domingo, dezembro 10, 2006

NÃO VALE O CORPO MAIS DO QUE A ROUPA?

Não quis cair no clichê de intitular este artigo com algo como “apesar de você...”, mas a canção de Chico Buarque acaba voltando à minha cabeça. Talvez por tudo o que já disse sobre a tal falta de política cultural no Estado, sobretudo em Belém, capital que ergueu o Teatro da Paz para comportar o fausto artístico a que sua sociedade se dedicava e que hoje amarga o ostracismo; ou para louvar ainda uma vez a saída de Paulo Chaves do (des) mando da cultura paraense, que ao mesmo tempo em que mordia o necessário para raspar paredes em busca de uma pintura original escondida pela idiotice de uns, assoprava para longe os desejos artísticos de tantos outros, aquém da sua casta artística.
Com a mudança de governo, renovam-se as esperanças de que as coisas tenham novo rumo. Em todos os sentidos: social, político, educacional, na saúde. Talvez o que se mais queira é que tudo o que seja feito possa ser uma obra usufruída pela massa da população. Há que se entender que potencial turístico envolve o povo do lugar; que oferecer grandes museus, palacetes e chafarizes em praças atapetadas de flores exóticas é um luxo para os olhos e uma necessidade, mas que carimbó não deve ser executado por um bando de macacos ensaiados para gringo ver (Não me refiro àqueles que trabalham nessa área. Esta é apenas uma imagem figurativa e contundente para demonstrar o que sinto!). O povo precisa de espaços onde possa exercer, difundir, transmitir, praticar e (por que não?) vender sua arte: das varandas coloridas das redes, os bonecos de miriti e patchouli, às garrafadas e cestos de folhas trançadas que carregam deliciosas frutas das ilhas pra cá. Esse investimento voltado ao povo não foi feito e agora esperamos...
O que será de nós, artistas paraenses?
No último dia 26 de novembro, no Iphan, um grupo articulou um seminário, ou fórum de discussões para tentar responder a tantas perguntas e encaminhar à governadora eleita um documento sobre política cultural. Não posso dizer nada sobre isso, porque não estive na reunião, que aconteceu em um sábado pela manhã, estando eu (e quantos mais?) em minhas atividades profissionais, batalhando o pão de cada dia!
Mesmo diante desse cenário desolador, o artista mostra que fazer arte é algo vital! Na contramão de tanta displicência das autoridades, falta de espaços para ensaios e investimento / patrocínio, Belém está tendo um final de ano repleto de produções cuja qualidade avança Pará afora, angariando reconhecimento e investimento de entidades e empresas locais e nacionais.
A Fundação Nacional de Arte – FUNARTE, premiou vários grupos paraenses, dando-lhes a oportunidade de apresentar o seu trabalho com a qualidade que mecerem: fruto da pesquisa para a obtenção do título de doutorado por Ana Flávia Mendes, Avesso (VER Vide o Verso), com a Companhia Moderno de Dança recebeu o prêmio Klauss Vianna e o investimento da Petrobrás. Os Palhaços Trovadores e a Companhia de Teatro Madalenas foram premiados pela Funarte com o Myriam Muniz, montando respectivamente O Hipocondríaco e A Aurora da Minha Vida (VER Poucos, Loucos e Afins...).
Novos espaços abrigam espetáculos em Belém, como o Espaço Cuíra (VER Bem Vindo a um Mundo Novo), que inaugurou com A Peleja dos Soca-socas João Cupu e Zé Bacu (VER É Nazaré lá na Porta da Sé), do grupo Gruta de Teatro, o U.Porão (Tv. Campos Sales, 628), apresentando até o próximo dia 10 de dezembro Frozen, criado e dirigido por Nando Lima, enquanto que o Teatro Porão Puta Merda abrigou até o último dia 26 O Império de São Benedito, resultado também de pesquisa de mestrado, feita por Karine Jansen, atriz e diretora, professora da ETDUPA.
Ainda na Escola de Teatro as turmas de formação de atores encaminham suas montagens anuais e os alunos de teatro infantil e juvenil apresentam seus resultados, Cidade nas Nuvens e Um Conto de Natal, revelando uma turma que cresceu fazendo teatro e que tem tudo para criar uma nova geração de artistas cada vez mais questionadores, mais engajados, mais famintos de dança, literatura, música, artes plásticas e teatro.
Além dos espetáculos citados, o grupo Palha apresenta Júlio irá Voar, texto de Carlos Correia vencedor do Prêmio Funarte de Literatura. Premiado do mesmo concurso em 2004, O Glorioso Auto do Nascimento do Cristo-Rei, de Hudson Andrade (VER artigo homônimo) entra em sua terceira edição, o Terceiro Milagre, como o chamamos, por contar finalmente com patrocínio financeiro via Lei Semear. O investimento feito pela Sol Informática garantiu à Companhia Teatral Nós Outros a possibilidade de criar um espetáculo a partir de longos meses de trabalho em oficinas de capacitação em música, figurino, cenografia, adereçagem e dança, um sonho que a companhia precisou esperar quatro anos para ver acontecer.
Os recentes Festival de Dança Contemporânea, da Companhia Experimental de Dança Waldete Brito, igualmente patrocinado pela Funarte e Petrobras, o Festival Internacional de Dança da Amazônia (FIDA), promovido pela Escola de Danças Clara Pinto, que chegou a sua 12ª edição e o VII EIDAP, criado pelo Centro de Danças Ana Unger, que em 2006 contou com o selo de incentivo da Lei Semear, apesar de muitos e difíceis percalços, veio à cena. Problemas não menos dramáticos passou o Instituto Arraial do Pavulagem para conseguir botar na rua o seu Cordão do Peixe-boi, tradicional manifestação do grupo durante a quadra nazarena que já havia perdido sua maior manifestação artística, o Auto do Círio, orfão do patrocínio necessário à sua execução pela incompetência da instituição que deveria preservá-lo, sobretudo por ser patrimônio imaterial e cultural da humanidade. Seus criadores, diretores e artistas se quedaram impotentes e viram desfilar pelas ruas da Cidade Velha um triste arremedo de seu belíssimo cortejo.
2006 também foi o ano em que a Companhia Atores Contemporâneos completou 15 anos de atividades. Reconhecida e premiada dentro e fora de Belém e do Brasil, com um trabalho de pesquisa criativo, sofre, como 99% dos grupos de Belém, com a falta de uma sede que lhe abrigue e onde possa trabalhar com a calma e segurança necessárias.
Querer trabalhar nós queremos! Talento pra fazer coisa que preste nós temos!Quem há de nos estender as mão?

2 comentários:

Yúdice Randol disse...

Mano, o blog www.hupomnemata.blogspot.com contém interessantíssima análise sobre os dez pecados da política "cultural" tucana. Vale a pena ler. Esqueci de avisar antes.
Essa seqüência de posts ensejou a proposta de escrever acerca de dez virtudes para serem encampadas pelo PT, providência a cargo da blogueira Luciane Fiúza de Mello. Acho legal se participares.

Luciane Fiuza de Mello disse...

Valeu pela divulgação, Yúdice, mas achei teu irmão antes dele me achar rsrsr Fico satisfeita com a participação dele. Abs.