segunda-feira, abril 27, 2009

RABISCOS DE LUZ


Em cartaz no Espaço Cuíra Depois de Revelado Nada Mais Muda, com o bailarino Danilo Bracchi e as atrizes... (?)
Em cartaz no Espaço Cuíra Depois de Revelado Nada Mais Muda, com as atrizes France Moura e Marluce Oliveira e o bailarino ... (!)
Parece confuso? Só à primeira vista. Depois de Revelado Nada Mais Muda é, nas palavras do seu criador e intérprete, Danilo Bracchi, um espetáculo de dança contemporânea. E por que tantos elementos teatrais? Porque a dança contemporânea é isso, assim como as suas referências, enfatiza Bracchi. 10.000 coreógrafos existam e 10.000 danças contemporâneas existiriam, bebendo do balé clássico, dança moderna, jazz, performances, artes circenses e, claro, teatro. Este, segundo Danilo,ainda muito resistente à intromissão das sapatilhas. (E acreditem, eu sei bem o que é isso!)
E que mal há nessa interdisciplinaridade? Nenhum. Não à primeira vista! Troca-se o físico ideal pela disponibilidade corporal; o gesto tecnicamente preciso pela (re) significação do movimento que substitui a palavra e a palavra complemente mãos, braços, peito; a música já não rege 1, 2, 3, 4, vai!, mas entra no espetáculo como água, ora útil, por vezes caudalosa e puxa o corpo que reage e puxa a música que pulsa e tudo move tudo.
O perigo dessa Esfinge é ela devorar mesmo aquele que a decifra. Se a costura não é bem feita tudo fica frouxo e não há propriedade em nada.
Depois de Revelado Nada Mais Muda é o primeiro trabalho da Companhia de Investigação Cênica, resultado da Bolsa de Pesquisa do Instituto de Artes do Pará (IAP) e tem como mote a fotografia. Apresenta um grupo em franco processo de amadurecimento, um cuidado com a preparação de seus intérpretes, com a estrutura cênica do espetáculo. A música de Leonardo Venturieri é autoral e fragmentada como a própria encenação de Bracchi e a mim incomoda que ela pareça querer/poder ser mais sem nunca explodir, contentando-se em ser o que é. A iluminação de Tarik Alves é pontual. Quase um flash. Limpa e precisa. Por vezes cria penumbras que, propositais, ou não, escondem detalhes talvez importantes. Noutros momentos, mergulha a platéia nos rubro-negros das salas de revelação. A luz é, afinal, um quarto personagem dessa trama, representando objetos e personagens, sendo, afinal, luz.
Em cena, Danilo Bracchi, France Moura e Marluce Oliveira não se preocupam em contar uma história, mas sim falar desse processo de aprisionar o tempo em retângulos de papel brilhante, mesclando dança e teatro. É aí que necessitamos mais precisão para que os textos, curtos, algo técnicos, sejam tão cheios de cor e vitalidade quanto os gestos.
Do afinco e talento de seus membros a Companhia de Investigação Cênica vai se firmar e juntar a outros grupos com o Valdete Brito e a Companhia Moderno de Dança, criando novos espaços artísticos, reinventando a dança, reformulando o teatro, sendo antes de tudo, a expressão completa do artista paraense.
Arte é isso: pluralidade.
Arte é isso: única!

SERVIÇO: Depois de Revelado Nada Mais Muda. Espaço Cuíra. Dias 01, 02 e 03 de maio de 2009, sempre às 20h00. Ingressos na bilheteria. R$ 20,00. Apoio: Espaço Cuíra (a Companhia de Investigação Cênica é residente neste espaço) e Corpo Pilates. Contatos: Felipe Cortez. 8212 9182.

