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terça-feira, dezembro 06, 2011

COMO SE FOSSE... COMENTÁRIOS DE UMA ESPECTATRIZ.



2011 me deu muitos presentes e entre eles, Como se fosse..., o espetáculo que me colocou em cena como ator e como autor, mas sem qualquer distanciamento de mem, do público, literalmente desnudo.
Hoje eu sou ouvinte, eu, que tantas vezes me arvorei de comentarista. As palavras são de Rosilene Cordeiro, atriz que para mim é pura essência de arte, carisma e feminilidade. Outro presente! Deleitem-se!

COMO SE FOSSE Poesia... COMO SE FOSSE Teatro... COMO SE FOSSE O que eu queria dizer!
Ao Hudson Andrade e ao Leoci Medeiros


Deleito-me em ver aquilo que tem fundura.
Fundo poço de águas turvas ou claras, o aspecto do líquido aqui pouco importa de fato.
Água em estado líquido carrega em si a inteireza do fluxo, corrente que é na "bruteza" da sua condição primeva.
Vivi algo assim, como embebida pela maré, quando estive como "espectatriz" do espetáculo encenado pelo Hudson Andrade e o Leoci Medeiros, COMO SE FOSSE, em pauta na Casa da Atriz no mês de junho deste ano.
Senti-me- por um certo momento mágico e arrebatador- uma celebridade entre célebres! Não o sou, mas estive celebridade quando tive a chance de presenciar dois atores, leves e graciosos atores!- "compartilhando mergulhos" na/ da cena teatral com apenas dois espectadores “de fora”, sendo eu mesma um deles. Na verdade éramos quatro na grande cena, ou melhor dizendo, seis porque o Paulo e a Yeyé Porto estavam lá.
Não pretendo, nem teria como fazer uma análise crítica do mesmo porque disso, nada compreendo. Nem tão pouco seria capaz de organizar um comentário tão rápido que pudesse dar conta da ebulição de coisas que essa experiência me conferiu. Ao término, apenas consegui dizer aos presentes sobre o sentimento da hora: "Primeiro eu preciso voltar à superfície! rr. È algo sobre o qual eu gostaria de escrever um pouco.”
Bem, eu tenho feito algumas incursões perceptivas pela estética teatral em “estado” de platéia que reconhece a necessidade de prestigiar colegas de ofício, produtores de arte, teatral sobretudo, pois não há como fugir disso uma vez que nessa seara estou com os dois pés embutidos. Mas move-me, também, o desejo de exercitar o olho, as sensações das diversas partes do corpo, a mente desejosa de coisas boas, belas, poesias subliminares passíveis de seguirem comigo vida a fora, ofício a dentro.
Nessas parcas andanças, tenho colhido impressões, reflexões, quadros sem molduras de questionamentos, disparos de dúvida, dor, medo os quais dou-me na tentativa de atribuir vigor a esse fazer/ pensar que tem se constituído minha atividade teatral, desde os idos (bem idos!rr) dos meus 14 anos, isso na década de 80, como cria da FUMBEL que fui.
Aprender leva tempo, a maturidade ensina-nos a abrir bem os olhos e o coração para o novo de cada coisa diante de nós.
COMO SE FOSSE mágica, ali, naquele banco que se fez MEU lugar por algum momento, dividido com outra pessoa desconhecida, fiz uma viagem não planejada para o interior de um teatro pouco difundido, ao qual me propus, mesmo antes de sabê-lo como hoje o compreendo, meu lugar de encontro e mutação, teatro trabalho, transpiração, construção física-emocional-política.
O espetáculo é idas e vindas. Sobe e desce, abre e fecha, riso e dor, pergunta e afirmação. Trata exatamente do interior disforme e pouco conhecido da grande massa. Fala dessa ARTE em 'capslock' que cruza o ser ator instigando-o à exaustão do corpo e da mente, tirando-lhe o sossego, a carne fria, a respiração tranqüila, que atira sua alma à parede arremessando verdades, inquirindo-o e devolvendo-lhe aquilo que o incomoda, que o aflige, denunciando sua fragilidade e sua permanente busca por realizá-lo com a maior verdade que lhe seja possível atribuir.
Em frases/ textos selecionados dos clássicos do teatro num passeio histórico pelos diferentes lugares dos conceitos e depoimentos teatrais por teóricos do mundo afora até o que há de mais hodierno, vazando no contemporâneo da vida, vagamos como interlocutores da cena, sendo levados a ler o que o TEATRO continua a nos colocar como questões cruciais que atravessam o tempo cronológico desembocando no fazer que pretendemos hoje quando tocados por suas múltiplas poéticas. Pra mim é uma denúncia que as vezes é preciso voltar, estudar, olhar mais dentro, investigar, debruçar-se na correnteza que levanta a canoa que nos leva ao grande e tenebroso mar da realização teatral como obra de arte que é.
Dizia aos meninos- Hudson e Leoci- inclusive, que o cerne do espetáculo deveria ser elevado a uma disciplina acadêmica, dado a necessária audiência de todos nós que nos dizemos seguidores das artes cênicas, pelo provocativo que suscita em torno desse trabalho laborioso, caótico, difuso e deleitoso do qual nos munimos como partícipes dessa empreitada que desejamos abraçar.

Por um instante, pensei no que significam os fóruns, as redes sociais criadas em torno da temática, as reuniões com pautas pontuais, os núcleos de formação específica, os estudos, as pesquisas, os eventos que temos empreendido em sua direção. Pensado sobre o largo e pedregoso caminho galgado por muitos ( bem poucos ainda!) em prol de políticas públicas que possam, finalmente, reconhecer e agregar à nossa ARTE/OFÍCIO o valor social e artístico ao qual Ela faz jus, pelo histórico de ação no mundo, pelas tantas vidas em torno dela organizadas.

Sai da Casa da Atriz mexida, sensação mista de confusão e alegria, revigorada (porque as vezes alguns espetáculos nos permitem essa vazão!) pelo fato de que não estou sozinha na ‘loucura’ (talvez a mais sã de toda minha carreira existencial) de perseguir um jeito peculiar -meu jeito- de cristalizar aquilo que eu penso, que eu acredito, que eu divulgo, que eu quero comunicar com a minha arte, não numa tentativa vazia e isolada, mas dialogando com tudo que possa colocar o teatro no lugar que lhe é merecido desde sempre: EM CENA! NA ANTEMÃO DA ARTE VIVA, PULSANTE, INTEGRAL E GALOPANTE EM PERMANENTE MUTAÇÃO!
A todos os envolvidos nesse trabalho, um abraço gostoso e desejoso de vê-los logo, logo em cena novamente.
Ao Hudson e ao Leoci, um cheiro mais que especial pela emoção que me deram, pelo olhar fundo vez ou outra dividido na contracena extrema de cada fala compartilhada, daquela apresentação que, me permitam os demais, foi devotada a mim, justamente pelo mergulho que me dei na presença de vocês.
As lágrimas dizem do resto, desse resto que não cabe no instante da palavra, mas que é capaz de resignificar o tempo e a qualidade do que sentimos uns pelos outros. Do ânimo que vamos dividindo como colegas de profissão e sonhos.
Meu sentimento? Prazer.

Com o coração festivo e de volta à respiração diafragmática!rr, abraço-os.
COMO SE FOSSE um de vocês...


Rosilene Cordeiro, julho de 2011
- É atriz. Entre seus trabalhos destacam-se Paixão Fosca e Em Algum Lugar de Mim.
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sexta-feira, junho 03, 2011

PÉS DE BARRO, SOL NOS CABELOS

Numa semana miraculosamente de folga fiz o que, como ator, faço para me divertir: fui ao teatro. Assisti Aldeotas – Lugar de Memórias e Paixão Fosca e sobre eles agora discorro um pouco.


Aldeotas – Lugar de Memórias é o espetáculo que marca o retorno à cena do Grupo Gruta de Teatro e aos palcos dos atores Adriano Barroso e Aílson Braga. Aldeotas vai beber nas lembranças: o amizade de Levi (Barroso) por Elias (Braga), as delícias da infância, o prazer da poesia, o aprendizado das escolhas feitas – algumas dolorosas. O texto do ator e dramaturgo Gero Camilo é extremamente rico – de imagens, de sensações, de emoções – e tem na sua bela escrita e singeleza de uma broa de milho que abre as portas do reino no centro da Terra onde meninos com olhos de diamante cantam, dançam e silenciam num só tempo.
A dramaturgia de Henrique da Paz, decididamente um dos melhores diretores do Pará minimaliza cenários e adereços para privilegiar a interpretação, enquanto a luz de Sônia Lopes cria apontamentos cênicos e acentua as emoções dos personagens. O resultado é que está nas mãos de Adriano e Aílson o prender a platéia pelos quase 90 minutos de espetáculo, voando em cajueiros, mergulhando em cacimbas, saltando de abismos, descobrindo o amor e a sexualidade; dramas contemporâneos que devoram sonhos e lugares de conforto onde a falta de coragem fala mais que o afeto – que não é pouco, só é criança.
E esse dizer incomoda. Soa professoral, quase discursivo. Talvez opção do diretor, talvez para contrapor os momentos em que ele rasga a alma e grita e chora, abraça e beija, para retornar a uma fala rebuscada de Rs e Ss. Assim também o corpo, que não é da cena, mas cotidiano. Presente, mas não inteiro. Seguro, mas não proposto. Pés de barro nesse colosso cuja cabeça está adornada de ouro.


Paixão Fosca é para quem gosta de folhetins. A mocinha transgressora aprisionada em sua torre, o cavalheiro honrado que é amante e protetor, um médico misterioso (Marinaldo Silva) e seu comandante, (Harles Oliveira), uma mulher dúbia – leviana e dissimulada, ou fervorosamente apaixonada na sua solidão? A doença como arma de chantagem, ou molde torto para uma alma iluminada?
A partir do texto Fosca de Iginio Ugo Tarchetti o ator, diretor e dramaturgo Guál Didimo apresenta Giorgio (Rafael Feitosa), cuja paixão se movimenta lenta e tropegamente da doce Clara (Paula Diocesano) para a sofrida Fosca (Rosilene Cordeiro .Brilhante), uma mulher de personalidade marcante que assusta e encanta, cuja resistência está na espera de um grande amor que coroe a sua vida.
Com uma cenografia simples e de múltiplas possibilidade, brilham os figurinos excepcionais de Ézia Neves (responsável por ambos) e a luz de Sônia Lopes, não à toa, uma das iluminadoras mais requisitadas pelos grupos de Belém, pela certeza de um trabalho participativo e entregue que começa nos ensaios, seguindo com o grupo, propondo, construindo, até o resultado sempre competente e belo. Na sessão que eu assisti havia falhas de operação que prejudicaram algumas cenas, assim como o uso indevido da luz por alguns atores, que insistiam em falar e andar nas sombras.
Paixão Fosca é um espetáculo classudo, à italiana, naturalista, romântico, desses que pedem vermelhos e dourados e trilhas sonoras clássicas. Nenhum demérito nisso. Como encenador eu tomaria outras decisões: planos de ação diferenciados, menos ou nenhuma saída de cena dos atores, excetuando talvez Fosca, cuja ausência física não apaga o seu rastro e sua presença é marcante mesmo antes que a vejamos pela primeira vez.
Ao contrário do espetáculo do Gruta onde não há onde e com o que se camuflar, os recursos disponibilizados por Dídimo deixam alguns intérpretes bem acomodados esquecendo de fincar seus pés na rocha sólida do seu trabalho como ator.
Há que se aureolar frontes, mas sem desmerecer com o que se pisa.

