quinta-feira, julho 16, 2009

SEIS SOLILÓQUIOS. O RESTO É SILÊNCIO.



“O grande conflito da série é o de equilibrar integridade artística e bilheteria.
Esse é meu conflito do dia a dia.”
(Fernando Meirelles)


Assim Dante Viana, o personagem de Felipe Camargo em Som & Fúria definiu Hamlet, de William Shakespeare. A série da Globo que entrou em sua segunda semana é um desses produtos primorosos com que a televisão tão raramente nos tem presenteado. Praticamente uma conjunção astral entre a direção de Fernando Meirelles (que também assina o roteiro), o elenco encabeçado por Felipe Camargo e Andréa Beltrão e uma produção afinadíssima. No capítulo de ontem, 15 de julho, dirigido pelo próprio Meireles e Gisele Barroco, encerra-se um primeiro momento em que se apresenta o retorno de Dante ao Theatro Municipal, agora como diretor artístico, depois de sete anos de ausência e traumas, para lutar contra si mesmo, egos inflamados e as picuinhas políticas que envolvem e entravam nossa cultura e arte. Assessorado, digamos assim, pelo fantasma de Oliveira (Pedro Paulo Rangel), que tal qual o assassinado rei da Dinamarca, pai de Hamlet, volta do túmulo para colocar alguns pontos em alguns is.
Em cartaz na temporada clássica do Municipal, a história do príncipe do podre reino da Dinamarca que vinga a morte do pai. Retornamos assim a frase que dá título a este texto. Longe de menosprezar a obra do bardo inglês, Dante se utiliza dessa linguagem para acalmar o protagonista do espetáculo, Jaques Maya, representado por Daniel de Oliveira, e encorajá-lo a ir ao palco. Informações precisas, objetivas. Foco. Um entendimento claro do que o autor precisava dizer e que se dito, satisfaria a todos. Já em outro momento Dante fizera isso, explicando a uma aspirante a atriz, Clara (Maria Helena Chira) quem era Ofélia. E no dito capítulo, de camarim em camarim, ele dá indicações de como aprimorar os personagens. E aí temos duas situações: o diretor atento que consegue extrair de seus atores o melhor através de indicações e como o ator se coloca em relação a isso, ao público, ao seu trabalho. Vemos o Oberon de Paulo Betti responder que não mudaria nada do que tinha feito, que era o último dia de apresentação e que a platéia era um bando de delinqüentes; e vemos a Elen de Andréa Beltrão acatar as indicações, entender que teatro é uma arte dinâmica e, como disse Dante, ter a chance de fazer bem feita a sua cena. Um momento de dúvida entre acomodar-se e arriscar-se a ganhar o mundo, e sua rainha Gertrudes entra em cena plena, enorme, silenciando uma assistência realmente indócil e desacostumada dessas coisas de clássicos e teatros, num crescendo que não poderia sair de dentro dela, mas que igualmente não cabia no peito, uma lágrima borrando a maquiagem, um texto fluido, cristalino. Não sou difícil de me emocionar e agora mesmo enquanto escrevo os olhos marejam, mas a cena foi absolutamente fantástica. Ontem, sentado sozinho na sala, chorando, quis levantar também e aplaudir, mas me contive por esses lapsos de racionalidade, não sem me sentir gratificado por fazer parte dessa arte, pela oportunidade de aprendizado, pela consciência das coisas que tenho oferecida tão generosamente por parceiros valiosíssimos como Adriano Barroso, Ailson Braga, Miguel Santa Brígida, Aníbal Pacha, Wlad Lima, Karine Jansen, Ana Flávia Mendes, Henrique da Paz, já anteriormente citados (nunca, nunca é demais!) com quem mais diretamente trabalhei e tantos outros que seria injusto nomear um sem indicar os demais, mas sobretudo os meus companheiros de Nós Outros, incluindo claro meus novos parceiros.
Para o público comum, sem qualquer desfeita com essa expressão, talvez tenha sido apenas um capítulo de uma minissérie. Algo emocionante, quem sabe. Para o povo do teatro, uma verdadeira aula, um Hamlet sintetizado em uns trinta, quarenta minutos entre o futebol e o telejornal sem que nada de sua esplêndida carga emocional fosse perdida. Alguém não deve ter pensado assim e torcido a cara. Paciência. Humildade não é demérito nem disponibilidade, submissão. Sempre se pode dar um passo a mais. Atores e atrizes que se acham grandes demais, bons demais, que já sabem coisas demais, hmmm, diriam Adriano e Ailson: se foderam!

