sábado, novembro 17, 2007

EU 12

Tem umas horas em Belém que nem mesmo quem nasceu aqui agüenta. Nesses momentos desafiar um tacacá pelando com pimenta é praticamente um suicídio. Alguns fazem!
Eu desci a alameda da Praça da República que leva ao anfiteatro e sentei num banco sob uma mangueira. Uns poucos centímetros me separavam de uma mancha de luz que avançava conforme o sol se movimentava no céu. Não deve me alcançar, pensei. Vou ficar por aqui mesmo. Abri os botões da camisa até o final do peito, apoiei os cotovelos nos joelhos e dobrei o corpo pra frente, fechando os olhos, tentando abstrair aquela sensação quente e levemente úmida do ar, que fazia pequenas gotas brotarem entre os pêlos do meu braço. Em volta o ruído do trânsito e as vozes de algumas pessoas e periquitos.
Ele sentou a me lado tão em silêncio que quando o percebi já deveria estar ali há vários minutos. Olhei-o por baixo, pelo canto dos olhos. Parecia funcionário de algum banco. Calças sociais, sapatos combinando com o cinto, a camisa de mangas longas enroladas até acima dos cotovelos, um cabelo estiloso, pulseira de metal no pulso esquerdo, gravata. Ele sentou-se na beira do banco e espreguiçou-se longamente, gemendo baixinho. Depois tirou os sapatos e apoiando os pés sobre eles sacudiu-lhes os dedos, protegidos por meias pretas, ou marrons, não sei ao certo agora. Apoiou a nunca com as duas mãos e bocejou alto. Estava tão à vontade que quase se assustou comigo ao seu lado, olhando-o com um leve sorriso nos lábios. Ele também sorriu e comentou algo sobre o calor e o expediente da tarde, que eu respondi meio atravessado, que não gosto muito que estranhos falem comigo. Como que adivinhando meus pensamentos, ele estendeu a mão e se apresentou, ao que eu respondi com o mesmo gesto, algo afetuoso.
Engraçado que depois disso nos calamos, olhando pra frente, ele com a nuca ainda entre as mãos, esticado no banco, os dedinhos dos pés sacudindo. Eu empertigado, as mãos juntas entre as pernas. Não corria um vento, ninguém passava por ali, nenhuma pessoa gritava vendendo nada e mesmo os carros não cruzaram aquela rua em frente de onde estávamos. Era um silêncio tão grande, tão presente, que parecia uma terceira pessoa sentada entre nós.
- Tens namorada? – ele perguntou, súbito
- O quê?” – perguntei sem me virar.
Ele também, parado:
- Namorada. Tens?
Permaneci na mesma posição e respondi:
- Não!
- E namorado?
Olhei aquele rapaz com surpresa. Isso é pergunta que se faça? Ele também me olhou, as mãos no mesmo lugar, com uma cara de o–que-é-que-foi-que-eu-disse-de-errado? Sorri:
- Não, também não tenho namorado!
De repente aquele silêncio de novo. Desta vez mais forte, angustiante até. Na minha cabeça uma separação recente e mal resolvida. Uma sensação desagradável de abandono, de não ter sido bom o bastante, de ter sido bom demais, de não ter dado a devida atenção, de ter grudado muito. Dúvidas demais, ausências demais pra sustentar um relacionamento.
Virei levemente o rosto. O rapaz ao meu lado também. O que estaria se passando naquela cabeça aureolada de castanho?
Nós ficamos nos olhando, tentando entrar na mente um do outro, entender o que se passava, adivinhar o que o outro queria. O que cada um de nós queria. Então todo o burburinho da cidade encheu a nossa volta e nunca nos sentimos tão invadidos quanto naquele momento. Foi um tal de ajeita daqui, senta direito dali, fecha os botões da camisa (então era ali que ele estivera olhando um tempo! Será que pro meu peito, ou pra medalhinha dourada de São Francisco de Assis?). Confesso que também tinha olhado muito pra ele. Quanto tempo gastamos naquele jogo? Por que tudo parecia tão difuso? E tão promissor?
Agora, sentados socialmente um ao lado do outro, parecia que não havia muito mais a fazer, ou dizer. Então ele levou o joelho devagar contra a minha perna e eu levei o meu joelho devagar contra a perna dele e pressionamos um ao outro, olhando sempre em frente.
- Tenho que ir! Ele disse, pondo-se rapidamente de pé.
Girou o corpo e saiu caminhando. Pensei apenas um segundo e também fiquei de pé.
Dei de cara com um senhor barrigudo, pasta executiva na mão, acendendo um cigarro e nos olhando. Encarei o homem. Dei um suspiro. Olhei o rapaz que já ia longe e me enchi novamente de dúvidas...

AGORA A DECISÃO É SUA, LEITOR. O QUE EU DEVE FAZER?