SERVIÇO
Aldeotas – Lugar de Memórias todas as quartas de junho no Teatro Cuíra
21 horas.
Ingressos: R$ 20,00 (vinte reais) na bilheteria.

Enquanto Paixão Fosca não volta aos palcos, leia mais sobre o espetáculo em http://www.paixaofosca.com.br/.

HUDSON ANDRADE
03 de junho de 2011 AD
10h37

segunda-feira, outubro 18, 2010

JÁ TENS ÁGUA DEMAIS




Num mundo de homens o feminino se afoga em flores, fronhas, promessas...
Todos os dias tantas mulheres se calam feridas naquilo que lhes é tão caro: sua dignidade.
Texto original escrito por Hudson Andrade com referências a Hamlet, de William Shakespeare e Que Será, bolero de Marino Pinto e Mário Rossi, apresentado durante o Curta a Cena III, nA Casa da Atriz, nos dias 15 a 17 de outubro de 2010.


Uma desgraça sempre vem nos calcanhares da outra, tão depressa se sucede uma à outra.
Ofélia se afogou.
Afogou-se?...

Acordava todos os dias às quatro e meia da manhã, acendia a vela que (ele) insistia em apagar debochando da sua crença em Deus e nos homens. Fazia café. Lavava um tanque de roupas cantando pra dentro uns sambinhas antigos e uns boleros desses de chorar. Gostava de dançar bolero. Dançara muito quando era mais jovem e saia (com ele) pro clube do bairro de onde só voltavam bem depois da hora marcada pelo pai. Afinal (ele) estava se divertindo. Valia a pena o puxão de orelha. Gostava de teatro também. Vira só uma vez, não entendera muito, mas achara lindo e até decorara umas frases inteiras que o filho mais velho copiara de um livro da biblioteca.
Casara por causa de barriga, ficara por causa de barriga, voltara por causa de barriga e a cada vez pensara que desta vez seria diferente. (Ele) dizia.
Ouviu passos dentro de casa. Estremeceu. Entrando ou saindo? Olhou o tanque cheio. Iria se atrasar de novo pro serviço. Fazer o quê? Ainda tinha que passar o vestido de uma amiga (dele) que viera manchado de cerveja e levar os meninos no colégio. Outros passos. Tampas de panela. A porta da geladeira velha batida com força. Abaixou-se pra pegar a bacia e sentiu uma pontada no lado esquerdo. Levantou a blusa. A mancha ainda iria demorar a sumir. Sempre demorava demais. Como gesso, que acabava se desfazendo no tanque de lavar roupa.
Mais passos. Mais perto. Prendeu a respiração. Fechou os olhos. Num segundo estava correndo, os pés descalços subindo a escadinha da caixa d´agua do prédio no fim da rua. Parada diante da água morninha se viu novamente no teatro chorando sem saber por quê.

Inclinado nas margens de um arroio, levanta-se um salgueiro que reflete as prateadas folhas na corrente cristalina. Para lá se dirigiu, adornada com estranhas grinaldas de botões de ouro, urtigas, margaridas e com aquelas largas flores púrpuras às quais nossos licenciosos pastores dão um nome grosseiro, que, porém, nossas castas donzelas chamam de dedos de defunto. Ali trepou pelas ramagens pendentes para colher sua coroa silvestre, quando um traiçoeiro ramo se desprendeu e, junto com seus agrestes troféus, foi cair no soluçante arroio. Suas roupas, a princípio, se espalharam e a sustentaram durante alguns instantes, como se ela fosse uma sereia. Enquanto isso cantava estrofes de antigas árias, como se estivesse inconsciente da própria desgraça, “Que será da minha vida sem o teu amor?... Mas aquilo não poderia durar muito e os vestidos embebidos tornaram-se mais pesados e arrastaram a desgraçada para uma morte lamacenta, em meio de seus melodiosos cantos. “Eu errei, mas se me ouvires vais me dar razão...”
Afogou-se! Afogou-se!
Já tens água demais, pobre Ofélia! Eis porque contenho minhas lágrimas. Ainda assim, é uma necessidade humana: nossa natureza as reclama, embora a vergonha não cesse de protestar. Quando este pranto cessar, tudo o que em mim houver de feminino terá acabado.

Hamlet, Ato 4º, cena VII (falas da rainha Gertrudes e Laertes), W. Shakespeare.
Tradução: Pietro Nassett
Editora Martin Claret, São Paulo, 2001.
Texto original de Hudson Andrade* com referências a canção “Que Será” de Marino Pinto e Mário Rossi.


(*) 02 de outubro de 2010 AD 10h53.

CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.stickel.com.br/atc/uploads/agua.jpg

segunda-feira, agosto 23, 2010

ALMA FEITA DE ÁGUA



“Foi meu amor que me disse assim...”
(Adaptado da canção Alecrim, de Rodolfo C. Ortiz)


Aqui no norte do Brasil é comum nossa vida ser regida pela água. A água da chuva da tarde que agora só no imaginário determina nossos compromissos – particularmente eu acho lindo que tenha havido um tempo em que os horários dos nossos compromissos fossem pautados por outra coisa além das nossas “necessidades”! – e sobretudo as marés, as águas grandes, que mobilizam e imobilizam comunidades inteiras, ensimesmando gentes que só podem esperar, ganhando fama inglória e injusta de preguiçosos. Tem uma água dentro também, que inunda, mas disso eu falo depois.
A água também governa Eutanázio e o Princípio do Mundo, espetáculo da Usina Contemporânea de Teatro em cartaz no Instituto de Artes do Pará. Inspirado no romance Chove nos campos de Cachoeira, do paraense Dalcídio Jurandir (http://www.dalcidiojurandir.com.br) (cuja escrita ainda me é desconhecida, mas do que eu já percebi, tem o jeito, o ritmo, os termos que eu gosto de usar e ler.), o espetáculo fala de Eutanázio que, doente, relembra a vida enquanto espera a morte. Sua história é contada por três mulheres: a desencantada Raquel (Valéria Andrade. Maravilhosa!), Irene (Vandiléia Foro), que na rudeza de modos esconde a menina que – como nós – só quer ser amada e ser feliz, e Felícia, empobrecida, abandonada, violentada e solitária como os campos do Marajó e o peito da gente. Paralelamente temos a vida de Alfredo, irmão mais novo de Eutanázio que deseja estudar em Belém. O ator Milton Aires mistura sua própria vida a de Alfredo criando um pequeno Hamlet vivendo num reino podre que afoga repetidamente seus sonhos. Com dramaturgia do paraense Paulo Faria, que atualmente vive e trabalha em São Paulo, Eutanázio e o Princípio do Mundo começou doze anos atrás, da vontade de encenar Jurandir, até a premiação pela FUNARTE através do Prêmio Myriam Muniz 2008, liberação de recursos e sua estréia nesse 21 de agosto de 2010.
O maior desafio, segundo o diretor Alberto Silva Neto, foi extrair o que dizer e como dizer da riquíssima obra do Dalcídio e seu primeiro livro publicado originalmente m 1941 e que também rendeu Solo de Marajó (VER A Menina. O moço. Ritinha. A ama de leite. http://curiadarte.blogspot.com/2010/03/menina-o-moco-ritinha-ama-de-leite.html), o excelente solo de Cláudio Barros que teve uma infelizmente curta temporada em Belém. Depois foi deixar-se encher, encher como os campos marajoaras e quando a água baixou, por mãos à obra. Paciência e dedicação de quem vive nestas bandas e faz teatro num Estado e num país alheio a formação cultural do seu povo!
A mais de hora de espetáculo vai exigir do público não acostumado a teatro alguma calma. Tudo é lento: movimentos, falas, olhares, respiração; então a vida daquelas quatro pessoas te joga um laço e se pegar – porque também pode não pegar! – é mergulhar junto e remexer naquelas águas de dentro que eu falei no começo e o coração se enche de saudades e quereres e solidão e lembranças boas e tudo isso é bom e também machuca e também comove e também faz crie uma casca onde a gente não mexe, mas se não mexer não vê o fundo.
Eutanázio e o Princípio do Mundo exige atenção: o elemento cênico que destoa, o ângulo do qual se quer ver essa história, a voz afinada da Nani, os solos brechtianos de Milton Aires, o tempo para primeiro conhecer aquelas criaturas para só então se envolver com elas, tomar partido, quem sabe, e até mesmo assistir, aplaudir, retirar-se que se este não se pretende um espetáculo arrogante e intelectualizado – no sentido pávulo do termo – também não é folhetim gratuito e simplório.
Eutanázio e o Princípio do Mundo é como os campos alagados desse norte do país onde o meu eu-búfalo pasta tranqüilo e pacífico inconsciente de sua força. Ou exatamente pelo saber dela.

HUDSON ANDRADE
23 de agosto de 2010 AD
9h34

SERVIÇO
Eutanázio e o Princípio do Mundo
Inspirado no romance Chove nos Campos de Cachoeira de Dalcídio Jurandir, com dramaturgia de Paulo Faria.
Direção: Alberto Silva Neto
Elenco: Milton Aires, Nani Tavares, Valéria Andrade e Vandiléia Foro.
Cenografia e figurinos: Nando Lima
Iluminação: Sônia lopes
Operação de luz: Frank Costa
Desenho de som: Cláudio Melo (com registro de sons do Marajó de Léo Bitar)
Operação de som: Lucas Cunha

De 21 de agosto a 26 de setembro
IAP – Instituto de Artes do Pará (Nazaré, ao lado da Basílica)
Sábados e domingo – 20 horas
Entrada franca.