HUDSON ANDRADE
27 de abril de 2009 AD
10h20

sábado, abril 11, 2009

BROCARDOS (10)



É como dizem os antigos: A gente cobre um santo e descobre outro. Para amenizar a crise que vai comendo tudo o que encontra e que no Brasil ainda está bem disfarçada (?!) o governo reduziu o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) dos setores automotivo e de construção. Com isso, deixa de arrecadar, segundo o ministro da fazenda, Guido Mantega, 1,5 bilhão de reais. Santo descoberto, quem paga a conta do prejuízo? A decisão do governo federal foi de aumentar a carga tributária (IPI, PIS, COFINS) sobre os cigarros a partir de primeiro de maio, com encarecimento do produto em torno de 20 a 25%. Para Mantega a decisão é duplamente positiva. Recupera-se o dinheiro perdido e desestimula-se o consumo de cigarros. “É melhor que o fumante sinta no bolso do que nos pulmões”, afirmou o ministro.
Nem vou tentar entender o que significa aumentar daqui e reduzir de lá para compensar de cá o que ali está faltando. Deixo isso pros matemáticos, contadores e políticos cujas contas nunca me parecem racionais. Sobretudo estes últimos.
Mas vejamos na prática. O preço dos cigarros aumenta, mas e daí? Dia desses numa entrevista que me fizeram eu disse que os cigarros não são assim tão venenosos quanto dizem, afinal, completei, os fumantes demoram tanto a morrer! Cruel?! Pode ser! Não mais do que as guimbas, fumaças, beijos amargos e venenos que eles espalham pelo ar. Também não vou entrar nessa seara. Seria chover no molhado. A questão que quero discutir é esse aumento de preço versus desestimulação de consumo. Fumantes são viciados. Dependentes. Eles buscarão o cigarro independente do preço que ele custe, porque fisiologicamente o corpo exigirá isso. Se os preços aumentarem demais, alternativas baratas e certamente mais perigosas aparecerão. Vide o consumo desenfreado de crack. “Quem não pode Nova York vai de Madureira”, canta o Zeca Baleiro. Já existem marcas de cigarro extremamente baratas e é de se questionar sua produção, a qualidade da sua matéria-prima, aditivos e tudo o mais. Esse cenário se repete em outros setores. Todos os de consumo, arriscaria dizer. De medicamentos genéricos, repudiados por alguns, mas a diferença (por vezes de vida e morte) para milhares de assalariados. Eu uso e confio! Passamos por cosméticos, bebidas. Tudo! O mercado precisa atender todas as camadas. A ganância idem! Quando os cigarros estiverem com seu preço elevadíssimo e suas alternativas genéricas começarem a minar pulmões e bolsos de centenas e centenas de brasileiros, o governo federal – e aí não será mais o Sr. Mantega, que estará gozando alguma aposentadoria perpétua em algum lugar gostoso! – terá outro grave problema de saúde pública para resolver.
Que santo então ficará sem sua manta?

HUDSON ANDRADE
11 de abril de 2009 AD
9h50

quarta-feira, abril 01, 2009

BROCARDOS (09)


Agora por apenas 62 reais um dos maiores problemas do homem será resolvido: o tamanho do pau.
É o que garante a empresa norte americana Mr. Busyballs. Alegando que a genitália masculina fica “pouco atrativa” quando exposta ao mar, ou a piscina, ela desenvolveu uma sunga que garante o volume do membro. É a Rooster Booster (algo como “elevador de galo”. Muito forte!!!). O cliente ajusta o tamanho desejado e aí é só se jogar. Ao sair da água, garante os produtores, nenhum ajuste é necessário.
Agora não perde a cena: a menina, ou menino, vê aquela entidade saindo da água. Nossa!!! Chega junto, tudo acertado, sunga no chão... Que decepção! Ou não!
A proposta é iludir o dono do dito. Ele é que se sente incomodado com medidas. Como diria Kid Abelha, “são sempre os mesmos sonhos de quantidade e tamanho...”*
Não vou me ater ao texto tradicional de que o que importa é a performance. Isso é sabido, mas ninguém abre mão de fartura, o que, convenhamos, é muito bom. Comento essa matéria lida ontem num jornal-de-grande-circulação-de-Belém para dizer que somos criaturas insatisfeitas. O tamanho do pau, do peito, da bunda são sempre de menos. As medidas da cintura sempre demais. Quem tem cabelo liso, enrola; quem os tem crespos, alisa; se compridos, cortam. Os curtos ganham apliques; os olhos, lentes. Os pés, saltos. Para os ânimos, aditivos. Contra a timidez, álcool e anfetaminas. Pra não se comprometer, ficar, principalmente na internet, com apelidos exóticos e medidas desmesuradas. Sempre elas!
Só o que não parece ter limite é nossa vaidade e falta de amor-próprio. Para além das necessidades biológicas de uma progênie saudável, nós nos atemos mais ao exterior que degenera do que ao ser que só pode progredir. Não que beleza não seja importante. Claro que é. Assim como saúde e bem estar. A questão é quando de tempo e energia (e dinheiro) despendemos nisso e de que forma. Além do mais, colocamos nossa tranqüilidade nos gostos alheios e nos elevados (e questionáveis) padrões da sociedade e por não atendermos suas expectativas, sofremos.
Que tal lustrarmos as carecas (a minha já consome uns 100 ml de óleo de peroba!), malhar respeitando nosso biótipo, usar sapatos confortáveis? Gozar, mas também dar prazer ao parceiro (a)?
Se tu achas que só pode ser feliz parecendo isso, ou aquilo, vá em frente. Mas o que tu és de verdade, o espelho não mostra.

