa Romana, então com 19 anos, casada com Pedro, militar, era constantemente assediada pelo Cabo Ferreira, transferido do Ceará para nossa capital e que, tendo suas investidas recusadas, mata Severa. O crime comoveu a população e a jovem é até hoje venerada como uma de nossas santas populares. “Os seios de uma mulher são jóia rara”, diz a personagem Joana apresentando bem o ideal de honestidade da sociedade de então e dando testemunho, como em outros momentos, da retidão de caráter de Severa. Talvez essa postura ferrenha e altiva da jovem – mais do que a própria honra – seja o que motiva tantas pessoas a ir à quadra 28 do Cemitério de Santa Izabel pedir-lhe graças.
Antes desses tempos de Lei Maria da Penha – demonstração tardia, mas importantíssima de que a sociedade rejeita agressão tão covarde – o texto de Tourinho já apresentava esse problema hoje tão banal. Não sei se o dramaturgo queria discutir violência contra a mulher, ou apresentar um fato histórico, mas a postura da Fato em Ato de trazer o assunto à baila é de suma importância. Na peça cita-se também o caso de Maria Bárbara, em tudo semelhante ao de Severa, e que o poeta Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha, em suas Obras Literárias (1850), descreve em belíssimo soneto*:

Se acaso aqui topares, caminhante,
Meu frio corpo já cadáver feito,
Leva piedoso com sentido aspeito
Esta nova ao esposo aflicto, errante.

Diz-lhe como de ferro penetrante
Me viste por fiel cravado o peito
Lacerado, insepulto, e já sujeito
O tronco fêo ao corvo altivolante:

Que d'um monstro inhumano, lhe declara,
A mão cruel me trata desta sorte;
Porém que alívio busque à dor amara,

Lembrando-se que teve uma consorte
Que, por honra da fé que lhe jurara,
A mancha conjugal prefere a morte.


O espetáculo Severa Romana parece prematuro. Apesar do tempo de trabalho (mais de um ano) algo nele ainda não está pronto para o palco. É fato que sua encenação e relevância podem lhe garantir – e deve – vida longa e próspera e que o tempo há de se encarregar de deitar azeite em suas juntas, mas por ora lhe falta vigor. Os personagens são estereotipados – no texto e na representação – e apesar de cerca de hora e meia de espetáculo nãos e tem uma curva ascendente que garanta um clímax na platéia. O final da história todo mundo sabe e isso é um grande trunfo. Tornar a platéia cúmplice do vilão, sofrer pela mocinha, agonizar-se, pensar em fazer isso e aquilo. Mas Severa Romana não nos permite isso e alguém à saída do teatro comentava com sua acompanhante que o final deixava a desejar. Deixa! Pior e que pode dar o tom de apenas mais um caso que toda a equipe quer exatamente afirmar-se contra. Os personagens Pedro e Vizinha são dessas caricaturas tão fortes que se tornam risíveis e não se tem por eles qualquer empatia; o cabo Ferreira é a encarnação do Demo. Cínico, debochado, rufião,não dá margem a que se sinta nada por ele além de repulsa e o texto não lhe confere nuances tornando-o tão arrogante que só reforça um Pedro fraco, ridículo e egoísta em sua covardia. Severa deve ser mais do que uma heroína de folhetim. É preciso que sintamos que suas atitudes não são só fruto de criação, ou dos costumes da época – e sua postura sempre assustadiça diz isso –, mas a expressão de seu real caráter. Palmas para Joana, desses personagens tão presentes em Shakespeare e Moliere que dizem e fazem de tudo, tudo vêem, tudo questionam e suas palavras acabam sendo a demonstração da verdade. Palmas sobretudo para a atriz Luíza de Abreu que faz uma Joana absolutamente tranqüila em cena, falando com desenvoltura e gesticulado na medida certa. É maravilhoso e infelizmente cada vez mais raro ver atores e atrizes maduros no palco, dando o fôlego de sua experiência para nós, meros iniciantes.
O figurino de Mestre Nato é belíssimo, mas romântico demais e parece – e efetivamente está – muito novo, limpo e cheirando à alfazema em cena; a cenografia de David Matos, que também assina a direção, é moderna, objetiva e clara; a luz de Sônia Lopes, sempre precisa, ainda que eu ache que aconteçam Black-outs demais.
Colhido antes do tempo, Severa Romana agora vai amadurecer a pulso e não ficará tão doce, ainda que nos alimente. E que sejam muitos e muitos banquetes.

