segunda-feira, novembro 29, 2010

EU 29

“Me beije só mais uma vez. Depois volte pra lá.”
(Jardim da Fantasia. Paulinho Pedra Azul)


Cento e quarenta e nove dias. Não sabia que uma vida cabe em cento e quarenta e nove. Sempre. Nunca.
Quando te vi pela primeira vez não percebi o castanho dos teus olhos, ou a cor dos teus cabelos. Foi teu calor que me atiçou os sentidos. Tua boca pingando mel. Agora que estás distante, nas nuvens, ou na insensatez, te quero muito. Mais; e os dias são contados em reverso.
Minha vida é assim: tirada de um folhetim romântico, papel de miolo de pão que os bem-te-vis catam da beira da estrada e me perco de mim, de ti. De nós. Onde estás?
Nem Cecília veria flores nesse jardim de sua janela agora aberta pro muro, com cães passando embaixo num andar que não fica acima, como também nada vejo com meus olhos afogados e um sorriso de leiteiro.
Tão pouco...
Que mais dizer? TE AMO...

HUDSON ANDRADE
27 de novembro de 2010.
8h43

terça-feira, outubro 19, 2010

ALÉM DO HORIZONTE DEVE TER


O burburinho que se formou entre os adeptos da Doutrina Espírita e curiosos foi grande. Vem aí filme Nosso Lar! Umas das mais conhecidas e comentadas obras psicografadas por Chico Xavier iria para as telas dos cinemas depois do sucesso da cinebiografia do médium mineiro e com vários programas de TV de cunho espiritualista. O diz-que-me-diz-que foi grande. Fotos, sites, notas, traileres eram divulgados pela internet. Cartazes eram afixados nos Centros (pelo menos no meu!). Tudo empolgava e, claro, dava alguma apreensão. 03 de setembro de 2010 virou uma espécie de Dia D para o Espiritismo brasileiro.
Não, não vou comentar e-mails dizendo de atendimentos espirituais durante as sessões de exibição do filme. Qualquer mínimo bom senso se opõe a isso!
Assisti Nosso Lar dia 05 de setembro e novamente no dia 08 (acho!). a cena inicial, André Luiz (Renato Pietro) diante dos muros fechados da cidade espiritual, o céu azul cortado por um íbis, a música emocionante de Philip Glass, senti um aperto no peito. Então descemos ao Umbral (uma espécie de purgatório?! Como assim?) e o filme entra num ritmo tal e único que não se altera até o seu final. Sem conflitos, sem falha trágica. André Luiz é só alguém confuso se aclimatando com certa facilidade a uma nova realidade. Todos os demais personagens são escadas para a plenificação do médico sanitarista falecido no Rio de Janeiro, onde exercia a profissão, no início do século XX. A personagem Eloísa (Rosanne Mulholland), sobrinha de Lísias (Fernando Alves Pinto), que deveria ser o contraponto de André não passa de uma garotinha mimada e chata em quem uns bons cascudos resolveriam as tolices.
Pietro não é capaz de dar ânima ao personagem. Sua interpretação é rasa e burocrática, um certo jeito empolado de falar, uma falta de carisma.
Bons atores no elenco como o já citado Fernando Alves Pinto, Othon Bastos (o Governador da colônia), Ana Rosa (Laura, mãe de Lísias), Werner Schünemamm (Emmanuel), Paulo Goulart (ministro Genésio), entre outros, talvez por conta da direção, mantiveram-se didáticos, monocórdios e unidimensionais.
O roteiro do próprio Assis, que até consegue sintetizar bem uma obra tão vasta e detalhista quanto Nosso Lar, não consegue centrar em André Luiz e não dá a real dimensão de um personagem confrontado com suas crenças e verdades; não dá a outros temas como reencarnação, vida após a morte, mediunidade, colônias em planos extra-físicos da existência, qualquer aprofundamento além de explicações acadêmicas tais verbetes de enciclopédia.
Os efeitos realmente incomuns em produções brasileiras são tecnicamente bons, mas não podem existir por si só. Temos vários exemplos de filmes cujo visual e excelência técnica não conseguem esconder os despropósitos, ou incompetências de um roteiro mal escrito, e/ou mal dirigido.

Se você, espírita (kardecista é o censo) quiser tornar o filme de Wagner de Assis na pedra filosofal do Doutrina Espírita no Brasil, vá em frente. Ver minha mãe, que não é espírita, dar conselhos baseada em questões que viu no filme mostra que enquanto divulgador de uma mensagem a produção cumpriu o seu papel – lembrando apenas que mensagem sem estudo, reflexão e aprofundamento é meramente máxima de almanaque. Devidamente utilizado, embasado e discutido, pode ser um excelente ponto de reflexão em nossas Casas e mesmo fora dos círculos espiritualistas. Para os não espiritistas o filme é mais uma obra de ficção com pretensões de realidade. Enquanto obra de arte é fraco, inconsistente e sem brilho e só se mantêm em cartaz pela necessidade de ver que esse nosso mundo não é o único e nem o melhor. Nossos anseios de superação e imortalidade nos atraem para esses personagens, seja André Luiz, o Superman, o coronel Nascimento, ou a mocinha lacrimejante da novela das seis.
Que as próximas produções nesse filão observem cuidadosamente o seu trabalho buscando universalizar a mensagem sem moralidades maniqueístas através de um apurado e tecnicamente correto veículo, única garantia de imortalidade de uma obra de arte.

Hudson Andrade
19 de outubro de 2010 AD
16h31

segunda-feira, outubro 18, 2010

JÁ TENS ÁGUA DEMAIS




Num mundo de homens o feminino se afoga em flores, fronhas, promessas...
Todos os dias tantas mulheres se calam feridas naquilo que lhes é tão caro: sua dignidade.
Texto original escrito por Hudson Andrade com referências a Hamlet, de William Shakespeare e Que Será, bolero de Marino Pinto e Mário Rossi, apresentado durante o Curta a Cena III, nA Casa da Atriz, nos dias 15 a 17 de outubro de 2010.


Uma desgraça sempre vem nos calcanhares da outra, tão depressa se sucede uma à outra.
Ofélia se afogou.
Afogou-se?...

Acordava todos os dias às quatro e meia da manhã, acendia a vela que (ele) insistia em apagar debochando da sua crença em Deus e nos homens. Fazia café. Lavava um tanque de roupas cantando pra dentro uns sambinhas antigos e uns boleros desses de chorar. Gostava de dançar bolero. Dançara muito quando era mais jovem e saia (com ele) pro clube do bairro de onde só voltavam bem depois da hora marcada pelo pai. Afinal (ele) estava se divertindo. Valia a pena o puxão de orelha. Gostava de teatro também. Vira só uma vez, não entendera muito, mas achara lindo e até decorara umas frases inteiras que o filho mais velho copiara de um livro da biblioteca.
Casara por causa de barriga, ficara por causa de barriga, voltara por causa de barriga e a cada vez pensara que desta vez seria diferente. (Ele) dizia.
Ouviu passos dentro de casa. Estremeceu. Entrando ou saindo? Olhou o tanque cheio. Iria se atrasar de novo pro serviço. Fazer o quê? Ainda tinha que passar o vestido de uma amiga (dele) que viera manchado de cerveja e levar os meninos no colégio. Outros passos. Tampas de panela. A porta da geladeira velha batida com força. Abaixou-se pra pegar a bacia e sentiu uma pontada no lado esquerdo. Levantou a blusa. A mancha ainda iria demorar a sumir. Sempre demorava demais. Como gesso, que acabava se desfazendo no tanque de lavar roupa.
Mais passos. Mais perto. Prendeu a respiração. Fechou os olhos. Num segundo estava correndo, os pés descalços subindo a escadinha da caixa d´agua do prédio no fim da rua. Parada diante da água morninha se viu novamente no teatro chorando sem saber por quê.

Inclinado nas margens de um arroio, levanta-se um salgueiro que reflete as prateadas folhas na corrente cristalina. Para lá se dirigiu, adornada com estranhas grinaldas de botões de ouro, urtigas, margaridas e com aquelas largas flores púrpuras às quais nossos licenciosos pastores dão um nome grosseiro, que, porém, nossas castas donzelas chamam de dedos de defunto. Ali trepou pelas ramagens pendentes para colher sua coroa silvestre, quando um traiçoeiro ramo se desprendeu e, junto com seus agrestes troféus, foi cair no soluçante arroio. Suas roupas, a princípio, se espalharam e a sustentaram durante alguns instantes, como se ela fosse uma sereia. Enquanto isso cantava estrofes de antigas árias, como se estivesse inconsciente da própria desgraça, “Que será da minha vida sem o teu amor?... Mas aquilo não poderia durar muito e os vestidos embebidos tornaram-se mais pesados e arrastaram a desgraçada para uma morte lamacenta, em meio de seus melodiosos cantos. “Eu errei, mas se me ouvires vais me dar razão...”
Afogou-se! Afogou-se!
Já tens água demais, pobre Ofélia! Eis porque contenho minhas lágrimas. Ainda assim, é uma necessidade humana: nossa natureza as reclama, embora a vergonha não cesse de protestar. Quando este pranto cessar, tudo o que em mim houver de feminino terá acabado.

Hamlet, Ato 4º, cena VII (falas da rainha Gertrudes e Laertes), W. Shakespeare.
Tradução: Pietro Nassett
Editora Martin Claret, São Paulo, 2001.
Texto original de Hudson Andrade* com referências a canção “Que Será” de Marino Pinto e Mário Rossi.


(*) 02 de outubro de 2010 AD 10h53.

CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.stickel.com.br/atc/uploads/agua.jpg

sábado, outubro 16, 2010

EU 28



Para ler ao som de Poema, do Cazuza: “Eu procurei no escuro alguém com o seu carinho e lembrei de um tempo...”


Eu tinha uns 8 anos, acho. Como meu pai tinha ido embora, minha mãe precisou trabalhar e eu ficava em casa com o meu irmão mais novo.
À tarde eu sentava na janela da frente da casa e ficava encostado contra a grade de ferro espiando o movimento da rua, os moleques correndo, a chuva que caía e evaporava da calçada provocando aquele vapor sufocante e aquele cheiro de coisa molhada: terra, grama, bom de sentir; asfalto, reboco, coisa estranha. De vez em quando meu irmão me olhava perguntando com os olhos se já estava na hora do pão com suco de pozinho. Não. Ainda não, eu respondia virando o rosto pra rua. Eu bem que queria, mas devia esperar mais um pouco, até o sol ir ficando mais vermelho e antes das cigarras começarem a cantar. Meu irmão brincava com um cachorro de plástico que tinha perdido o rabo. Dia desses eu achei um guarda-chuva velho e usando o cabo substituí a cauda perdida. Meu irmão achou engraçado. Realmente não ficou lá muito diferente. Ele levantou os olhos de novo. Não. Ainda não.
Quando eu via minha mãe chegando eu corria pra buscar a chave que ficava num lugar secreto e tirava a tranca. Assim que ela pisava na soleira eu abria a porta. Ela entrava com um oi meus filhos e passava direto pra cozinha. Depois do jantar queria ver nossos cadernos e nos mandava pra cama. Meu irmão dizia que seu cachorro rabo de guarda-chuva estava chamando por ela, mas minha mãe respondia um agora não, meu filho entre os pratos e talheres e eu o pegava e levava pra escovar os dentes e mudar de roupa. Até hoje é assim! Teu almoço tá na mesa, tem toalha limpa em cima da tua cama, essas calças estão sujas? E quando eu fico olhando pra ela, apenas responde agora não, meu filho.
Já de pijama tomávamos a benção e ela nos mandava dormir. Às vezes eu não ia e ficava olhando pra ela e quando perguntava que foi eu sentava no chão, colocava a cabeça no seu colo e ela fazia um cafunezinho que logo parava e quando eu olhava, ela estava dormindo. Eu levantava devagar e desligava o televisor, mas minha mãe resmungava deixa que eu tô vendo a novela. Vai dormir. Eu sempre ia.
Um dia minha mãe chegou e antes de ir pra cozinha me entregou um pacote. Abre. Vê se gosta, ela disse. Esse é pro teu irmão, pra vocês não brigarem. Os pacotes eram idênticos. O conteúdo também: um caminhãozinho de plástico de um palmo mais, ou menos. Na carroceria, três boizinhos desses de plástico fino e oco. O presente em si não tinha a menor importância, mas quando ela o entregou disse lembrei de você. Virou de costas e foi providenciar o jantar. Aquele caminhãozinho e seus bois viraram o meu brinquedo favorito e eu o levava aonde fosse. Um dia ele se perdeu. Como quase tudo na vida. Isso também não tinha importância porque pra mim ficou muito mais forte aquele lembrei de você dito tão poucas vezes.
Hoje em dia quando minha mãe vem em casa (e é bem pouco) e ela que desliga o televisor e me tocando o braço diz pra eu ir pra cama que eu tô cansado e amanhã tem trabalho e que ela fica mais um dia pra poder preparar aquela carne que eu gosto tanto e se está tudo trancado, se eu paguei o telefone e pra eu não acender a luz do quarto nem fazer barulho que os netinhos dela tão dormindo com o pai.
Vai dormir. Eu sempre vou.