HUDSON ANDRADE
01 de abril de 2009 AD
16h25

(*) Garotos, de Leoni e Paula Toller.

sexta-feira, março 27, 2009

DE UM FÔLEGO SÓ

É assim que a gente assiste 6 Meses Aqui, dos Atores Independentes, a segunda parte de uma trilogia que começou com 3 e que pretende se encerrar no final deste ano, bebendo da mitologia e da filosofia para construir seu drama.
De um só fôlego! Da feita que começa é como enfiar a cabeça numa pia d´agua.os olhos arregalam, a respiração prende, dá uma agonia. Isso é ruim? Não!
Não necessariamente...
O texto, próprio e alheio, está muito bem encadeado e bem dito, ainda que aqui e ali as coisas fiquem meio emboladas e outras, inaudíveis. A falta de acústica no espaço colabora. Este é um problema. Apresentado no Memorial dos Povos Indígenas, no Complexo Ver-O-Rio, 6 Meses Aqui compete com o vai-e-vem de uma platéia deseducada, o brega das barracas, o zum-zum-zum do povo, sirenes, sinetas, buzinas, crianças. A entrada do templo de Jerusalém perde e aí nem Jesus nem chicotadas.
Iracy Vaz e Sandra Perlim, protagonistas deste enredo que fala de gente, de sentimento, de desencontros, separações, sem qualquer romantismo piegas, mas com alguma propriedade e total entrega, estão absolutamente confortáveis. O corpo disposto se dobra em posições que me fazem questionar o porquê praquela cena, que eu entendo dentro de uma proposta de encenação e criação de personagem, mas que pode ser confuso para o público comum, sobretudo o de ocasião, atraído pelo burburinho. Atenção para Sandra, de corpo e alma em cena, e destaque para sua interpretação de um texto de Arnaldo Jabor. Fantástico, lúdico, delicioso!
Não entanto é preciso dizer que 6 Meses Aqui não espetáculo para rua, ainda que não seja para grandes platéias. É bom gozar de alguma intimidade com as pessoas bem pertinho. Algumas referências e, sobretudo, o conteúdo homoerótico do espetáculo pedem um público mais habituado aos jogos cênicos e as (pretensas) verdades que levamos aos palcos. Houve quem se levantasse incomodado (agredido?! Não sei!) e isso é questionável. Não fazemos teatro para nossos pares; fazemos para todos e entregamos nossa arte para que seja pesada pelos valores de cada um. Importante que se diga que não há nada de grotesco, ou leviano. Há apenas o que não é habitual nem devidamente compreendido, ou respeitado.
6 Meses Aqui é uma experiência instigante. Carece de pausas para respiração, curvas mais acima, mais abaixo, nada que lhe tire o mérito.
Não tive a oportunidade de ver 3, mas creio piamente que nesse ritmo, o final dessa história será vertiginoso.
Que seja então uma montanha-russa!

