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sexta-feira, junho 03, 2011

PÉS DE BARRO, SOL NOS CABELOS

Numa semana miraculosamente de folga fiz o que, como ator, faço para me divertir: fui ao teatro. Assisti Aldeotas – Lugar de Memórias e Paixão Fosca e sobre eles agora discorro um pouco.


Aldeotas – Lugar de Memórias é o espetáculo que marca o retorno à cena do Grupo Gruta de Teatro e aos palcos dos atores Adriano Barroso e Aílson Braga. Aldeotas vai beber nas lembranças: o amizade de Levi (Barroso) por Elias (Braga), as delícias da infância, o prazer da poesia, o aprendizado das escolhas feitas – algumas dolorosas. O texto do ator e dramaturgo Gero Camilo é extremamente rico – de imagens, de sensações, de emoções – e tem na sua bela escrita e singeleza de uma broa de milho que abre as portas do reino no centro da Terra onde meninos com olhos de diamante cantam, dançam e silenciam num só tempo.
A dramaturgia de Henrique da Paz, decididamente um dos melhores diretores do Pará minimaliza cenários e adereços para privilegiar a interpretação, enquanto a luz de Sônia Lopes cria apontamentos cênicos e acentua as emoções dos personagens. O resultado é que está nas mãos de Adriano e Aílson o prender a platéia pelos quase 90 minutos de espetáculo, voando em cajueiros, mergulhando em cacimbas, saltando de abismos, descobrindo o amor e a sexualidade; dramas contemporâneos que devoram sonhos e lugares de conforto onde a falta de coragem fala mais que o afeto – que não é pouco, só é criança.
E esse dizer incomoda. Soa professoral, quase discursivo. Talvez opção do diretor, talvez para contrapor os momentos em que ele rasga a alma e grita e chora, abraça e beija, para retornar a uma fala rebuscada de Rs e Ss. Assim também o corpo, que não é da cena, mas cotidiano. Presente, mas não inteiro. Seguro, mas não proposto. Pés de barro nesse colosso cuja cabeça está adornada de ouro.


Paixão Fosca é para quem gosta de folhetins. A mocinha transgressora aprisionada em sua torre, o cavalheiro honrado que é amante e protetor, um médico misterioso (Marinaldo Silva) e seu comandante, (Harles Oliveira), uma mulher dúbia – leviana e dissimulada, ou fervorosamente apaixonada na sua solidão? A doença como arma de chantagem, ou molde torto para uma alma iluminada?
A partir do texto Fosca de Iginio Ugo Tarchetti o ator, diretor e dramaturgo Guál Didimo apresenta Giorgio (Rafael Feitosa), cuja paixão se movimenta lenta e tropegamente da doce Clara (Paula Diocesano) para a sofrida Fosca (Rosilene Cordeiro .Brilhante), uma mulher de personalidade marcante que assusta e encanta, cuja resistência está na espera de um grande amor que coroe a sua vida.
Com uma cenografia simples e de múltiplas possibilidade, brilham os figurinos excepcionais de Ézia Neves (responsável por ambos) e a luz de Sônia Lopes, não à toa, uma das iluminadoras mais requisitadas pelos grupos de Belém, pela certeza de um trabalho participativo e entregue que começa nos ensaios, seguindo com o grupo, propondo, construindo, até o resultado sempre competente e belo. Na sessão que eu assisti havia falhas de operação que prejudicaram algumas cenas, assim como o uso indevido da luz por alguns atores, que insistiam em falar e andar nas sombras.
Paixão Fosca é um espetáculo classudo, à italiana, naturalista, romântico, desses que pedem vermelhos e dourados e trilhas sonoras clássicas. Nenhum demérito nisso. Como encenador eu tomaria outras decisões: planos de ação diferenciados, menos ou nenhuma saída de cena dos atores, excetuando talvez Fosca, cuja ausência física não apaga o seu rastro e sua presença é marcante mesmo antes que a vejamos pela primeira vez.
Ao contrário do espetáculo do Gruta onde não há onde e com o que se camuflar, os recursos disponibilizados por Dídimo deixam alguns intérpretes bem acomodados esquecendo de fincar seus pés na rocha sólida do seu trabalho como ator.
Há que se aureolar frontes, mas sem desmerecer com o que se pisa.

SERVIÇO
Aldeotas – Lugar de Memórias todas as quartas de junho no Teatro Cuíra
21 horas.
Ingressos: R$ 20,00 (vinte reais) na bilheteria.

Enquanto Paixão Fosca não volta aos palcos, leia mais sobre o espetáculo em http://www.paixaofosca.com.br/.

HUDSON ANDRADE
03 de junho de 2011 AD
10h37

terça-feira, outubro 19, 2010

ALÉM DO HORIZONTE DEVE TER


O burburinho que se formou entre os adeptos da Doutrina Espírita e curiosos foi grande. Vem aí filme Nosso Lar! Umas das mais conhecidas e comentadas obras psicografadas por Chico Xavier iria para as telas dos cinemas depois do sucesso da cinebiografia do médium mineiro e com vários programas de TV de cunho espiritualista. O diz-que-me-diz-que foi grande. Fotos, sites, notas, traileres eram divulgados pela internet. Cartazes eram afixados nos Centros (pelo menos no meu!). Tudo empolgava e, claro, dava alguma apreensão. 03 de setembro de 2010 virou uma espécie de Dia D para o Espiritismo brasileiro.
Não, não vou comentar e-mails dizendo de atendimentos espirituais durante as sessões de exibição do filme. Qualquer mínimo bom senso se opõe a isso!
Assisti Nosso Lar dia 05 de setembro e novamente no dia 08 (acho!). a cena inicial, André Luiz (Renato Pietro) diante dos muros fechados da cidade espiritual, o céu azul cortado por um íbis, a música emocionante de Philip Glass, senti um aperto no peito. Então descemos ao Umbral (uma espécie de purgatório?! Como assim?) e o filme entra num ritmo tal e único que não se altera até o seu final. Sem conflitos, sem falha trágica. André Luiz é só alguém confuso se aclimatando com certa facilidade a uma nova realidade. Todos os demais personagens são escadas para a plenificação do médico sanitarista falecido no Rio de Janeiro, onde exercia a profissão, no início do século XX. A personagem Eloísa (Rosanne Mulholland), sobrinha de Lísias (Fernando Alves Pinto), que deveria ser o contraponto de André não passa de uma garotinha mimada e chata em quem uns bons cascudos resolveriam as tolices.
Pietro não é capaz de dar ânima ao personagem. Sua interpretação é rasa e burocrática, um certo jeito empolado de falar, uma falta de carisma.
Bons atores no elenco como o já citado Fernando Alves Pinto, Othon Bastos (o Governador da colônia), Ana Rosa (Laura, mãe de Lísias), Werner Schünemamm (Emmanuel), Paulo Goulart (ministro Genésio), entre outros, talvez por conta da direção, mantiveram-se didáticos, monocórdios e unidimensionais.
O roteiro do próprio Assis, que até consegue sintetizar bem uma obra tão vasta e detalhista quanto Nosso Lar, não consegue centrar em André Luiz e não dá a real dimensão de um personagem confrontado com suas crenças e verdades; não dá a outros temas como reencarnação, vida após a morte, mediunidade, colônias em planos extra-físicos da existência, qualquer aprofundamento além de explicações acadêmicas tais verbetes de enciclopédia.
Os efeitos realmente incomuns em produções brasileiras são tecnicamente bons, mas não podem existir por si só. Temos vários exemplos de filmes cujo visual e excelência técnica não conseguem esconder os despropósitos, ou incompetências de um roteiro mal escrito, e/ou mal dirigido.

Se você, espírita (kardecista é o censo) quiser tornar o filme de Wagner de Assis na pedra filosofal do Doutrina Espírita no Brasil, vá em frente. Ver minha mãe, que não é espírita, dar conselhos baseada em questões que viu no filme mostra que enquanto divulgador de uma mensagem a produção cumpriu o seu papel – lembrando apenas que mensagem sem estudo, reflexão e aprofundamento é meramente máxima de almanaque. Devidamente utilizado, embasado e discutido, pode ser um excelente ponto de reflexão em nossas Casas e mesmo fora dos círculos espiritualistas. Para os não espiritistas o filme é mais uma obra de ficção com pretensões de realidade. Enquanto obra de arte é fraco, inconsistente e sem brilho e só se mantêm em cartaz pela necessidade de ver que esse nosso mundo não é o único e nem o melhor. Nossos anseios de superação e imortalidade nos atraem para esses personagens, seja André Luiz, o Superman, o coronel Nascimento, ou a mocinha lacrimejante da novela das seis.
Que as próximas produções nesse filão observem cuidadosamente o seu trabalho buscando universalizar a mensagem sem moralidades maniqueístas através de um apurado e tecnicamente correto veículo, única garantia de imortalidade de uma obra de arte.