HUDSON ANDRADE
16 de outubro de 2010 AD
10h22

segunda-feira, setembro 13, 2010

EU 27



“Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim”
(Pedaço de mim. Chico Buarque)


Meu peito guarda um coração. Um só. Circulatório. Átrios, ventrículos, encharcados de sangue arterial que alimenta de oxigênio as células do meu corpo inteiro.
Meu peito guarda um só coração, sede das minhas emoções, meio-guia das minhas decisões, sobretudo as mais difíceis; véu nos momentos em que eu devo ver mais claramente. Enorme pra tanta gente, mas ínfimo pra tanto amor.
Dia desses perguntei a ele, meu coração: “Tu me amas?”, mas ele fez ouvidos de mercador. Por toda a semana insisti entre rogativas, exigências e questionamentos, alguns dissimulados. Nada. “Tu me amas?”. Latidos de cães e motores de carros.
Noutra noite, ensurdecido daquele silêncio eu comprimi o indicador e o médio da mão esquerda contra o peito e fui devagarzinho abrindo caminho. Enfiei então o anelar, retirei tudo e juntando a ponta de todos os dedos fui buscar com a mão aquele rebelde. “Quando eras mais moço”, eu ia dizendo, “ias aonde desejavas, mas agora...”, falei, já sentindo sua musculatura rígida pulsando acelerada – teria medo? –, “...outro é o que te cinge e te leva aonde não queiras.”, e trazendo-o para fora, afastei retratos e coisinhas e o coloquei sobre o criado-mudo, ajoelhando-me em frente e, olhos fixos, tornei a perguntar: “Tu me amas?”
Meu coração tremeu todo, tentando dizer algo. Um lado seu dizia “sim”. O outro lado também. Um era o lado do nascimento, da manutenção, da necessidade, do direito. Disciplina e autoridade. O outro era o lado do encontro, da companhia, da necessidade, do direito. Descoberta e respeito. Havia no meu coração um jogo intrincado de forças. Um lado não poderia ser maior que o outro. Um lado não poderia assumir mais espaço, anular, subtrair, desejar-me maios que o outro e mesmo sendo meu aquele coração eu não tinha mais direito sobre ele (?!). E por não se reconhecerem, cada lado respondia do lugar que lhe era próprio, com sinceridade, mas seu burburinho assim, misturado, confundia minha cabeça e eu nada ouvia onde, na verdade, havia acalanto, conforto e conselhos. E por mais que eu pedisse nenhum dos lados me escutava. Pela janela, latidos de cães e motores de carros.
Corri pra noite e tão logo tinha posto os pés no batente da janela ouvi “Amo!”. Claro, claro. E numa inflexão que eu jamais ouvira antes: “Amamos!”
A noite, lá fora, com seus cães e carros não me interessa mais. Dentro do meu peito meu coração dorme comigo a sono solto.

HUDSON ANDRADE
13 de setembro de 2010.
10h30

(*) Referência ao Evangelho de João 21, 17 – 18.


Crédito da imagem: http://flyingtime28.files.wordpress.com/2010/05/coracao_blog1.jpg

segunda-feira, agosto 23, 2010

ALMA FEITA DE ÁGUA



“Foi meu amor que me disse assim...”
(Adaptado da canção Alecrim, de Rodolfo C. Ortiz)


Aqui no norte do Brasil é comum nossa vida ser regida pela água. A água da chuva da tarde que agora só no imaginário determina nossos compromissos – particularmente eu acho lindo que tenha havido um tempo em que os horários dos nossos compromissos fossem pautados por outra coisa além das nossas “necessidades”! – e sobretudo as marés, as águas grandes, que mobilizam e imobilizam comunidades inteiras, ensimesmando gentes que só podem esperar, ganhando fama inglória e injusta de preguiçosos. Tem uma água dentro também, que inunda, mas disso eu falo depois.
A água também governa Eutanázio e o Princípio do Mundo, espetáculo da Usina Contemporânea de Teatro em cartaz no Instituto de Artes do Pará. Inspirado no romance Chove nos campos de Cachoeira, do paraense Dalcídio Jurandir (http://www.dalcidiojurandir.com.br) (cuja escrita ainda me é desconhecida, mas do que eu já percebi, tem o jeito, o ritmo, os termos que eu gosto de usar e ler.), o espetáculo fala de Eutanázio que, doente, relembra a vida enquanto espera a morte. Sua história é contada por três mulheres: a desencantada Raquel (Valéria Andrade. Maravilhosa!), Irene (Vandiléia Foro), que na rudeza de modos esconde a menina que – como nós – só quer ser amada e ser feliz, e Felícia, empobrecida, abandonada, violentada e solitária como os campos do Marajó e o peito da gente. Paralelamente temos a vida de Alfredo, irmão mais novo de Eutanázio que deseja estudar em Belém. O ator Milton Aires mistura sua própria vida a de Alfredo criando um pequeno Hamlet vivendo num reino podre que afoga repetidamente seus sonhos. Com dramaturgia do paraense Paulo Faria, que atualmente vive e trabalha em São Paulo, Eutanázio e o Princípio do Mundo começou doze anos atrás, da vontade de encenar Jurandir, até a premiação pela FUNARTE através do Prêmio Myriam Muniz 2008, liberação de recursos e sua estréia nesse 21 de agosto de 2010.
O maior desafio, segundo o diretor Alberto Silva Neto, foi extrair o que dizer e como dizer da riquíssima obra do Dalcídio e seu primeiro livro publicado originalmente m 1941 e que também rendeu Solo de Marajó (VER A Menina. O moço. Ritinha. A ama de leite. http://curiadarte.blogspot.com/2010/03/menina-o-moco-ritinha-ama-de-leite.html), o excelente solo de Cláudio Barros que teve uma infelizmente curta temporada em Belém. Depois foi deixar-se encher, encher como os campos marajoaras e quando a água baixou, por mãos à obra. Paciência e dedicação de quem vive nestas bandas e faz teatro num Estado e num país alheio a formação cultural do seu povo!
A mais de hora de espetáculo vai exigir do público não acostumado a teatro alguma calma. Tudo é lento: movimentos, falas, olhares, respiração; então a vida daquelas quatro pessoas te joga um laço e se pegar – porque também pode não pegar! – é mergulhar junto e remexer naquelas águas de dentro que eu falei no começo e o coração se enche de saudades e quereres e solidão e lembranças boas e tudo isso é bom e também machuca e também comove e também faz crie uma casca onde a gente não mexe, mas se não mexer não vê o fundo.
Eutanázio e o Princípio do Mundo exige atenção: o elemento cênico que destoa, o ângulo do qual se quer ver essa história, a voz afinada da Nani, os solos brechtianos de Milton Aires, o tempo para primeiro conhecer aquelas criaturas para só então se envolver com elas, tomar partido, quem sabe, e até mesmo assistir, aplaudir, retirar-se que se este não se pretende um espetáculo arrogante e intelectualizado – no sentido pávulo do termo – também não é folhetim gratuito e simplório.
Eutanázio e o Princípio do Mundo é como os campos alagados desse norte do país onde o meu eu-búfalo pasta tranqüilo e pacífico inconsciente de sua força. Ou exatamente pelo saber dela.

HUDSON ANDRADE
23 de agosto de 2010 AD
9h34

SERVIÇO
Eutanázio e o Princípio do Mundo
Inspirado no romance Chove nos Campos de Cachoeira de Dalcídio Jurandir, com dramaturgia de Paulo Faria.
Direção: Alberto Silva Neto
Elenco: Milton Aires, Nani Tavares, Valéria Andrade e Vandiléia Foro.
Cenografia e figurinos: Nando Lima
Iluminação: Sônia lopes
Operação de luz: Frank Costa
Desenho de som: Cláudio Melo (com registro de sons do Marajó de Léo Bitar)
Operação de som: Lucas Cunha

De 21 de agosto a 26 de setembro
IAP – Instituto de Artes do Pará (Nazaré, ao lado da Basílica)
Sábados e domingo – 20 horas
Entrada franca.

EU 26



Eu sou. Eu fui. Eu quero. Eu posso. Eu faço. Eu amo. Eu odeio. Eu luto. Eu pretendo. Eu.
Eu que esperei por quase quarenta anos e por pouco mais de dois meses. Eu que faço planos e teço idéias. Eu que grito e silencio e me debato e choro e corro às gargalhadas cheias de abraços e beijos que muitas vezes morrem no meio do caminho.
Eu que tenho o colo materno, o peito do namorado, a mão aberta dos amigos, os ouvidos complacentes.
Eu que tenho o ódio dos infelizes, a rejeição dos mal-amados, o soco dos violentos, a intolerância.
Eu que mal dou conta dos meus limites e luto pra manter minhas vitórias.
Eu, de quem exigem que eu seja o que não sou.
Eu que dei o que de mim eu posso e fiz bem a alguém e fiz e não me oponho a dizê-lo. E devo dizê-lo porque também é falsa modéstia não olhar aquilo que de nós já é fruto e multiplica.
Eu, eu, eu, meu Deus. Eu que sou Tua cria e Teu sentido. Eu que estou no meio do Teu Santo Nome. Eu que de Ti tanto recebo. Eu que oro e tanto peço e agradeço e peço muito mais do que agradeço porque assim é que é o eu.
Eu que fiquei sozinho tanto tempo e me acostumei a ser sozinho sem querer sê-lo e apavorado disso com um temor de morte e sendo injusto só em dizê-lo que em verdade nunca se está sozinho, mas tantas vezes parece que sim e não há tristeza maior no mundo!
Eu que por ser eu por tanto tempo ainda erro ao tentar equilibrar o vós e o nós.
Eu cujo eu só tem razão no tu.
Eu que ao teu lado projeto e durmo à solta.
Eu que de ti careço e a ti ofereço.
Eu que te amo. Muito!!!
Eu: pronome demonstrativo, segunda pessoa, infinito, aditivo. Teu objeto direto. Teu complemento nominal.

HUDSON ANDRADE
11 de agosto de 2010 AD
9h07

quinta-feira, julho 01, 2010

EU 25



Para Rodrigo. Um Eu com nome.

“Me atirava do alto na certeza que alguém me segurava as mãos não me deixando cair. Era lindo, mas eu morria de medo. Tinha medo de tudo quase: cinema, parque de diversão, de circo, ciganos... aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo: do que não ficava pra sempre.”
(Era uma vez. Antonio Bivar)


Eu sempre fui muito eu. Não desses eus absolutamente egocêntricos, mas o suficiente para garantir queixas e angariar desarmonias.
Podia passar dias sem que ouvissem minha voz; entrava e saía de casa como uma sombra, comia quieto, desligava o celular, deletava e-mails e eu juro, sendo totalmente sincero que eu não me via assim. Achava tudo normal. Não via que me fechava, cobrava sumiços como se eu mesmo não guardasse a distância confortável do desapego que eu queria por medo de sofrer-perder-morrer (não é tudo a mesma coisa?!).
Cultivei amizades sinceras, sim. Muitas, valiosas, que agora vejo não me deixaram afundar quando eu me tornei amargo de uma amargura vazia disfarçada em riso, gozo e festa.
Mas nem sempre foi assim. Houve um alguém que me tocou a mão. Tocou, mas não entrelaçou. E quando a tempestade rugiu sobre nossas cabeças eu me vi sozinho, iluminado apenas pelos relâmpagos. Isso justifica? Desculpa? Talvez não, mas libera a cabeça do remorso.
A cabeça. O coração, nunca!