sábado, maio 08, 2010

PONTA DE LANÇA



Uma idéia ganha corpo. Corpo dilatado. Corpo santo. Rodrigo Braga pensou o novo espetáculo da Companhia de Teatro Madalenas em 2006 numa oficina de performance da Wlad Lima, no IAP. Então nem era espetáculo. Era algo pra si, pra estudar e construir.
O indutor foi São Jorge, escolhido não por devoção, mas por simpatia com a vida, a peleja, a ideologia mesma do soldado romano que pondo sua fé acima das obrigações militares é morto e assim, martirizado, é abraçado pelo povo como santo. Jorge da Capadócia, São Jorge, Ogun nos terreiros da crença afro, o vencedor do dragão – um monstro sob medida que habita as sombras do nosso imaginário, a lua cheia, burocráticos copinhos de café. São Jorge, guerreiro cujas histórias e mitos foram decodificados e ressignificados na pessoa que responde a impulsos, nos ritos da umbanda, no ritmo dos atabaques, no azul das guias.
Durante um ano Rodrigo e Leonel Ferreira, parceiro de grupo e diretor do espetáculo construíram Corpo Santo, parando apenas quando o ator foi para Campinas (SP) para a oficina do LUME, de onde ele voltou cheio de novas idéias e um corpo completamente alterado. Meio que recomeçar, meio que reconstruir. Tantas informações acabam por se confundir em cena. O gestual de um estado vazando para outro. Matrizes não devidamente orgânicas. Esse é um processo que leva tempo e exige repetição. Apesar de não comprometer o resultado essa dança pessoal precisa ser aprimorada enquanto objetivo do próprio ator, para além desse trabalho.
O texto – muito bom! –, segundo Leonel, foi um presente da Wlad Lima que a companhia usou como base da sua dramaturgia própria que não põe na palavra o centro da encenação. Texto, imagens corporais, música, formam o tripé sobre o qual se assenta Corpo Santo. As falas em falsete prejudicam algumas terminações de frases exigindo de Rodrigo que ele articule devidamente as palavras, projete a voz e garanta um,a boa respiração. Algumas cenas são feitas no que Viola Spolin chama de blablação, uma linguagem estranha, desarticulada, que por si não significa nada, mas que somada ao corpo ganha largos horizontes de embates, oceanos e, claro, a luta contra o dragão. Incomoda particularmente a mim uma grande tatuagem que, de perto, revela o Santo Guerreiro e seu inimigo. Há uma proposta pensada pelo Aníbal Pacha, bonequeiro, de animação dessa imagem por movimentos específicos do tronco do ator. No entanto é impossível não ver o desenho que em muitos momentos rouba o olhar do espectador da/na cena que se desenrola. A tatuagem precisará ser administrada em outros momentos, outros espetáculos, o que poderia levantar a questão se um ator/atriz deve/pode ter o corpo assim, marcado.
A trilha sonora de Kleber Benigno, o Paturi, utiliza percussão e canções de louvor a Ogun, executadas ao vivo e cantadas por Moahra Fagundes, Érika Nunes e Dina Mamede, trabalho que entrou efetivamente na encenação no último mês antes da estréia. Dina diz se sentir ainda insegura nessa nova proposta, cantar, mas acredita no resultado pela força do conjunto.
Esse um ponto extremamente positivo, o da companhia dar espaço aos seus membros e encampar a idéia de um e fazê-la coletiva. Eu acredito nesse abraçar a idéia alheia e frutificá-la em conjunto como a essência do que chamamos teatro de grupo, amador. Se é a viagem de alguém, uma tragédia grega, um clássico shakesperiano, o que seja. O que importa é dividir funções e acatar tarefas, executando-as com disponibilidade e consciência. O resultado se vê no palco: uníssono, orgânico, para além de genialidade e talento – o que não se questiona aqui por Corpo Santo ser um ótimo espetáculo. Digo isso como quem já viu coisas das quais tirada a plástica, nada mais resta.
E por falar em plástica, salve, Aníbal Pacha! Cenários, figurinos, adereços onde predominam o branco e o azul, impecáveis. Da arena de renda onde se entra com três palmas às lanças suspensas no ar; velas, alguidares, pedras que viram dragão! E mais uma vez a idéia de conjunto por saber-se que Pacha integra efetivamente o processo onde está inserido e se retroalimenta para conceber uma estética que é própria daquele espetáculo porque nasceu dele e para ele e onde tudo e cada coisa tem o seu porquê e a sua intrínseca beleza.
É lamentável que Corpo Santo esteja em cartaz apenas duas semanas. Que retorne logo! E que se mantenham essas boas idéias que corporificam grandes performances. Sequer li o programa antes da apresentação. Não quis criar expectativas e confesso que não sabia o que esperar. Saí do teatro extremamente satisfeito e feliz que minha terra produza trabalhos de qualidade, de gente jovem, pés no chão, à despeito de tão desestimulante realidade cultural.
Rodrigo iê.
Salve, Jorge.
Salve, Madalenas, salve!

FICHA TÉCNICA
Ator: Rodrigo Braga
Direção: Leonel Ferreira
Dramaturgia: Companhia de Teatro Madalenas
Direção musical: Kleber Benigno
Músicos (Percussão e coro): Kleber Benigno (Paturi), Valdeci Justino Silva Jr., Wellerson Casablancas, Wellitton Barreto, Edson (Padre).
Cantoras: Dina Mamede, Érika Nunes e Moahra Fagundes
Concepção e operação de luz: Thiago Ferradaes
Concepção de cenário e figurinos: Aníbal Pacha
Confecção de figurinos: Mariléia Aguiar
Assistência de produção e contra-regragem: Flávio Furtado
Produção e contra-regragem: Tainah Fagundes
Produção gráfica: João Paulo Guimarães
Fotografia: Bob Menezes
Assessoria de imprensa: Carolina Menezes
Realização: Companhia de Teatro Madalenas.

Este projeto foi contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz.

HUDSON ANDRADE
30.04.2010, modificado em 03.05.2010 AD
12h37

sábado, abril 17, 2010

VIDA, PAIXÃO, MORTE, RESSURREIÇÃO.




“O objetivo do ator é transmitir suas idéias e sentimentos usando suas próprias emoções (...), sua experiência pessoal de vida (...), sem ocultar nada.” (Antonio Januzelli - Janô)


Vida. 53 anos de idade. Tempo cronológico. Calendário. Um quarto de século de teatro, dentro e fora dos palcos.
Paixão. Pelas filhas gêmeas, pelo marido e parceiro, por essa mesma arte que contaminou todos e fez da própria casa abrigo, ala de ensaios, auditório, teatro.
Morte. Abarcar e ao mesmo tempo esquecer toda uma bagagem pra viver algo novo. Solo, intimidade, numa troca que exigiu confiança, respeito, transpiração e inspiração.
Ressurgir sem ser cinza, mas ser novo, vendo dois meses de trabalho coroado de aplausos e a certeza expressa: Agora eu posso dizer que sou atriz!
Yeyé Porto é dessa geração de atores e atrizes paraenses que tem como integrantes Geraldo Sales, Cacá Carvalho, Cláudio Barradas, Nilza Maria, Zélia Amador, Luis Otávio Barata, entre outros. Nomes que a gente fala com um acento grave na voz. Gente que eu com meus apenas 39 anos de idade e 09 de carreira tive a chance e a honra de conhecer (exceto o Barata). Fui chamado a integrar o projeto A Casa da Atriz pelo Adriano Barroso que dirige o espetáculo A Troca e a Tarefa, que inaugura oficialmente a residência dos Porto como espaço cênico. Integro-me como ferramenta, como elemento, somando o que eu sei – porque há o que eu saiba – e o que me falta – porque há muito disso – e acreditando em fazer teatro.
Após a estréia do espetáculo a comoção da equipe era geral. “É isso!”, o Barroso dizia, olhos brilhando. “É isso!”, concordávamos.
Fazer teatro é pra todo mundo, mas não é pra qualquer um. Toda pessoa pode subir ao palco, escrever peças, conceber figurinos, cenários, adereços; iluminar, compor trilhas e organizar as apresentações. Mas não é qualquer pessoa que se entrega, que se joga, que acredita; que sente uma cuíra entrando por trás, subindo pela espinha e desarrumando a cabeça. Talvez por isso Dionísio, o rubicundo deus da embriaguez e do delírio místico, seja o patrono do teatro. Teatro é uma experiência mística, não no contexto religioso, mas no mais pleno sentido transcendental.
E Yeyé Porto e sua equipe – minha equipe! – transcende o texto de Lygia Bojunga; dá a ele que é um texto sobre escrever uma expressão cênica; dá a ele que fala em transformação um sentido todo pessoal do que seja ser outra coisa, pessoa, vivência.
A encenação aposta na simplicidade e o público (18 pessoas por sessão) entra na sala da casa da atriz com a intimidade e a informalidade de quem visita para um café, efetivamente disponível se se queira!
Aníbal Pacha questionou e instigou a equipe até chegar a um resultado onde cenário e figurino têm o seu porquê.
Sônia Lopes produz um jogo de claro e escuro que é a alma mesma dessa mulher – e a nossa! – de certezas e dúvidas, de medo e tranqüilidade, da alegria de uma festa à sombra do medo e de morrer que é, antes de qualquer coisa, o medo da solidão e do esquecimento. É essa luz também que nos faz renascer em tons de azul, com num sonho bom recheado de lembranças.
O entorno com suas buzinas e vendedores se integra à encenação, mas eu sinto falta de som, não necessariamente música, mas algo que preencha o silêncio constrangedor que precede as revelações. Por não ser um teatro, nosso hall é a calçada. Se chover (Belém, Belém...) existe abrigo e a espera pode ser feita degustando um maravilhoso tacacá, ou outras iguarias.
A Casa da Atriz nasceu da vontade de fazer teatro.
A Troca e a Tarefa nasceu da vontade de fazer teatro. Um teatro pobre defendido por Grotowski de ter, ser e mostrar aquilo que realmente importante à cena, ao público. Pobre de recursos sim, porque quem está ali faz o que faz porque ama o que faz e, sobretudo, sabe o que faz e consegue tirar “faíscas das britas e leite das pedras”. Pobre porque a pirotecnia não interessa e é mesmo desnecessária. Os valores que este projeto e este espetáculo oferecem em troca extrapolam qualquer sentido monetário que, claro, não são dispensados por necessário. É nosso trabalho, afinal. É o fazer teatral que conta aqui e todo aquele que abraçou este ofício deveria ter uma experiência assim. Disciplina, retidão, talento não se aprende em escolas e livros. A teoria todo mundo pode ter, mas teatro é Ser. Isso não é qualquer um que queira ou possa!

SERVIÇO:
A Troca e a Tarefa. Espetáculo inaugural do projeto A Casa da Atriz.
Elenco: Yeyé Porto
Direção: Adriano Barroso
Assistente de direção: Aílson Braga
Iluminação: Sônia Lopes
Cenário e figurino: Aníbal Pacha
Contra-regra: Leoci Medeiros
Produção: Paulo Porto

De sexta à domingo, sempre às 20 horas, nos meses de abril a junho.
Rua Oliveira Belo, nº 95, entre Generalíssimo e D. Romualdo de Seixas.
Ingressos: R$ 20,00
Informações e antecipações de ingressos: 8266 4397 e 8127 6366

HUDSON ANDRADE
16 de abril de 2010
9h45

sábado, abril 10, 2010

ÉGUA, PRIMO!