SERVIÇO
Som & Fúria. TV Globo. De terça a sexta, tarde demais pra um programa assim, mas que bom que dá tempo de eu assistir quando chego do ensaio.
Direção: Fernando Meirelles, Gisele Barroso, Toniko Melo, Fabrizia Pinto e Rodrigo Meirelles.
Roteiro original “Slings & Arrows”: Susan Coyne, Bob Martin, Mark McKinney
Roteiro adaptado: Fernando Meirelles
Produção: Fernando Meirelles, Andrea Barata Ribeiro e Bel Berlink
Produção executiva: Ary Pini
Direção de fotografia: Adriano Goldman, André Modugno e Marcelo Trotta
Direção de arte: Cassio Amarante
Figurino: Verônica Julian
Montagem: Lucas Gonzaga e Lívia Serpa
Trilha sonora: Ron Sures
Produção de elenco: Cecília Homem de Mello
Coordenação de maquiagem: Anna Van Steen

HUDSON ANDRADE
16 de julho de 2009 AD
9h05

6 comentários:

Michele Campos disse...

É ISSO AÍ MEU AMIGO! MUITO BOM LER E COMPARTILHAR DA MESMA EMOÇÃO E EMPOLGAÇÃO!TENHO ACOMPANHADO ESTE SERIADO COM MTA FÚRIA! NA VERDADE NÃO SOU FÃ DE SÉRIES, TENHO UMA PREGUIÇA DE ACOMPANHÁ-LAS, MAS ESTA FAZ EU DAR PULINHOS, FRIO NA BARRIGA E ME EMOCIONAR MESMO COM MINHA ESCOLHA DE PROFISSÃO! AQUI LONGE DOS AMIGOS, NO DIA SEGUINTE DE CADA CAPÍTULO PERGUNTO A UM "AMIGO DE ACADEMIA", VC VIU ONTEM? E INACREDITAVELMENTE A RESPOSTA É: "NÃO, DORMI!" OU: "NÃO, TAVA NA INTERNET, NEM LEMBREI!" PARECE QUE O TAPA NA CARA SURTIO EFEITO EM CERTOS PAVÕES, BALDE DE ÁGUA FRIA! POUCOS COM QUEM COMPARTILHAR, ENTÃO, CONCORDO AQUI, COMPARTILHO AQUI OS GRITINHOS HISTÉRICOS QUE DOU E AS GARGALHADAS FRENÉTICAS AO VER OS CLICHES TÃO BEM FIGURADOS, JUNTO AOS "PSEUDOS ARTÍSTAS", TUDO MUITO BEM REPRESENTADO NAQUELE FELIZ SERIADO!ABÇS E ATÉ HOJE A NOITE...

Paulo Bitar disse...

Meu amigo, apesar de não fazer parte do mundo do teatro (e portanto minha percepção da série ser um pouco diferente) também estou curtindo muito assistir algo tão bom quanto Som e Fúria. A historia consegue fixar nossa atenção. Mesmo depois de um dia de trabalho cansativo, fiquei acordado apenas para ver, sem sentir uma gota de sono (que depois do futebol era algo bem dificil). Segundo li, há chances da serie virar algo mais permanente. Espero apenas que a qualidade continue... Abraços saudosos

Anônimo disse...

parabéns pelo comentário! realmente vc disse tudo o que realmente foi mostrado a nós "povo do teatro"! Com certeza nós que fazemos parte dessa classe, ficamos embevecidos com esta verdadeira aula!!!!! Abraços!