HUDSON ANDRADE
25 de março de 2009 AD
12h45

SERVIÇO:
6 Meses Aqui – Atores Independentes
Dramaturgia e elenco: Iracy Vaz e Sandra Perlim
Direção: Maurício Franco e Milton Aires
Memorial dos Povos Indígenas – Complexo Ver-O-Rio
28 e 29 de março de 2009, às 20h30.
Entrada franca, com rodada de chapéu.


Assista a vídeo do espetáculo em http://www.youtube.com/watch?v=DRVOtOZ4UYs

segunda-feira, março 23, 2009

BROCARDOS (08)

Sábado passado, início da madrugada. Enquanto eu esperava o ingresso numa boate da cidade saiu um senhor de meia idade, longilíneo, voz e gestos tranqüilos, que ao ser questionado pelo segurança sobre seu ticket de saída, respondeu que não havia um, que estava indo embora e que tinha sido destratado pelo estabelecimento. Afirmou ser policial federal e não se submeteria a entregar sua arma para entrar na dita casa. Que seu porte tinha sido conseguido com muito investimento, esforço e treinamento e que não entregaria a qualquer um. O local, afirmou ainda, estava cheio de malandros (?!) e que num incidente precisaria estar armado e se tivesse entregado a arma, que aconteceria? E terminou com uma frase que tenho ouvido bastante de nativos e alienígenas*: “Mas isso é Belém. Temos que dar o desconto porque aqui é Belém!”
Então! Qualquer um que entenda de legislações pode me explicar o que um policial de qualquer esfera faz armado em seus momentos de folga? Se ao sair de casa para o lazer ele continua investido de sua condição oficial e precisará defender os interesses e integridade dos cidadãos ordinários? A mim parece que este senhor já sai prevendo um contratempo, ou utiliza sua condição para garantir vantagens nos lugares a que vai. E não seria o primeiro, o último nem o único!
Segundo. Em caso de um incidente, qual o limite para o uso de recursos extremos? Os seguranças das casas estão orientados (treinados é um sonho distante!) para resolver qualquer perrengue e não portam armas (graças a Deus!) e desarmar os freqüentadores os coloca em pé de igualdade. Logo, qual a necessidade deste senhor de manter-se armado? E se houvesse a necessidade de usar a arma, seu treinamento (sempre tão questionado no país) seria o suficiente para acertar o alvo? E o alvo precisaria ser acertado? E em errando, enquanto seus superiores se desdobrassem em sindicâncias, inquéritos, relatórios, documentos, a vítima (qualquer que seja ela) estaria em algum hospital, ou sob tratamento, às suas próprias custas; ou enterrada, a custos ainda maiores! E ainda se o revólver lhe fosse subtraído, que uso faria dele quem o tomou? Somos / estamos todos reféns da insegurança alastrada por Belém, pelo Estado, pelo Brasil e mundo todo, mas desejamos mesmo assim uma vida habitual, diversão no final no de semana com a família, os amigos. Ninguém quer abrir mão de seus hábitos, mas há que ter limites. O raciocínio deste senhor está, no mínimo, equivocado. Dele e de tantos quantos portam armas, criando para si falsas sensações de segurança. Pareço simplista falando desse jeito, mas não defendo o porte de armas pelo cidadão comum. Falo por mim mesmo. Num momento em que eu visse uma situação de abuso, de violência, quando o sangue me fervesse na cabeça, minhas reações seriam sempre imprevisíveis e armado, eu não seria nada que prestasse! Não vou falar aqui do caos na segurança e na obrigatoriedade estatal de cuidar dessa questão. Não é o meu foco e todos sabemos disso. Questiono a arrogância melíflua dessa presumida autoridade e com isso parto para a última das questões.
Como é que é nossa cidade que justifique esse negócio de “Isso é Belém mesmo!”? Seus detratores estão colaborando efetivamente para mudar esse estado de coisas? Executam diligentemente seus deveres? Respeitam os direitos alheios, seus momentos de repouso, os limites de intensidade sonora, as leis de trânsito, as regras de boa conduta? Os coletivos, espaços públicos, instituições de ensino e religiosas? Ensinam seus filhos o bom convívio, o entendimento das diferenças de dogmas, credos, orientação política, sexuais e pessoais? Exercitam o amor à tolerância, fraternidade, às artes e às letras? Bem educados, quaisquer cidadãos possui valores e parâmetros para julgar o que é certo e podem caminhar livremente sem violar os espaços distintos dos seus, sem essa concepção afetada e pseudo-socialista-moralista de que a sociedade “impõe peias ao livre-arbítrio do povo!”. As leis nos indicam limites e regra nenhuma foi dura o suficiente em lugar nenhum do mundo que impedisse que alguém as violasse. Certamente quem as violou não tinha noção para julgar o que lhe/nos convinha, ou não!
Desarmados de bom senso, armamo-nos de violência e artefatos. E Deus proteja quem cruzar nosso caminho!
(*) Em oposição a indígenas, os naturais de algum lugar.