Hudson Andrade
19 de outubro de 2010 AD
16h31

quarta-feira, junho 02, 2010

WE ARE FAMILY


Alguns dias após alunos da faculdade de farmácia da USP trocarem ingressos de festa por agressões a homossexuais, de outros alunos da mesma instituição promoverem um beijaço de protesto, da revista Veja estampar na capa matéria sobre homossexualidade entre adolescentes (que eu não cheguei a ler, mas que um amigo militante gay disse ser pavorosa!), da lei que criminaliza a homofobia ser votada, dois programas da Rede Globo têm a homossexualidade como pauta: A Vida Alheia e Profissão Repórter. Claro que eu lamentei profundamente o ato dos alunos daquela academia; claro que o beijaço é daquele tipo de protesto que vem e passe sem conseqüências e uma parte dos que protestam o fazem por bandalha. Claro que não precisaríamos de leis contra homofobia, pedofilia, discriminação racial e violência contra a mulher se o Brasil e as famílias privilegiassem a educação e, moralmente, o respeito fosse presença nas relações humanas. Mas tudo bem. O que não se aprende pelo amor, se aprende pela dor.
A Vida Alheia faz parte da nova programação da emissora. Simpático, assim como Separação e o ótimo Globo Mar – muito além de água e peixe! – e o esteriotipado, barulhento e irritante S. O. S. Emergência: humorístico típico. No programa encabeçado por Marília Pera e Cláudia Jimenez, claramente inspirado no caso Ronaldo Fenômeno, um jogador é flagrado com um travesti num motel e parece estar se divertindo muito. Matéria de capa, o feitiço vira contra o feiticeiro e o que deveria ser um escândalo avassalador se torna mote para protestos contra a imprensa ruim e a homofobia, obrigando a revista a uma reviravolta. Cara limpa, o jogador vai à público e argumentando maioridade, responsabilidade, a consciência e boa execução de seus deveres, afirma satisfazer seus desejos sem que isso prejudique ninguém. “Todos deveriam satisfazer seus desejos”, ele afirma. Na vida real, nesse Brasil preconceituoso e machista esse rapaz nunca, jamais, em tempo algum iria declarar tais termos em cadeia nacional, sem perder a vaga, contrato e carreira. Talvez ele posasse para uma revista gay, talvez ele fosse entrevistado numa tarde dessas, mas depois exílio social e ostracismo. Com o jargão “O que eu faço também é amor” A Vida Alheia abraçou a causa gay de forma algo romântica, asséptica e rasa, como convém à Globo.
Profissão Repórter estreou no ano passado e foi gratamente mantido na grade de programação, assim como as novas temporadas de A Grande Família e Força Tarefa, além do Casseta e Planeta Urgente, o que demonstra que não é qualidade e bom gosto que norteiam essas decisões.
A proposta de Caco Barcelos é usar o dinamismo e o entusiasmo de repórteres em início de carreira para mostrar os bastidores da notícia, dividido-os em diferentes focos de um mesmo tema, entremeando com suas considerações experientes: aula de jornalismo desses programas muito bons que são muito curtos e exibidos muito tarde, muito cedo, ou todas essas coisas.
Na edição de 10 de maio, a homossexualidade entre os jovens. Conflitos, medos, anseios, grandes vitórias e esparsas alegrias. Num programa emocionante destaco o jovem que, nas sombras, fala que se pudesse escolher, não seria gay. “É sofrimento demais!” e emendou que não tinha contado aos pais e pensava jamais contaria. “Pra onde eu iria?”, ele pergunta, temendo represálias. Em outra entrevista a mãe que participa de um grupo de apoio a pais com filhos homossexuais indica seu grande dilema: “Meu filho tem excelentes qualidade, mas é gay!” (negrito nosso). É a mulher que se divide entre o amor de mãe que alguém disse precisar ser irrestrito e as expectativas que são dela e da sociedade, mas não do filho. “Amas oposto a mim. Por conseguinte chamas amor aquilo que eu não chamo”, diz o poeta Augusto dos Anjos. Se nós e os outros não nos exigíssemos tanto, esta mulher perceberia que a felicidade do filho (de todo mundo) atende protocolos íntimos, que ela ajudou a formar; que o amor entre pessoas do mesmo sexo – enquanto relacionamento afetivo – pode ser moralmente questionável, mas isso depende de com que valores tal fato é confrontado e que ele faz parte de um aprendizado mais amplo do que é amorosidade para comigo e para com o outro; e que ela pode amar o filho, sim, mas que também pode se decepcionar, entristecer, duvidar. O sofrimento vem do fato de que ela se vê preconceituosa, mas o alvo é o próprio sangue. Ok. Respire isso. Confronte seus preconceitos e lute contra eles por intoleráveis, mas um passo de cada vez e persistentemente. Sem culpa!
Mas o que me emocionou mesmo foi o jovem que aos 16 anos declara sua homossexualidade. “Não dava mais!”, ele afirmou. Criou-se entre ele e a família um abismo. O pai disse que seu comportamento era asqueroso. O irmão mais velho agrediu o namorado e a mãe, passivamente, não conseguia administrar a situação. Num desses dias de almoço de família o rapaz levou o parceiro até a porta de casa e pediu pra entrar. “Não quero ficar sem ele, mas também não posso ficar sem vocês!”. O pai, maior empecilho, permitiu que eles entrassem e desde então se iniciou uma convivência cheia de cuidados, difícil de conquistar – os pais do jovem também fazem parte daquele grupo de terapia –, mas que caminha a passos largos.
“É meu filho!”, “É minha filha!”, “... e eu o amo...”. Essas a frases mais recorrentes.
Necessário observar que devemos sim amar e amar incondicionalmente, mas é preciso estar bem consigo para estar bem com o outro. Esse processo começa conosco, por nos aceitarmos e para nos aceitarmos é preciso que nos conheçamos e para nos isso muitas vezes enfrentaremos nossos monstros internos. Identificando-os é preciso mudá-los. Para tanto é preciso arriscar, o que exige coragem de sairmos de nossas zonas de conforto e vontade de aprender. Isso pode ser muito duro, mas não é impossível e os resultados pagam juros pra vida toda, em todos os seus aspectos.

Meu amigo militante disse que o programa esqueceu todos os que levaram pedrada pra que chegássemos a esse mínimo de consciência; que as duas mulheres da reportagem não podem registrar seus filhos gêmeos como filhos biológicos e etc. ponderamos – eu e outros amigos, inclusive héteros – da importância de também veicularmos o que é positivo num mundo viciado no personalismo e no negativismo; que os fatos devem ser encarados sem romantismos, mas coerentemente e de peito aberto pra que a sociedade sinta que tais fatos existem e que para elem de fatos há pessoas. Gado a gente marca, mas com gente é diferente, não é assim que canta o Zé Ramalho? Não cabemos num rótulo. Temos necessidade de acolhimento, afeto, compreensão. Devemos ser íntegros.
Independente de ser homossexual defendo o programa do Barcelos não com um libelo à homossexualidade, mas por nos instigar sobre o assunto; não tomar partido, mas criar consciência; não se violentar e engolir o que parece insólito, mas desenvolver a tolerância e o respeito. Não amas porque se deve amar, mas amar porque amor é da vida e sem amor, nós, eles, todos, não temos sentido enquanto humanos, não temos paz e, simplesmente, desaparecemos.


HUDSON ANDRADE
14.05.2010
12h00

sábado, março 06, 2010

AQUELES DOIS...




Para ler e depois ler Caio F, que faz, ele sim, parecer essa coisa de igual ser de verdade!)


Homossexualidade não é tema novo no cinema. Desde a sutileza dos diálogos de Ben Hur passando pelos vários matizes e glitteres de deboche, violência, romantismo, até o recente desencontrado amor de Jack Twist e Ennis Del Mar em Brokeback Mountain. Logo, contar uma história cujo foco seja esse precisa de um diferencial. E Aluísio Abranches apostou na consangüinidade e no incesto para contar seu Do Começo ao Fim (Brasil, 2009). Mas a ousadia acaba aí! Desde o início percebemos que aquilo não pode dar em outra coisa e quando Pedro (Jean P. Noher), pai de Francisco, questiona Julieta (Julia Lemmert), ex-esposa e mãe do garoto se ela não teme que a intimidade excessiva com o meio-irmão Tomás acabe sexualizada, a resposta é um tímido “sim” de olhos perdidos. E nada mais. Aliás, esse negócio de meio-irmão é só pra atenuar o climão de incesto da coisa.
Francisco e Tomás (... e ... quando crianças e ... e ..., adultos) vivem um e para o outro num mundo idílico: uma mãe incondicionalmente amorosa e compreensiva, Alexandre (Fábio Assunção), um pai-padrastro capaz de sufocar suas dúvidas e medos pelo amor à esposa, uma ama (seria esse o papel de Louise Cardoso?), uma casa linda, confortável, dinheiro bamburrando e ninguém mais. Nenhuma outra criança, empregados, escola, vizinhos e até mesmo o esporte dos meninos, a natação, prescinde de uma equipe. Como não se apaixonar (ou criar uma dependência?) daquele que é a sua mais presente referência?!
Daí tão logo se vêem sós Francisco e Tomás se entregam um ao outro como se aquilo fosse o mais natural e plausível possível, sem qualquer impedimento moral (o fato de serem irmãos), social, ou o que quer que seja. E a cama que os recebe, branca, imaculada, num quarto branco, imaculado, numa penumbra acolhedora e um discurso de “eu te amo porque...” que faz o sol nascer amarelinho, cedinho, cheio de um amor azulzinho, azulzinho, os redime de qualquer pecado, seja lá em que hemisfério for.
Aliás, ninguém questiona nada. Nem Alexandre, ou o treinador, ninguém. O que Abranches quer que pareça natural tira do roteiro o conflito, a falha trágica dos heróis lindos, másculos, honestos, queridos. Não existem curvas emocionais. O filme engata uma velocidade de cruzeiro e navega sem procelas. Daí eu vou discutir o quê?! O mundo não existe. Só existem Francisco e Tontom.
Quando os dois se separam pelo treinamento de Tomás na Rússia (!) os textinhos sobre ciúmes não convencem ninguém, assim como o sexo virtual. Francisco definha como um dependente químico e sua tentativa de transgressão é frustrada não por culpa ou moralidade própria, mas da moça que ao ver a aliança em seu dedo decide ir embora mesmo desmentindo a própria fala anterior “Se ele tem alguém esse alguém tem um problema porque ele é meu!”. Cadê aquela atitude? De fêmea fatal a madre da Castíssima Irmandade das Mantenedoras de Lares em alguns poucos fotogramas!
Francisco não resiste e vai atrás do irmão e amante. Putz! Contei o final. Relaxa. Em dez minutos de filme a gente saca isso. E o filme termina, abrupto, e eu fiquei pensando numa frase da Elen Vaneau, personagem de Andréia Beltrão em Som & Fúria: “Essa história é uma idiotice. Um amor assim não existe!”