Wlad Lima e Karine Jansen são dessas tias velhas que costuram enormes e aconchegantes colchas de retalhos e nos dão de presente. Essa cara fragmentada e colorida é a marca dos seus trabalhos, seja em Macunaíma – O fim do que não tem fim, no qual eu atuei em 2000, na Escola de Teatro, passando por Amortemor, Paixão Barata e Madalenas, Laquê, Quando a Sorte te Solta um Cisne na Noite, entre tantos, até Brasileiramente, Árabes! que estreou no último dia 31 de março.
Vivi esse processo em que o texto do Mário de Andrade, nossas histórias, sensações físicas, jogos, um-bilhão-quinhentas-e-oitenta-e-quatro-milhões de referências de um-tudo alimentavam elenco e direção na construção do espetáculo. Cada ator/atriz tem sua chance, cada um oferece e recebe, cada um constrói, desconstrói, reconstrói. Às vezes eu ficava no escuro, querendo saber se tinha acertado, errado, qualquer coisa, e elas ali, sugando de mim até o bagaço pra depois devolver reidratado e fresco, com um tempero e um sabor peculiar a cada um: nós, atores, os retalhos. Elas, agulha e linha. E tesoura, se preciso.
O trabalho começou em 2008 com Maridete Daibes, Larissa Latif, Wlad Lima e Karine Jansen a partir de narrativas familiares; um grupo de pesquisadores recolheu cartas de descendentes de libaneses e todo esse material foi decodificado em símbolos. Wlad e Karine são mestras em transformar letras e contos e falas e sentimentos e sensações em símbolos e estes na poesia que preenche o palco. Daí nasceu Brasileiramente, Árabes! a pesquisa e o espetáculo, trazendo a identidade dos descendentes libaneses no Pará, sobretudo em Belém, buscando revelar uma ascendência árabe oculta aos nossos olhos e que faz parte de nossa história individual e coletiva de forma insuspeitada.
O espetáculo de 75 minutos avança em quadros com apresentações genealógicas, relatos pessoais, familiares, históricos, a imigração, os costumes, a culinária, os ditos, a fama de mercadores, a mitologia. Quatro atores descendentes de libaneses nos conduzem nessa viagem quase sinestésica, mas irregular, fruto de diferenças de maturidade cênica – todo ator/atriz tem seu espaço –, seguros pelo conjunto. Parece que aquelas histórias não são deles – de certa forma não! –, mas que precisavam de uma apropriação que tornaria tudo mais crível e emocional. A cenografia e o figurino de Klau Menezes têm a beleza das coisas simples e significantes – ainda que nem tanto para quem assiste –, contida nas cores, étnica e onírica como os personagens de nossos livros infantis. A sonoplastia de Eddie Pereira calcada na tradição árabe dá na gente aquela vontade de sacudir as cadeiras e os ombros (dizque o ECAD apareceu por lá! Essa gente não se manca!) e só peca pela falta comum em nosso teatro que usando música mecânica estanca tudo com um clique seco do pause/stop.
Todos rimos das contas de cabeça feitas para a construção de uma casa, calamos para ouvir as lendas de mercadores e califas, relembramos conflitos sangrentos, saudades. Atrás de mim uma senhora reconhecia sua própria história e comentava, antecipando-se a fala como se conhecesse o roteiro – de alguma forma sim! –; reconhecíamos as lojas e os nomes de família e no ponto de ônibus, muitos minutos depois (muitos mesmo, pois o ônibus demorou pacaraio!) três amigos comparavam os narizes e concluíam: a gente é tudo misturado mesmo!!!
Se Brasileiramente, Árabes! se propõe a revelar (nos), bingo!!!
Cá estamos. Eu desejando tanto ser novamente retalho. Caminhos diversos... Cá estamos, flutuando na fumaça luminosa dos narguilés.
“ASSALAN ALEIKUM”

Brasileiramente, Árabes! é vinculado a pesquisa “Brasileiramente, Árabes! um estudo das práticas performáticas dos descendentes de libaneses na cidade de Belém”.
Equipe de pesquisa: Carlos Vera Cruz, Cleice Maciel, Karla Pessoa, Ives Oliveira, Karine Jansen e Wlad Lima.
As cartas que originaram a dramaturgia estão disponíveis em HTTP://brasileiramentearabe.wordpress.com
SERVIÇO
Brasileiramente, Árabes!
Direção: Karine Jansen e Wlad Lima
Com Natalia Abdul Khalek (Família Abdul Khalek), Dario Jaime (Família Abdon Khalarg), Maridete Daibes (Família Daibes) e Klau Menezes (Família Anaisse).
Teatro Cláudio Barradas (Escola de Teatro e Dança da UFPA. Av. Jerônimo Pimentel, esquina com D. Romualdo de Seixas).
De 31 de março a 11 de abril de 2010, de quarta a domingo, 21 horas.
Ingressos: R$ 20,00 (vinte reais) com meia entrada para quem de direito, incluindo a categoria teatral e descendentes de libaneses, mediante comprovação.
Este projeto tem o patrocínio da Petrobras através da Fundação Nacional de Artes – FUNARTE, Ministério da Cultura.

HUDSON ANDRADE
01 de abril de 2010.
10h53

...E TAMBÉM COM O TEU ESPÍRITO...



“Que padeceu por nós, morreu por nosso amor.”


Todo mundo que trabalha com teatro já ouviu a expressão “teatro de igreja”. Normalmente isso é dito num contexto pejorativo, indicando algo extremamente amador, simplório e conteudista. Amador, sim, afinal quem o pratica não tem como foco salário, sistematização e/ou regulamentação da atividade, foco em artes cênicas. Simplório não significa necessariamente piegas, ou mal feito, ou de mau gosto. Conteudista, talvez. Esta é uma relação séria na relação arte e sociedade: a arte só ser arte se for pura, o que é impossível porque arte e artista estão enraizados num contexto histórico-cultural-social. Por outro lado a chamada “arte engajada” quer tornar o artista a consciência crítica do povo oprimido, sacrificando o trabalho artístico pela “mensagem”. Há que se encontrar um meio termo entre formalismo e conteudismo, de vez que toda arte comunica e toda mensagem precisa de uma embalagem adequada.
Outro ponto são as relações entre religião e arte, aqui especificamente o teatro. Há quem veja esse relacionamento como promissor, outros com desconfiada tolerância, alguns com algum desgosto e mesmo total desprezo. Não dá pra desvincular o que tem origens tão íntimas – dos cultos tribais aos ritos religiosos, passando por Téspis na antiga Grécia, a proibição e a excomunhão pela igreja católica coibindo os despautérios do teatro romano até que essa mesma igreja o resgatasse dos mercados para seus átrios, catequizando através de Mistérios e Paixões.
Vi uma dessas paixões, O Canto da Paixão, de autoria do padre Reginaldo Veloso, encenada na Igreja de Jesus Ressuscitado, com direção do seu pároco, ninguém menos que Cláudio Barradas. O texto extremamente bem escrito, em versos, cantado ao vivo pelo próprio Barradas, narra da entrada de Jesus na Cidade Santa até sua ressurreição. É dividido em quatro blocos que mostram o Jesus histórico, encerrando cada período com uma reflexão da paixão crística em nossa realidade atual. Não há falas para os atores, apenas algumas interferências. O elenco, notadamente jovem, interpreta coro e vários personagens, exceto aquele que faz o Cristo, único a permanecer apenas com um personagem. A encenação é simples, ilustrando os acontecimentos apresentados um a um. O figurino, básico – calças de tactel preto, camisetas brancas, pés descalços, sem maquiagem, faixas de tecido roxo que se alternam em mantos, cintas, chicotes, correntes, romanos, judeus. Exceção novamente ao Cristo, numa túnica branca e manto vermelho sobre um trançado de tecido branco que lhe cobre abaixo da cintura. Nenhum adereço, nem mesmo a própria cruz, representada também por um ator.
Assisti tudo atento e realmente comovido. Ciente de uma cronologia e de seu elenco, Barradas interrompeu duas vezes a encenação, reiniciando e inserindo uma cena esquecida. O que no teatro, digamos, formal, não acontece, com o ator devendo resolver sua cena e dando prosseguimento a trama, aqui atende aos objetivos catequéticos da apresentação; observei que a dramaturgia, em tudo coerente com a doutrina que expressa, não é meramente jornalística e não descamba no pieguismo, sobretudo ao conectar o sofrimento de Jesus ao povo no cenário opressor, corrupto, preconceituoso e intolerante em que vivemos. O tom monocórdico de ladainha, quebrado ao final de cada bloco parecendo querer nos despertar para uma realidade esquecida, ou propositalmente relegada às periferias. O elenco, decididamente, precisa de um corpo de ator. Geralmente frouxo (ou tenso quando e onde não deveria) daria muito mais clareza e força às cenas se os gestos fossem mais limpos, decodificados e precisos, mas isso faz parte daquela sistematização supra-citada e que ainda não está na sua realidade.
Pensei por um momento na Paixão de Cristo, lá em Nova Jerusalém. Ela teria trocado a mensagem, ou a idéia na sua concepção pelo show? Ou tudo sempre fora pensado assim e só aos poucos ganhou a estrutura atual, pirotécnica, com seus atores globais? E quem assiste quer ver seus ídolos, ou relembrar Jesus nessa passagem ímpar da história humana? Ou as duas coisas? De quantas trocas de roupa, cenários e efeitos de luz e som eu preciso para emocionar e comunicar? Uma faixa de malha roxa e um gesto no ar não chegam ao mesmo fim? Aquele é Teatro e esse “teatro de igreja”, no seu conceito pejorativo dito por alguém cheio de empáfia? Muitas outras perguntas poderiam surgir daqui, debates, que passariam mesmo ao largo da equipe da paróquia de Jesus Ressuscitado cujas mãos experientes de um dos maiores artistas desse estado, Cláudio Barradas, criou um espetáculo de uma beleza tão singela quanto marcante. Na sua paixão, tanto o ator era o foco – limpo, trocando personagens e agindo diante da platéia, ciente de suas próprias limitações –, quanto o Evangelho de Jesus, sua morte e ressurreição. É a arte – habilidade, instrumento, agilidade, ofício – ordenando a vida humana por regras e símbolos, contando e emocionando. Adaptando Djavan: arte é assim: invade. E fim!

Participam de O Canto da Paixão: Marcelo Rocha, Pedro, Kátia, Fabrício, Meire, Jhony, Isabel, Cristiano, Radarani, Raimundo, Laiana, Alan, Iranildes, Adriano e Franklin.

HUDSON ANDRADE
29 de março de 2010.
10h19

O MÃO DE VACA



O clown é a exposição do ridículo e das fraquezas de cada um. Logo, ele é um tipo pessoal e único... O clown não representa, ele é – o que faz lembrar os bobos e bufões da Idade Média. Não se trata de um personagem, ou seja, uma entidade externa a nós, mas da ampliação e dilatação dos aspectos ingênuos, puros e humanos (como no clods), portanto ‘estúpidos’, do nosso próprio ser (Burnier, 2001, p. 209).