HUDSON ANDRADE
23 de março de 2009 AD
9h04

terça-feira, janeiro 27, 2009

HAI - LU - CAIS - TWELVE

Estancam os pés.
No termo da estrada
o precipí - cio.


HUDSON ANDRADE
26 de janeiro de 2009 AD
11h22

segunda-feira, janeiro 26, 2009

HAI - LU - CAIS - ELEVEN

Teu nome: mantra
que na cabeça roda
no peito sangra.


HUDSON ANDRADE
25 de janeiro de 2009 AD
8h10

sábado, janeiro 24, 2009

HAI - LU - CAIS - TEN

Ser parte, ser só.
Estar pede tão pouco.
Permita-se ser.


HUDSON ANDRADE
19 de janeiro de 2009 AD
18h35

sexta-feira, janeiro 23, 2009

HAI - LU - CAIS - NINE

Razão, coração.
O comando exige.
O medo trava.


HUDSON ANDRADE
19 de janeiro de 2009 AD
18h31

quinta-feira, janeiro 22, 2009

HAI - LU - CAIS - EIGHT

Paixão é e não
móvel, furiosa, banal.
Prima centelha.


HUDSON ANDRADE
19 de janeiro de 2009 AD
18h29

quarta-feira, janeiro 21, 2009

HAI - LU - CAIS - SEVEN

Mão na mão, outro.
Lábio no lábio, barba.
Uma vez não basta!


HUDSON ANDRADE
16 de janeiro de 2009 AD
17h22

terça-feira, janeiro 20, 2009

HAI - LU - CAIS - SIX

O rio que corre.
Desejo é segredo
marginal tesão.


HUDSON ANDRADE
16 de janeiro de 2009 AD
17h17

segunda-feira, janeiro 19, 2009

HAI - LU - CAIS - FIVE

Trança desfeita.
Sedoso velo marrom
outros pensares.


HUDSON ANDRADE
16 de janeiro de 2009 AD
17h00

domingo, janeiro 18, 2009

HAI - LU - CAIS - FOUR

Mar esmeralda
introvertido âmbar
naufraga e ri.


HUDSON ANDRADE
16 de janeiro de 2009
16h29

sábado, janeiro 17, 2009

HAI - LU - CAIS - THREE

No anel do teu
cabelo o sol, suor,
teu corpo em pêlo.


HUDSON ANDRADE
15 de janeiro de 2009 AD
15h00

sexta-feira, janeiro 16, 2009

HAI - LU - CAIS - TWO

Teu medo é o lacre
dessa cova gris
que a minha luz lambe.


HUDSON ANDRADE
15 de janeiro de 2009.
14h15

quinta-feira, janeiro 15, 2009

HAI - LU - CAIS - ONE

03 a 14 de janeiro de 2009. Por 12 dias minha alegria pendeu numa teia de aranha (e eu nem gosto desse bicho!).
Quis a Vida (ela?!) que 2 caminhos traçassem paralelos.
Pelo que poderia ter sido e não será e pelo que será diverso do que eu (nós) desejo (amos), 12 haikais, um para cada desses dias de ansiosa dúvida e felicidade.