HUDSON ANDRADE
09 de fevereiro de 2010 – 11h06

A MENINA, O MOÇO, RITINHA, A AMA DE LEITE




“O ator deve sempre começar de si mesmo, da própria qualidade natural (...). A arte começa quando não existe papel, existe somente o ‘eu’(...)”. (Stanislavski)


É do eu que nasce Solo de Marajó, um eu coletivo, como diz seu diretor Alberto Silva Neto, um eu de profundas raízes familiares, nas palavras de Cláudio Barros, um eu que se reparte na escrita de Dalcídio Jurandir e Carlos Correia Santos. Marajó da obra de Dalcídio, vigorosa; solo de se estar só e se bastar e precisar de complemento e solo de um chão onde o ator se mistura na cenografia de Nando Lima e na luz de Tarik Coelho. Tudo absolutamente minimalista, claro, limpo, fazendo aparecer quem realmente deve aparecer: o ator – o primeiro dos ingredientes desse fazer teatro. O segundo é a platéia. Nada mais é necessário.
E estávamos lá, ator e platéia para quarenta e cinco minutos de tanto tempo, tantos dias, tantas histórias. Ele virado muitos, mimetizado, os sons saindo do próprio peito, a voz firme e clara, o corpo transformando-se nesse e naquela, cada qual com sua particularidade, seus trejeitos, sua prosódia sem a necessidade de recorrer a sotaques e tucandeiras para que nos reconhecêssemos naquelas pessoas antes de tudo, pessoas; e nós daqui, atentos, a cabeça fervendo de criar caixinhas de fósforos, igarapés, redes, toalhas, altares. Entremeando tudo isso uma escuridão que me incomoda mais porque não gosto do breu e aprecio ver tudo acontecendo diante da assistência que acompanha quem é o ator e quem é o personagem; no entanto os blecautes são necessários – talvez um pouco longos – para que a encenação possa marcar bem onde termina cada “causo” e nos deixar no suspenso para o que vem depois.
Cláudio Barros assume a difícil tarefa de contador de histórias e se propõe com maestria a nos encantar com luas, indignar com o tratar mal não porque se é malino, mas porque a vida secou, desejar, amar, crescer, envelhecer.
Eu precisava ver isso. Todo mundo nessa cidade precisava ver Solo de Marajó. Teatro por excelência. Direção segura, texto preciso e sobretudo (sua majestade) o ator, que aqui e com Claudinho – como vou, abusado, me permitir chamar – encontra um parâmetro a ser seguido.
Pena que temporadas tão curtas. Bom que volte logo e nos alague de sentimentos.
HUDSON ANDRADE
18 de dezembro de 2010 – 10h31
Escrito quando da estréia do espetáculo. Desculpem aí a demora!

sábado, junho 13, 2009

MUTANTES, EXTERMINADORES... NA DÚVIDA, DANCE.

Os quatro últimos filmes que assisti foram X-Men Origens: Wolverine, O Exterminador do Futuro 4: A Salvação, Dúvida e Valsa com Bashir, estes últimos no Líbero Luxardo, do CENTUR. Dúvida num domingo de temporal que foi de impressionar que o cinema, mesmo pequeno, estivesse lotado; Valsa num feriado solitário que doía.


WOLVERINE (X-Men Origins: Wolverine, EUA, 2009) é uma falácia. O roteirista David Banioff e o diretor Gavin Hood vãona cola do sucesso de X-Men, no peso da DC, no carisma do mutante com garras de adamantium. Empatia que é devida a Hugh Jackman e seu carão, costão, peitão, pernão, etc... Mas carisma só não basta para reaver os milhões que o próprio Jackman investiu no filme. Vejam, por exemplo, Russel Crowe. Ele podia ficar feliz com a boca escancarada cheia de dentes com o seu Gladiador e enveredar por continuações e filmes que só mudam o nome sem mudar o enredo, dos quais Hollywood é pródiga. Mas não. Los Angeles – Cidade Proibida, Uma Mente Brilhante e O Informante (mesmo feitos antes de Gladiador) estão aí pra mostrar o contrário, ainda que haja Mestre dos Mares. Mas e Hugh Jackman? A Senha, Van Helsing e agora Wolverine. Caras e bocas, músculos à mostra, testosterona vazando pela tela. História que é bom, nada. Aquelas subversões que sempre ocorrem de uma linguagem para outra, efeitos especiais estonteantes, brecha para um próximo filme e só. Ejaculação sem prazer.



O EXTERMINADOR DO FUTURO 4: A SALVAÇÃO (Terminator Salvation, EUA, 2009) é mais filme. Desses de ação, com todas as idiossincrasias que essa fala carrega quando eu as digo. Machos, mulheres masculinizadas – as não masculinizadas são dadivosas, servis e de grandes olhos lacrimejantes! –, atitudes heróicas, redenção e rajadas de metralhadoras pra matar um Aedes aegypti. Aqui a vaidade de um ator custou ao filme uma maior linearidade e consisão. Christian Bale foi chamado para viver Marcus Wright, personagem que acabou ficando com Sam Worthington. Bale aceitou o trabalho com a condição de viver John Connor, o líder da Resistência contra a Skynet, mas quando leu o roteiro, percebeu que Marcus era o personagem principal e exigiu mais falas e maior visibilidade em cena, o que provocou os tais problemas de linearidade do filme. O que mais se vê é Bale voando, saltando no mar bravio, lutando. “Eu sou John Connor” volta e meia ecoa no filme. Mas não adiantou. Mesmo passando para um próximo filme – e não duvidem que haja um próximo filme!- Connor é menor que Wright e é do condenado à morte que busca uma segunda chance que se vai lembrar. Bale deu um tiro no pé. E falando nisso e em próximo filme, A Salvação, cuja ação se passa em 2018, no apocalíptico futuro apenas sugerido nos filmes anteriores, nos coloca exatamente no ponto em que nos idos de 1984 começava O Exterminador do Futuro, ainda com Arnold Schwarzenegger como o monossilábico T-800 – que agora volta completamente digital, já que o ator não aceitou participar do filme dadas as suas ocupações como governador da Califórnia – e James Cameron – o idealizador de tudo – na direção. Daí ou temos um roteirista inteligente e criativo (?!) ou a desgraça estará feita. E sem um bom roteiro (e talvez até com um!) McG (As Panteras e As Panteras Detonando) não é Cameron e a Resistência terá uma batalha bem maior e mais inglória do que enfrentar T-800s!


DÚVIDA (Doubt, EUA, 2008) é dirigido por John Patrick Shanley, cujo roteiro é uma adaptação da peça teatral de sua autoria, vencedora do Pulitzer e de quatro Tonys, contando agora com cinco indicações para o Oscar. O filme tem um elenco espetacular encabeçado por Meryl Streep e Philip Seymour-Hoffman, protagonistas das melhores sequências de um filme cheio de grandes diálogos, palavras veladas, meias verdades, olhos baixos, enfrentamentos, torneios de força em que o poder está na persuasão enquanto as mãos se ocupam com terços e delicadas xícaras de café.
A irmã Aloysius Beauvier (Streep) é dessas mulheres imbuídas de um objetivo cego do qual não se desvia por mais consistentes sejam as evidências em contrário. Rígida, autoritária, centralizadora, esconde nessa capa de sisudez uma alma fragilizada, cheia de receios e dúvidas. Alertada pela jovem irmã James, vivida pela atriz Amy Adams, natural, numa performance tocante, de um possível assédio contra Donald Miller (o ótimo Joseph Foster),primeiro aluno negro da tradiconal escola St. Nicholas, pelo liberal padre Flynn (Hoffman), a irmã Aloysius inicia uma batalha que vai além de questões raciais, ou sexuais. É uma disputa por poder de alguém que busca uma brecha para se sobressair num 1964 em que ela é constantemente constrangida pelo seu sexo, sua posição na hierarquia religiosa, valores. Destaque para as sequências em que a irmã Aloysius conversa com a mãe do jovem Donald (Viola Davis) cuja linha de raciocínio não cabe no entendimento inflexível da religiosa e no embate final entre Beauvier e o padre Flynn, desses textos que nos pegam tanto pela escrita quanto pela atuação precisa de excelentes atores.
Num filme quase tão silencioso e sombrio quanto os corredores da St. Nicholas, sobram dúvidas: dos personagens, nossas, dos valores de cada um, do que é certo, do que é errado e se há certo e errado. Dúvidas que se espalham como plumas ao vento, impossíveis de serem totalmente resgatadas. Resta-nos manter distância – pretensa isenção –, ou buscar a verdade, custe o que custar.