“Façam versos pr’um palhaço que na vida já foi tudo: foi soldado, carpinteiro, seresteiro e vagabundo...”* e nessa multiplicidade os Palhaços Trovadores fizeram nesses 11 anos de experiência um público cativo, fiel e entusiasmado, apresentando seus espetáculos nos teatros, ruas, escolas, praças e até bares; participaram ainda do Festival de Ópera nas apresentações de de Il Pagliacci e foram nesse 2010 homenageados pela Escola de Samba Bole-bole, do Guamá, cujo enredo foi o campeão do carnaval em Belém. E finalmente depois de 11 anos conseguiram uma sede onde trabalhar e agora pelejam para restaurar o prédio cedido pela Santa Casa de Misericórdia.
Um grupo grande, de aparente pouca rotatividade, coeso, que introduziu na cidade a linguagem dos clowns enquanto teatro – entenda-se, fora do circo. Seus espetáculos costumam ter um tema central desenvolvido em pequenos quadros, exceto suas duas últimas produções, adaptações da obra de Molière (Jean-Baptiste Poquelin, Paris, 15 de janeiro de 1622 – 17 de fevereiro de 1673). de O Doente Imaginário nasceu O Hipocondríaco e de O Avarento, o então em cartaz O Mão de Vaca. Esses dois trabalhos fogem a regra por terem um roteiro mais fixo e linear; os atores representam dois personagens: o seu próprio clown que por sua vez representa o personagem da peça. A estrutura cênica de ambos é igual: toda a trupe em cena, ao fundo, de onde se deslocam para suas ações e onde acontecem (pequenas) interferências. Marcelo Villela e seu clown, Bubutchelho, são os protagonistas desses trabalhos, o cenário é simples e pontual; há música ao vivo, os figurinos são de Aníbal Pacha. As semelhanças acabam aí. Apesar de parecidos em estrutura e encenação, O Mão de Vaca é muito mais ralentado, menos emocional e divertido que seu duplo. Há pequenas variações de elenco nos dois e eles têm, pelas suas próprias características, improvisos e cacos que tanto podem render ótimas sacadas, ou por a perder uma cena. Essa falta de ritmo faz com que os cerca de 90 minutos de encenação pareçam muito mais, causando mesmo um desconforto na platéia. Afirmo isso por ter assistido O Mão de Vaca duas vezes e constatado o que, à primeira vista, poderia ser só um dia ruim. Nesta segunda vez foi pior, mas sejamos francos que parte do problema está em que por ser um espetáculo “de palhaços” acredita-se que seja um espetáculo infantil. Não demorou para que a molecada dormisse, ou pior, ficasse indócil. Outra questão é que essa apresentação no Maria Sylvia Nunes, da Estação das Docas, criou um distancimento nada interessante. O espetáculo pede o público ali do ladinho, interagindo, cúmplice.
É muito bom ver o crescimento de alguns atores – projeção de voz, articulação, jogo –, assim como a necessidade de amadurecimento de outros; a segurança dos mais antigos garantindo que o espetáculo siga seu curso (seja lá de que jeito for). Teatro de grupo, não vou citar nomes nem elogiar, ou admoestar individualmente. Parabenizo todos e peço cuidado a todos. não se sintam satisfeitos nem confortáveis com os resultados obtidos, ou o aplauso efusivo dos fãs de carteirinha. Pode ser mais. Sempre dá.
(*) O Circo. Quarteto em Cy
SERVIÇO: O Mão de Vaca. Adaptação de O Avarento, de Moliere.
Direção: Marton Maués.
Com: Os Palhaços Trovadores.

TÃO EM BREVE QUANTO POSSÍVEL, visite a CASA DO PALHAÇO, Tv. Piedade, esquina com Tv. Tiradentes.

VEJAM TAMBÉM: http://unha-de-fome.spaceblog.com.br

HUDSON ANDRADE
13 de março de 2010.
9h23

segunda-feira, março 22, 2010

OBSCURO REYNO ENCANTADO


Fundo Reyno é um espetáculo difícil!
O trabalho escrito, musicado e dirigido por Walter Freitas estreou no dia 18 de março no Teatro Waldemar Henrique e segue duas semanas de temporada. E por que é difícil?
É difícil porque o enredo da trama até que é simples, mas o desenvolvimento do roteiro é lento e complicado. Até que a gente entenda quem é quem e o que ele está fazendo ali, muito tempo já passou. E o programa – que eu optei por não ler antes – não dá qualquer indicação de pra onde a coisa vai. “Intriga, sexo, feitiço, traição e morte nos rios da Amazônia” é tanta coisa pra dizer e dito como foi pode resultar muito pouco.
Os personagens vão se delineando devagar, confusos, e a proposta brechtiana de estar em cena e trocar de roupa e personagem por não ser mais precisa e assumida nem é só troca de roupa nem cena.
O texto parece ser interessante, mas quer dizer tudo. Não nos sobra espaço pra pensar. Há longas explanações cheias de detalhes e referências parecendo querer evitar que alguém diga “faltou isso, faltou aquilo!”. Por ser em verso as falas precisam ser mais articuladas, projetadas e bem ditas, para que a métrica não caia no ba-ta-ti-nha-quan-do-nas-ce. Essa imprecisão ajudou a tornar ainda mais difícil o entendimento do espetáculo. Um bom trabalho de mesa é imprescindível.
Fundo Reyno tem uma corporeidade frouxa. Trabalhar com objetos invisíveis é criar armadilhas para si – perigosas e risíveis. Os atores não são mímicos e mímica é algo mito mais elaborado e simbólico. Melhor seria codificar os gestos e tornar a encenação corporalmente limpa.
Nos números musicais, o dilema: amplificar os instrumentos de corda e cobrir a voz dos atores, já que nem todos cantavam, ou o faziam bem fraco; não amplificar os instrumentos e fazer seus sons se perderem nas vozes de Mônica Lima e Walter Freitas. Um ponto absolutamente positivo é ter a música ao vivo e executada também pelos atores que, não sendo músicos – a exceção, parece, só o próprio Freitas – carecem de grandes valores musicais. Não estou pedindo virtuosismo. Na minha companhia temos o mesmo problema e basta colocar um caxixi na mão de um ator, ou atriz pra cena virar um caos. Digo que se assuma isso, ou deixe na mão de quem sabe, como temos feito em nossos últimos trabalhos.
A mistura de catolicismo, encantaria, religião afro; a cenografia na entrada que tanto pode ser a sujeira dos personagens quanto um apelo ecológico pelos nossos rios; as ações paralelas, demais, as quase duas horas de ladainha que, ralentadas, parecem muito mais; o calor insuportável e o desconforto do Waldemar Henrique (isso são outros 500!), tudo colabora para tornar Fundo Reyno ainda mais difícil de ser aprecisado. Frente a isso tudo há que se valer da máxima de que, em muitos casos, menos é mais. E isso é pra hodie.
Santo Expedito, ora pro nobis.

SERVIÇO: FUNDO REYNO. Teatro Waldemar Henrique, dias 18 a 21 e 25 a 28 de março de 2010, sempre à 20 horas. Ingressos na bilheteria a R$ 10,00 (com meia).
Música, direção musical, dramaturgia e direção: Walter Freitas.
Cenografia e figurino: Maurício Franco.
Designer de luz: Thiago Ferradaes.
Produção: Cristina Costa.
Elenco: Juliana Medeiros (Pajé Sacaca), Pauli Banhos (viúva Zulmira), Wellingta Macêdo (Nhá Luca / o Bicho), Andréa Rocha (Antero Denizar), Mônica Lima (Bandeireiro), Akel Fares (Rabequeiro) e Walter Freitas (Violeiro).
Projeto agraciado com o Prêmio Miriam Muniz da Fundação Nacional de Artes – FUNARTE, Ministério da Cultura e Governo Federal.

Hudson Andrade
19 de março de 2010
9h28

sábado, março 06, 2010

A MENINA, O MOÇO, RITINHA, A AMA DE LEITE




“O ator deve sempre começar de si mesmo, da própria qualidade natural (...). A arte começa quando não existe papel, existe somente o ‘eu’(...)”. (Stanislavski)


É do eu que nasce Solo de Marajó, um eu coletivo, como diz seu diretor Alberto Silva Neto, um eu de profundas raízes familiares, nas palavras de Cláudio Barros, um eu que se reparte na escrita de Dalcídio Jurandir e Carlos Correia Santos. Marajó da obra de Dalcídio, vigorosa; solo de se estar só e se bastar e precisar de complemento e solo de um chão onde o ator se mistura na cenografia de Nando Lima e na luz de Tarik Coelho. Tudo absolutamente minimalista, claro, limpo, fazendo aparecer quem realmente deve aparecer: o ator – o primeiro dos ingredientes desse fazer teatro. O segundo é a platéia. Nada mais é necessário.
E estávamos lá, ator e platéia para quarenta e cinco minutos de tanto tempo, tantos dias, tantas histórias. Ele virado muitos, mimetizado, os sons saindo do próprio peito, a voz firme e clara, o corpo transformando-se nesse e naquela, cada qual com sua particularidade, seus trejeitos, sua prosódia sem a necessidade de recorrer a sotaques e tucandeiras para que nos reconhecêssemos naquelas pessoas antes de tudo, pessoas; e nós daqui, atentos, a cabeça fervendo de criar caixinhas de fósforos, igarapés, redes, toalhas, altares. Entremeando tudo isso uma escuridão que me incomoda mais porque não gosto do breu e aprecio ver tudo acontecendo diante da assistência que acompanha quem é o ator e quem é o personagem; no entanto os blecautes são necessários – talvez um pouco longos – para que a encenação possa marcar bem onde termina cada “causo” e nos deixar no suspenso para o que vem depois.
Cláudio Barros assume a difícil tarefa de contador de histórias e se propõe com maestria a nos encantar com luas, indignar com o tratar mal não porque se é malino, mas porque a vida secou, desejar, amar, crescer, envelhecer.
Eu precisava ver isso. Todo mundo nessa cidade precisava ver Solo de Marajó. Teatro por excelência. Direção segura, texto preciso e sobretudo (sua majestade) o ator, que aqui e com Claudinho – como vou, abusado, me permitir chamar – encontra um parâmetro a ser seguido.
Pena que temporadas tão curtas. Bom que volte logo e nos alague de sentimentos.
HUDSON ANDRADE
18 de dezembro de 2010 – 10h31
Escrito quando da estréia do espetáculo. Desculpem aí a demora!

terça-feira, novembro 10, 2009

“SE TEM UMA COISA QUE EU NÃO TENHO... É MEDO!”

para ler ao som de Pecado, de Carlos Balk e Pontier y Francini.

“Yo no sé si es prohibido
Si no tiene perdón
Si me lleva ao abismo
Solo sé que és amor.”



Se pecar é querer-ser feliz, então meu amigo João Lucas pecou um bocado. (Ele e toda a humanidade!)
E se é verdade que não existe pecado do lado de baixo do Equador, então tá tudo certo e ele foi pro Céu! Não esse Paraíso idílico, níveo, modorrento, mas aquele que nós e o Milton(1) perdemos por desejarmos viver além da conta.
E o João Lucas viveu! Viveu, não, vive!!! Vamos acabar com essa finitude judaico-cristã que até onde me conste ele nem era partidário disso e eu muito menos! Parece que depois do acidente de um tempo atrás um pisca-alerta acendeu. Um contador de dias às avessas, diminuindo o tempo ao invés de somá-lo como deveria ser o que chamamos natural. E ciente disso ele investiu tempo, saúde, inteligência, desejo, tesão, insônia, sono, sonho, tudo quanto tinha pelo Direito – seu e alheio –, pela Arte, pela Vida, vertida na mesa dos homens de vida vazia-vadia(2). Mas, vida, ali, quem sabe, meu caro Lucas, foste feliz. Eu sei que foste. Quem te ama sabe que foste. Agora precisaste dar um tempo e apesar da curta temporada gregoriana que estiveste conosco em carne que nos faz sentir tanta saudade, temos que te deixar ir porque isso é devido a quem se ama!
Da minha parte, vai. Ainda parafraseando o Chico, sei que além das cortinas há palcos azuis e infinitas cortinas com palcos atrás e isso vai até o infinito, meu caro. Essa vida, mano, é só um véu e nos cabe tirá-lo. Mais um se foi pra ti. Espero que consigas ver melhor agora. Te conhecendo como te conheço, tenho certeza que sim!
Espeju, Lucas. Nós se encontra (não, eu não errei!) pra lá dos rio das Icamiabas, longe, longe(3), mundiados desse bem-querer sem termo.
Até lá!