Em tempo: os haikais são poemas de origem japonesa que chegaram ao Brasil no início do século XX. São exercícios de concisão e sobriedade, sem obrigatoriedade de rima e título, divididos em três versos de, respectivamente, 5, 7 e 5 sílabas. Tradicionalmente fazem referência à natureza (diferente da natureza humana, ainda que aceite o ser humano como integrante dessa natureza), refere-se a um evento particular e não generalizações e apresenta este evento "acontecendo agora".
Ao ser transcrito para outras línguas, ganhou certas liberdades de estilo, sem nunca perder o laço com sua forma original. Aqui, um exercício de quem é apaixonado pela palavra e abusado por nascimento.

Teu quarto escuro
pode florescer
lírio, trigo, joio.


HUDSON ANDRADE
15 de janeiro de 2009
12h39

sábado, janeiro 10, 2009

dançAmemóRiaTEatro (Parte II)

O indutor de Ronald Bergman é sua origem. O de Miguel Santa Brígida é sua paixão. A dança do Mestre-sala e da Porta-bandeira é uma instalação coreográfica. Artes plásticas no figurino de Eduardo Wagner que vai desnudando os atores no persurso inverso até a origem dessa peculiar dança consagrada pelo carnaval, aqui mesmo em Belém, com a mesma paixão, garra e elegância que caracterizam o institucionalizado carnaval carioca. Plástica ainda nas bandeiras e cetros e demais adereços cheios de símbolos. Teatro na poesia dos textos de Flávio Negrão e Carol Pabiq e no retorno à cena de Miguel Santa Brígida que interfere, branco e prata, com cheiros, serpentinas e cores. É música nos sambas de enredo e é claro, dança.
O trio em cena é coeso, mas falta maior precisão nas trocas de roupa e algumas marcas que ainda estão marcas. Falta precisão nas falas. Sobra a alegria momesca, o gingado, a irreverência que nos enche de vontade de também estar em cena.

Por fim, mas não menos importante, Iracema Voa, que Ester Sá construiu a partir de citações, histórias e músicas de e sobre Iracema Oliveira: cantora, atriz de rádio, cinema e televisão e que agora dirige o Pássaro Tucano e as pastorinhas Filhas de Sião; memória viva da arte em Belém. Foi emocionante compartilhar a platéia com essa mulher lúcida e festiva e com Ester, que conta histórias, canta e dá vida (ou seria toma a vida?) a artista para recriá-la e recriar-se, fazendo do teatro o veículo. O espetáculo começa com uma exposição fotográfica, passa pela contação de histórias, tem música ao vivo e gravada, interage com o público e envolve a todos e é impossível à própria atriz e a nós não se emocionar às lágrimas. Ester tem um talento especial para fazer vozes e personagens, para nos fazer rir e contou com o apoio de uma grande equipe onde destacamos a luz de Sônia Lopes, as vozes de Paulo Marat, Pauliane Banhos e o grande cenário-figurino-relicário de Mestre Nato, artista das antigas e ainda em plena e talentosa atividade.
Penso que enquanto recorte poderíamos ter menos informações - ou conduzí-las em imagens, canções, etc -, o que reduziria um pouco o tempo do espetáculo e lhe daria mais dinamismo. Entendo a vontade de contar tudo, de falar muito e a própria Ester me dizia da preocupação em interpretar alguém ainda vivo e que a observaria. Como ser ela? A atriz não cedeu à tentação de ser Iracema; ela é a Iracema pelo filtro de outra mulher com toda uma bagagem própria de experiências. E assim ganhamos todos. Flores. Que a Arte semeie nas nossas vidas e que nos é devido regar, multiplicar e distribuir.

HUDSON ANDRADE
17 de dezembro de 2008 AD
16h30

Vaqueiro (a), substantivo: (01) Aquele que vai no vácuo dos outros para ingressar sem custo em festas, teatros, cinemas, jantares, caronas, etc...; (02) cara de pau... Vixe! A lista é extensa!

