terça-feira, novembro 13, 2007

RITUAL DE PASSAGEM

A matéria tem diferentes estados físicos e passar de um para o outro demanda ganho, ou perda de energia. Noutro aspecto, uma recombinação atômica permite que determinado corpo se altere. É assim que a simples adição de um átomo de oxigênio transforma a água essencial à vida num elemento corrosivo. Esse ponto de mutação é delicado e exige uma intrincada combinação de fatores. Entre os seres vivos essa recombinação pode dar origem a indivíduos que sequer vingam, outros que expostos às implacáveis leis da natureza, não resistem e morrem. Aos que sobrevivem, a eternidade, até que uma nova mutação os transforme novamente em algo melhor.
Assisti Homo Mutabilis (é, decididamente eu não gosto desse nome!) coreografia de Ana Flávia Mendes vencedora do Prêmio Secult no VIII Encontro Internacional de Dança do Pará – EIDAP (*) no último dia do VI FEDAD (Leia DANÇARÁS, DANÇARÁS ETERNAMENTE), domingo, 11 de novembro. A saga do homem sobre a Terra, do primitivismo animal ao sapiens sapiens (e além?) é contada nos gestos precisos dos intérpretes-criadores da Companhia Moderno de Dança. Assumindo todo o palco e todos os planos e ângulos disponíveis, vemos esse bicho estranho avançar e crescer. Signos como agrupamentos, a roda ancestral, reforçam a idéia de sociabilidade, que se nos animais mais inferiores é o elemento básico de proteção e conquista de alimento e moradia, nos humanos alcança o ponto máximo, permitindo que nos tornemos senhores deste mundo e mesmo subvertamos essa lógica, deturpando-a na pressão de uns povos sobre outros, na contramão da própria razão evolucionista.
Em Homo Mutabilis a luz ora apaixonada, ora branca espalha e agrupa os seres; o uso de tipitis evoca a natureza, nossa regionalidade. Presentes no palco desde o início da cena e incorporados aos bailarinos, é ressignificado enquanto corpo, elemento de mudança. Os gestos são vigorosos, a música batuca na carne, porque toda mudança exige energia. Energia que extrapola os corpos que rodopiam e saltam no palco e invadem os nossos que, tensos, esperam que eles e nós mesmos, num estalo, sejamos outros. Sejamos novos.
Ana Flávia e seus co-criadores conseguem dar mais um passo na afirmação de sua identidade e excelência, sobrevivendo ainda uma vez nesse turbilhão de tantas experimentações infrutíferas.
Para eles, a eternidade. Inconclusa. Porque para não serem extintos, a Arte lhes exigirá uma nova mutação.

(*) O prêmio Secult contempla companhias com trabalhos autorais e experimentais em dança. O EIDAP é uma promoção do Centro de Danças Ana Unger e aconteceu de 13 a 16 de setembro passado.

Um comentário:

Ana Flávia Mendes disse...

Hudson,

Só você mesmo pra ter uma leitura tão linda dos nossos trabalhos. Devo admitir que o nome HOMO MUTABILIS tbm não me convence. Na verdade, ainda não conseguimos nos desvincilhar do título "original" ANTROPOZÔ. Enfim... isso é assunto pra muitas conversas. No mais, obrigada pela publicação. Seu texto, como sempre, é um arraso! Abraços!