HUDSON ANDRADE
10 de novembro de 2009 AD
12h08
Belém – Pará

(1) Paraíso Perdido. John Milton
(2) Vida. Chico Buarque
(3) O Uirapuru. Hudson Andrade

sexta-feira, outubro 23, 2009

RETRATO EM BRANCO E PRETO


“Eu sou um ator que dança, ou um dançarino que atua?”. Fiz essa pergunta para a Ana Flávia Mendes, da Companhia Moderno de Dança na saída do Teatro Cuíra depois de assistir Taobonitodetaofeio, da Companhia de Investigação Cênica. “Esses limites não existem em muitos trabalhos e são muito tênues em outros. Poucos ainda assumem alguma rigidez”, posso resumir do que ela me respondeu. Na quarta versão de O Glorioso Auto do Nascimento do Cristo-Rei, da Nós Outros, criamos uma dança circular específica para aquele trabalho, com consultoria e coreografia de Ana Cláudia Costa, do Instituto Ocara; todos os trabalhos da Moderno têm inserções mais, digamos, cênicas, no sentido teatral da coisa. Investimos nessa idéia.
No seu segundo trabalho na Cênica, Danilo Bracchi aposta novamente nesse artista múltiplo e coloca atores pra dançar e dançarinos para interpretar textos e cenas. Dança, música, artes circenses, audiovisual, teatro, performance, tudo se mistura em Taobonitodetaofeio para falar dessa relação que temos com o nosso corpo, com o corpo alheio, com valores do que é igual e, sobretudo, do que é diferente. Tanta coisa (ainda da conversa com a Ana Flávia) criou uma obesidade (termo dela) de informações no espetáculo que acaba em alguns momentos carecendo de uma costura mais precisa. Mas nos seus sessenta, mais ou menos, minutos, não há espaço para o enfado. São surpresas, imagens (vídeos que me parecem homoeróticos demais e não acrescentam à encenação), sons, luz, que vão criando a expectativa pelo que vem depois, mesmo com aquela sensação de que tudo é algo fragmentado. Isso pode resultar do acúmulo de funções do Danilo como intérprete e diretor. Essa não é uma tarefa impossível, mas é de difícil execução e faz com que o diretor que está no palco perca a visão do conjunto. Digo isso da experiência própria de estar só atuando, só dirigindo e nas duas funções. Mas como eu ia dizendo, não há lugar para o tédio, ou o alheamento. Taobonitodetaofeio é um espetáculo empolgante, sobretudo para quem gosta de dança, ou não se prende a rótulos, ou clichês. Mais de uma vez eu quis estar em cena, dançando como meus amigos atores e atrizes, agora tornados intérpretes, termo mais geral que para mim reflete o que o artista deve ser: plural, não apenas em suas escolhas de trabalho, mas principalmente no investimento em sua formação.
A trilha sonora de Leonardo Venturieri é muito melhor do que a anterior, feita para Depois de Revelado Nada Mais Muda (ver RABISCOS DE LUZ). Não sei de sua experiência com música para teatro, mas ele me pareceu mais maduro, mais preciso; exceção a manter-se fora de cena, entrando ocasionalmente, com a roupa que estiver vestindo. Se a opção for por estar fora, esteja fora. Se for pela interferência ainda que ocasional, que se esteja preparado para compor com o restante do espetáculo.
O figurino de Taobonitodetaofeio é visualmente limpo, objetivo, bonito e funcional. Aníbal Pacha investiu em peças simples, permitindo o livre movimento dos intérpretes e suas trocas de roupa, e no uso do branco e do preto, cartesianamente opostos, mas indissociáveis, complementares mesmo, como os distintos que só o são pela existência do outro. Por serem iguais, me remetem a idéia de que o bonito é o que está na moda – vide o desfile que abre o espetáculo – e o que está na moda é um padrão previamente estabelecido. Ser diferente é estranho. Ser diferente é feio!
O cenário é um elefante branco. Essa expressão nos remete aquelas obras faraônicas e ineficazes dos governos desse país. Lembram? Mas é isso mesmo. Grande, parecendo inconcluso e usado pelos intérpretes em suas entradas e saídas de forma que só reforça esse inacabado.
Com a mantimento e repetição do espetáculo certamente aumentará a precisão de tudo. Do que é dito, do que é dançado. Isso o tempo garante. Ou talvez seja essa mesma a cara que se queira dar, de algo em construção, dinâmico, mutante, esse quê de Brecht que eu gosto tanto e que os intérpretes executam em vestir-se, desvestir-se em cena, conversar, observar, acarinhar-se, para num segundo, cúmplices, estarem todos prontos para o próximo passo. Atenção para a cena das máscaras – camisetas criadas por Maurício Franco – sobre o corpo nu dos artistas. Nenhuma apelação. Nenhum pudor. Poesia crua.
Vamor ver e rever Taobonitodetaofeio e Depois de Revelado Nada Mais Muda. Vamos esperar pelo que virá. Estarei ansioso e... ah! Quem me dera!!!

SERVIÇO:
Taobonitodetaofeio. Teatro Cuíra (Tv. Riachuelo, esq. com Primeiro de Março), até o dia primeiro de novembro, sempre aos sábados e domingos, 20 horas. Ingressos: R$ 20,00 (vinte reais).
Este espetáculo foi produzido com o patrocínio da Petrobrás, através do Prêmio de Dança Klaus Viana 2008, promovido pela Fundação Nacional de Arte – FUNARTE.

Elenco: Alessandra Nogueira, France Moura, Marluce Oliveira, Natália Simão, Ícaro Gaya, Danilo Bracchi.
Direção e coreografia: Danilo Bracchi
Assistente de direção: Cláudio Dídima
Consultoria dramatúrgica: Wlad Lima
Direção musical/trilha sonora: Leonardo Venturieri
Cenografia/arte gráfica/vídeo em Second Life: Nando Lima
Figurinos e adereços: Aníbal Pacha
Máscaras: Maurício Franco
Cabelos: Fernando Gomez e Carol Pabiq
Iluminação: Roma Muniz

Em memória de Ronald Bergman.

quinta-feira, julho 23, 2009

ATO TERCEIRO. CENA II




“Deixa que o teu bom senso te oriente. Que a ação responda à palavra e a palavra à ação, pondo especial cuidado em não exceder os limites da simplicidade da natureza, porque tudo o que a ela se opõe, afasta-se igualmente da própria finalidade da arte dramática, que é, tanto em sua origem quanto nos tempos que correm, a de apresentar, por assim dizer, um espelho à vida.”

(Hamlet. William Shakespeare)


Não é à toa que o capítulo 9 da série Som & Fúria se chama “Monstros Raros”. Nessa semana aparecem alguns tipos que, infelizmente, não são assim tão raros: o diretor Oswald Thomas (Antonio Fragoso), que já esteve em cena antes quando da montagem de Hamlet, o ator Henrique (Daniel Dantas), chamado para viver Macbeth e o publicitário Sanjay, representado por Rodrigo Santoro. Cada um a seu jeito vive em um mundo muito particular em torno do qual devem gravitar todos os demais. Senhores de si, tentam senhorear os outros e há, acreditem, quem se proponha à coleira.
Sanjay é, na minha opinião, um aproveitador. Se seus caminhos são honestos, ou não, ainda não deu pra saber. Há quem o apóie e existe quem o detrate, mas isso há em qualquer lugar, em qualquer profissão, pra qualquer pessoa. Com uma estrutura organizadíssima e uma lábia totalmente fundamentada ele leva seus clientes pra onde quer. Se vai dar certo, é preciso pagar pra ver!
Thomas é um desses diretores herméticos, cheio de certezas, de um conhecimento processado pelas suas próprias experiências e, por que não, impávia, contra o qual não há contradição. A cada questionamento uma enxurrada de colocações feitas como que num dialético alienígena que pretendem fazer os atores parecerem os grandes idiotas que ele, claro, acha que são. E quantos encenadores não há assim, que devendo dividir e orientar fazem dos espetáculos a sua cozinha, ou a sua privada? Trabalhei com alguns profissionais e cada um tem um jeito muito particular de conduzir a encenação. Felizmente nenhum foi um Thomas na minha vida, ainda que em muitos momentos eu tenha ficado (ou me sentido) num escuro frio e pegajoso, sem saber o que fazer, o que dizer, pra onde ir, me sentindo sim, um idiota. Mas isso são meus processos: cerebrais diria Adriano Barroso, disciplinados na visão de Aníbal Pacha, (...) na não-fala de Wlad Lima. Em todos ao menos um ponto em comum, uma exasperação que nasce sei lá de onde aliada a um paternalismo (com a peça, consigo, ou conosco eu não sei!) que beira um precipício do qual alguém sempre acaba se jogando. Talvez seja exatamente isso o necessário: jogar-se. É importante dizer que é mister se sentir seguro com a direção. Entender que ela sabe os caminhos para os quais a encenação está caminhando; que haja respostas – nenhuma de mão beijada – e que o ator possa se sentir um artífice, nunca um marionete.
Atores. O que é o Henrique? Logo de cara ele pede pra se apresentar com um dos monólogos de Macbeth, pavão misterioso. “Já fiz essa peça três vezes”, repete incessantemente e pára o ensaio pra dizer que ele pensa que seria melhor se ele estivesse em tal lugar no momento de tal fala. “Claro!”, retruca o fantasma de Oliveira, “Ele não pode ficar quatro segundos de costas para a platéia!”. Daí me reporto ao texto do Shakespeare no topo da minha escrita. Henrique é o que chamamos de canastrão, mas adorado. Sua atuação empolada agrada apenas a pseudo-conhecedores-apreciadores da arte dramática. Houve um tempo de monstros sagrados, isolados no centro-frente do palco, em plano mais alto, iluminados profusamente, intocáveis. Enquanto estética isso foi se quebrando e ficando ultrapassado. Enquanto vaidade permanece até hoje e permanecerá sempre porque a vaidade parece ser atributo inerente dos (maus) atores. Ainda somos vistos como animais exóticos, capazes de mimetizar sentimentos, fingir e mentir de tal forma que ninguém saiba se o que falamos, seja no palco ou fora dele, é ou não real. Cria-se uma aura de desconfiança, mas também de admiração. Precavida, mas admiração. Parecemos viver num mundo à parte, doidivanas, contrários todos as leis honradas dos homens e de Deus*. Poucos fora do metier nos vêem como trabalhadores. Vêem apenas as gaitadas, a libertinagem, a tal fama e a tal fortuna que, quando não aparece, é recibo de incompetência e norte pra outros caminhos. É preciso entender e respeitar nossas longas horas de ensaios, nossa detalhada observação das pessoas e da vida, nossa entrega; os suores, as lágrimas, as noites em claro, alguns sacrifícios, uma necessidade quase patológica de ler, estudar, pesquisar, repetir, refazer, retomar, mandar deus e o mundo às favas e se agarrar a tudo como uma tábua de naufrágio. Não ter certezas. Não se sentir enorme. Não ter dúvidas. Nunca se sentir pequeno. Ser. E ser pra si e ser pro palco.
Isso, claro, para os que são atores e atrizes. Quem desconhece essa rotina, ou faz disso o seu cartão de visitas, não merece esse substantivo. Ou seria adjetivo? E sejam todos bem vindos ao Fantástico Mundo de Henrique!

HUDSON ANDRADE
23 de julho de 2009 AD
9h50

REFERÊNCIAS
1. Shakespeare, William. Hamlet. Tradução Pietro Nassetti – São Paulo: Martim Claret, 2001
2. (*) Pecado, Carlos Balk e Pontier y Francini
3. Imagem: Sérgio Britto em foto de Guga Melgar

quinta-feira, julho 16, 2009

SEIS SOLILÓQUIOS. O RESTO É SILÊNCIO.