dançAmemóRiaTEatro

Em dezembro de 2008 o Instituto de Artes do Pará (IAP) promoveu o Circuito das Artes, apresentando o resultado de suas bolsas de pesquisa envolvendo artes cênicas (dança e teatro), musicais, plásticas, audiovisuais, literárias e de expressão da identidade. Um incentivo à produção artística local e que leva ao público totalmente de graça (para alegria dos vaqueiros* de plantão!) espetáculos nos mais diversos ambientes do IAP.
Do bafafá generalizado que ouvi dos muitos trabalhos, pude assistir quatro, resultados de amigos queridos e, acima de tudo, profissioais das artes cênicas: o ator e bailarino Ronald Bergman, o diretor e novamente ator Miguel Santa Brígida e a atriz, cantora, diretora e dramaturga Ester Sá. Três trabalhos absolutamente distintos, inscritos oficialmente em bolsas de dança (os dois primeiros) e teatro, cujos resultados são a mostra de uma arte plural e ousada que rompe os tênues e vaidosos limites entre as diferentes formas de expressão.
Assisti ainda Muragens - Crônicas de um muro, animação em 2D sobre o cotidiano do entorno do Cemitério da Soledade, de Andrei Miralha. Sobre o cimento e o limo do cemitério, feirantes, amantes, ladrões, moradores de rua, crianças, desfilam seu dia-a-dia, seus imprevistos, o trabalho exaustivo e diário que não prescinde da sesta quando o calor aumenta e por poucos instantes a alma voa livre. Trabalho de excelente qualidade, poeticamente construído e maravilhosamente musicado. Tomara vare mundo!!
Teatro é um ou mais atores em cena, dando falas e executando marcas? Dança são bailarinos, ou dançarinos em coreografias que expressam sem palavras o que se quer dizer? E contar histórias de vidas alheias? Em que categoria encaixar os rodopios do Mestre-sala e sua Porta-bandeira? e se eles falarem, isso é teatro?
Dinamismo e inconformismo devem ser palavras sempre presentes no artista e todos os grandes (não necessariamente bons nem sempre belos!) gênios foram os que subverteram a ordem das coisas e provocaram olhares diferentes sobre o óbvio.

As próprias origens e a sabedoria e cultura popular inspiraram Negra Memória, experimentação cênica em dança de Ronald Bergman. A sala de dança do IAP se transformou num labirinto escuro onde na procura de um preto retinto e tinhoso, Bergman encontra a religião afro, seus sincretismo, o açoite, a cachaça, a dança, o banzo de seus antepassados e o colo materno, porto seguro.
Acompanhado de registros sonoros gravados e música ao vivo o ator-bailarino avança no claro-escuro que é tanto a cena quando seu resultado inscrito em dança mas que se utiliza da poética da fala - ponto que precisa ser amadurecido.
Negra Memória é uma celebração do Si, convidando todos a descansar a cabeça no colo da mãe África-útero-Arte.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

EU 19


Aceitei o turno da noite com a gratidão de um refugiado. Chegava com o sol se pondo,quase uma hora antes do expediente e saía no azul-marinho-azul-celeste das primeiras horas. Protegido pelos óculos escuros, seguia para casa e depois de um banho frio, dormia até que o estômago reclamasse de fome.
Pelos bons serviços prestados, uma transferência para horário mais confortável. Recusei. Primeiro pensou-se em preguiça de topar com o entra-e-sai de gente na empresa, mas isso não parecia coerente. Então veio a suspeita da desonestidade. Averiguações feitas, nada de errado, exigi uma retratação do encarregado perante meus colegas de trabalho que eu não iria amargar a pecha de supeito nem de vítima. Ele se recusou. Então eu saio. Simples assim. Mas fiquei, uma vez que bons funcionários são tão difíceis de conquistar. Mas cá entre nós, segredou o diretor, por que diabos queres esse turno tão puxado? Gosto da noite. Simples assim!
Três anos e lá estava eu, o matinta-pereira, como os colegas brincavam. Só falta pedir fumo, completavam. Mas eu não fumava. Éramos eu, uma boa garrafa de café preto, forte, quente, meio amargo e o breu, o silêncio, as sombras que pregavam peças das quais eu ria bem voltando pra casa. Carnaval, Semana Santa, Círio de Nazaré, Natal, Ano Novo. Quantas vezes eu de boamente troquei minhas folgas pela diversão alheia?
No quarto e sala aos domingos, ouvindo fossas antigas, mudava o sofá-cama de lugar, arrumava as revistas na mesinha de palha-da-costa, meus santinhos na prateleira de metal e cozinhava macarrão, sempre com alguma receita nova copiada da TV de, sei lá, 15 polegadas, ou da internet do cyber da esquina.