VALSA COM BASHIR (Val sim Bashir, ISR, ALM, FRA, EUA, FIN, SUI, BEL, AUS, 2008) tem roteiro e direção de Ary Folman. Um semi-documentário de animação que tem como pano de fundo a guerra no Líbano. Bashir é uma referência a Bashir Gemayel, líder miliciano cristão de extrema-direita, opositor de muçulmanos nacionalistas e militantes palestinos, eleito presidente do Líbano e assassinado dois dias antes de tomar posse durante a guerra civil do Líbano, fato que provocou uma violenta cruzada entre os grupos rivais.
Ao ouvir um sonho recorrente do amigo Boaz, parceiro no front, o cineasta Folman percebe que ele mesmo não tem lembranças daquela guerra e decide procurar antigos camaradas e a partir de suas histórias, refazer a sua própria. Misturando recordações e explicações médicas sobre memórias e traumas, Folman vai remontando seu quebra-cabeças, não sem dúvidas, que parecem aumentar a cada nova entrevista, até achar-se no meio de um caos do qual ele tentou fugir seja por culpa, medo, ou simplesmente por não compreender uma guerra que, em essência, não tem explicação.
A narrativa é limpa, linear, objetiva; as histórias se sucedem com crescente intimidade entre quem conta e quem escuta – o que nos inclui. A animação, longe do virtuosismo da Pixar onde grãos de areia e pêlos dançam individualmente ao sabor do vento não é menos impactante. Yoni Goodman utilizou técnicas de animação em Flash, clássicas e 3D para amenizar imagens que, de outra forma, seriam duras demais pra suportar. Como as imagens jornalísticas apresentadas no final do filme e que bem gostaríamos também de apagar e esquecer. Destaque para a sequência inicial, o tal sonho de Boaz, com vinte e seis cães ferozes, e outra, noturna, de uma cidade destruída iluminada por foguetes sinalizadores. De um vigor e uma beleza impressionantes. A trilha sonora de Max Richter é um dos pontos altos de Valsa com Bashir e ouvir “This is Not a Lova Song” dos ingleses do Public Image Ltd. me trouxe umas tantas lembranças e me colocou de alguma maneira dentro daquela busca, por meus particulares anseios.
É muito bom isso de ir atrás de si. Apesar do medo que dá!

HUDSON ANDRADE
12 de junho de 2009 AD
9h00

segunda-feira, maio 18, 2009

BROCARDOS (11)

No último dia 07 o veículo Passat dirigido pelo deputado paranaense Fernando Ribas Carli Filho, 26 anos, voou sobre o Honda Fit em que viajavam Gilmar Rafael Souza Yared e Carlos Murilo de Almeida. Isso não é uma figura de linguagem. Dada a altíssima velocidade em que trafegava o Sr. Deputado, o carro que avançou um sinal de trânsito sem os devidos cuidados literalmente voou sobre o outro e isso atestam a completa destruição da lataria do Fit em oposição a integridade de seus pneus. Os jovens Gilmar e Murilo não resistiram aos ferimentos. Carli Filho agora está internado em São Paulo e apesar de não apresentar risco de morte, ainda inspira cuidados.

O acidente foi na cidade de Curitiba, onde reside e trabalha o deputado, mas após ter o quadro clínico estabilizado, ele foi transferido para um hospital paulista.
Apesar do relatório de paramédicos e testemunho de funcionários do restaurante onde o Sr. Carli Filho jantou antes do acidente evidenciarem o consumo excessivo de bebida alcoólica, somente após vários dias do ocorrido a justiça determinou o exame de dosagem alcoólica.
Em entrevista ao Fantástico ontem, a mãe do deputado disse, consternada, que se ficar provada a culpa de seu filho, ele responderá totalmente por seus atos.
Seus colegas na câmara afirmam que essa situação é intolerável e que eles tudo farão para que o deputado assuma todas as suas responsabilidades, que por ora só podem ser julgadas por desembargadores locais, dado o foro especial a que o Sr. Carli Filho tem direito.
Agora que duas famílias foram destroçadas e toda uma comunidade se mobiliza contra essa situação vergonhosa, pergunto eu: por que dirigia um automóvel o excelentíssimo Sr. Deputado se sua carteira de habilitação estava irregular e trinta multas de trânsito (igual a 130 pontos na referida certeira) – cinco delas na mesma Av. Monsenhor Ivo Zanlorenzi, onde aconteceu o sinistro – o impediam legalmente de trafegar em via pública? É isso? A lei existe para tolher os desmandos da sociedade, mas a segue quem o quer? A letra por si só encerra todo um código de moral e não há instrumentos que a tornem prática além de multas e possíveis detenções? Qual é o limite que deve chegar a ilegalidade de um cidadão para que ele seja chamado às favas, ou isso depende de que cidadão estamos falando? A justiça conta com instrumentos para localizar e punir os transgressores, mas os inúmeros delitos e os poucos agentes proporcionam que entremos num jogo de azar e sorte para numa incerta os supostos criminosos sejam encontrados? E em encontrando os tais, apesar de todas as evidências, é preciso observar se há ou não culpabilidade, intenção, privilégios? Será possível que o departamento de trânsito não possua um sistema que quantificando essas multas emitisse um documento impeditivo ao Sr. Fernando que o permitisse de forma acintosa e arrogante desprezá-lo, talvez escudado pela sua condição social, econômica e política? Tenho eu e os outros mortais o mesmo direito?
O que matou Gilmar Yared e Carlos Murtilo foi a total ausência de caráter do Sr. Deputado Fernando Ribas Carli Filho, amparada pela falta de educação e valores que agora se diz satisfatória (e vá lá que seja, que quantos recebem pérolas e as deitam aos porcos?!!!), uma certeza de impunidade que se enraizou no brasileiro do mais humilde ao investido em quaisquer públicos poderes; daqueles que, às gargalhadas, jogaram para baixo do tapete persa as multas, propinas, desmandos e bravatas dos seus correligionários; de qualquer governo, em qualquer esfera, e toda instituição que se contenta em escrever leis e não instrumentalizá-las; da conivência de todo aquele que por medo, ou conveniência não atestou, publicou e confirmou tudo o que levaria o caso a bom termo.
Essa piada de mau gosto todo mundo conhece: quando sair do hospital, debilitado e abatido, o deputado precisará de repouso, suporte psicológico, amparo fraterno. O processo, se instaurado, vai levar anos e anos para ser avaliado, julgado e cumprido. E ainda se pode concluir da inocência do réu, ou falta de elementos que o tornem culpado. E assim, daqui há alguns anos, pelas ruas e estradas, ao som do mar e à luz de um céu profundo, o Sr. Carli Filho respirará fundo e rirá de sua boa estrela, um novo mandato e tudo quanto se deve ao digno cidadão brasileiro.

HUDSON ANDRADE
18 de maio de 2009 AD
11h05

sexta-feira, maio 15, 2009

PALMO EM CIMA



Cartas de amor
Também ficam Sem Cor
quando Sem Perfume fica a vida
perde-se o tom, a luz
como um jardim Sem Margarida.

(Rita Melém)

Caio Fernando Abreu, nosso Caio F., é um escritor potencialmente complexo. Difícil? Talvez. Verdadeiro? Totalmente.há na sua escrita uma empatia tal que nos torna cúmplices de seus personagens e idéias. São pessoas que amam, matam, choram, gozam, enfim, vivem, garantindo então essa identificação ao som de Adriana Calcanhoto.
Por isso, para falar de tudo quando Sem Cor, Sem Perfume, Sem Margarida, o mais recente trabalho da Companhia Nós do Teatro quer falar, há e se ter verdade. E se ela existe em Antípodas e Uma História Confusa (os contos de Caio F.) e nos de Neto, como nos versos de Neto, Larissa e Rita Melém, vaga em cena. Falta ao trio de atores uma propriedade cênica que vai além de um bom texto e de um corpo disposto. Benone nos deixa muito à vontade para ver o espetáculo e igualmente deixou seus atores em zonas muito confortáveis. É preciso cuidar de tons muito agudos e fortes ao falar, ou muito baixos – mas não introspectivos –, de dizer do desejo sem o toque óbvio. Há que se dar ao espetáculo todo a mesma graça precisa de quando ao som de Vuelvo aos Sur – o ponto alto do trabalho! – as histórias dos personagens parecem que vão se encaminhar. É preciso assumir o triângulo amoroso e a paixão a que se propuseram.
Sem Cor, Sem Perfume, Sem Margarida tem uma encenação espartana e signos para os quais eu ainda busco sentido, mas o que mais grita para mim mesmo é a falta de precisão dos atores. Precisão que nasce da técnica e que obrigatoriamente precisa extrapolá-la para não ser um arremedo de realidade.
De algum paraíso, junto aos seus dragões, Rodrigues Neto (VER Brocardos (1), um dos fundadores da Nós do Teatro e grande homenageado com este espetáculo, deve estar meditando sobre isso e certamente vai lhes encher a cabeça de borboletas. Muitas. Negras;
Tomara!

FICHA TÉCNICA: Sem Cor, Sem Perfume, Sem Margarida. Texto a partir de poemas de Rodriguez Neto e Larissa Latif e de contos de Caio Fernando Abreu e Rodriguez Neto. Com: Jéssica Mirley, Markson de Moraes e Will Júnior. Iluminação: Sônia Lopes, Sonoplastia:Hélio Saraiva, Arte: Jéssica Mirley, Cenografia, figurino e direção: Beto Benone.Teatro Waldemar Henrique, 08, 09 e 10 de maio de 2009, 20h00.