Eu sempre fui muito eu. Não desses eus absolutamente egocêntricos, mas o suficiente...
Mas então no meio do vendaval que anunciava uma nova tempestade tu me apareceste e perguntaste se eu seguraria a tua mão. “Posso segurar!”, respondi, e teus dedos cruzaram nos meus, hera, cipó, pé de maracujá. Delicadeza.
E o vento como o sopro de um deus irado levantou a poeira da Terra e tudo o que era claro e justo encheu-se de ciscos; os relâmpagos caiam tão perto que sentíamos o seu calor, a chuva urrava em nossos ouvidos mentiras, dúvidas, desencontros. E fez frio e ficou escuro e num último e desesperado gesto um trovão ensurdecedor pareceu gritar: “Larga!”
Não larguei. Hera, cipó, pé de maracujá.
O ar se encheu de um cheiro molhado, eletricidade, calor e luz. Um mundo lavado e novo se estendeu em todas as direções. Eu me sentia seguro e sem medo e feliz.
Sorriste um riso de guizos e teus olhos castanhos piscaram: âmbar, canela, turmalina.
“Vem!”, disseste.
Fui.


HUDSON ANDRADE
01.07.2010 AD
10H22

segunda-feira, junho 14, 2010

EU 24



“Então me abraça forte e diz mais uma vez que já estamos...”
(Legião Urbana)


Era uma solidão escura e pegajosa e cheirando a detergente.
Eu caminhava entre as cadeiras ocupadas – não todas, algumas – por bonecos. Fantoches de pano recheados de palha seca. Nos rostos uma expressão construída de felicidade.
Eu sentia que havia mais alguém ali. Alguns. Sabia pelos gemidos e por um movimento furtivo. E sempre que eu me virava na direção do movimento acordava sobressaltado.
Dentro do peito uma sensação de vazio grande, feito buraco cavado sem cuidado. Doía o corpo todo, a respiração curta.
“Deus!”, eu pensava. “O que isso quer dizer?”. Há quase dois meses eu tinha o mesmo sonho. Começava cedo, acordado. A sensação de buraco no peito dava uma pontada por qualquer coisa: um casal de amigos queridos convidava pra uma visita, um amigo chegava de viagem, a mocinha da novela finalmente era beijada, “não toque essa música que eu não posso ouvir...” cantava o Odair José. Odair José?! Mesmo?! Daí pra pior. O dia se arrastava, eu tinha muita sede, a boca amargava sem que eu comesse nada num fastio de dar pena. Irritado, distante, sonolento, vazio, vazio. E conforme a noite chegava ia me dando um medo, uma coisa ruim, e era dormir, sonhava.
“Era uma solidão escura e pegajosa e cheirando a detergente...”
Então um dia eu olhei na direção do que se mexia e não acordei. Eu tinha passado pelas cadeiras e visto os fantoches, mas voltara rápido a tempo de vê-lo, não um boneco, gente, homem como eu. Voltei e olhei pra ele e ele me olhou e eu, devagar, me aproximei e perguntei se podia sentar do seu lado. “Claro!”. Ninguém falava nada e eu só ouvia os gemidos. Eu e ele olhávamos para frente e não falávamos num receio de visagem em noite sem lua. Foi quando eu me virei e precisava ter certeza e levando a mão esquerda toquei seu peito. Era quente e batia acelerado e ele me olhava tão fundo nos olhos que parecia forçar uma porta trancada aqui dentro de ferrolhos tão antigos e tão enferrujados que o trinco abriu e as folhas se escancararam par em par num som apavorante que doeu a cabeça e minha mão aquecida espalhava aquele calor pelo braço e peito, cabeça, tronco, pernas e doía e a vista escurecia e o ar não passava na garganta e eu senti que ia desmaiar e lutava contra isso porque me parecia que eu passaria do sonho à morte e eu comecei a chorar alto e pedir socorro e fui desfalecendo e então ouvi: “Abra os olhos, respira, fica conosco!”.
Abri os olhos e me vi num círculo onde todo mundo me olhava com carinho. “Ainda queres isso aí dentro?” um outro homem perguntava, a destra no meu peito. “Não!” eu respondi. “Então tira! Deixa sair!” ele me disse. Olhei o meu peito arfante que parecia avermelhado, toquei-o de leve e olhei o meu parceiro. Parceiro?! Sim, era isso o que ele parecia agora, que me disse “Vai!” com um leve acento de cabeça. Minha mão sobre o peito foi se abrindo e entre os dedos como que uma teia e eu fui puxando aquilo e com a outra mão e puxando, mais, metros, viscoso, frio e então parei. Se eu terminasse de puxar, não arrancaria também meu coração? “Não vais morrer!”, ele disse, o segundo homem. “Eu estou aqui!” me dizia o companheiro do fundo dos seus olhos castanhos.
E foi só mais um puxão. Decidido, brusco, algo calculado.

Acordei devagar, vindo do sono pra luz do dia nascendo num suspiro de corpo largado. As costas dele contra o meu peito e um cheiro bom de vinho e pimenta.
Sorri largo e quieto pra que ele não acordasse e me deixei ficar.

HUDSON ANDRADE
14 de junho de 2010
9h31


Nota: A referência é da canção Não Toque essa Música, de Ray Douglas. Eu não tinha como saber!

quarta-feira, junho 02, 2010

COMO É QUE SE FAZ A HISTÓRIA DE UMA VONTADE*

Texto escrito para o I SEMINÁRIO DE DRAMATURGIA AMAZÔNIDA, promovido pela Escola de Teatro e Dança da UFPA, de 24 a 26 de maio de 2010. Belém, Pará, que homenageou o dramaturgo paraense Nazareno Tourinho, autor de obras como Nó de Quatro Pernas, Fogo Cruel em Lua de Mel e Severa Romana.

Quando eu era aluno da Escola de Teatro em 98 escrevi uma peça. O tema: as drogas. Pedi que a Wlad (Lima) lesse e durante uns dias eu a rondava pelos corredores: “E aí, já leste?” até que um dia ela disse “Senta aí! Teu texto é uma merda!”. E pontuou: “Não tem conflito, tem respostas demais, ninguém gosta de levar tapa na cara.”. Daí pra concluir o curso de Teoria do Teatro, também com a Wlad, eu precisava escrever um artigo sobre a minha relação com o teatro. Na primeira revisão ela torceu a cara e fez suas observações. Então ela é que ficava pelos corredores: “Já mudaste aquele texto?”
Pela primeira vez eu rasguei alguma coisa que eu tinha escrito. Recomecei do zero, por um caminho completamente diferente, e o resultado foi satisfatório. Pelo menos é o que mostra a nota!
A grande lição que eu tirei daí é que a teoria é muito importante, as citações dos grandes pensadores, mas vale muito mais o que eu quero dizer, colocar-me na escrita.
Essa passou a ser a premissa pra minha dramaturgia e escritos em geral: o que eu quero dizer, ou o que querem que eu diga. Até aí nenhum novidade!
Pra começar a escrever eu leio muito: artigos de jornais, revistas, internet, livros, teses, quadrinhos, a Bíblia; converso com pessoas, ouço música, vejo filmes. Seleciono o que eu quero e pergunto: e eu com isso? Tem um trecho de O Glorioso Auto do Nascimento do Cristo-Rei que é uma citação de Ezequiel que eu vi no Pulp Fiction do Quentin Tarantino e que pareceu perfeita pra uma fala da Maria:

O justo tem seu caminho
De iniqüidades cercado,
Mas o que ampara o fraco
É por Deus abençoado.

Proteger os oprimidos,
E os perdidos resgatar
Aos retos caminhos do Pai
A todos encaminhar.


E no mesmo texto o monólogo de Jesus é um resumo do Evangelho de Lucas e de Mateus; O Uirapuru) – premiado pela FUNARTE em 2003 – nasceu de um levantamento de trava-línguas, citações, provérbios e parlendas, que eu fiz pra um texto que o Adriano nem escreveu.

TURISTA
...eu vi!!! Eu vi!!!
Um ninho de mafagafas com seis mafagafinhos!!!
E tinha também magafaças, maçagafas, maçafinhos, mafafagos, magaçafas, maçafagos, magafinhos. Isso além dos magafafos e dos magafafinhos.


Meu próximo trabalho, Francisco, está começando de dois pontos de vista completamente diferentes: o livro de um espírita brasileiro e outro, de um grego ateu. Essa disparidade me parece bem interessante pra nortear a palavra-chave escolhida para o que eu quero dizer.
Então eu estabeleço um título. Um professor da universidade me dizia que o título é o menor resumo de uma obra e que eu não poderia tê-lo se não tivesse o trabalho pronto. Só que eu penso diferente. O título é realmente o menor resumo da obra, mas determiná-lo estabelece o que eu quero dizer e não o que eu disse, ou diria.
Sento e escrevo e de uns tempos pra cá primeiro à mão, riscando e rasgando, pra só depois digitar. Esse negócio de computador vicia e minha caligrafia estava ficando uma droga.
Escrevo a primeira e a última cena. Sabendo como começa e como termina fica fácil escolher o recheio. Isso eu trouxe do palco. O personagem entra em cena vindo de algum lugar e indo pra algum lugar. Isso é determinante para a sua ação naquela cena: motivação. Todo o seu estado emocional, psicológico e mesmo físico depende disso. O mesmo eu aplico na minha dramaturgia.
Reviso mil vezes e chega uma hora que eu tenho que parar de revisar, ou acabo escrevendo outra peça. Eu posso odiar um texto e engavetá-lo, ou queimá-lo pra que ele não fique me fazendo visagens; reescrevo cenas, corrijo coisas. O Glorioso Auto, premiado pela FUNARTE em 2004, foi relido várias vezes pra que todos os versos das suas trovas tivessem o mesmo tamanho. Eventualmente eu peço que algumas pessoas leiam meus textos e opinem e se for o caso, acato suas idéias e opiniões porque acredito que elas também queiram dizer algo.
Pensando na palestra do Sérgio de Carvalho** admito que gosto do drama, da narrativa, do conflito interpessoal. Gosto de linearidade, alguma concisão, poesia e imagens. Escrevo criando imagens. Kojiki, uma peça ainda inédita começou por causa de uma frase de Relicário, do Nando Reis: “Milhões de vasos sem nenhuma flor.” Essa imagem disparou o texto. Divirto-me tentando imaginar como será que aquele vestido vermelho, aquela rua de asfalto esburacado, aquele porão escuro vai aparecer na cabeça de quem ler meu trabalho; e eventualmente de um diretor que queira montar aquele texto, mesmo que ele negue todas as minhas indicações visuais e rubricas. Muito tempo atrás um escultor perguntou se não podia transformar meus contos em pequenas estátuas. Claro que eu topei. Nunca deu certo! Tem outra proposta de quadrinizar O Uirapuru. Falta a grana. E um conto virou um curta da Abuso Produções – Um Dia Perfeito – que pode ser acessado pelo minha página no Orkut.
Quando eu comecei o meu blog, o Cúria d´Arte (http://curiadarte.blogspot.com/) o objetivo primeiro era – e continua sendo – treinar a minha escrita. São os contos da série Eu, opiniões pessoais sobre todas as coisas em Brocardos e crítica. Assisto a um espetáculo, um filme, uma série e posto uma crítica. Quem me provocou nisso foi um amigo com quem eu ia ao cinema e quando saíamos da sessão, conversando sobre o filme, ele me achava um chato porque eu ficava falando que o filme era bom por isso, ruim por aquilo, que o roteiro tinha furo, que o figurino era bacanérrimo, que a atriz tinha inflexões de uma dobradiça enferrujada. Ele defendia ir ao cinema, desligar o cérebro e curtir a película. Eu dizia que isso era impossível e só o fato de ele dizer gostei-não gostei já era prova disso. Escrevo essas críticas sem pretensões. São críticas porque eu estabeleço um juízo de valores, opino pelo meu conhecimento e experiência (quaisquer que sejam eles!), dou sugestões. Faço isso porque não existe uma crítica em Belém e eu gostaria de saber o que se pensa sobre o que se faz aqui, sobretudo o meu próprio trabalho. Sem um retorno a nossa vaidade pode achar que está tudo bem e cristalizar num formato equivocado, ou muito bom, mas que sempre pode evoluir.
Gostaria de destacar dois momentos muito importantes da minha dramaturgia, porque refletem a confiança que outras pessoas têm no meu trabalho: o texto de No Olho da Rua, dirigido pelo Miguel Santa Brígida para a Companhia Brasileira de Cortejos, e Deus Ex Machina, minha última peça. No Olho da Rua tem dois textos, um masculino e outro feminino e foram escritos de forma bem diversa. Para as atrizes eu pedi uma música que as tivesse marcado emocionalmente e delas pincei coisas e fiz uma colagem que se encaixasse na proposta de encenação – espetáculo para a rua, a prevalência do corpo nos trabalhos do Santa Brígida, etc:

1.Jurei jamais prender-me por amor
2.Quem acreditou no amor, no sorriso e na flor
então sonhou, sonhou, e perdeu a paz, o amor, o sorriso e a flor
quem chorou, chorou, e tanto que o seu pranto já secou
pois a própria dor revelou o caminho do amor
e a tristeza acabou.
3. Como te contar que esse amor foi tanto
e no entanto... eu só sei dizer
vem, nem que seja só pra dizer adeus.
4. De repente em minha vida
estes festejos, essa emoção
tanto azul, tanta luz
é demais pro meu coração.