A noite biologicamente convida ao sono e mesmo tendo dormido o dia inteiro, tinha horas em que os olhos pesavam e eu acordava já com a cabeça pra bater nos joelhos ou no tampo da mesa. Daí eu levantava, tomava café e fazia uma ronda. São tantas horas e tudo está bem, eu gritava brincando, ouvindo minha voz bater nos corredores vazios e penumbrosos.
Foi num espantar de cochilo desses que eu vi a sombra. Negra, como lhe convêm, silenciosa e esquiva como devem ser as sombras. E fugidia quando o olhar se fixa onde ela estava. Acostumado ao vazio, dei um pulo derrubando mesa, cadeira e café, a mão imediatamente no revólver. À frente, um longo corredor que ia bebendo a luz da minha sala nas suas salas vazias.
Caí numa gargalhada nervosa e me recompus, mas não dormi mais a noite toda. Fui para casa com uma sensação estranha, ainda que não sendo dado a superstições. Banho frio, sono. Desencanei.
Mas no outro dia e no seguinte e no outro ainda, lá estava novamente a sombra de pé, estática, fosse no corredor principal, no refeitório, no vestiário, atrás da minha mesa, às duas, às cinco. Não dormia mais. Passava as madrugadas vasculhando os cantos com uma lanterna, a mão ridiculamente no cabo do revólver, os ouvidos atentos para os quais quaisquer ruídos viravam passos, portas abrindo, trincos. Percebi então que a cada noite a minha negra companheira aparecia em um local cada vez mais distante da minha sala, como que tentando que eu a seguisse, até que eu cheguei ao velho depósito do qual nem eu tinha as chaves. Ao olhar pelo buraco da fechadura antiga, um vento gelado pareceu sussurar meu nome. Eriçado, corri de volta e lavei demoradamente o rosto na pia do banheiro, acendi todas as luzes, pus a arma sobre a mesa, queimei a língua com café. Pela manhã estava destruído.
Ainda assim falei com funcionários antigos, fucei anotações, fui à sede do jornal local e mesmo ao cartório: Nenhum acidente, ou vítima, ou catástrofe. O prédio fora erguido onde antes havia uma floricultura que fechou depois que os donos voltaram para Holambra.
Naquela noite eu apaguei novamente as lâmpadas, empunhei a lanterna e segui o longo corredor, o silêncio e a penumbra criando fantasias na cabeça. Em frente ao velho depósito, parei. O cadeado era antigo,mas resistente, a porta estava chaveada; as dobradiças pareciam ainda mais velhas do que a madeira do caixilho. De súbito, meti o pé na porta, arrancando-a dos seus encaixes. Entrei tateando um interruptor que não acendeu luz alguma. Com a lanterna, vasculhei o espaço. Vazio. Completamente vazio. Foi ao virar para a porta que eu a vi, desenhada contra a luz mortiça do corredor. Dei um grito, recuei dois passos e deixei cair a lanterna que apagou assim como as lâmpadas de fora.
Na completa escuridão, com o coração aos saltos e a respiração curta, tateava à procura da lanterna e da saída. Então a mão suave de alguém tocou a minha. Fiquei imóvel, mas nem pensei em reagir ao toque. A despeito da completa ausência de luz, o rosto era plenamente visível - os traços finos, lábios carnudos, olhos brilhando com uma paixão incontida. De pé frente à frente senti um ardor no peito tão forte que foi impossível não chorar. Aquela mão macia tocou meu rosto e seus lábios sorriram tudo.
E com um som de besouros as luzes do corredor se acenderam, piscando, e a lanterna iluminou meus pés. Da minha negra sombra nem sinal.
E um vazio foi tomando meu coração que até há pouco transbordava de algo bom.
Caminhei até a porta, recoloquei-a nos caixilhos como pude deixando a luz do corredor lá fora. Pensei sentir um leve roçar no meu ombro direito e com força exagerada quebrei a lanterna contra a parede.
E uma noite calma e plena me tomou inteiro.

Hudson Andrade
07 de janeiro de 2009 AD
17h30