Fabio Lopes disse...

Queridissimo Amigo de arte, de idéias e de Espírito,
De muito acompanho teu blog, mas desta vez faço questão de postar meu comentário.
Que bom apreciar teu texto e ao fim poder estar em sintonia contigo. Poder perceber que ontem ao me emocionar com a sinceridade do personagem Dante, querendo buscar o melhor de cada um, não fui apenas um tolo espectador amante das artes e vendo Hamlet tão bem definido, e pra meu espanto, na televisão.
Espero que os "comuns" também compreendam o autor inglês e o empenho e dedicação que a arte teatral exige.
Mais ainda, que os "nossos", tenham se enxergado na nossa pequenez ampliada pelos esterótipos que teimosamente repetimos, e que a minissérie tão bem apresenta.
Grande Abraço do Amigo com "A Cura" no peito.

O Mágico de Oz disse...

Querido amigo, eu não tinha dúvida de que você acompanhava essa harmoniosa série, assim como eu tenho feito, aclamando-a com louvor pela iniciativa. Todo capítulo é uma aula pra mim, um feto nas artes dramática e que nem se acha um ator, apesar de participar de umas poucas montagens teatrais. No dia do referido capítulo, momentos antes, equanto o Cruzeiro levava o farelo, conversei com um amigo sobre o seriado. Ele opiniou sintetizando que "não dá certo", isto é, "são linguagens diferentes a do teatro e da televisão e toda vez que se quer fazer qualquer tipo de adaptação, não funciona para o grande público, não dá certo", exemplificando com "Hoje é dia de Maria" e "Capitu", que, para ele, diziam muito mais aos atores do que a audiência comum. Não discordo desta última parte, afinal é como querer que um texto "específico" da linguagem Matemática, por exemplo, não dissesse mais a um matemático. Mas isso não significa que o texto não diga nada a outros. Na verdade, um texto tem sempre algo a dizer a quem tiver ouvidos para ouvir. Contudo, não vou além disso, não me arrisco a fazer juízos mais deformados. Vejo que a TV, na figura da referida série, é capaz de ousar, de se arriscar, de transgridir o status quo, de equilibrar integridade artística com bilheteria, o que é muito louvável e, se Deus quiser, o início de uma tendência.

Quanto à cena da personagem da Andréa Beltrão, desculpa, amigo, mas eu levantei e aplaudi.

Cláudio disse...

Querido Hudson, impossível assistir um único capítulo desta série sem lembrar de ti. Tenho feito o possível para assistir a todos e felizmente este que comentaste foi um dos que consegui assistir na íntegra e realmente achei fabulosa a aula dada, mesmo para quem não é do ramo artístico. Quando vi a cena e vi as duas situações em que um permaneceu na atuação mediana que vinha tendo e na outra que venceu o orgulho, acatou a opinião do diretor e fez uma das melhores encenações da vida, de fato foi muito emocionante sentir toda a energia colocada naquela cena, que apesar de sutil, foi muito intensa. Mal vejo a hora de sair a versão em DVD para poder revê-la. E vale muito também pela lição dada pelo próprio Dante, pois o mesmo foi criticado de controlador, obsessivo, levando um não de um "mais experiente" e ainda assim não abandonou o intento de tentar, mesmo que no último momento, aprimorar ainda mais o trabalho que vinha cuidando com tanto esmero e que ainda assim conseguiu uma melhora por ter dito o que acreditava até o fim. É uma lição não apenas para os amigos do meio artístico, mas para todos nós que nos dispomos a fazer algo dando o melhor de si, que podemos sempre buscar dentro de nós uma forma melhor de fazer algo que já julgamos fazer bem. Um grande abraço meu irmão.