FICHA TÉCNICA: Severa Romana. Texto: Nazareno Tourinho. Com: Mônica Alves (Severa Romana), Luíza de Abreu (Joana), Eliana Hazeu (vizinha), Marcelo Pinto (Cabo Ferreira) e Márcio Mourão (Pedro). Partitura corporal: Rutiel Felipe, Figurino: Mestre Nato, Iluminação: Sônia Lopes, Sonoplastia: Armando Hesketh, Fotografia: Simone Machado, Assistente de produção: Aline Chaves, Produção: José Clemente, Assistente de direção: Suely Brito, Cenografia e direção: David Matos.Teatro Margarida Schivazappa, 02 e 03 de maio de 2009, 20h00.

HUDSON ANDRADE
04 de maio de 2009 AD
11h15

(*) Disponível em http://blogflanar.blogspot.com/2007/10/o-brasil-tem-uma-nova-beata.html

segunda-feira, abril 27, 2009

RABISCOS DE LUZ


Em cartaz no Espaço Cuíra Depois de Revelado Nada Mais Muda, com o bailarino Danilo Bracchi e as atrizes... (?)
Em cartaz no Espaço Cuíra Depois de Revelado Nada Mais Muda, com as atrizes France Moura e Marluce Oliveira e o bailarino ... (!)
Parece confuso? Só à primeira vista. Depois de Revelado Nada Mais Muda é, nas palavras do seu criador e intérprete, Danilo Bracchi, um espetáculo de dança contemporânea. E por que tantos elementos teatrais? Porque a dança contemporânea é isso, assim como as suas referências, enfatiza Bracchi. 10.000 coreógrafos existam e 10.000 danças contemporâneas existiriam, bebendo do balé clássico, dança moderna, jazz, performances, artes circenses e, claro, teatro. Este, segundo Danilo,ainda muito resistente à intromissão das sapatilhas. (E acreditem, eu sei bem o que é isso!)
E que mal há nessa interdisciplinaridade? Nenhum. Não à primeira vista! Troca-se o físico ideal pela disponibilidade corporal; o gesto tecnicamente preciso pela (re) significação do movimento que substitui a palavra e a palavra complemente mãos, braços, peito; a música já não rege 1, 2, 3, 4, vai!, mas entra no espetáculo como água, ora útil, por vezes caudalosa e puxa o corpo que reage e puxa a música que pulsa e tudo move tudo.
O perigo dessa Esfinge é ela devorar mesmo aquele que a decifra. Se a costura não é bem feita tudo fica frouxo e não há propriedade em nada.
Depois de Revelado Nada Mais Muda é o primeiro trabalho da Companhia de Investigação Cênica, resultado da Bolsa de Pesquisa do Instituto de Artes do Pará (IAP) e tem como mote a fotografia. Apresenta um grupo em franco processo de amadurecimento, um cuidado com a preparação de seus intérpretes, com a estrutura cênica do espetáculo. A música de Leonardo Venturieri é autoral e fragmentada como a própria encenação de Bracchi e a mim incomoda que ela pareça querer/poder ser mais sem nunca explodir, contentando-se em ser o que é. A iluminação de Tarik Alves é pontual. Quase um flash. Limpa e precisa. Por vezes cria penumbras que, propositais, ou não, escondem detalhes talvez importantes. Noutros momentos, mergulha a platéia nos rubro-negros das salas de revelação. A luz é, afinal, um quarto personagem dessa trama, representando objetos e personagens, sendo, afinal, luz.
Em cena, Danilo Bracchi, France Moura e Marluce Oliveira não se preocupam em contar uma história, mas sim falar desse processo de aprisionar o tempo em retângulos de papel brilhante, mesclando dança e teatro. É aí que necessitamos mais precisão para que os textos, curtos, algo técnicos, sejam tão cheios de cor e vitalidade quanto os gestos.
Do afinco e talento de seus membros a Companhia de Investigação Cênica vai se firmar e juntar a outros grupos com o Valdete Brito e a Companhia Moderno de Dança, criando novos espaços artísticos, reinventando a dança, reformulando o teatro, sendo antes de tudo, a expressão completa do artista paraense.
Arte é isso: pluralidade.
Arte é isso: única!

SERVIÇO: Depois de Revelado Nada Mais Muda. Espaço Cuíra. Dias 01, 02 e 03 de maio de 2009, sempre às 20h00. Ingressos na bilheteria. R$ 20,00. Apoio: Espaço Cuíra (a Companhia de Investigação Cênica é residente neste espaço) e Corpo Pilates. Contatos: Felipe Cortez. 8212 9182.