O masculino eu entrevistei homens os mais diversos e perguntava: O que um homem gosta? O que um homem quer? O que um homem é? Pá-pum. Sem pensar muito. Pergunta e resposta. Disso surgiu:

1 – Todo homem é...
2 – Seu!
3 – A viga da casa...
1 – Areia das dunas...
2 – Seu!
3 – A carta de despedida...
1 – O começo, o meio...
2 – e o termo...
3 – de toda vida!
2 – Meu!
1 – As monções, as ressacas.
3 – A doença, a injeção.
1 – A secura do agreste.
2 – Ipê, aroeira, jacarandá.
3 – A fechadura das portas...
1 – Os passos nas horas mortas...
2 – O pai, o avô, o irmão...
3 – Filho da puta!!!
2 – Seu!
1 – Pra toda hora.
2 – Pau!
3 – Pra toda obra.
2 – Seu!


A idéia para ambos os textos era: quem os escutar precisa se reconhecer, por isso o texto feminino é tão descaradamente copiado e colado. A criatura tinha que dizer: eu sei o que é isso (porque ela também já teve uma música preferida por causa de alguém. Quem não teve, ou tem?). Deus ex Machina é a segunda ação do projeto A Casa da Atriz, um monólogo para duas pessoas que surgiu de duas semanas de conversas com os atores Bill Aguiar e Aílson Braga, com o diretor Adriano Barroso e com a leitura de milhares de coisas tão disparatadas quanto Artaud e Cecília Meireles. A idéia é brincar com o ofício do ator e eu retomei a colagem, utilizando citações e conceitos cênicos pra criar um homem que mistura a sua vida em cena com a vida real. É importante citar o Millôr Fernandes e dizer que quando se faz uma colagem isso só pode dar certo se o autor tiver segurança do que ele quer. Não pode simplesmente ficar pegando frases e misturando. Tem que fazer sentido e tem que ter identidade própria. Sua obra O Homem do Princípio ao Fim, é, segundo ele, 80 por cento autoral. Deus ex Machina é, digamos. 60 por certo.

Se alguém me perguntar qual é minha profissão eu não titubeio: Ator. Sou apenas um homem de teatro. Sempre fui e sempre serei um homem de teatro. Flávio Rangel e Millôr Fernandes dizem isso em Liberdade, Liberdade, citando Louis Jouvet e eu os cito em Deus ex Machina. Esse é o meu ofício. Mas escrever tem uma magia toda especial, porque vai além do que eu posso fazer no palco. Uma mesma peça de teatro pode ser uma tragédia, um musical, kabuki; pode ser representada por atores, bailarinos, clowns. Essa imensidão de possibilidades é absolutamente fascinante e exige ao mesmo tempo um desprendimento humilde e respeitoso para ver uma cria sua tornada outra coisa e, quem sabe – por que não? – até melhor que o original. Não vou deixar de subir aos palcos, mas vou cada vez mais me enfiando por trás dele. Sempre vão precisar de um autor. Mesmo os que negam o texto formal jamais podem prescindir de um roteiro e a palavra vai estar ali, de algum jeito.
Termino com as palavras da Lygia Bojunga em A Troca e a Tarefa. Escrever é como ressuscitar e eu vou continuar escrevendo, se essa é a minha paz!

(*) Referência ao texto A Troca e a Tarefa, de Lygia Bojunga, sobre a vida de uma escritora.
(**) Em 24 de maio de 2010, na abertura do seminário.


HUDSON ANDRADE
25.05.2010 AD
16H17

WE ARE FAMILY


Alguns dias após alunos da faculdade de farmácia da USP trocarem ingressos de festa por agressões a homossexuais, de outros alunos da mesma instituição promoverem um beijaço de protesto, da revista Veja estampar na capa matéria sobre homossexualidade entre adolescentes (que eu não cheguei a ler, mas que um amigo militante gay disse ser pavorosa!), da lei que criminaliza a homofobia ser votada, dois programas da Rede Globo têm a homossexualidade como pauta: A Vida Alheia e Profissão Repórter. Claro que eu lamentei profundamente o ato dos alunos daquela academia; claro que o beijaço é daquele tipo de protesto que vem e passe sem conseqüências e uma parte dos que protestam o fazem por bandalha. Claro que não precisaríamos de leis contra homofobia, pedofilia, discriminação racial e violência contra a mulher se o Brasil e as famílias privilegiassem a educação e, moralmente, o respeito fosse presença nas relações humanas. Mas tudo bem. O que não se aprende pelo amor, se aprende pela dor.
A Vida Alheia faz parte da nova programação da emissora. Simpático, assim como Separação e o ótimo Globo Mar – muito além de água e peixe! – e o esteriotipado, barulhento e irritante S. O. S. Emergência: humorístico típico. No programa encabeçado por Marília Pera e Cláudia Jimenez, claramente inspirado no caso Ronaldo Fenômeno, um jogador é flagrado com um travesti num motel e parece estar se divertindo muito. Matéria de capa, o feitiço vira contra o feiticeiro e o que deveria ser um escândalo avassalador se torna mote para protestos contra a imprensa ruim e a homofobia, obrigando a revista a uma reviravolta. Cara limpa, o jogador vai à público e argumentando maioridade, responsabilidade, a consciência e boa execução de seus deveres, afirma satisfazer seus desejos sem que isso prejudique ninguém. “Todos deveriam satisfazer seus desejos”, ele afirma. Na vida real, nesse Brasil preconceituoso e machista esse rapaz nunca, jamais, em tempo algum iria declarar tais termos em cadeia nacional, sem perder a vaga, contrato e carreira. Talvez ele posasse para uma revista gay, talvez ele fosse entrevistado numa tarde dessas, mas depois exílio social e ostracismo. Com o jargão “O que eu faço também é amor” A Vida Alheia abraçou a causa gay de forma algo romântica, asséptica e rasa, como convém à Globo.
Profissão Repórter estreou no ano passado e foi gratamente mantido na grade de programação, assim como as novas temporadas de A Grande Família e Força Tarefa, além do Casseta e Planeta Urgente, o que demonstra que não é qualidade e bom gosto que norteiam essas decisões.
A proposta de Caco Barcelos é usar o dinamismo e o entusiasmo de repórteres em início de carreira para mostrar os bastidores da notícia, dividido-os em diferentes focos de um mesmo tema, entremeando com suas considerações experientes: aula de jornalismo desses programas muito bons que são muito curtos e exibidos muito tarde, muito cedo, ou todas essas coisas.
Na edição de 10 de maio, a homossexualidade entre os jovens. Conflitos, medos, anseios, grandes vitórias e esparsas alegrias. Num programa emocionante destaco o jovem que, nas sombras, fala que se pudesse escolher, não seria gay. “É sofrimento demais!” e emendou que não tinha contado aos pais e pensava jamais contaria. “Pra onde eu iria?”, ele pergunta, temendo represálias. Em outra entrevista a mãe que participa de um grupo de apoio a pais com filhos homossexuais indica seu grande dilema: “Meu filho tem excelentes qualidade, mas é gay!” (negrito nosso). É a mulher que se divide entre o amor de mãe que alguém disse precisar ser irrestrito e as expectativas que são dela e da sociedade, mas não do filho. “Amas oposto a mim. Por conseguinte chamas amor aquilo que eu não chamo”, diz o poeta Augusto dos Anjos. Se nós e os outros não nos exigíssemos tanto, esta mulher perceberia que a felicidade do filho (de todo mundo) atende protocolos íntimos, que ela ajudou a formar; que o amor entre pessoas do mesmo sexo – enquanto relacionamento afetivo – pode ser moralmente questionável, mas isso depende de com que valores tal fato é confrontado e que ele faz parte de um aprendizado mais amplo do que é amorosidade para comigo e para com o outro; e que ela pode amar o filho, sim, mas que também pode se decepcionar, entristecer, duvidar. O sofrimento vem do fato de que ela se vê preconceituosa, mas o alvo é o próprio sangue. Ok. Respire isso. Confronte seus preconceitos e lute contra eles por intoleráveis, mas um passo de cada vez e persistentemente. Sem culpa!
Mas o que me emocionou mesmo foi o jovem que aos 16 anos declara sua homossexualidade. “Não dava mais!”, ele afirmou. Criou-se entre ele e a família um abismo. O pai disse que seu comportamento era asqueroso. O irmão mais velho agrediu o namorado e a mãe, passivamente, não conseguia administrar a situação. Num desses dias de almoço de família o rapaz levou o parceiro até a porta de casa e pediu pra entrar. “Não quero ficar sem ele, mas também não posso ficar sem vocês!”. O pai, maior empecilho, permitiu que eles entrassem e desde então se iniciou uma convivência cheia de cuidados, difícil de conquistar – os pais do jovem também fazem parte daquele grupo de terapia –, mas que caminha a passos largos.
“É meu filho!”, “É minha filha!”, “... e eu o amo...”. Essas a frases mais recorrentes.
Necessário observar que devemos sim amar e amar incondicionalmente, mas é preciso estar bem consigo para estar bem com o outro. Esse processo começa conosco, por nos aceitarmos e para nos aceitarmos é preciso que nos conheçamos e para nos isso muitas vezes enfrentaremos nossos monstros internos. Identificando-os é preciso mudá-los. Para tanto é preciso arriscar, o que exige coragem de sairmos de nossas zonas de conforto e vontade de aprender. Isso pode ser muito duro, mas não é impossível e os resultados pagam juros pra vida toda, em todos os seus aspectos.

Meu amigo militante disse que o programa esqueceu todos os que levaram pedrada pra que chegássemos a esse mínimo de consciência; que as duas mulheres da reportagem não podem registrar seus filhos gêmeos como filhos biológicos e etc. ponderamos – eu e outros amigos, inclusive héteros – da importância de também veicularmos o que é positivo num mundo viciado no personalismo e no negativismo; que os fatos devem ser encarados sem romantismos, mas coerentemente e de peito aberto pra que a sociedade sinta que tais fatos existem e que para elem de fatos há pessoas. Gado a gente marca, mas com gente é diferente, não é assim que canta o Zé Ramalho? Não cabemos num rótulo. Temos necessidade de acolhimento, afeto, compreensão. Devemos ser íntegros.
Independente de ser homossexual defendo o programa do Barcelos não com um libelo à homossexualidade, mas por nos instigar sobre o assunto; não tomar partido, mas criar consciência; não se violentar e engolir o que parece insólito, mas desenvolver a tolerância e o respeito. Não amas porque se deve amar, mas amar porque amor é da vida e sem amor, nós, eles, todos, não temos sentido enquanto humanos, não temos paz e, simplesmente, desaparecemos.