“O grande conflito da série é o de equilibrar integridade artística e bilheteria.
Esse é meu conflito do dia a dia.”
(Fernando Meirelles)


Assim Dante Viana, o personagem de Felipe Camargo em Som & Fúria definiu Hamlet, de William Shakespeare. A série da Globo que entrou em sua segunda semana é um desses produtos primorosos com que a televisão tão raramente nos tem presenteado. Praticamente uma conjunção astral entre a direção de Fernando Meirelles (que também assina o roteiro), o elenco encabeçado por Felipe Camargo e Andréa Beltrão e uma produção afinadíssima. No capítulo de ontem, 15 de julho, dirigido pelo próprio Meireles e Gisele Barroco, encerra-se um primeiro momento em que se apresenta o retorno de Dante ao Theatro Municipal, agora como diretor artístico, depois de sete anos de ausência e traumas, para lutar contra si mesmo, egos inflamados e as picuinhas políticas que envolvem e entravam nossa cultura e arte. Assessorado, digamos assim, pelo fantasma de Oliveira (Pedro Paulo Rangel), que tal qual o assassinado rei da Dinamarca, pai de Hamlet, volta do túmulo para colocar alguns pontos em alguns is.
Em cartaz na temporada clássica do Municipal, a história do príncipe do podre reino da Dinamarca que vinga a morte do pai. Retornamos assim a frase que dá título a este texto. Longe de menosprezar a obra do bardo inglês, Dante se utiliza dessa linguagem para acalmar o protagonista do espetáculo, Jaques Maya, representado por Daniel de Oliveira, e encorajá-lo a ir ao palco. Informações precisas, objetivas. Foco. Um entendimento claro do que o autor precisava dizer e que se dito, satisfaria a todos. Já em outro momento Dante fizera isso, explicando a uma aspirante a atriz, Clara (Maria Helena Chira) quem era Ofélia. E no dito capítulo, de camarim em camarim, ele dá indicações de como aprimorar os personagens. E aí temos duas situações: o diretor atento que consegue extrair de seus atores o melhor através de indicações e como o ator se coloca em relação a isso, ao público, ao seu trabalho. Vemos o Oberon de Paulo Betti responder que não mudaria nada do que tinha feito, que era o último dia de apresentação e que a platéia era um bando de delinqüentes; e vemos a Elen de Andréa Beltrão acatar as indicações, entender que teatro é uma arte dinâmica e, como disse Dante, ter a chance de fazer bem feita a sua cena. Um momento de dúvida entre acomodar-se e arriscar-se a ganhar o mundo, e sua rainha Gertrudes entra em cena plena, enorme, silenciando uma assistência realmente indócil e desacostumada dessas coisas de clássicos e teatros, num crescendo que não poderia sair de dentro dela, mas que igualmente não cabia no peito, uma lágrima borrando a maquiagem, um texto fluido, cristalino. Não sou difícil de me emocionar e agora mesmo enquanto escrevo os olhos marejam, mas a cena foi absolutamente fantástica. Ontem, sentado sozinho na sala, chorando, quis levantar também e aplaudir, mas me contive por esses lapsos de racionalidade, não sem me sentir gratificado por fazer parte dessa arte, pela oportunidade de aprendizado, pela consciência das coisas que tenho oferecida tão generosamente por parceiros valiosíssimos como Adriano Barroso, Ailson Braga, Miguel Santa Brígida, Aníbal Pacha, Wlad Lima, Karine Jansen, Ana Flávia Mendes, Henrique da Paz, já anteriormente citados (nunca, nunca é demais!) com quem mais diretamente trabalhei e tantos outros que seria injusto nomear um sem indicar os demais, mas sobretudo os meus companheiros de Nós Outros, incluindo claro meus novos parceiros.
Para o público comum, sem qualquer desfeita com essa expressão, talvez tenha sido apenas um capítulo de uma minissérie. Algo emocionante, quem sabe. Para o povo do teatro, uma verdadeira aula, um Hamlet sintetizado em uns trinta, quarenta minutos entre o futebol e o telejornal sem que nada de sua esplêndida carga emocional fosse perdida. Alguém não deve ter pensado assim e torcido a cara. Paciência. Humildade não é demérito nem disponibilidade, submissão. Sempre se pode dar um passo a mais. Atores e atrizes que se acham grandes demais, bons demais, que já sabem coisas demais, hmmm, diriam Adriano e Ailson: se foderam!

SERVIÇO
Som & Fúria. TV Globo. De terça a sexta, tarde demais pra um programa assim, mas que bom que dá tempo de eu assistir quando chego do ensaio.
Direção: Fernando Meirelles, Gisele Barroso, Toniko Melo, Fabrizia Pinto e Rodrigo Meirelles.
Roteiro original “Slings & Arrows”: Susan Coyne, Bob Martin, Mark McKinney
Roteiro adaptado: Fernando Meirelles
Produção: Fernando Meirelles, Andrea Barata Ribeiro e Bel Berlink
Produção executiva: Ary Pini
Direção de fotografia: Adriano Goldman, André Modugno e Marcelo Trotta
Direção de arte: Cassio Amarante
Figurino: Verônica Julian
Montagem: Lucas Gonzaga e Lívia Serpa
Trilha sonora: Ron Sures
Produção de elenco: Cecília Homem de Mello
Coordenação de maquiagem: Anna Van Steen

HUDSON ANDRADE
16 de julho de 2009 AD
9h05

segunda-feira, maio 18, 2009

NÓS, NOSSO, VOSSO, TUDO (2)

“A mim ensinou-me tudo
Ensinou-me a olhar para as cousas (...)”

Fernando Pessoa / Alberto Caeiro)

É. Começou a peneiragem.
Finda a primeira semana de trabalho, as ausências começaram a dizer de quem vai ficar fora desse processo. E a questão não são os compromissos que levaram a faltar, mas a falta em si. Se alguém ainda não se tocou que o negócio aqui é trabalho e trabalho árduo, pode enfiar sua viola no saco e vazar mesmo. Outra: escolhas. Vamos ter que fazê-las nossa vida inteira e doloroso e ruim é não fazê-las e se entristecer e prejudicar o trabalho alheio. Então as duas coisas se juntam, porque se eu tenho isso e aquilo e mesmo que eventualmente eu precise me ausentar, há de se convir que eu não estou inteiro nem aqui nem lá e que escolhas deverão ser feitas para o pleno exercício de um, OU de outro. E o que me for mais necessário, interessante, construtivo, etc, por ora, que receba o meu aval. Isso é honestidade consigo em primeiro lugar e com ou outros, além de uma civilizada demonstração de responsabilidade e respeito.
Claro que este trabalho tem particularidades e podemos flexibilizar em tanto quanto se trata de educação, mas isso tem um limite tolerável.
Não cobramos inscrição nem mensalidade porque há um investimento pessoal na compra de apostilas, livros, ingressos de teatro e até lanche, mas essa gratuidade não significa liberalidade, muito menos desqualificação. Os profissionais que nos orientam são de longa data e larga experiência e nossas atividades são pesquisadas e planejadas. Dispomo-nos, porque exigiremos disponibilidade. Oferecemos qualidade, porque não vamos nos contentar com pouco. E o fruto dessa disciplina, organização e exigência virá a seu tempo, num trabalho limpo, belo, agradável e que ofereça a nós e ao público o deleite de um espetáculo de teatro com “T” maiúsculo.

HUDSON ANDRADE
18 de maio de 2009 AD
15h32

sexta-feira, maio 15, 2009

NÓS, NOSSO, VOSSO, TUDO (1)


Esta é uma nova sessão, para eu contar da fase 2 de um projeto chamado Outros 5 Anos, que a Companhia Teatral Nós Outros iniciou em 2007, coordenado por Adriano Barroso e Aílson Braga e que gerou Exercício Nº 1: O Homem do Princípio ao Fim e A Comédia dos Erros. Como todo blog, a idéia é fazer um relato do processo de trabalho que, se não diário, será, no mínimo, satisfatório. E absolutamente instigante.
Vamos lá!





E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

(O Guardador de Rebanhos VIII. Fernando Pessoa / Alberto Caeiro)

Dia 12 começamos um novo processo. Igual em 2007 reunimos a boa e velha Nós Outros com sangue novo e bom. Da outra vez foram convites mais particulares e tivemos Mary, Lucas e Ajax, ainda conosco, e o Ives, que tomou outros rumos. Agora batemos o tambor e apareceu gente de todo jeito. Gente boa, bonita e aparentemente disposta. Uns 2, ou 3 a gente já sabe que não vão ficar, por motivos vários. Outros vão durar mais. Alguns eu espero que realmente engrenem, porque serão de grande valia para a CIANO.
O Adriano tratou logo de dar aquele susto inicial – com uma hora de atraso! – dizendo “Eles já sabem a cagada em que se meteram?!” e prosseguiu, resumidamente, com o discurso do que é ser ator, da exigência da disponibilidade, estudo, leitura, exercícios, suor, trabalho, esforço e tantas dores para, no palco, gozar a delícia de fazer teatro. De qualidade. Bom! E a tudo isso o Aílson deu aval e fez-se as 22 horas, o primeiro dia!
E ter todos de volta e de novos; e ver aquele brilho no olhar de quem ainda está encantado e perceber que há tanto a fazer, tanta energia, a velha falta de espaço para trabalharmos digna e confortavelmente, as ausências, as dúvidas e a certeza de que, no final, que não tem quando nem onde a Nós Outros terá novas pernas, braços e um coração juvenil e uma cabeça madura.
O texto antes dessa escrita, do Pessoa (VEJA COMPLETO), foi o primeiro exercício que o Aílson passou. Pediu ainda que observássemos crianças respirando. E o Barroso pediu que pesquisássemos sobre Bertold Brecht, autor de Dansen e Quanto Custa o Ferro? nossos novos pré-textos.
Evoé ao teatro que me sangra e que eu amo tanto e no entanto eu...
Aos atores e atrizes, evoé!
O terceiro sinal bateu novamente.
Merda!!!

HUDSON ANDRADE
14 de maio de 2009 AD
9h30

CRÉDITO DA IMAGEM: Caraca Desenhos (http://images.google.com.br/imgres?imgurl=https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiStl2a4-SBA3nubEUi_tn4T3dUlzdcvTojgxkTV4BzrBnSC3U6erKy949HBTSYmcPFuDpCkGKbbctTe42s_Tvzuw3K7zoHzD0Foufgo7TOgfj_HycLYimp4q1QiKNT6BcIvfvigw/s400/o%2Bguardador%2Bde%2Brebanhos%2Bcopy.jpg&imgrefurl=http://caracadesenhos.blogspot.com/2008_02_01_archive.html&usg=__VuYwDtI08aaRtiPx6H5FST2uV3A=&h=400&w=283&sz=50&hl=pt-BR&start=20&tbnid=W_7GwhkGgsYH_M:&tbnh=124&tbnw=88&prev=/images%3Fq%3Dguardador%2Bde%2Brebanhos%26gbv%3D2%26hl%3Dpt-BR)

PALMO EM CIMA



Cartas de amor
Também ficam Sem Cor
quando Sem Perfume fica a vida
perde-se o tom, a luz
como um jardim Sem Margarida.