HUDSON ANDRADE
27 de abril de 2009 AD
10h20

sábado, abril 11, 2009

BROCARDOS (10)



É como dizem os antigos: A gente cobre um santo e descobre outro. Para amenizar a crise que vai comendo tudo o que encontra e que no Brasil ainda está bem disfarçada (?!) o governo reduziu o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) dos setores automotivo e de construção. Com isso, deixa de arrecadar, segundo o ministro da fazenda, Guido Mantega, 1,5 bilhão de reais. Santo descoberto, quem paga a conta do prejuízo? A decisão do governo federal foi de aumentar a carga tributária (IPI, PIS, COFINS) sobre os cigarros a partir de primeiro de maio, com encarecimento do produto em torno de 20 a 25%. Para Mantega a decisão é duplamente positiva. Recupera-se o dinheiro perdido e desestimula-se o consumo de cigarros. “É melhor que o fumante sinta no bolso do que nos pulmões”, afirmou o ministro.
Nem vou tentar entender o que significa aumentar daqui e reduzir de lá para compensar de cá o que ali está faltando. Deixo isso pros matemáticos, contadores e políticos cujas contas nunca me parecem racionais. Sobretudo estes últimos.
Mas vejamos na prática. O preço dos cigarros aumenta, mas e daí? Dia desses numa entrevista que me fizeram eu disse que os cigarros não são assim tão venenosos quanto dizem, afinal, completei, os fumantes demoram tanto a morrer! Cruel?! Pode ser! Não mais do que as guimbas, fumaças, beijos amargos e venenos que eles espalham pelo ar. Também não vou entrar nessa seara. Seria chover no molhado. A questão que quero discutir é esse aumento de preço versus desestimulação de consumo. Fumantes são viciados. Dependentes. Eles buscarão o cigarro independente do preço que ele custe, porque fisiologicamente o corpo exigirá isso. Se os preços aumentarem demais, alternativas baratas e certamente mais perigosas aparecerão. Vide o consumo desenfreado de crack. “Quem não pode Nova York vai de Madureira”, canta o Zeca Baleiro. Já existem marcas de cigarro extremamente baratas e é de se questionar sua produção, a qualidade da sua matéria-prima, aditivos e tudo o mais. Esse cenário se repete em outros setores. Todos os de consumo, arriscaria dizer. De medicamentos genéricos, repudiados por alguns, mas a diferença (por vezes de vida e morte) para milhares de assalariados. Eu uso e confio! Passamos por cosméticos, bebidas. Tudo! O mercado precisa atender todas as camadas. A ganância idem! Quando os cigarros estiverem com seu preço elevadíssimo e suas alternativas genéricas começarem a minar pulmões e bolsos de centenas e centenas de brasileiros, o governo federal – e aí não será mais o Sr. Mantega, que estará gozando alguma aposentadoria perpétua em algum lugar gostoso! – terá outro grave problema de saúde pública para resolver.
Que santo então ficará sem sua manta?

HUDSON ANDRADE
11 de abril de 2009 AD
9h50

quarta-feira, abril 01, 2009

BROCARDOS (09)


Agora por apenas 62 reais um dos maiores problemas do homem será resolvido: o tamanho do pau.
É o que garante a empresa norte americana Mr. Busyballs. Alegando que a genitália masculina fica “pouco atrativa” quando exposta ao mar, ou a piscina, ela desenvolveu uma sunga que garante o volume do membro. É a Rooster Booster (algo como “elevador de galo”. Muito forte!!!). O cliente ajusta o tamanho desejado e aí é só se jogar. Ao sair da água, garante os produtores, nenhum ajuste é necessário.
Agora não perde a cena: a menina, ou menino, vê aquela entidade saindo da água. Nossa!!! Chega junto, tudo acertado, sunga no chão... Que decepção! Ou não!
A proposta é iludir o dono do dito. Ele é que se sente incomodado com medidas. Como diria Kid Abelha, “são sempre os mesmos sonhos de quantidade e tamanho...”*
Não vou me ater ao texto tradicional de que o que importa é a performance. Isso é sabido, mas ninguém abre mão de fartura, o que, convenhamos, é muito bom. Comento essa matéria lida ontem num jornal-de-grande-circulação-de-Belém para dizer que somos criaturas insatisfeitas. O tamanho do pau, do peito, da bunda são sempre de menos. As medidas da cintura sempre demais. Quem tem cabelo liso, enrola; quem os tem crespos, alisa; se compridos, cortam. Os curtos ganham apliques; os olhos, lentes. Os pés, saltos. Para os ânimos, aditivos. Contra a timidez, álcool e anfetaminas. Pra não se comprometer, ficar, principalmente na internet, com apelidos exóticos e medidas desmesuradas. Sempre elas!
Só o que não parece ter limite é nossa vaidade e falta de amor-próprio. Para além das necessidades biológicas de uma progênie saudável, nós nos atemos mais ao exterior que degenera do que ao ser que só pode progredir. Não que beleza não seja importante. Claro que é. Assim como saúde e bem estar. A questão é quando de tempo e energia (e dinheiro) despendemos nisso e de que forma. Além do mais, colocamos nossa tranqüilidade nos gostos alheios e nos elevados (e questionáveis) padrões da sociedade e por não atendermos suas expectativas, sofremos.
Que tal lustrarmos as carecas (a minha já consome uns 100 ml de óleo de peroba!), malhar respeitando nosso biótipo, usar sapatos confortáveis? Gozar, mas também dar prazer ao parceiro (a)?
Se tu achas que só pode ser feliz parecendo isso, ou aquilo, vá em frente. Mas o que tu és de verdade, o espelho não mostra.