HUDSON ANDRADE
11 de maio de 2009 AD
17h00

quinta-feira, maio 07, 2009

PORÇÃO DE REFERÊNCIA


Pegue um punhado de jovens intérpretes ansiosos por criar, acrescente uma boa dose de ousadia (cuidado para não desandar), temperos exóticos, muita carne, suor, mexa tudo vigorosa e constantemente para não empelotar e deixe cozinhar em banho-maria.
O resultado é Repertório Paralelo, que a Companhia Moderno de Dança apresentou nos dias 28, 29 e 30 de abril, no Teatro Waldemar Henrique. Repertório Paralelo é o resultado da experimentação dos integrantes da companhia – apresentados não apenas como bailarinos, mas intérpretes-criadores –, suas teses e estudos e, sobretudo, do trabalho contínuo de amadurecimento técnico e estético coordenados por Gláucio Sapucahy e a coreógrafa Ana Flávia Mendes. Em cena, sentimentos, ações cotidianas, a literatura furiosa de Nelson Rodrigues, as brincadeiras de criança, fotografias, o corpo e a própria dança ressignificados em coreografias solo, duos e trios, culminando com a improvisação final que reuniu toda a companhia em Luz em Cena, trabalho de Tarik Alves que investiga a luz cênica.
Repertório Paralelo não é um espetáculo no sentido estrito da palavra, mas como já se disse, uma experimentação. No entanto, modernamente, esse exercício acaba por se tornar um espetáculo à parte, como bem explicou o professor João de Jesus Paes Loureiro em conversa no final das últimas apresentações. O público então pode observar tanto o percurso criativo quanto o amadurecimento do processo até seu resultado, numa iniciativa que cria vínculos e um público interessado e cativo. Utilizar o Waldemar Henrique é uma grande sacada, porque a casa permite o uso de vários espaços e do mesmo espaço de várias formas.
Em Repertório Paralelo, assim como em Depois de Revelado Nada Mais Muda (ver RABISCOS DE LUZ), existem fortes elementos de outras áreas além da dança: vídeo, teatro, performance; vários setores se alinham na chamada dança contemporânea.Não que ela esteja buscando seu lugar, ou uma afirmação, mas porque ela é isso mesmo,numa tendência cada vez mais crescente de instigar os sentidos, desconstruir e ressignificar (estes próprios, termos altamente batidos atualmente) a dança e a arte em si.
Em três dias de apresentações os intérpretes-criadores da Companhia Moderno de Dança se revezaram em onze coreografias e dois trabalhos em vídeodança, uma modalidade dessa contemporaneidade que utiliza o vídeo e não artistas em cena. Em Repertório Paralelo os dois citados números de vídeodança são absolutamente experimentais e não deveriam ser apresentados ainda. Ok! Se eu não tenho referências suficientes para falar de dança, quanto mais de algo ainda mais recente? No entanto, a impressão que fica ao leigo que assiste não é de algo experimental e/ou em amadurecimento, mas de um trabalho primário e talvez mal feito. É claro que ele deve ser produzido, visto, discutido, refeito e aprimorado, mas isso deve ficar no âmbito da própria companhia até que haja madureza o bastante para trazê-lo à público. Dissecações e Bo(b)as Maneiras, os ditos trabalhos pecam exatamente por essa primariedade e destoam. As demais coreografias mostram diferentes graus de técnica, de bons a ótimos, extremamente criativos e possibilitando interação com a platéia que não se faz de rogada. Destaque para Labirintite, Pequeno Mundo Dilatado, Gesto Sanitário e Panocorpo Circulado. A mim incomoda que numa mesma coreografia não haja uma linearidade musical, ainda que as músicas utilizadas possuam algum encadeamento. Dão idéia de algo fragmentado, prejudicial num trabalho tão curto. Atenção para o figurino: antes de ser bonito ele precisa ser funcional e significante e por mais cotidiano que se queira parecer, a roupa do armário não é a roupa da cena.
Mexa tudo isso forte e constantemente para não empelotar, cozinhe em banho-maria, fogo brando, e quando começar a ferver, dê aquele toque especial que tudo perfuma e nos faz estalar a língua.
Rende três generosas porções. Ou mais.
Sirva quente!

FICHA TÉCNICA: Repertório Paralelo. Direção geral: Gláucio Sapucahy e Ana Flávia Mendes. Iluminação e Produção Técnica: Tarik Alves. Teatro Experimental Waldemar Henrique, 28, 29 e 30 de abril de 2009, 20h00.
Coreografias:
CLAVICÓRDIO – Christian Perrotta e Daiane Gasparetto
DISSECAÇÕES (vídeodança) – Ana Flávia Mendes
BO(B)AS MANEIRAS (vídeodança) – Feliciano Marques, Clediciano Cardoso e Márcio Moreira
SOASSIM – Bruna Cruz e Christian Perrotta
TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA – Márcio Moreira, Nelly Brito e Ercy Souza
LABIRINTITE – Daiane Gasparetto
CACO – Bruna Cruz, Christian Perrotta e Ana Paula
REVIRA(E)VOLTA – Andreza Barroso e Wanderlon Cruz
PEQUENO MUNDO DILATADO – Luiza Monteiro e Luiz Thomaz
GESTO SANITÁRIO – Christian Perrotta
PANOCORPO CIRCULADO – Ercy Souza e Luiz Thomaz
COISAS – Nelly Brito e Luiza Monteiro
LUZ EM CENA – Tarik Alves e Companhia Moderno de Dança

HUDSON ANDRADE
06 de maio de 2009 AD
17h25

ANTES DO TEMPO


Severa Romana foi escrita em 1968 pelo também escritor e jornalista Nazareno Tourinho e encenada pelaprimeira vez em 1969. Quarenta anos depois a história da moça grávida assassinada quando defendia sua honra volta à cena pela Companhia de Artes Cênicas Fato em Ato. O caso, real, aconteceu em Belém do Pará em 1900. Severa Romana, então com 19 anos, casada com Pedro, militar, era constantemente assediada pelo Cabo Ferreira, transferido do Ceará para nossa capital e que, tendo suas investidas recusadas, mata Severa. O crime comoveu a população e a jovem é até hoje venerada como uma de nossas santas populares. “Os seios de uma mulher são jóia rara”, diz a personagem Joana apresentando bem o ideal de honestidade da sociedade de então e dando testemunho, como em outros momentos, da retidão de caráter de Severa. Talvez essa postura ferrenha e altiva da jovem – mais do que a própria honra – seja o que motiva tantas pessoas a ir à quadra 28 do Cemitério de Santa Izabel pedir-lhe graças.
Antes desses tempos de Lei Maria da Penha – demonstração tardia, mas importantíssima de que a sociedade rejeita agressão tão covarde – o texto de Tourinho já apresentava esse problema hoje tão banal. Não sei se o dramaturgo queria discutir violência contra a mulher, ou apresentar um fato histórico, mas a postura da Fato em Ato de trazer o assunto à baila é de suma importância. Na peça cita-se também o caso de Maria Bárbara, em tudo semelhante ao de Severa, e que o poeta Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha, em suas Obras Literárias (1850), descreve em belíssimo soneto*:

Se acaso aqui topares, caminhante,
Meu frio corpo já cadáver feito,
Leva piedoso com sentido aspeito
Esta nova ao esposo aflicto, errante.

Diz-lhe como de ferro penetrante
Me viste por fiel cravado o peito
Lacerado, insepulto, e já sujeito
O tronco fêo ao corvo altivolante:

Que d'um monstro inhumano, lhe declara,
A mão cruel me trata desta sorte;
Porém que alívio busque à dor amara,

Lembrando-se que teve uma consorte
Que, por honra da fé que lhe jurara,
A mancha conjugal prefere a morte.


O espetáculo Severa Romana parece prematuro. Apesar do tempo de trabalho (mais de um ano) algo nele ainda não está pronto para o palco. É fato que sua encenação e relevância podem lhe garantir – e deve – vida longa e próspera e que o tempo há de se encarregar de deitar azeite em suas juntas, mas por ora lhe falta vigor. Os personagens são estereotipados – no texto e na representação – e apesar de cerca de hora e meia de espetáculo nãos e tem uma curva ascendente que garanta um clímax na platéia. O final da história todo mundo sabe e isso é um grande trunfo. Tornar a platéia cúmplice do vilão, sofrer pela mocinha, agonizar-se, pensar em fazer isso e aquilo. Mas Severa Romana não nos permite isso e alguém à saída do teatro comentava com sua acompanhante que o final deixava a desejar. Deixa! Pior e que pode dar o tom de apenas mais um caso que toda a equipe quer exatamente afirmar-se contra. Os personagens Pedro e Vizinha são dessas caricaturas tão fortes que se tornam risíveis e não se tem por eles qualquer empatia; o cabo Ferreira é a encarnação do Demo. Cínico, debochado, rufião,não dá margem a que se sinta nada por ele além de repulsa e o texto não lhe confere nuances tornando-o tão arrogante que só reforça um Pedro fraco, ridículo e egoísta em sua covardia. Severa deve ser mais do que uma heroína de folhetim. É preciso que sintamos que suas atitudes não são só fruto de criação, ou dos costumes da época – e sua postura sempre assustadiça diz isso –, mas a expressão de seu real caráter. Palmas para Joana, desses personagens tão presentes em Shakespeare e Moliere que dizem e fazem de tudo, tudo vêem, tudo questionam e suas palavras acabam sendo a demonstração da verdade. Palmas sobretudo para a atriz Luíza de Abreu que faz uma Joana absolutamente tranqüila em cena, falando com desenvoltura e gesticulado na medida certa. É maravilhoso e infelizmente cada vez mais raro ver atores e atrizes maduros no palco, dando o fôlego de sua experiência para nós, meros iniciantes.
O figurino de Mestre Nato é belíssimo, mas romântico demais e parece – e efetivamente está – muito novo, limpo e cheirando à alfazema em cena; a cenografia de David Matos, que também assina a direção, é moderna, objetiva e clara; a luz de Sônia Lopes, sempre precisa, ainda que eu ache que aconteçam Black-outs demais.
Colhido antes do tempo, Severa Romana agora vai amadurecer a pulso e não ficará tão doce, ainda que nos alimente. E que sejam muitos e muitos banquetes.