(Rita Melém)

Caio Fernando Abreu, nosso Caio F., é um escritor potencialmente complexo. Difícil? Talvez. Verdadeiro? Totalmente.há na sua escrita uma empatia tal que nos torna cúmplices de seus personagens e idéias. São pessoas que amam, matam, choram, gozam, enfim, vivem, garantindo então essa identificação ao som de Adriana Calcanhoto.
Por isso, para falar de tudo quando Sem Cor, Sem Perfume, Sem Margarida, o mais recente trabalho da Companhia Nós do Teatro quer falar, há e se ter verdade. E se ela existe em Antípodas e Uma História Confusa (os contos de Caio F.) e nos de Neto, como nos versos de Neto, Larissa e Rita Melém, vaga em cena. Falta ao trio de atores uma propriedade cênica que vai além de um bom texto e de um corpo disposto. Benone nos deixa muito à vontade para ver o espetáculo e igualmente deixou seus atores em zonas muito confortáveis. É preciso cuidar de tons muito agudos e fortes ao falar, ou muito baixos – mas não introspectivos –, de dizer do desejo sem o toque óbvio. Há que se dar ao espetáculo todo a mesma graça precisa de quando ao som de Vuelvo aos Sur – o ponto alto do trabalho! – as histórias dos personagens parecem que vão se encaminhar. É preciso assumir o triângulo amoroso e a paixão a que se propuseram.
Sem Cor, Sem Perfume, Sem Margarida tem uma encenação espartana e signos para os quais eu ainda busco sentido, mas o que mais grita para mim mesmo é a falta de precisão dos atores. Precisão que nasce da técnica e que obrigatoriamente precisa extrapolá-la para não ser um arremedo de realidade.
De algum paraíso, junto aos seus dragões, Rodrigues Neto (VER Brocardos (1), um dos fundadores da Nós do Teatro e grande homenageado com este espetáculo, deve estar meditando sobre isso e certamente vai lhes encher a cabeça de borboletas. Muitas. Negras;
Tomara!

FICHA TÉCNICA: Sem Cor, Sem Perfume, Sem Margarida. Texto a partir de poemas de Rodriguez Neto e Larissa Latif e de contos de Caio Fernando Abreu e Rodriguez Neto. Com: Jéssica Mirley, Markson de Moraes e Will Júnior. Iluminação: Sônia Lopes, Sonoplastia:Hélio Saraiva, Arte: Jéssica Mirley, Cenografia, figurino e direção: Beto Benone.Teatro Waldemar Henrique, 08, 09 e 10 de maio de 2009, 20h00.

HUDSON ANDRADE
11 de maio de 2009 AD
17h00

quinta-feira, maio 07, 2009

ANTES DO TEMPO


Severa Romana foi escrita em 1968 pelo também escritor e jornalista Nazareno Tourinho e encenada pelaprimeira vez em 1969. Quarenta anos depois a história da moça grávida assassinada quando defendia sua honra volta à cena pela Companhia de Artes Cênicas Fato em Ato. O caso, real, aconteceu em Belém do Pará em 1900. Severa Romana, então com 19 anos, casada com Pedro, militar, era constantemente assediada pelo Cabo Ferreira, transferido do Ceará para nossa capital e que, tendo suas investidas recusadas, mata Severa. O crime comoveu a população e a jovem é até hoje venerada como uma de nossas santas populares. “Os seios de uma mulher são jóia rara”, diz a personagem Joana apresentando bem o ideal de honestidade da sociedade de então e dando testemunho, como em outros momentos, da retidão de caráter de Severa. Talvez essa postura ferrenha e altiva da jovem – mais do que a própria honra – seja o que motiva tantas pessoas a ir à quadra 28 do Cemitério de Santa Izabel pedir-lhe graças.
Antes desses tempos de Lei Maria da Penha – demonstração tardia, mas importantíssima de que a sociedade rejeita agressão tão covarde – o texto de Tourinho já apresentava esse problema hoje tão banal. Não sei se o dramaturgo queria discutir violência contra a mulher, ou apresentar um fato histórico, mas a postura da Fato em Ato de trazer o assunto à baila é de suma importância. Na peça cita-se também o caso de Maria Bárbara, em tudo semelhante ao de Severa, e que o poeta Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha, em suas Obras Literárias (1850), descreve em belíssimo soneto*:

Se acaso aqui topares, caminhante,
Meu frio corpo já cadáver feito,
Leva piedoso com sentido aspeito
Esta nova ao esposo aflicto, errante.

Diz-lhe como de ferro penetrante
Me viste por fiel cravado o peito
Lacerado, insepulto, e já sujeito
O tronco fêo ao corvo altivolante:

Que d'um monstro inhumano, lhe declara,
A mão cruel me trata desta sorte;
Porém que alívio busque à dor amara,

Lembrando-se que teve uma consorte
Que, por honra da fé que lhe jurara,
A mancha conjugal prefere a morte.


O espetáculo Severa Romana parece prematuro. Apesar do tempo de trabalho (mais de um ano) algo nele ainda não está pronto para o palco. É fato que sua encenação e relevância podem lhe garantir – e deve – vida longa e próspera e que o tempo há de se encarregar de deitar azeite em suas juntas, mas por ora lhe falta vigor. Os personagens são estereotipados – no texto e na representação – e apesar de cerca de hora e meia de espetáculo nãos e tem uma curva ascendente que garanta um clímax na platéia. O final da história todo mundo sabe e isso é um grande trunfo. Tornar a platéia cúmplice do vilão, sofrer pela mocinha, agonizar-se, pensar em fazer isso e aquilo. Mas Severa Romana não nos permite isso e alguém à saída do teatro comentava com sua acompanhante que o final deixava a desejar. Deixa! Pior e que pode dar o tom de apenas mais um caso que toda a equipe quer exatamente afirmar-se contra. Os personagens Pedro e Vizinha são dessas caricaturas tão fortes que se tornam risíveis e não se tem por eles qualquer empatia; o cabo Ferreira é a encarnação do Demo. Cínico, debochado, rufião,não dá margem a que se sinta nada por ele além de repulsa e o texto não lhe confere nuances tornando-o tão arrogante que só reforça um Pedro fraco, ridículo e egoísta em sua covardia. Severa deve ser mais do que uma heroína de folhetim. É preciso que sintamos que suas atitudes não são só fruto de criação, ou dos costumes da época – e sua postura sempre assustadiça diz isso –, mas a expressão de seu real caráter. Palmas para Joana, desses personagens tão presentes em Shakespeare e Moliere que dizem e fazem de tudo, tudo vêem, tudo questionam e suas palavras acabam sendo a demonstração da verdade. Palmas sobretudo para a atriz Luíza de Abreu que faz uma Joana absolutamente tranqüila em cena, falando com desenvoltura e gesticulado na medida certa. É maravilhoso e infelizmente cada vez mais raro ver atores e atrizes maduros no palco, dando o fôlego de sua experiência para nós, meros iniciantes.
O figurino de Mestre Nato é belíssimo, mas romântico demais e parece – e efetivamente está – muito novo, limpo e cheirando à alfazema em cena; a cenografia de David Matos, que também assina a direção, é moderna, objetiva e clara; a luz de Sônia Lopes, sempre precisa, ainda que eu ache que aconteçam Black-outs demais.
Colhido antes do tempo, Severa Romana agora vai amadurecer a pulso e não ficará tão doce, ainda que nos alimente. E que sejam muitos e muitos banquetes.

FICHA TÉCNICA: Severa Romana. Texto: Nazareno Tourinho. Com: Mônica Alves (Severa Romana), Luíza de Abreu (Joana), Eliana Hazeu (vizinha), Marcelo Pinto (Cabo Ferreira) e Márcio Mourão (Pedro). Partitura corporal: Rutiel Felipe, Figurino: Mestre Nato, Iluminação: Sônia Lopes, Sonoplastia: Armando Hesketh, Fotografia: Simone Machado, Assistente de produção: Aline Chaves, Produção: José Clemente, Assistente de direção: Suely Brito, Cenografia e direção: David Matos.Teatro Margarida Schivazappa, 02 e 03 de maio de 2009, 20h00.

HUDSON ANDRADE
04 de maio de 2009 AD
11h15

(*) Disponível em http://blogflanar.blogspot.com/2007/10/o-brasil-tem-uma-nova-beata.html

sexta-feira, março 27, 2009

DE UM FÔLEGO SÓ

É assim que a gente assiste 6 Meses Aqui, dos Atores Independentes, a segunda parte de uma trilogia que começou com 3 e que pretende se encerrar no final deste ano, bebendo da mitologia e da filosofia para construir seu drama.
De um só fôlego! Da feita que começa é como enfiar a cabeça numa pia d´agua.os olhos arregalam, a respiração prende, dá uma agonia. Isso é ruim? Não!
Não necessariamente...
O texto, próprio e alheio, está muito bem encadeado e bem dito, ainda que aqui e ali as coisas fiquem meio emboladas e outras, inaudíveis. A falta de acústica no espaço colabora. Este é um problema. Apresentado no Memorial dos Povos Indígenas, no Complexo Ver-O-Rio, 6 Meses Aqui compete com o vai-e-vem de uma platéia deseducada, o brega das barracas, o zum-zum-zum do povo, sirenes, sinetas, buzinas, crianças. A entrada do templo de Jerusalém perde e aí nem Jesus nem chicotadas.
Iracy Vaz e Sandra Perlim, protagonistas deste enredo que fala de gente, de sentimento, de desencontros, separações, sem qualquer romantismo piegas, mas com alguma propriedade e total entrega, estão absolutamente confortáveis. O corpo disposto se dobra em posições que me fazem questionar o porquê praquela cena, que eu entendo dentro de uma proposta de encenação e criação de personagem, mas que pode ser confuso para o público comum, sobretudo o de ocasião, atraído pelo burburinho. Atenção para Sandra, de corpo e alma em cena, e destaque para sua interpretação de um texto de Arnaldo Jabor. Fantástico, lúdico, delicioso!
Não entanto é preciso dizer que 6 Meses Aqui não espetáculo para rua, ainda que não seja para grandes platéias. É bom gozar de alguma intimidade com as pessoas bem pertinho. Algumas referências e, sobretudo, o conteúdo homoerótico do espetáculo pedem um público mais habituado aos jogos cênicos e as (pretensas) verdades que levamos aos palcos. Houve quem se levantasse incomodado (agredido?! Não sei!) e isso é questionável. Não fazemos teatro para nossos pares; fazemos para todos e entregamos nossa arte para que seja pesada pelos valores de cada um. Importante que se diga que não há nada de grotesco, ou leviano. Há apenas o que não é habitual nem devidamente compreendido, ou respeitado.
6 Meses Aqui é uma experiência instigante. Carece de pausas para respiração, curvas mais acima, mais abaixo, nada que lhe tire o mérito.
Não tive a oportunidade de ver 3, mas creio piamente que nesse ritmo, o final dessa história será vertiginoso.
Que seja então uma montanha-russa!

HUDSON ANDRADE
25 de março de 2009 AD
12h45

SERVIÇO:
6 Meses Aqui – Atores Independentes
Dramaturgia e elenco: Iracy Vaz e Sandra Perlim
Direção: Maurício Franco e Milton Aires
Memorial dos Povos Indígenas – Complexo Ver-O-Rio
28 e 29 de março de 2009, às 20h30.
Entrada franca, com rodada de chapéu.


Assista a vídeo do espetáculo em http://www.youtube.com/watch?v=DRVOtOZ4UYs