HUDSON ANDRADE
01 de abril de 2009 AD
16h25

(*) Garotos, de Leoni e Paula Toller.

sexta-feira, março 27, 2009

DE UM FÔLEGO SÓ

É assim que a gente assiste 6 Meses Aqui, dos Atores Independentes, a segunda parte de uma trilogia que começou com 3 e que pretende se encerrar no final deste ano, bebendo da mitologia e da filosofia para construir seu drama.
De um só fôlego! Da feita que começa é como enfiar a cabeça numa pia d´agua.os olhos arregalam, a respiração prende, dá uma agonia. Isso é ruim? Não!
Não necessariamente...
O texto, próprio e alheio, está muito bem encadeado e bem dito, ainda que aqui e ali as coisas fiquem meio emboladas e outras, inaudíveis. A falta de acústica no espaço colabora. Este é um problema. Apresentado no Memorial dos Povos Indígenas, no Complexo Ver-O-Rio, 6 Meses Aqui compete com o vai-e-vem de uma platéia deseducada, o brega das barracas, o zum-zum-zum do povo, sirenes, sinetas, buzinas, crianças. A entrada do templo de Jerusalém perde e aí nem Jesus nem chicotadas.
Iracy Vaz e Sandra Perlim, protagonistas deste enredo que fala de gente, de sentimento, de desencontros, separações, sem qualquer romantismo piegas, mas com alguma propriedade e total entrega, estão absolutamente confortáveis. O corpo disposto se dobra em posições que me fazem questionar o porquê praquela cena, que eu entendo dentro de uma proposta de encenação e criação de personagem, mas que pode ser confuso para o público comum, sobretudo o de ocasião, atraído pelo burburinho. Atenção para Sandra, de corpo e alma em cena, e destaque para sua interpretação de um texto de Arnaldo Jabor. Fantástico, lúdico, delicioso!
Não entanto é preciso dizer que 6 Meses Aqui não espetáculo para rua, ainda que não seja para grandes platéias. É bom gozar de alguma intimidade com as pessoas bem pertinho. Algumas referências e, sobretudo, o conteúdo homoerótico do espetáculo pedem um público mais habituado aos jogos cênicos e as (pretensas) verdades que levamos aos palcos. Houve quem se levantasse incomodado (agredido?! Não sei!) e isso é questionável. Não fazemos teatro para nossos pares; fazemos para todos e entregamos nossa arte para que seja pesada pelos valores de cada um. Importante que se diga que não há nada de grotesco, ou leviano. Há apenas o que não é habitual nem devidamente compreendido, ou respeitado.
6 Meses Aqui é uma experiência instigante. Carece de pausas para respiração, curvas mais acima, mais abaixo, nada que lhe tire o mérito.
Não tive a oportunidade de ver 3, mas creio piamente que nesse ritmo, o final dessa história será vertiginoso.
Que seja então uma montanha-russa!

HUDSON ANDRADE
25 de março de 2009 AD
12h45

SERVIÇO:
6 Meses Aqui – Atores Independentes
Dramaturgia e elenco: Iracy Vaz e Sandra Perlim
Direção: Maurício Franco e Milton Aires
Memorial dos Povos Indígenas – Complexo Ver-O-Rio
28 e 29 de março de 2009, às 20h30.
Entrada franca, com rodada de chapéu.


Assista a vídeo do espetáculo em http://www.youtube.com/watch?v=DRVOtOZ4UYs