quinta-feira, julho 01, 2010

EU 25



Para Rodrigo. Um Eu com nome.

“Me atirava do alto na certeza que alguém me segurava as mãos não me deixando cair. Era lindo, mas eu morria de medo. Tinha medo de tudo quase: cinema, parque de diversão, de circo, ciganos... aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo: do que não ficava pra sempre.”
(Era uma vez. Antonio Bivar)


Eu sempre fui muito eu. Não desses eus absolutamente egocêntricos, mas o suficiente para garantir queixas e angariar desarmonias.
Podia passar dias sem que ouvissem minha voz; entrava e saía de casa como uma sombra, comia quieto, desligava o celular, deletava e-mails e eu juro, sendo totalmente sincero que eu não me via assim. Achava tudo normal. Não via que me fechava, cobrava sumiços como se eu mesmo não guardasse a distância confortável do desapego que eu queria por medo de sofrer-perder-morrer (não é tudo a mesma coisa?!).
Cultivei amizades sinceras, sim. Muitas, valiosas, que agora vejo não me deixaram afundar quando eu me tornei amargo de uma amargura vazia disfarçada em riso, gozo e festa.
Mas nem sempre foi assim. Houve um alguém que me tocou a mão. Tocou, mas não entrelaçou. E quando a tempestade rugiu sobre nossas cabeças eu me vi sozinho, iluminado apenas pelos relâmpagos. Isso justifica? Desculpa? Talvez não, mas libera a cabeça do remorso.
A cabeça. O coração, nunca!

Eu sempre fui muito eu. Não desses eus absolutamente egocêntricos, mas o suficiente...
Mas então no meio do vendaval que anunciava uma nova tempestade tu me apareceste e perguntaste se eu seguraria a tua mão. “Posso segurar!”, respondi, e teus dedos cruzaram nos meus, hera, cipó, pé de maracujá. Delicadeza.
E o vento como o sopro de um deus irado levantou a poeira da Terra e tudo o que era claro e justo encheu-se de ciscos; os relâmpagos caiam tão perto que sentíamos o seu calor, a chuva urrava em nossos ouvidos mentiras, dúvidas, desencontros. E fez frio e ficou escuro e num último e desesperado gesto um trovão ensurdecedor pareceu gritar: “Larga!”
Não larguei. Hera, cipó, pé de maracujá.
O ar se encheu de um cheiro molhado, eletricidade, calor e luz. Um mundo lavado e novo se estendeu em todas as direções. Eu me sentia seguro e sem medo e feliz.
Sorriste um riso de guizos e teus olhos castanhos piscaram: âmbar, canela, turmalina.
“Vem!”, disseste.
Fui.


HUDSON ANDRADE
01.07.2010 AD
10H22

2 comentários:

eliana miranda disse...

Intenso!Magnificamente intenso.

Alexandre Jose Christino disse...

Pois ainda q eu mude de endereco e de pais... ainda q o tempo passe...
Ainda q o mundo um dia acabe. Ainda assim levarei comigo excelentes memorias vividas com os meus.
Finalmente te encontrei.... e quanto tempo?
Hj vi na internet algumas das muitas coisas q vc fez nesses anos todos q nao nos vemos.
Como vc esta? Mande-me noticias do mundo de lah. ;-)
Forte abraco a vc e aos seus.