FICHA TÉCNICA: Severa Romana. Texto: Nazareno Tourinho. Com: Mônica Alves (Severa Romana), Luíza de Abreu (Joana), Eliana Hazeu (vizinha), Marcelo Pinto (Cabo Ferreira) e Márcio Mourão (Pedro). Partitura corporal: Rutiel Felipe, Figurino: Mestre Nato, Iluminação: Sônia Lopes, Sonoplastia: Armando Hesketh, Fotografia: Simone Machado, Assistente de produção: Aline Chaves, Produção: José Clemente, Assistente de direção: Suely Brito, Cenografia e direção: David Matos.Teatro Margarida Schivazappa, 02 e 03 de maio de 2009, 20h00.

HUDSON ANDRADE
04 de maio de 2009 AD
11h15

(*) Disponível em http://blogflanar.blogspot.com/2007/10/o-brasil-tem-uma-nova-beata.html

segunda-feira, abril 27, 2009

RABISCOS DE LUZ


Em cartaz no Espaço Cuíra Depois de Revelado Nada Mais Muda, com o bailarino Danilo Bracchi e as atrizes... (?)
Em cartaz no Espaço Cuíra Depois de Revelado Nada Mais Muda, com as atrizes France Moura e Marluce Oliveira e o bailarino ... (!)
Parece confuso? Só à primeira vista. Depois de Revelado Nada Mais Muda é, nas palavras do seu criador e intérprete, Danilo Bracchi, um espetáculo de dança contemporânea. E por que tantos elementos teatrais? Porque a dança contemporânea é isso, assim como as suas referências, enfatiza Bracchi. 10.000 coreógrafos existam e 10.000 danças contemporâneas existiriam, bebendo do balé clássico, dança moderna, jazz, performances, artes circenses e, claro, teatro. Este, segundo Danilo,ainda muito resistente à intromissão das sapatilhas. (E acreditem, eu sei bem o que é isso!)
E que mal há nessa interdisciplinaridade? Nenhum. Não à primeira vista! Troca-se o físico ideal pela disponibilidade corporal; o gesto tecnicamente preciso pela (re) significação do movimento que substitui a palavra e a palavra complemente mãos, braços, peito; a música já não rege 1, 2, 3, 4, vai!, mas entra no espetáculo como água, ora útil, por vezes caudalosa e puxa o corpo que reage e puxa a música que pulsa e tudo move tudo.
O perigo dessa Esfinge é ela devorar mesmo aquele que a decifra. Se a costura não é bem feita tudo fica frouxo e não há propriedade em nada.
Depois de Revelado Nada Mais Muda é o primeiro trabalho da Companhia de Investigação Cênica, resultado da Bolsa de Pesquisa do Instituto de Artes do Pará (IAP) e tem como mote a fotografia. Apresenta um grupo em franco processo de amadurecimento, um cuidado com a preparação de seus intérpretes, com a estrutura cênica do espetáculo. A música de Leonardo Venturieri é autoral e fragmentada como a própria encenação de Bracchi e a mim incomoda que ela pareça querer/poder ser mais sem nunca explodir, contentando-se em ser o que é. A iluminação de Tarik Alves é pontual. Quase um flash. Limpa e precisa. Por vezes cria penumbras que, propositais, ou não, escondem detalhes talvez importantes. Noutros momentos, mergulha a platéia nos rubro-negros das salas de revelação. A luz é, afinal, um quarto personagem dessa trama, representando objetos e personagens, sendo, afinal, luz.
Em cena, Danilo Bracchi, France Moura e Marluce Oliveira não se preocupam em contar uma história, mas sim falar desse processo de aprisionar o tempo em retângulos de papel brilhante, mesclando dança e teatro. É aí que necessitamos mais precisão para que os textos, curtos, algo técnicos, sejam tão cheios de cor e vitalidade quanto os gestos.
Do afinco e talento de seus membros a Companhia de Investigação Cênica vai se firmar e juntar a outros grupos com o Valdete Brito e a Companhia Moderno de Dança, criando novos espaços artísticos, reinventando a dança, reformulando o teatro, sendo antes de tudo, a expressão completa do artista paraense.
Arte é isso: pluralidade.
Arte é isso: única!

SERVIÇO: Depois de Revelado Nada Mais Muda. Espaço Cuíra. Dias 01, 02 e 03 de maio de 2009, sempre às 20h00. Ingressos na bilheteria. R$ 20,00. Apoio: Espaço Cuíra (a Companhia de Investigação Cênica é residente neste espaço) e Corpo Pilates. Contatos: Felipe Cortez. 8212 9182.

HUDSON ANDRADE
27 de abril de 2009 AD
10h20

sábado, abril 11, 2009

BROCARDOS (10)



É como dizem os antigos: A gente cobre um santo e descobre outro. Para amenizar a crise que vai comendo tudo o que encontra e que no Brasil ainda está bem disfarçada (?!) o governo reduziu o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) dos setores automotivo e de construção. Com isso, deixa de arrecadar, segundo o ministro da fazenda, Guido Mantega, 1,5 bilhão de reais. Santo descoberto, quem paga a conta do prejuízo? A decisão do governo federal foi de aumentar a carga tributária (IPI, PIS, COFINS) sobre os cigarros a partir de primeiro de maio, com encarecimento do produto em torno de 20 a 25%. Para Mantega a decisão é duplamente positiva. Recupera-se o dinheiro perdido e desestimula-se o consumo de cigarros. “É melhor que o fumante sinta no bolso do que nos pulmões”, afirmou o ministro.
Nem vou tentar entender o que significa aumentar daqui e reduzir de lá para compensar de cá o que ali está faltando. Deixo isso pros matemáticos, contadores e políticos cujas contas nunca me parecem racionais. Sobretudo estes últimos.
Mas vejamos na prática. O preço dos cigarros aumenta, mas e daí? Dia desses numa entrevista que me fizeram eu disse que os cigarros não são assim tão venenosos quanto dizem, afinal, completei, os fumantes demoram tanto a morrer! Cruel?! Pode ser! Não mais do que as guimbas, fumaças, beijos amargos e venenos que eles espalham pelo ar. Também não vou entrar nessa seara. Seria chover no molhado. A questão que quero discutir é esse aumento de preço versus desestimulação de consumo. Fumantes são viciados. Dependentes. Eles buscarão o cigarro independente do preço que ele custe, porque fisiologicamente o corpo exigirá isso. Se os preços aumentarem demais, alternativas baratas e certamente mais perigosas aparecerão. Vide o consumo desenfreado de crack. “Quem não pode Nova York vai de Madureira”, canta o Zeca Baleiro. Já existem marcas de cigarro extremamente baratas e é de se questionar sua produção, a qualidade da sua matéria-prima, aditivos e tudo o mais. Esse cenário se repete em outros setores. Todos os de consumo, arriscaria dizer. De medicamentos genéricos, repudiados por alguns, mas a diferença (por vezes de vida e morte) para milhares de assalariados. Eu uso e confio! Passamos por cosméticos, bebidas. Tudo! O mercado precisa atender todas as camadas. A ganância idem! Quando os cigarros estiverem com seu preço elevadíssimo e suas alternativas genéricas começarem a minar pulmões e bolsos de centenas e centenas de brasileiros, o governo federal – e aí não será mais o Sr. Mantega, que estará gozando alguma aposentadoria perpétua em algum lugar gostoso! – terá outro grave problema de saúde pública para resolver.
Que santo então ficará sem sua manta?

HUDSON ANDRADE
11 de abril de 2009 AD
9h50

quarta-feira, abril 01, 2009

BROCARDOS (09)


Agora por apenas 62 reais um dos maiores problemas do homem será resolvido: o tamanho do pau.
É o que garante a empresa norte americana Mr. Busyballs. Alegando que a genitália masculina fica “pouco atrativa” quando exposta ao mar, ou a piscina, ela desenvolveu uma sunga que garante o volume do membro. É a Rooster Booster (algo como “elevador de galo”. Muito forte!!!). O cliente ajusta o tamanho desejado e aí é só se jogar. Ao sair da água, garante os produtores, nenhum ajuste é necessário.
Agora não perde a cena: a menina, ou menino, vê aquela entidade saindo da água. Nossa!!! Chega junto, tudo acertado, sunga no chão... Que decepção! Ou não!
A proposta é iludir o dono do dito. Ele é que se sente incomodado com medidas. Como diria Kid Abelha, “são sempre os mesmos sonhos de quantidade e tamanho...”*
Não vou me ater ao texto tradicional de que o que importa é a performance. Isso é sabido, mas ninguém abre mão de fartura, o que, convenhamos, é muito bom. Comento essa matéria lida ontem num jornal-de-grande-circulação-de-Belém para dizer que somos criaturas insatisfeitas. O tamanho do pau, do peito, da bunda são sempre de menos. As medidas da cintura sempre demais. Quem tem cabelo liso, enrola; quem os tem crespos, alisa; se compridos, cortam. Os curtos ganham apliques; os olhos, lentes. Os pés, saltos. Para os ânimos, aditivos. Contra a timidez, álcool e anfetaminas. Pra não se comprometer, ficar, principalmente na internet, com apelidos exóticos e medidas desmesuradas. Sempre elas!
Só o que não parece ter limite é nossa vaidade e falta de amor-próprio. Para além das necessidades biológicas de uma progênie saudável, nós nos atemos mais ao exterior que degenera do que ao ser que só pode progredir. Não que beleza não seja importante. Claro que é. Assim como saúde e bem estar. A questão é quando de tempo e energia (e dinheiro) despendemos nisso e de que forma. Além do mais, colocamos nossa tranqüilidade nos gostos alheios e nos elevados (e questionáveis) padrões da sociedade e por não atendermos suas expectativas, sofremos.
Que tal lustrarmos as carecas (a minha já consome uns 100 ml de óleo de peroba!), malhar respeitando nosso biótipo, usar sapatos confortáveis? Gozar, mas também dar prazer ao parceiro (a)?
Se tu achas que só pode ser feliz parecendo isso, ou aquilo, vá em frente. Mas o que tu és de verdade, o espelho não mostra.