FINAL 1


Sabe quando pinta aquela dúvida? Será isso, será aquilo? Aquele homem a minha frente, cigarro em punho, era a imagem de tudo o que eu deveria fazer da minha vida. Acomodar-me no que é certo, justo e bom. Não investir em algo tão improvável. O que é que aquele rapaz poderia querer com um cara com eu? Ele queria mesmo alguma coisa comigo, ou meu vazio estava me fazendo imaginar coisas?
Segundo suspiro. Vi o rapaz parado na esquina da Oswaldo Cruz, me olhando de lá no exato momento em que o sinal abriu. Ele seguiu no meio de todo mundo e sumiu na esquina do INSS.
Passei a destra no cabelo e caminhei na direção da Assis de Vasconcelos.
Estava quase certo que tinha feito a melhor escolha. Quase!

FINAL 2

Sabe quando pinta aquela dúvida? Será isso, será aquilo? Aquele homem a minha frente, cigarro em punho, era a imagem de tudo o que eu deveria fazer da minha vida. Acomodar-me no que é certo, justo e bom. Não investir em algo tão improvável. O que é que aquele rapaz poderia querer com um cara com eu? Ele queria mesmo alguma coisa comigo, ou meu vazio estava me fazendo imaginar coisas?
Só tinha um jeito de saber. Passei correndo pelo velhote que amassou com violência o cigarro ainda inteiro no chão e resmungou alguma coisa.
Alcancei o rapaz na esquina da Oswaldo Cruz justamente no momento em que o sinal abriu e uma multidão avançou rua abaixo. Menos nós dois. Nenhum de nós arredou pé. O sinal fechou, abriu de novo e nós ali. Rimos.
Mãos nos bolsos, caminhamos pelo calçadão na direção do Teatro da Paz. Olhei pra cima.
- Vai chover!
- Seria bom, não seria?
Sorri:
- Seria, sim. Muito bom!

ESCOLHA O FINAL E RESPONDA NA ENQUETE NESSE MESMO BLOG. ESTOU ESPERADO TUA RESPOSTA.
OBRIGADO E BEIJOS!

8 comentários:

Paulo Bitar disse...

Tem umas horas em Belém que nem mesmo quem nasceu aqui agüenta. Nesses momentos desafiar um tacacá pelando com pimenta é praticamente um suicídio. Alguns fazem!Eu desci a alameda da Praça da República que leva ao anfiteatro e sentei num banco sob uma mangueira

Praticamente me vi, passeando na praça de república... Possivelmente voltando de alguma loja do "comércio" e indo buscar a Rachel na farmácia....

Saudades da terrinha !! Abraços

Hudson Andrade disse...

Saudades suas, meus amigos.
Que bom que, lá longe, eu tenha conseguido levar um pouquinho da nossa terra tão querida.
Abraços pelando de carinho!

Ives Nelson disse...

Sem dúvidas atitude, atitude, atitude! Final "zwei"...

Nelson Johnston disse...

Sem dúvida o final 2 é o mais adequado para resolver essa,vamos assim dizer, tensão sexual. Por mais eróticos e perturbadores que sejam esses encontros, deixar a incomunicabilidade vencer e deixar uma situação dessas mal resolvida, nem pensar...
E, além disso, é tão bom conhecer gente que tenha uma pele boa que nos "hidrate e refresque". Melhor ainda se essa pele solitária não vê um produto de qualidade há muito tempo, que combine e a deixe deliciosamente perfumada agora.
E, além disso, ele pode até se tornar nosso perfume predileto e não conseguirmos mais viver sem ele..... rss

BOA SORTE, CHEIROSO!!!!

Erlon disse...

Adorei hudson

eu fico com o segundo final hehehehhe^^'
achei mais empolgante=]


nossa vc tem umas historias que realmente tiram o folego^^

Hudson Andrade disse...

Perfumes, tensões, asfixias...
Quantas sensações misturadas!
Que delícia, heim?!

Marcelo Marat disse...

Creio que o ideal seria usar os dois finais: numa síndrome de Eischembach, o homem "sonha' o segundo final - final feliz, de contos de fadas -, mas logo retorna à realidade, desperta e segue adiante, no primeiro final. Assim é a vida real. E pelo menos ele não morre, como o personagem de "Morte em Veneza".
Ainda não saiu a adaptação para quadrinhos de seus textos, mas logo imaginei que esse ficaria bem como curta. É fácil e barato fazê-lo em vídeo, com qualquer cãmera digital se resolve. Você pode atuar e dirigir e só precisa encontrar um ator que se adeque ao papel ambíguo do rapaz - essa talvez a maior dificuldade. Enfim, pense nisso.

Anastácio Campos disse...

Puta merda ambas as situações são possíveis. Uma racional que
atravessa a Assis de Vasconcelos e a vida continua. E outra emocional que
vai atrás e aí começaria uma nova vida, com seus riscos, tentações. Nesse
caso, estaria fisgado pelo desconhecido. Como sou muito racional, até na
ama, eu atravessaria a Assis de Vasconcelos e iria a primeira prada de
ônibus e depois teria uma estória para contas na mesa do bar.