HUDSON ANDRADE
14.05.2010
12h00

sábado, maio 08, 2010

PONTA DE LANÇA



Uma idéia ganha corpo. Corpo dilatado. Corpo santo. Rodrigo Braga pensou o novo espetáculo da Companhia de Teatro Madalenas em 2006 numa oficina de performance da Wlad Lima, no IAP. Então nem era espetáculo. Era algo pra si, pra estudar e construir.
O indutor foi São Jorge, escolhido não por devoção, mas por simpatia com a vida, a peleja, a ideologia mesma do soldado romano que pondo sua fé acima das obrigações militares é morto e assim, martirizado, é abraçado pelo povo como santo. Jorge da Capadócia, São Jorge, Ogun nos terreiros da crença afro, o vencedor do dragão – um monstro sob medida que habita as sombras do nosso imaginário, a lua cheia, burocráticos copinhos de café. São Jorge, guerreiro cujas histórias e mitos foram decodificados e ressignificados na pessoa que responde a impulsos, nos ritos da umbanda, no ritmo dos atabaques, no azul das guias.
Durante um ano Rodrigo e Leonel Ferreira, parceiro de grupo e diretor do espetáculo construíram Corpo Santo, parando apenas quando o ator foi para Campinas (SP) para a oficina do LUME, de onde ele voltou cheio de novas idéias e um corpo completamente alterado. Meio que recomeçar, meio que reconstruir. Tantas informações acabam por se confundir em cena. O gestual de um estado vazando para outro. Matrizes não devidamente orgânicas. Esse é um processo que leva tempo e exige repetição. Apesar de não comprometer o resultado essa dança pessoal precisa ser aprimorada enquanto objetivo do próprio ator, para além desse trabalho.
O texto – muito bom! –, segundo Leonel, foi um presente da Wlad Lima que a companhia usou como base da sua dramaturgia própria que não põe na palavra o centro da encenação. Texto, imagens corporais, música, formam o tripé sobre o qual se assenta Corpo Santo. As falas em falsete prejudicam algumas terminações de frases exigindo de Rodrigo que ele articule devidamente as palavras, projete a voz e garanta um,a boa respiração. Algumas cenas são feitas no que Viola Spolin chama de blablação, uma linguagem estranha, desarticulada, que por si não significa nada, mas que somada ao corpo ganha largos horizontes de embates, oceanos e, claro, a luta contra o dragão. Incomoda particularmente a mim uma grande tatuagem que, de perto, revela o Santo Guerreiro e seu inimigo. Há uma proposta pensada pelo Aníbal Pacha, bonequeiro, de animação dessa imagem por movimentos específicos do tronco do ator. No entanto é impossível não ver o desenho que em muitos momentos rouba o olhar do espectador da/na cena que se desenrola. A tatuagem precisará ser administrada em outros momentos, outros espetáculos, o que poderia levantar a questão se um ator/atriz deve/pode ter o corpo assim, marcado.
A trilha sonora de Kleber Benigno, o Paturi, utiliza percussão e canções de louvor a Ogun, executadas ao vivo e cantadas por Moahra Fagundes, Érika Nunes e Dina Mamede, trabalho que entrou efetivamente na encenação no último mês antes da estréia. Dina diz se sentir ainda insegura nessa nova proposta, cantar, mas acredita no resultado pela força do conjunto.
Esse um ponto extremamente positivo, o da companhia dar espaço aos seus membros e encampar a idéia de um e fazê-la coletiva. Eu acredito nesse abraçar a idéia alheia e frutificá-la em conjunto como a essência do que chamamos teatro de grupo, amador. Se é a viagem de alguém, uma tragédia grega, um clássico shakesperiano, o que seja. O que importa é dividir funções e acatar tarefas, executando-as com disponibilidade e consciência. O resultado se vê no palco: uníssono, orgânico, para além de genialidade e talento – o que não se questiona aqui por Corpo Santo ser um ótimo espetáculo. Digo isso como quem já viu coisas das quais tirada a plástica, nada mais resta.
E por falar em plástica, salve, Aníbal Pacha! Cenários, figurinos, adereços onde predominam o branco e o azul, impecáveis. Da arena de renda onde se entra com três palmas às lanças suspensas no ar; velas, alguidares, pedras que viram dragão! E mais uma vez a idéia de conjunto por saber-se que Pacha integra efetivamente o processo onde está inserido e se retroalimenta para conceber uma estética que é própria daquele espetáculo porque nasceu dele e para ele e onde tudo e cada coisa tem o seu porquê e a sua intrínseca beleza.
É lamentável que Corpo Santo esteja em cartaz apenas duas semanas. Que retorne logo! E que se mantenham essas boas idéias que corporificam grandes performances. Sequer li o programa antes da apresentação. Não quis criar expectativas e confesso que não sabia o que esperar. Saí do teatro extremamente satisfeito e feliz que minha terra produza trabalhos de qualidade, de gente jovem, pés no chão, à despeito de tão desestimulante realidade cultural.
Rodrigo iê.
Salve, Jorge.
Salve, Madalenas, salve!

FICHA TÉCNICA
Ator: Rodrigo Braga
Direção: Leonel Ferreira
Dramaturgia: Companhia de Teatro Madalenas
Direção musical: Kleber Benigno
Músicos (Percussão e coro): Kleber Benigno (Paturi), Valdeci Justino Silva Jr., Wellerson Casablancas, Wellitton Barreto, Edson (Padre).
Cantoras: Dina Mamede, Érika Nunes e Moahra Fagundes
Concepção e operação de luz: Thiago Ferradaes
Concepção de cenário e figurinos: Aníbal Pacha
Confecção de figurinos: Mariléia Aguiar
Assistência de produção e contra-regragem: Flávio Furtado
Produção e contra-regragem: Tainah Fagundes
Produção gráfica: João Paulo Guimarães
Fotografia: Bob Menezes
Assessoria de imprensa: Carolina Menezes
Realização: Companhia de Teatro Madalenas.

Este projeto foi contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz.

HUDSON ANDRADE
30.04.2010, modificado em 03.05.2010 AD
12h37

segunda-feira, abril 19, 2010

NASCE UM CAPIM



Chico Xavier (Brasil, 2010), o filme dirigido por Daniel Filho a partir do roteiro de Marcel Souto Maior tornou-se um recordista de bilheteria do cinema nacional em sua primeira semana de exibição. Isso não é difícil de entender num país sem religião predominante, ou oficial, mas extremamente religioso e, portanto, espiritualizado; num país que adora reis, rainhas e mitos – e Chico Xavier é um mito desde antes de sua morte; para um povo que adora uma polêmica – e o fenômeno mediúnico dá pano pra manga nesse quesito. Num Brasil que aprecia uma produção artística de qualidade e ela existe, apesar de tanta miséria.
Chico Xavier, o médium, protagonizou situações dignas dos grandes romances: uma existência humilde e sacrificada dedicada aos outros; uma abnegação e paciência imensos diante dos ataques, bajulações, idolatrias e necessidades alheias, uma vida espartana, assexuada, rigidamente disciplinada por um tutor tão amoroso quanto inflexível, Emmanuel, seu guia espiritual. Uma missão que lhe custou a paz, a saúde e por fim, a própria vida.
Chico Xavier, o romance. As Vidas de Chico Xavier* escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior que apresentou (ou reapresentou) ao povo brasileiro um homem, um mito, numa linguagem clara e objetiva, levando o mineiro de Pedro Leopoldo, nascido Francisco Cândido Xavier para além dos círculos espíritas de forma algo massificada. Uma abrangência que eu não identifiquei quando da passagem de Souto Maior por Belém, em novembro de 2009, lançando seu trabalho na Feira do Livro Espírita e palestrando pra um reduzido número de pessoas nos salões da União Espírita Paraense. Agora, por conta do filme, uma enxurrada de publicações estampa novamente o nome do médium mais famoso do Brasil, exigindo cuidado e atenção para bem separar o joio do trigo. O Congresso Espírita Brasileiro, na capital federal, tem como tema Chico Xavier, que completaria 100 anos no último dia 02 de abril. O mineirim de fala mansa e espontânea volta à cena por mãos humanas e encarnadas, já que uma tão esperada mensagem do além ainda não veio. E por que viria?
Chico Xavier, o filme, tem uma direção contida. Nada de ousadias. Mostra o médium da infância à fase adulta através de lembranças a partir da participação de Xavier no então polêmico e famoso programa Pinga-fogo. A edição é excelente ao colocar situações-chave na história desse homem, mas essa excessiva biografia acaba por arrastar-se em mais da metade do filme, me deixando com uma sensação de o que poderia ainda caber no pouco tempo que restava de exibição. O filme começa se justificando quanto aos recortes feitos e o que realmente importava saber. Talvez desnecessário. Vimos o que deveríamos ver, pontualmente, mas a falta de curvas dramáticas deixam aqueles familiarizados com os fatos com uma sensação de eu-já-sei-isso! e os outros com aquela vontade de algo mais. Não que Daniel Filho precisasse convencer alguém de qualquer coisa. Que bom que não foi esse o caminho. Apenas precisava ter se arriscado mais e havia espaço para isso antes de cair no piegas e no apelo emocional barata. Tanto verdade que a cena em que Chico narra sua aventura no vôo que o levou a São Paulo é muito mais divertida no original apresentado nos créditos que a sua própria dramatização. As soluções cênicas do filme para as questões espirituais são ótimas. Ninguém vê, ou ouve os espíritos e isso nos coloca em igualdade com os que duvidavam de Chico e quando eles, os espíritos, aparecem – a mão do médium, D. Maria João de Deus (Letícia Sabatella), não há transparências, fumacinhas, luzes. Natural como de fato é. Exceção apenas para a primeira aparição de Emmanuel. A câmera em movimento descendente e o som de asas foi um pouco demais! A trilha de Ediberto Gismonte acompanha o filme em sua velocidade de cruzeiro, sutil e um tanto melancólica.

A emoção e o grande mérito do filme está na constelação global que faz de Chico Xavier um filme de sorrisos, suspiros e lágrimas econômicas, mas sinceras. Dividem as vidas do médium Matheus Costa (infância), Ângelo Antonio (juventude) e Nelson Xavier (maturidade). Excelentes caracterizações, interpretações precisas. Segurança e tranqüilidade de quem sabe o tamanho da responsabilidade que tem nas mãos e a consciência do seu talento e capacidade. Paulo Goulart é Almir Guimarães, o apresentado do Pinga-fogo. Luís Melo, Giulia Gan, Giovanna Antonelli, Pedro Paulo Rangel (emocionante!), Ana Rosa, Cássio Gamos Mendes, Cássia Kiss e outros tantos, em maiores, ou menores apresentações, dão um brilho todo especial ao filme. Destaque ainda para Cristiane Torloni e Tony Ramos, que paralela a história de vida de Chico narram o incidente histórico em que a mediunidade foi aceita por um juiz para, oficialmente, inocentar um réu de um crime de homicídio. Novamente aqui não há resposta se o fenômeno é real, ou não. O que importa é a credibilidade de alguém que antes de ser médium é um ser humano de valores racionalmente inquestionáveis e o bom senso dos envolvidos no caso: jurista e, principalmente, os pais dos jovens protagonistas do drama.

Para mim a seqüência mais emocionante de todo o filme é exatamente aquela em que o personagem de Tony Ramos, sem abandonar suas convicções, mas receptivo e consolado, divide com a esposa (Torloni) a leitura de uma carta psicografada por Chico. Nessa seqüência está o grande mérito do médium mineiro: o alívio às dores de quem quer que seja, o ofertar um novo horizonte, a doação sem retribuição. “Eu sou só um carteiro!”, diz o Chico. E também o grande mérito da doutrina defendida por Xavier com a bravura de um mártir: caridade, amor ao próximo, consolação.
Talvez isso tenha feito de Chico Xavier – o filme, o homem – um campeão de bilheteria: o desejo humano e justo de paz, justiça e felicidade para além de qualquer credo, qualquer classe, qualquer filosofia.

(*) As Vidas de Chico Xavier. Marcel Souto Maior, 2ª edição ver. e ampl. – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2003.

HUDSON ANDRADE
08 de abril de 2010
16h40

sábado, abril 17, 2010

VIDA, PAIXÃO, MORTE, RESSURREIÇÃO.