HUDSON ANDRADE
01 de abril de 2009 AD
16h25

(*) Garotos, de Leoni e Paula Toller.

segunda-feira, março 23, 2009

BROCARDOS (08)

Sábado passado, início da madrugada. Enquanto eu esperava o ingresso numa boate da cidade saiu um senhor de meia idade, longilíneo, voz e gestos tranqüilos, que ao ser questionado pelo segurança sobre seu ticket de saída, respondeu que não havia um, que estava indo embora e que tinha sido destratado pelo estabelecimento. Afirmou ser policial federal e não se submeteria a entregar sua arma para entrar na dita casa. Que seu porte tinha sido conseguido com muito investimento, esforço e treinamento e que não entregaria a qualquer um. O local, afirmou ainda, estava cheio de malandros (?!) e que num incidente precisaria estar armado e se tivesse entregado a arma, que aconteceria? E terminou com uma frase que tenho ouvido bastante de nativos e alienígenas*: “Mas isso é Belém. Temos que dar o desconto porque aqui é Belém!”
Então! Qualquer um que entenda de legislações pode me explicar o que um policial de qualquer esfera faz armado em seus momentos de folga? Se ao sair de casa para o lazer ele continua investido de sua condição oficial e precisará defender os interesses e integridade dos cidadãos ordinários? A mim parece que este senhor já sai prevendo um contratempo, ou utiliza sua condição para garantir vantagens nos lugares a que vai. E não seria o primeiro, o último nem o único!
Segundo. Em caso de um incidente, qual o limite para o uso de recursos extremos? Os seguranças das casas estão orientados (treinados é um sonho distante!) para resolver qualquer perrengue e não portam armas (graças a Deus!) e desarmar os freqüentadores os coloca em pé de igualdade. Logo, qual a necessidade deste senhor de manter-se armado? E se houvesse a necessidade de usar a arma, seu treinamento (sempre tão questionado no país) seria o suficiente para acertar o alvo? E o alvo precisaria ser acertado? E em errando, enquanto seus superiores se desdobrassem em sindicâncias, inquéritos, relatórios, documentos, a vítima (qualquer que seja ela) estaria em algum hospital, ou sob tratamento, às suas próprias custas; ou enterrada, a custos ainda maiores! E ainda se o revólver lhe fosse subtraído, que uso faria dele quem o tomou? Somos / estamos todos reféns da insegurança alastrada por Belém, pelo Estado, pelo Brasil e mundo todo, mas desejamos mesmo assim uma vida habitual, diversão no final no de semana com a família, os amigos. Ninguém quer abrir mão de seus hábitos, mas há que ter limites. O raciocínio deste senhor está, no mínimo, equivocado. Dele e de tantos quantos portam armas, criando para si falsas sensações de segurança. Pareço simplista falando desse jeito, mas não defendo o porte de armas pelo cidadão comum. Falo por mim mesmo. Num momento em que eu visse uma situação de abuso, de violência, quando o sangue me fervesse na cabeça, minhas reações seriam sempre imprevisíveis e armado, eu não seria nada que prestasse! Não vou falar aqui do caos na segurança e na obrigatoriedade estatal de cuidar dessa questão. Não é o meu foco e todos sabemos disso. Questiono a arrogância melíflua dessa presumida autoridade e com isso parto para a última das questões.
Como é que é nossa cidade que justifique esse negócio de “Isso é Belém mesmo!”? Seus detratores estão colaborando efetivamente para mudar esse estado de coisas? Executam diligentemente seus deveres? Respeitam os direitos alheios, seus momentos de repouso, os limites de intensidade sonora, as leis de trânsito, as regras de boa conduta? Os coletivos, espaços públicos, instituições de ensino e religiosas? Ensinam seus filhos o bom convívio, o entendimento das diferenças de dogmas, credos, orientação política, sexuais e pessoais? Exercitam o amor à tolerância, fraternidade, às artes e às letras? Bem educados, quaisquer cidadãos possui valores e parâmetros para julgar o que é certo e podem caminhar livremente sem violar os espaços distintos dos seus, sem essa concepção afetada e pseudo-socialista-moralista de que a sociedade “impõe peias ao livre-arbítrio do povo!”. As leis nos indicam limites e regra nenhuma foi dura o suficiente em lugar nenhum do mundo que impedisse que alguém as violasse. Certamente quem as violou não tinha noção para julgar o que lhe/nos convinha, ou não!
Desarmados de bom senso, armamo-nos de violência e artefatos. E Deus proteja quem cruzar nosso caminho!
(*) Em oposição a indígenas, os naturais de algum lugar.

HUDSON ANDRADE
23 de março de 2009 AD
9h04

sábado, janeiro 10, 2009

dançAmemóRiaTEatro (Parte II)

O indutor de Ronald Bergman é sua origem. O de Miguel Santa Brígida é sua paixão. A dança do Mestre-sala e da Porta-bandeira é uma instalação coreográfica. Artes plásticas no figurino de Eduardo Wagner que vai desnudando os atores no persurso inverso até a origem dessa peculiar dança consagrada pelo carnaval, aqui mesmo em Belém, com a mesma paixão, garra e elegância que caracterizam o institucionalizado carnaval carioca. Plástica ainda nas bandeiras e cetros e demais adereços cheios de símbolos. Teatro na poesia dos textos de Flávio Negrão e Carol Pabiq e no retorno à cena de Miguel Santa Brígida que interfere, branco e prata, com cheiros, serpentinas e cores. É música nos sambas de enredo e é claro, dança.
O trio em cena é coeso, mas falta maior precisão nas trocas de roupa e algumas marcas que ainda estão marcas. Falta precisão nas falas. Sobra a alegria momesca, o gingado, a irreverência que nos enche de vontade de também estar em cena.

Por fim, mas não menos importante, Iracema Voa, que Ester Sá construiu a partir de citações, histórias e músicas de e sobre Iracema Oliveira: cantora, atriz de rádio, cinema e televisão e que agora dirige o Pássaro Tucano e as pastorinhas Filhas de Sião; memória viva da arte em Belém. Foi emocionante compartilhar a platéia com essa mulher lúcida e festiva e com Ester, que conta histórias, canta e dá vida (ou seria toma a vida?) a artista para recriá-la e recriar-se, fazendo do teatro o veículo. O espetáculo começa com uma exposição fotográfica, passa pela contação de histórias, tem música ao vivo e gravada, interage com o público e envolve a todos e é impossível à própria atriz e a nós não se emocionar às lágrimas. Ester tem um talento especial para fazer vozes e personagens, para nos fazer rir e contou com o apoio de uma grande equipe onde destacamos a luz de Sônia Lopes, as vozes de Paulo Marat, Pauliane Banhos e o grande cenário-figurino-relicário de Mestre Nato, artista das antigas e ainda em plena e talentosa atividade.
Penso que enquanto recorte poderíamos ter menos informações - ou conduzí-las em imagens, canções, etc -, o que reduziria um pouco o tempo do espetáculo e lhe daria mais dinamismo. Entendo a vontade de contar tudo, de falar muito e a própria Ester me dizia da preocupação em interpretar alguém ainda vivo e que a observaria. Como ser ela? A atriz não cedeu à tentação de ser Iracema; ela é a Iracema pelo filtro de outra mulher com toda uma bagagem própria de experiências. E assim ganhamos todos. Flores. Que a Arte semeie nas nossas vidas e que nos é devido regar, multiplicar e distribuir.

HUDSON ANDRADE
17 de dezembro de 2008 AD
16h30

Vaqueiro (a), substantivo: (01) Aquele que vai no vácuo dos outros para ingressar sem custo em festas, teatros, cinemas, jantares, caronas, etc...; (02) cara de pau... Vixe! A lista é extensa!

dançAmemóRiaTEatro

Em dezembro de 2008 o Instituto de Artes do Pará (IAP) promoveu o Circuito das Artes, apresentando o resultado de suas bolsas de pesquisa envolvendo artes cênicas (dança e teatro), musicais, plásticas, audiovisuais, literárias e de expressão da identidade. Um incentivo à produção artística local e que leva ao público totalmente de graça (para alegria dos vaqueiros* de plantão!) espetáculos nos mais diversos ambientes do IAP.
Do bafafá generalizado que ouvi dos muitos trabalhos, pude assistir quatro, resultados de amigos queridos e, acima de tudo, profissioais das artes cênicas: o ator e bailarino Ronald Bergman, o diretor e novamente ator Miguel Santa Brígida e a atriz, cantora, diretora e dramaturga Ester Sá. Três trabalhos absolutamente distintos, inscritos oficialmente em bolsas de dança (os dois primeiros) e teatro, cujos resultados são a mostra de uma arte plural e ousada que rompe os tênues e vaidosos limites entre as diferentes formas de expressão.
Assisti ainda Muragens - Crônicas de um muro, animação em 2D sobre o cotidiano do entorno do Cemitério da Soledade, de Andrei Miralha. Sobre o cimento e o limo do cemitério, feirantes, amantes, ladrões, moradores de rua, crianças, desfilam seu dia-a-dia, seus imprevistos, o trabalho exaustivo e diário que não prescinde da sesta quando o calor aumenta e por poucos instantes a alma voa livre. Trabalho de excelente qualidade, poeticamente construído e maravilhosamente musicado. Tomara vare mundo!!
Teatro é um ou mais atores em cena, dando falas e executando marcas? Dança são bailarinos, ou dançarinos em coreografias que expressam sem palavras o que se quer dizer? E contar histórias de vidas alheias? Em que categoria encaixar os rodopios do Mestre-sala e sua Porta-bandeira? e se eles falarem, isso é teatro?
Dinamismo e inconformismo devem ser palavras sempre presentes no artista e todos os grandes (não necessariamente bons nem sempre belos!) gênios foram os que subverteram a ordem das coisas e provocaram olhares diferentes sobre o óbvio.

