segunda-feira, janeiro 05, 2009

A MÃO E A LUVA (parte II)

Belém, um dia, um mês, 2008 é uma construção coletiva por excelência. Dividiram a direção Olinda Charone, Cesário Augusto e Miguel Santa Brígida, cada um imprimindo seus próprios registros na encenação do espetáculo, com destaque para o Teatro do Movimento de Santa Brígida escavado no corpo do elenco e em imagens utilizadas em outros espetáculos (próprios e da Escola), perigosamente repetidos.
Como todo espetáculo dessa natureza o resultado é irregular, variando com o ator e com a cena na qual ele está inserido. Todos precisam ter seu espaço e devem utilizá-lo com afeto, tendo por sua vez a direção o cuidado de dividir esse bolo em fatias mais ou menos generosas, conforme o rendimento individual e o efeito que se deseja obter. O produto no caso é muito bom: musical, delicado, emocional, apaixonado, melancólico, engraçado e, sobretudo, prazeroso para quem assiste e para quem executa.
Calçando delicadas luvas a direção ordenou essa sempre complicada colcha de retalhos e costurou tudo com precisão. As falhas estão no exagero de algumas atuações – que os entendidos chamariam de overacting –,na obviedade de outros – que são bons no que fazem, mas seriam melhores no terreno movediço do desconhecido –, no texto panfletário e raso de muitos e em um ou dois toques de mediocridade. O enorme elenco (mais de dez pra mim é um pesadelo!), no entanto, parece coeso e consciente do que estão propondo a partir da idéia central do espetáculo construído sobre sentimentos e impressões dos próprios atores num exercício que certamente exigiu doses quimioterápicas de confiança e cumplicidade.
Fugindo também da caixa preta, Belém... nos levou a um MABE (Museu de Arte de Belém) belíssimo, sob um céu cobalto e fresco, numa acústica impressionante.
É pena que esses trabalhos raramente retornem. A dificuldade de reunir novamente o elenco, entre outras questões inviabilizam essas remontagens.
Parabéns aos diretores de Paraíso Perdido e Belém, um dia, um mês, 2008 por extrapolarem os espaços cênicos desta cidade que insiste em se fechar em si mesma como se já tivesse de si o bastante.
Parabéns aqueles cuja visão alcança além das suas mesas de gabinete e percebe que preservação passa por cuidado e cuidado nasce do conhecimento que faz com que eu crie laços e carinhos com os espaços que me cercam.
Parabéns aos que foram para a cena, mesmos os que jamais serão atores ou atrizes. Valeu a ousadia, mas esse, como qualquer outro oficio, exige muito mais do que vontade de fazer.
Os dois espetáculos também foram resultado das turmas de cenografia da ETDUFPA que recebe os parabéns por expandir seus trabalhos tablado afora.
Apenas soaram os três toques. Merda!!!

HUDSON ANDRADE
15 de dezembro de 2008.
12h45

2 comentários:

Polyane Feio disse...

Oi! Gostei do que escreveu,gosto das pessoas que falam o que pensam e ousam... Você é critico de teatro? Abrçs

Hudson Andrade disse...

Não. é pura pavulagem!
Ouisso é que é ser crítico de qualquer coisa?
Obrigado pela visita.