“O objetivo do ator é transmitir suas idéias e sentimentos usando suas próprias emoções (...), sua experiência pessoal de vida (...), sem ocultar nada.” (Antonio Januzelli - Janô)


Vida. 53 anos de idade. Tempo cronológico. Calendário. Um quarto de século de teatro, dentro e fora dos palcos.
Paixão. Pelas filhas gêmeas, pelo marido e parceiro, por essa mesma arte que contaminou todos e fez da própria casa abrigo, ala de ensaios, auditório, teatro.
Morte. Abarcar e ao mesmo tempo esquecer toda uma bagagem pra viver algo novo. Solo, intimidade, numa troca que exigiu confiança, respeito, transpiração e inspiração.
Ressurgir sem ser cinza, mas ser novo, vendo dois meses de trabalho coroado de aplausos e a certeza expressa: Agora eu posso dizer que sou atriz!
Yeyé Porto é dessa geração de atores e atrizes paraenses que tem como integrantes Geraldo Sales, Cacá Carvalho, Cláudio Barradas, Nilza Maria, Zélia Amador, Luis Otávio Barata, entre outros. Nomes que a gente fala com um acento grave na voz. Gente que eu com meus apenas 39 anos de idade e 09 de carreira tive a chance e a honra de conhecer (exceto o Barata). Fui chamado a integrar o projeto A Casa da Atriz pelo Adriano Barroso que dirige o espetáculo A Troca e a Tarefa, que inaugura oficialmente a residência dos Porto como espaço cênico. Integro-me como ferramenta, como elemento, somando o que eu sei – porque há o que eu saiba – e o que me falta – porque há muito disso – e acreditando em fazer teatro.
Após a estréia do espetáculo a comoção da equipe era geral. “É isso!”, o Barroso dizia, olhos brilhando. “É isso!”, concordávamos.
Fazer teatro é pra todo mundo, mas não é pra qualquer um. Toda pessoa pode subir ao palco, escrever peças, conceber figurinos, cenários, adereços; iluminar, compor trilhas e organizar as apresentações. Mas não é qualquer pessoa que se entrega, que se joga, que acredita; que sente uma cuíra entrando por trás, subindo pela espinha e desarrumando a cabeça. Talvez por isso Dionísio, o rubicundo deus da embriaguez e do delírio místico, seja o patrono do teatro. Teatro é uma experiência mística, não no contexto religioso, mas no mais pleno sentido transcendental.
E Yeyé Porto e sua equipe – minha equipe! – transcende o texto de Lygia Bojunga; dá a ele que é um texto sobre escrever uma expressão cênica; dá a ele que fala em transformação um sentido todo pessoal do que seja ser outra coisa, pessoa, vivência.
A encenação aposta na simplicidade e o público (18 pessoas por sessão) entra na sala da casa da atriz com a intimidade e a informalidade de quem visita para um café, efetivamente disponível se se queira!
Aníbal Pacha questionou e instigou a equipe até chegar a um resultado onde cenário e figurino têm o seu porquê.
Sônia Lopes produz um jogo de claro e escuro que é a alma mesma dessa mulher – e a nossa! – de certezas e dúvidas, de medo e tranqüilidade, da alegria de uma festa à sombra do medo e de morrer que é, antes de qualquer coisa, o medo da solidão e do esquecimento. É essa luz também que nos faz renascer em tons de azul, com num sonho bom recheado de lembranças.
O entorno com suas buzinas e vendedores se integra à encenação, mas eu sinto falta de som, não necessariamente música, mas algo que preencha o silêncio constrangedor que precede as revelações. Por não ser um teatro, nosso hall é a calçada. Se chover (Belém, Belém...) existe abrigo e a espera pode ser feita degustando um maravilhoso tacacá, ou outras iguarias.
A Casa da Atriz nasceu da vontade de fazer teatro.
A Troca e a Tarefa nasceu da vontade de fazer teatro. Um teatro pobre defendido por Grotowski de ter, ser e mostrar aquilo que realmente importante à cena, ao público. Pobre de recursos sim, porque quem está ali faz o que faz porque ama o que faz e, sobretudo, sabe o que faz e consegue tirar “faíscas das britas e leite das pedras”. Pobre porque a pirotecnia não interessa e é mesmo desnecessária. Os valores que este projeto e este espetáculo oferecem em troca extrapolam qualquer sentido monetário que, claro, não são dispensados por necessário. É nosso trabalho, afinal. É o fazer teatral que conta aqui e todo aquele que abraçou este ofício deveria ter uma experiência assim. Disciplina, retidão, talento não se aprende em escolas e livros. A teoria todo mundo pode ter, mas teatro é Ser. Isso não é qualquer um que queira ou possa!

SERVIÇO:
A Troca e a Tarefa. Espetáculo inaugural do projeto A Casa da Atriz.
Elenco: Yeyé Porto
Direção: Adriano Barroso
Assistente de direção: Aílson Braga
Iluminação: Sônia Lopes
Cenário e figurino: Aníbal Pacha
Contra-regra: Leoci Medeiros
Produção: Paulo Porto

De sexta à domingo, sempre às 20 horas, nos meses de abril a junho.
Rua Oliveira Belo, nº 95, entre Generalíssimo e D. Romualdo de Seixas.
Ingressos: R$ 20,00
Informações e antecipações de ingressos: 8266 4397 e 8127 6366

HUDSON ANDRADE
16 de abril de 2010
9h45

QUALITAS SP



O Sr. Raposo é um homem, perdão, uma raposa, persuasiva, inteligente, sagaz, persistente, renitente, vaidosa, de emoções contidas – mesmo as justas e verdadeiras. Por trás da fala mansa e da gravata (!) está um animal selvagem com a cabeça no topo das árvores e os pés no fundo de um buraco. O Sr. Raposo é o protagonista de O Fantástico Sr. Raposo (The Fantastic Mr. Fox, EUA, 2009), com roteiro de Noah Baumbach, Wes Anderson e Roald Dahl a partir do original do próprio Dahl, autor de A Fantástica Fábrica de Chocolate, e com direção de Wes Anderson. Feito em animação stop-motion, O Fantástico Sr. Raposo conta com as vozes de George Clooney (Sr. Raposo), Meryl Streep (Sra. Raposo), além de Wally Wolodarsky, Jason Schartzman (Ash), Michael Gambon, Owen Wilson, Bill Murray (Texugo) e Willem Dafoe (Rato)
A trama mostra o Sr. Raposo abandonando a sua vida de raposa ao prometer à Felicity, esposa grávida que não roubaria novamente, assumindo uma vida aparentemente pacata. Sua insatisfação contida talvez seja a causa do relacionamento burocrático com a esposa que pinta em quadros as tempestades que vão dentro dela, e com Ash, o filho infantilizado e rebelde com quem não consegue se entender. Tudo começa a mudar quando o Sr. Raposo decide comprar uma casa-árvore na vizinhança com os humanos. Ao ver-se limite com três homens ricos e poderosos algo dentro dele desperta e com a ajuda do zelador Kylie, a Toupeira, arquiteta o Grande Plano, sua real despedida do seu lado raposa.
Todos os animais do bosque são humanizados, vestem roupas humanas, exercem profissões humanas, mas ainda vivem em tocas e não freqüentam a cidade com seus cachorros ainda cachorros. Ao invadir as propriedades dos fazendeiros Boggins, Bunce e do terrível Sr. Bean, Raposo provoca uma confusão de proporções inimagináveis que o envolvem diretamente, sua família e o delicado equilíbrio entre os homens e os animais, colocando-o em cheque com os seus valores – sobretudo sua vaidade e necessidade de atenção – e exigindo dele uma postura diante da sociedade, da família e de si mesmo.
Bárbara Heliodora diz em seu livro O Teatro Explicado aos Meus Filhos* que a preocupação essencial do teatro são as questões humanas. Ao expandirmos esse conceito para outras formas de arte temos O Fantástico Sr. Raposo discutindo situações extremamente significativas na embalagem cuti-cuti dos bonequinhos que se movem na tela. Não é um filme infantil, mas é um filme para todas as idades. Como é isso?! Diria que é um filme para crianças inteligentes e que possam julgar valores. Quem é mais selvagem? O Sr. Raposo e seus amigos ao assumirem o seu DNA e os seus nomes científicos, ou o autoritário e irascível Sr. Bean? Quais as conseqüências para a Sra. Raposo ao perceber que a vida a qual se acomodou não é assim tão estável e que ela precisa se posicionar diante de um perigo eminente? Como o Sr. Raposo pode resolver os conflitos com o filho, piorado depois da chegada do primo Kristofferson? como acessá-lo? Como dizer que o ama e confia nele? E o Rato, vendendo seus préstimos aos humanos contra seus pares animais, como um autêntico capitão-do-mato? Este não é um filme infantil. Há cenas violentas, diálogos contundentes, debates filosóficos, tudo quebrado e equilibrado por Anderson que com os gracejos dos seus bichinhos fofinhos fala bem fundo em nós.
O único prejuízo de O Fantástico Sr. Raposo não ter ido para o circuito comercial – O Maria Sylvia o exibiu em parceria com a Oi – é que isso reduz consideravelmente o público que pôde desfrutar dessa fabulo bonita por natureza e humana por excelência. Em seus quase uma semana e meia-raposa (mais ou menos 90 minutos humanos) O Fantástico Sr. Raposo é um exercício de lirismo numa animação cada vez mais rara e extremamente bela – ainda mais nesses tempos de filmagem digital, CGI, motion caption, etc. é a prova de que cinema, arte enfim, jamais prescindirá de uma boa história, de alguém que saiba contá-la e do jeito certo de fazê-lo.

HUDSON ANDRADE
07 de abril de 2010
15h29

(*) Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 17

sábado, abril 10, 2010

ÉGUA, PRIMO!



Wlad Lima e Karine Jansen são dessas tias velhas que costuram enormes e aconchegantes colchas de retalhos e nos dão de presente. Essa cara fragmentada e colorida é a marca dos seus trabalhos, seja em Macunaíma – O fim do que não tem fim, no qual eu atuei em 2000, na Escola de Teatro, passando por Amortemor, Paixão Barata e Madalenas, Laquê, Quando a Sorte te Solta um Cisne na Noite, entre tantos, até Brasileiramente, Árabes! que estreou no último dia 31 de março.
Vivi esse processo em que o texto do Mário de Andrade, nossas histórias, sensações físicas, jogos, um-bilhão-quinhentas-e-oitenta-e-quatro-milhões de referências de um-tudo alimentavam elenco e direção na construção do espetáculo. Cada ator/atriz tem sua chance, cada um oferece e recebe, cada um constrói, desconstrói, reconstrói. Às vezes eu ficava no escuro, querendo saber se tinha acertado, errado, qualquer coisa, e elas ali, sugando de mim até o bagaço pra depois devolver reidratado e fresco, com um tempero e um sabor peculiar a cada um: nós, atores, os retalhos. Elas, agulha e linha. E tesoura, se preciso.
O trabalho começou em 2008 com Maridete Daibes, Larissa Latif, Wlad Lima e Karine Jansen a partir de narrativas familiares; um grupo de pesquisadores recolheu cartas de descendentes de libaneses e todo esse material foi decodificado em símbolos. Wlad e Karine são mestras em transformar letras e contos e falas e sentimentos e sensações em símbolos e estes na poesia que preenche o palco. Daí nasceu Brasileiramente, Árabes! a pesquisa e o espetáculo, trazendo a identidade dos descendentes libaneses no Pará, sobretudo em Belém, buscando revelar uma ascendência árabe oculta aos nossos olhos e que faz parte de nossa história individual e coletiva de forma insuspeitada.
O espetáculo de 75 minutos avança em quadros com apresentações genealógicas, relatos pessoais, familiares, históricos, a imigração, os costumes, a culinária, os ditos, a fama de mercadores, a mitologia. Quatro atores descendentes de libaneses nos conduzem nessa viagem quase sinestésica, mas irregular, fruto de diferenças de maturidade cênica – todo ator/atriz tem seu espaço –, seguros pelo conjunto. Parece que aquelas histórias não são deles – de certa forma não! –, mas que precisavam de uma apropriação que tornaria tudo mais crível e emocional. A cenografia e o figurino de Klau Menezes têm a beleza das coisas simples e significantes – ainda que nem tanto para quem assiste –, contida nas cores, étnica e onírica como os personagens de nossos livros infantis. A sonoplastia de Eddie Pereira calcada na tradição árabe dá na gente aquela vontade de sacudir as cadeiras e os ombros (dizque o ECAD apareceu por lá! Essa gente não se manca!) e só peca pela falta comum em nosso teatro que usando música mecânica estanca tudo com um clique seco do pause/stop.
Todos rimos das contas de cabeça feitas para a construção de uma casa, calamos para ouvir as lendas de mercadores e califas, relembramos conflitos sangrentos, saudades. Atrás de mim uma senhora reconhecia sua própria história e comentava, antecipando-se a fala como se conhecesse o roteiro – de alguma forma sim! –; reconhecíamos as lojas e os nomes de família e no ponto de ônibus, muitos minutos depois (muitos mesmo, pois o ônibus demorou pacaraio!) três amigos comparavam os narizes e concluíam: a gente é tudo misturado mesmo!!!
Se Brasileiramente, Árabes! se propõe a revelar (nos), bingo!!!
Cá estamos. Eu desejando tanto ser novamente retalho. Caminhos diversos... Cá estamos, flutuando na fumaça luminosa dos narguilés.
“ASSALAN ALEIKUM”

Brasileiramente, Árabes! é vinculado a pesquisa “Brasileiramente, Árabes! um estudo das práticas performáticas dos descendentes de libaneses na cidade de Belém”.
Equipe de pesquisa: Carlos Vera Cruz, Cleice Maciel, Karla Pessoa, Ives Oliveira, Karine Jansen e Wlad Lima.
As cartas que originaram a dramaturgia estão disponíveis em HTTP://brasileiramentearabe.wordpress.com
SERVIÇO
Brasileiramente, Árabes!
Direção: Karine Jansen e Wlad Lima
Com Natalia Abdul Khalek (Família Abdul Khalek), Dario Jaime (Família Abdon Khalarg), Maridete Daibes (Família Daibes) e Klau Menezes (Família Anaisse).
Teatro Cláudio Barradas (Escola de Teatro e Dança da UFPA. Av. Jerônimo Pimentel, esquina com D. Romualdo de Seixas).
De 31 de março a 11 de abril de 2010, de quarta a domingo, 21 horas.
Ingressos: R$ 20,00 (vinte reais) com meia entrada para quem de direito, incluindo a categoria teatral e descendentes de libaneses, mediante comprovação.
Este projeto tem o patrocínio da Petrobras através da Fundação Nacional de Artes – FUNARTE, Ministério da Cultura.

HUDSON ANDRADE
01 de abril de 2010.
10h53

...E TAMBÉM COM O TEU ESPÍRITO...



“Que padeceu por nós, morreu por nosso amor.”


Todo mundo que trabalha com teatro já ouviu a expressão “teatro de igreja”. Normalmente isso é dito num contexto pejorativo, indicando algo extremamente amador, simplório e conteudista. Amador, sim, afinal quem o pratica não tem como foco salário, sistematização e/ou regulamentação da atividade, foco em artes cênicas. Simplório não significa necessariamente piegas, ou mal feito, ou de mau gosto. Conteudista, talvez. Esta é uma relação séria na relação arte e sociedade: a arte só ser arte se for pura, o que é impossível porque arte e artista estão enraizados num contexto histórico-cultural-social. Por outro lado a chamada “arte engajada” quer tornar o artista a consciência crítica do povo oprimido, sacrificando o trabalho artístico pela “mensagem”. Há que se encontrar um meio termo entre formalismo e conteudismo, de vez que toda arte comunica e toda mensagem precisa de uma embalagem adequada.
Outro ponto são as relações entre religião e arte, aqui especificamente o teatro. Há quem veja esse relacionamento como promissor, outros com desconfiada tolerância, alguns com algum desgosto e mesmo total desprezo. Não dá pra desvincular o que tem origens tão íntimas – dos cultos tribais aos ritos religiosos, passando por Téspis na antiga Grécia, a proibição e a excomunhão pela igreja católica coibindo os despautérios do teatro romano até que essa mesma igreja o resgatasse dos mercados para seus átrios, catequizando através de Mistérios e Paixões.
Vi uma dessas paixões, O Canto da Paixão, de autoria do padre Reginaldo Veloso, encenada na Igreja de Jesus Ressuscitado, com direção do seu pároco, ninguém menos que Cláudio Barradas. O texto extremamente bem escrito, em versos, cantado ao vivo pelo próprio Barradas, narra da entrada de Jesus na Cidade Santa até sua ressurreição. É dividido em quatro blocos que mostram o Jesus histórico, encerrando cada período com uma reflexão da paixão crística em nossa realidade atual. Não há falas para os atores, apenas algumas interferências. O elenco, notadamente jovem, interpreta coro e vários personagens, exceto aquele que faz o Cristo, único a permanecer apenas com um personagem. A encenação é simples, ilustrando os acontecimentos apresentados um a um. O figurino, básico – calças de tactel preto, camisetas brancas, pés descalços, sem maquiagem, faixas de tecido roxo que se alternam em mantos, cintas, chicotes, correntes, romanos, judeus. Exceção novamente ao Cristo, numa túnica branca e manto vermelho sobre um trançado de tecido branco que lhe cobre abaixo da cintura. Nenhum adereço, nem mesmo a própria cruz, representada também por um ator.
Assisti tudo atento e realmente comovido. Ciente de uma cronologia e de seu elenco, Barradas interrompeu duas vezes a encenação, reiniciando e inserindo uma cena esquecida. O que no teatro, digamos, formal, não acontece, com o ator devendo resolver sua cena e dando prosseguimento a trama, aqui atende aos objetivos catequéticos da apresentação; observei que a dramaturgia, em tudo coerente com a doutrina que expressa, não é meramente jornalística e não descamba no pieguismo, sobretudo ao conectar o sofrimento de Jesus ao povo no cenário opressor, corrupto, preconceituoso e intolerante em que vivemos. O tom monocórdico de ladainha, quebrado ao final de cada bloco parecendo querer nos despertar para uma realidade esquecida, ou propositalmente relegada às periferias. O elenco, decididamente, precisa de um corpo de ator. Geralmente frouxo (ou tenso quando e onde não deveria) daria muito mais clareza e força às cenas se os gestos fossem mais limpos, decodificados e precisos, mas isso faz parte daquela sistematização supra-citada e que ainda não está na sua realidade.
Pensei por um momento na Paixão de Cristo, lá em Nova Jerusalém. Ela teria trocado a mensagem, ou a idéia na sua concepção pelo show? Ou tudo sempre fora pensado assim e só aos poucos ganhou a estrutura atual, pirotécnica, com seus atores globais? E quem assiste quer ver seus ídolos, ou relembrar Jesus nessa passagem ímpar da história humana? Ou as duas coisas? De quantas trocas de roupa, cenários e efeitos de luz e som eu preciso para emocionar e comunicar? Uma faixa de malha roxa e um gesto no ar não chegam ao mesmo fim? Aquele é Teatro e esse “teatro de igreja”, no seu conceito pejorativo dito por alguém cheio de empáfia? Muitas outras perguntas poderiam surgir daqui, debates, que passariam mesmo ao largo da equipe da paróquia de Jesus Ressuscitado cujas mãos experientes de um dos maiores artistas desse estado, Cláudio Barradas, criou um espetáculo de uma beleza tão singela quanto marcante. Na sua paixão, tanto o ator era o foco – limpo, trocando personagens e agindo diante da platéia, ciente de suas próprias limitações –, quanto o Evangelho de Jesus, sua morte e ressurreição. É a arte – habilidade, instrumento, agilidade, ofício – ordenando a vida humana por regras e símbolos, contando e emocionando. Adaptando Djavan: arte é assim: invade. E fim!

Participam de O Canto da Paixão: Marcelo Rocha, Pedro, Kátia, Fabrício, Meire, Jhony, Isabel, Cristiano, Radarani, Raimundo, Laiana, Alan, Iranildes, Adriano e Franklin.

HUDSON ANDRADE
29 de março de 2010.
10h19

EU TENHO UM SONHO...



... de que haverá oportunidades para todos, brancos, negros, homens, mulheres, todas as idade e etnias, com respeito a sua cultura e costumes. De que haverá uma chance para alguém – que nem todas a buscam, ou se esforçam para garanti-la – e que esse alguém fará a diferença e a multiplicará. De que haverá sorrisos, inicialmente tímidos e então abertos, francos e haverá paz nos corações.
É com um sorriso quase constante no rosto – alguma lágrima, alguma reflexão – que assisti (mos) Um Sonho Possível (Tha Blind Side, EUA, 2009), filme que deu a Sandra Bullock o Oscar de melhor atriz. O título para nós faz todo o sentido: Michael Oher (Quinto Aaron), negro, sob a tutela do estado depois que a mãe, viciada em crack, perde sua guarda, oriundo de um gueto desconhecido da própria cidade onde está encistado, é acolhido pela família Tuohy que com a paciência de quem “descasca uma cebola, camada por camada”, consegue que ele se torne um super astro do futebol americano, de onde o título original, posição ocupada por Big Mike no time. Nesse ponto eu me calo. Futebol americano é uma das coisas mais estúpidas do planeta (e eu posso falar de cátedra sobre estupidez vivendo num Brasil amoral ao som de tecnomelody) e demonstra bem a inclinação imperialista e belicosa daqueles que o praticam e prestigiam.
Mas voltemos ao filme. É difícil crer que um roteiro tão simples e lacrimosos possa render um bom drama, em se sentido real. E rende! Sandra Bullock no papel de Leigh Anne Tuohy é a locomotiva que puxa toda a trama. Segura, suave, assertiva, com um charme meio cafona de quem veio de origem humilde, cresceu e não esqueceu que ainda há um outro lado na cidade, nas pessoas, na vida. A atriz interpreta o personagem com tranqüilidade e segurança, sem carregar nas tintas, nos maneirismos, contida e luminosa. Um bem merecido prêmio. A Sra. Tuohy, o marido Sean (Tim McGraw) e os filhos Collins (Lily Collins) e o fantástico SJ (Jae Head) acolhem o grandalhão calado e esquivo com uma camisa no corpo e outra num saco plástico sem maiores preocupações. Nesse ponto o filme é feito para agradar: não há um grande conflito até Michael ser confrontado com a possibilidade de que todo aquele investimento não seja desinteressado, o que desaparece depois de um choque com sua realidade original e algumas horas meditando diante da máquina de lavar. Daí voltamos a paz onde ninguém discute as opiniões da persuasiva Leigh Anne Tuohy, onde não se briga, questiona – sejam os filhos, os professores, o treinador – e mesmo a questão racial, apesar de estarmos no Mississipi, se resume a uma meia dúzia de seis xingamentos numa partida de futebol. Aliás, estarmos no Mississipi só aumenta a relevância do feito dos Tuohy que podendo degustar saladas de 18 dólares o prato, investem num desconhecido. E é tocante a cena em que Michael recebe seu quarto. A sinceridade ingênua de quem havia dormido de sofá em sofá toda uma vida comove a mãe adotiva e a platéia. O garoto tirou a sorte grande e soube aproveitá-la porque não tinha o mesmo ânimo dos seus parceiros da periferia, como o jovem Danny, que contaminado por sua des-vida acaba como, acredita-se, devem acabar todos aqueles. E essa diversidade de ânimo se deve a um (pasmem!) conselho materno (não, eu não vou contar qual é!) que se foi eficiente em proteger o menino, produziu um jovem inerme, quase um autista social, o que lhe garantiu sucesso num mundo onde ele tanto poderia encher-se de tola vaidade, ou fugir carregando a prataria.
Apesar de seu caráter folhetinesco Um Sonho Possível é um ótimo filme para ver, rever com a família, discutir seus aspectos sociais; dar gargalhadas e fechar a janela do carro para enxugar, às escondidas, uma furtiva lágrima. E olha que quem diz isso desistiu de À Procura da Felicidade (The Pursuit of Happyness, EUA, 2006) no seu primeiro terço!
Eu tenho o sonho de um filme perfeito! Mas enquanto a perfeição – nosso maior sonho – não vem, que haja outros filmes possíveis de serem vistos com bons amigos, no escurinho do cinema, perto de um final feliz.

HUDSON ANDRADE
25 de março de 2010.
9h58

O MÃO DE VACA



O clown é a exposição do ridículo e das fraquezas de cada um. Logo, ele é um tipo pessoal e único... O clown não representa, ele é – o que faz lembrar os bobos e bufões da Idade Média. Não se trata de um personagem, ou seja, uma entidade externa a nós, mas da ampliação e dilatação dos aspectos ingênuos, puros e humanos (como no clods), portanto ‘estúpidos’, do nosso próprio ser (Burnier, 2001, p. 209).


“Façam versos pr’um palhaço que na vida já foi tudo: foi soldado, carpinteiro, seresteiro e vagabundo...”* e nessa multiplicidade os Palhaços Trovadores fizeram nesses 11 anos de experiência um público cativo, fiel e entusiasmado, apresentando seus espetáculos nos teatros, ruas, escolas, praças e até bares; participaram ainda do Festival de Ópera nas apresentações de de Il Pagliacci e foram nesse 2010 homenageados pela Escola de Samba Bole-bole, do Guamá, cujo enredo foi o campeão do carnaval em Belém. E finalmente depois de 11 anos conseguiram uma sede onde trabalhar e agora pelejam para restaurar o prédio cedido pela Santa Casa de Misericórdia.
Um grupo grande, de aparente pouca rotatividade, coeso, que introduziu na cidade a linguagem dos clowns enquanto teatro – entenda-se, fora do circo. Seus espetáculos costumam ter um tema central desenvolvido em pequenos quadros, exceto suas duas últimas produções, adaptações da obra de Molière (Jean-Baptiste Poquelin, Paris, 15 de janeiro de 1622 – 17 de fevereiro de 1673). de O Doente Imaginário nasceu O Hipocondríaco e de O Avarento, o então em cartaz O Mão de Vaca. Esses dois trabalhos fogem a regra por terem um roteiro mais fixo e linear; os atores representam dois personagens: o seu próprio clown que por sua vez representa o personagem da peça. A estrutura cênica de ambos é igual: toda a trupe em cena, ao fundo, de onde se deslocam para suas ações e onde acontecem (pequenas) interferências. Marcelo Villela e seu clown, Bubutchelho, são os protagonistas desses trabalhos, o cenário é simples e pontual; há música ao vivo, os figurinos são de Aníbal Pacha. As semelhanças acabam aí. Apesar de parecidos em estrutura e encenação, O Mão de Vaca é muito mais ralentado, menos emocional e divertido que seu duplo. Há pequenas variações de elenco nos dois e eles têm, pelas suas próprias características, improvisos e cacos que tanto podem render ótimas sacadas, ou por a perder uma cena. Essa falta de ritmo faz com que os cerca de 90 minutos de encenação pareçam muito mais, causando mesmo um desconforto na platéia. Afirmo isso por ter assistido O Mão de Vaca duas vezes e constatado o que, à primeira vista, poderia ser só um dia ruim. Nesta segunda vez foi pior, mas sejamos francos que parte do problema está em que por ser um espetáculo “de palhaços” acredita-se que seja um espetáculo infantil. Não demorou para que a molecada dormisse, ou pior, ficasse indócil. Outra questão é que essa apresentação no Maria Sylvia Nunes, da Estação das Docas, criou um distancimento nada interessante. O espetáculo pede o público ali do ladinho, interagindo, cúmplice.
É muito bom ver o crescimento de alguns atores – projeção de voz, articulação, jogo –, assim como a necessidade de amadurecimento de outros; a segurança dos mais antigos garantindo que o espetáculo siga seu curso (seja lá de que jeito for). Teatro de grupo, não vou citar nomes nem elogiar, ou admoestar individualmente. Parabenizo todos e peço cuidado a todos. não se sintam satisfeitos nem confortáveis com os resultados obtidos, ou o aplauso efusivo dos fãs de carteirinha. Pode ser mais. Sempre dá.
(*) O Circo. Quarteto em Cy
SERVIÇO: O Mão de Vaca. Adaptação de O Avarento, de Moliere.
Direção: Marton Maués.
Com: Os Palhaços Trovadores.

TÃO EM BREVE QUANTO POSSÍVEL, visite a CASA DO PALHAÇO, Tv. Piedade, esquina com Tv. Tiradentes.

VEJAM TAMBÉM: http://unha-de-fome.spaceblog.com.br

HUDSON ANDRADE
13 de março de 2010.
9h23

segunda-feira, março 22, 2010

A MALDIÇÃO DISSO E DAQUILO



Pessoas, pensem num sábado de madrugada, Sessão Coruja, em exibição Um Corpo que Cai, Psicose, Disque M para Matar, algo assim! Pensem naquelas letras de corte quadrado, sobre fundo branco, parecendo antiquadas já naquela época; pensem num longa comprido, cheio de personagens que gravitam em torno em um protagonista determinado, mas cheio de recalques, mais um anti-herói do que mocinho, que tem lá o seu charme, mas fuma feito um condenado; mulheres bonitas, cheias de classe e charme, movimentando-se languidamente pelas cenas, cheias de personalidade, criando a confusão e a cizânia na mente do dito personagem principal; homens sérios, calados, irônicos, pulando da sombra e voltando rapidamente pra ela, cheios de meias palavras e verdades completas disfarçadas de mentiras, ou meias verdades disfarçadas de dúvidas, ou mentiras absolutas que parecem reais de tão coerentes.
Assim é Ilha do Medo (Shutter Island, EUA, 2009), a nova produção de Martins Scorcese, o diretor ítalo-americano que já nos deu filmes tão diferentes quanto Depois de Horas, Os Bons Companheiros, A Época da Inocência e Gangues de Nova Iorque. Esse cara meio franzino e grisalho, que parece calmo, de fala mansa e que sugere ter um furacão dentro de si, mostra seu lado hitchcoquiano no longa que trás Leonardo di Caprio, Mark Ruffalo, Ben Kinsley e Michelle Willians (a esposinha de Ennis Del Mar em Brockback Mountain – aqui bem mais bonita e igualmente antipática, o personagem, naquela voz de coitadinha e olhos baixos de cachorro que quebrou panela!)
Na ilha Shutter, que abriga o Hospital Psiquiátrico Correcional de Ashecliffe, os ambientes internos são escuros e opressivos; os externos, íngremes e limitantes. Névoa, faróis sem luz, muros grossos, grades, florestas que despencam, cemitérios, tempestades, céus iluminados por relâmpagos, Gustav Mahler. Fechados nela (como o título sugere), o detetive federal Teddy Daniels (Di Caprio) e seu parceiro Chuck Aule (Ruffalo) devem investigar o desaparecimento de uma paciente e, ao mesmo tempo, empreender uma caçada redentorista a um tal Andrew Laedis, o assassino de Dolores (Willians), esposa de Daniels. Mas como diz um paciente ao detetive, ele não passa ali de um rato num labirinto e continuamente é incitado a partir, ou jamais deixará aquela ilha. Obstinado, Daniels insiste em sua cruzada mesmo percebendo que trilha um caminho sem volta.
Os movimentos de câmera, a trilha sonora, a mistura de verdade, alucinação, sonho, desconfiança, tudo nos coloca junto ao atormentado detetive e se ele enlouquecer, enlouquecemos juntos, ou saímos dali e ficamos todos bem. Talvez por isso algumas pessoas tenham saído do cinema (que bom que saíram, porque se tem uma gentalha que eu não tolero em cinemas e teatros é esse pessoalzinho que fica conversando, comentando e tals!); talvez por isso outras tenham saído logo ao final da exibição, ou ao acenderem as luzes. Semblantes carregados, gargantas secas. Ilha do Medo é um ótimo filme, mas não é um filme pra todo mundo, sobretudo praqueles que cinema é a maior diversão. Tão logo eu me livrei do desgraçado que ficava acendendo o celular bem ao meu lado e ignorei a lesa que ficava dizendo pro namoradinho que tinha medinho de escuro e que não gostava de filme assim que ela ficava nervosa (pensa aonde esse truque vai dar!) ficou zuzubem e eu nem senti as duas horas e vinte minutos de projeção. Saí com vontade de voltar e fiquei pensando que se não fosse a falta de grana pro táxi teria sido legal assistir a última sessão e caminhar na penumbra dos corredores vazios do shopping, brincando que os manequins abriam uns olhos vítreos (como o anjo na sepultura da esposa de Louis em Entrevista com o Vampiro) e os seguranças não eram mesmo quem eles pareciam ser. Brincadeira que acabaria logo na calçada, que a realidade dos pontos de ônibus aqui pelos lados da Marambaia são muito mais assustadoras que qualquer filme gótico.

HUDSON ANDRADE
20 de março de 2010.
11h20

OBSCURO REYNO ENCANTADO


Fundo Reyno é um espetáculo difícil!
O trabalho escrito, musicado e dirigido por Walter Freitas estreou no dia 18 de março no Teatro Waldemar Henrique e segue duas semanas de temporada. E por que é difícil?
É difícil porque o enredo da trama até que é simples, mas o desenvolvimento do roteiro é lento e complicado. Até que a gente entenda quem é quem e o que ele está fazendo ali, muito tempo já passou. E o programa – que eu optei por não ler antes – não dá qualquer indicação de pra onde a coisa vai. “Intriga, sexo, feitiço, traição e morte nos rios da Amazônia” é tanta coisa pra dizer e dito como foi pode resultar muito pouco.
Os personagens vão se delineando devagar, confusos, e a proposta brechtiana de estar em cena e trocar de roupa e personagem por não ser mais precisa e assumida nem é só troca de roupa nem cena.
O texto parece ser interessante, mas quer dizer tudo. Não nos sobra espaço pra pensar. Há longas explanações cheias de detalhes e referências parecendo querer evitar que alguém diga “faltou isso, faltou aquilo!”. Por ser em verso as falas precisam ser mais articuladas, projetadas e bem ditas, para que a métrica não caia no ba-ta-ti-nha-quan-do-nas-ce. Essa imprecisão ajudou a tornar ainda mais difícil o entendimento do espetáculo. Um bom trabalho de mesa é imprescindível.
Fundo Reyno tem uma corporeidade frouxa. Trabalhar com objetos invisíveis é criar armadilhas para si – perigosas e risíveis. Os atores não são mímicos e mímica é algo mito mais elaborado e simbólico. Melhor seria codificar os gestos e tornar a encenação corporalmente limpa.
Nos números musicais, o dilema: amplificar os instrumentos de corda e cobrir a voz dos atores, já que nem todos cantavam, ou o faziam bem fraco; não amplificar os instrumentos e fazer seus sons se perderem nas vozes de Mônica Lima e Walter Freitas. Um ponto absolutamente positivo é ter a música ao vivo e executada também pelos atores que, não sendo músicos – a exceção, parece, só o próprio Freitas – carecem de grandes valores musicais. Não estou pedindo virtuosismo. Na minha companhia temos o mesmo problema e basta colocar um caxixi na mão de um ator, ou atriz pra cena virar um caos. Digo que se assuma isso, ou deixe na mão de quem sabe, como temos feito em nossos últimos trabalhos.
A mistura de catolicismo, encantaria, religião afro; a cenografia na entrada que tanto pode ser a sujeira dos personagens quanto um apelo ecológico pelos nossos rios; as ações paralelas, demais, as quase duas horas de ladainha que, ralentadas, parecem muito mais; o calor insuportável e o desconforto do Waldemar Henrique (isso são outros 500!), tudo colabora para tornar Fundo Reyno ainda mais difícil de ser aprecisado. Frente a isso tudo há que se valer da máxima de que, em muitos casos, menos é mais. E isso é pra hodie.
Santo Expedito, ora pro nobis.

SERVIÇO: FUNDO REYNO. Teatro Waldemar Henrique, dias 18 a 21 e 25 a 28 de março de 2010, sempre à 20 horas. Ingressos na bilheteria a R$ 10,00 (com meia).
Música, direção musical, dramaturgia e direção: Walter Freitas.
Cenografia e figurino: Maurício Franco.
Designer de luz: Thiago Ferradaes.
Produção: Cristina Costa.
Elenco: Juliana Medeiros (Pajé Sacaca), Pauli Banhos (viúva Zulmira), Wellingta Macêdo (Nhá Luca / o Bicho), Andréa Rocha (Antero Denizar), Mônica Lima (Bandeireiro), Akel Fares (Rabequeiro) e Walter Freitas (Violeiro).
Projeto agraciado com o Prêmio Miriam Muniz da Fundação Nacional de Artes – FUNARTE, Ministério da Cultura e Governo Federal.

Hudson Andrade
19 de março de 2010
9h28