As próprias origens e a sabedoria e cultura popular inspiraram Negra Memória, experimentação cênica em dança de Ronald Bergman. A sala de dança do IAP se transformou num labirinto escuro onde na procura de um preto retinto e tinhoso, Bergman encontra a religião afro, seus sincretismo, o açoite, a cachaça, a dança, o banzo de seus antepassados e o colo materno, porto seguro.
Acompanhado de registros sonoros gravados e música ao vivo o ator-bailarino avança no claro-escuro que é tanto a cena quando seu resultado inscrito em dança mas que se utiliza da poética da fala - ponto que precisa ser amadurecido.
Negra Memória é uma celebração do Si, convidando todos a descansar a cabeça no colo da mãe África-útero-Arte.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

A MÃO E A LUVA (parte II)

Belém, um dia, um mês, 2008 é uma construção coletiva por excelência. Dividiram a direção Olinda Charone, Cesário Augusto e Miguel Santa Brígida, cada um imprimindo seus próprios registros na encenação do espetáculo, com destaque para o Teatro do Movimento de Santa Brígida escavado no corpo do elenco e em imagens utilizadas em outros espetáculos (próprios e da Escola), perigosamente repetidos.
Como todo espetáculo dessa natureza o resultado é irregular, variando com o ator e com a cena na qual ele está inserido. Todos precisam ter seu espaço e devem utilizá-lo com afeto, tendo por sua vez a direção o cuidado de dividir esse bolo em fatias mais ou menos generosas, conforme o rendimento individual e o efeito que se deseja obter. O produto no caso é muito bom: musical, delicado, emocional, apaixonado, melancólico, engraçado e, sobretudo, prazeroso para quem assiste e para quem executa.
Calçando delicadas luvas a direção ordenou essa sempre complicada colcha de retalhos e costurou tudo com precisão. As falhas estão no exagero de algumas atuações – que os entendidos chamariam de overacting –,na obviedade de outros – que são bons no que fazem, mas seriam melhores no terreno movediço do desconhecido –, no texto panfletário e raso de muitos e em um ou dois toques de mediocridade. O enorme elenco (mais de dez pra mim é um pesadelo!), no entanto, parece coeso e consciente do que estão propondo a partir da idéia central do espetáculo construído sobre sentimentos e impressões dos próprios atores num exercício que certamente exigiu doses quimioterápicas de confiança e cumplicidade.
Fugindo também da caixa preta, Belém... nos levou a um MABE (Museu de Arte de Belém) belíssimo, sob um céu cobalto e fresco, numa acústica impressionante.
É pena que esses trabalhos raramente retornem. A dificuldade de reunir novamente o elenco, entre outras questões inviabilizam essas remontagens.
Parabéns aos diretores de Paraíso Perdido e Belém, um dia, um mês, 2008 por extrapolarem os espaços cênicos desta cidade que insiste em se fechar em si mesma como se já tivesse de si o bastante.
Parabéns aqueles cuja visão alcança além das suas mesas de gabinete e percebe que preservação passa por cuidado e cuidado nasce do conhecimento que faz com que eu crie laços e carinhos com os espaços que me cercam.
Parabéns aos que foram para a cena, mesmos os que jamais serão atores ou atrizes. Valeu a ousadia, mas esse, como qualquer outro oficio, exige muito mais do que vontade de fazer.
Os dois espetáculos também foram resultado das turmas de cenografia da ETDUFPA que recebe os parabéns por expandir seus trabalhos tablado afora.
Apenas soaram os três toques. Merda!!!

HUDSON ANDRADE
15 de dezembro de 2008.
12h45

A MÃO E A LUVA

Final de ano e a Escola de Teatro e Dança da UFPA apresenta o resultado de seus cursos e oficinas. Dos tantos trabalhos apresentados assisti dois: Paraíso Perdido, dos alunos de teatro juvenil e Belém, um dia, um mês, 2008, da turma do segundo ano 2008 do curso de formação de atores.

Paraíso Perdido foi apresentado em novembro passado. Baseado na obra de John Milton e dirigido por Cláudio de Melo, o espetáculo reuniu um elenco extremamente jovem e para contar a história de um anjo que vem à Terra, propôs utilizar um dos locais mais bonitos de Belém, o Cemitério da Soledade. Simbolicamente o uso desse espaço que remete à morte queria dizer, às avessas, do nascimento humano desse anjo, assim como do surgimento de mais um grupo de atores. Mas a ousadia pára por aí. Noves fora as dificuldades de cessão do espaço – na ainda atrasada mentalidade local de que é melhor deixar apodrecer e cair do que utilizar – e de questões com o público desacostumado ao uso de locais não convencionais e o ingresso em quaisquer lugares com cadeiras não numeradas (aquela correria desembestada e grosseira pela primeira fila, para quem não entendeu!), o soledade foi, quando muito, uma moldura. E que moldura! Enquanto um cordão de isolamento humano barrava o acesso à área da apresentação, caminhei um pouco entre os túmulos com um milhão de imagens na cabeça para aquele início de espetáculo que não poderia ser menos do que a proposta do espaço. No entanto a encenação citada poderia ter sido feita em qualquer cemitério, na própria ETDUFPA e mesmo em qualquer teatro. Valeu por ter quebrado aquele silêncio todo e abrir portas para novas tentativas.
Quanto a encenação há dois pontos principais a ser considerados. Primeiro, a imaturidade dos atores e, segundo, a mão pesada da direção. Falo imaturidade de tudo: do teatro, da vida, da formação acadêmica e ate mesmo de valores. De formação para entender para que servem pontos e vírgulas; do teatro pela postura, pela fala, pelas intenções; de vida e de valores para perceber a profundidade filosófica e as implicações do texto do Milton. Claro que estou sendo generalista e reconheço que há exceções. Boas, fruto de talento e dedicação de uma arte que carece tanto de exercício físico quanto intelectual em porções superlativas. Infelizmente talento não é tudo, sequer o princípio, mas e um bom caminho.
A direção: Cláudio de Melo deveria ter optado por outro texto, pra começo de conversa. A grande questão envolvendo essa opção é exatamente a imaturidade supra citada do elenco. Quer dizer que para atores jovens eu deva dar sempre água com açúcar e textos medíocres? Nada disso! Mas para grandes passos, longas pernas e esse elenco em particular teria rendido muito mais em outra proposta. E teriam rendido muito mai com – sem trocadilho! – mais asas. Optando por um modelo de direção mais rígido, Melo acabou tolhendo seus atores que por sua vez não tinham conteúdo para contrapropor. Paraíso Perdido cai num formato carente de real ousadia e do qual o teatro contemporâneo busca fugir de forma até meio exagerada, caindo para o extremo oposto onde talvez nem o diretor saiba dizer o que quis dizer. Diretor, aliás, é o adjetivo que realmente cabe nesse contexto e que seria adequado a um grupo mais experiente e por que não dizer, mais tradicional.
Aqueles meninos e meninas devem guardar essa experiência com carinho, cientes de que elas representam um primeiro passo num longo aprendizado. É evidente o esforço feito nessa empreitada e minhas palavras irão certamente contra suas impressões pessoais quanto ao resultado obtido. Tomara! Assim eles não desistirão,mas espero que eles realmente pensem sobre o assunto e invistam pesado na sua construção cênica, voltando quem sabe aquele cemitério e aquele paraíso com propriedade e sem medo da queda.

HUDSON ANDRADE
15 de dezembro de 2008.
11h30

sábado, dezembro 06, 2008

BROCARDOS (06)


A situação é muito simples. Chega o final do mês e tu diligentemente te encaminhas para o Departamento de Pessoal, recebes o contra-cheque (ou holerite, ou envelopinho, enfim...), assinas e ao devolver ao encarregado, devolves também o dinheiro que te foi oferecido. “Não, muito obrigado. Isso não é necessário!”, saindo logo depois feliz e sorridente para mais uma jornada de oito horas.
Essa situação é irreal até mesmo em Dubai e ninguém em sã consciência, ninguém, repito, sequer sonhou em tomar essa atitude. No entanto, é exatamente o que querem que eu faça: que eu trabalhe, me esforce, use meu tempo, meu físico, minha mente, enfrente engarrafamentos, falta de transporte público, de infra-estrutura, de apoio, de vergonha e ao final de tudo ofereça “de grátis” o meu produto!
Deixa eu ser mais claro. Sou ator. Tenho uma companhia de teatro. Temos toda uma rotina de preparação e ensaios e tudo o mais quando estamos numa nova montagem, numa remontagem, pesquisando um novo projeto, etc. Nenhuma produção leva um mês, dois, pra ficar pronta e mesmo quando algumas estréiam precisam continuar a ser buriladas para um resultado mais interessante. São muitas horas de atividade e poucas de sono! Não reclamo, não. É o que gosto de fazer. É o que digo que sei fazer e faço porque acredito e porque quero. Agora queres me ver descer das tamancas, tufar a veia do pescoço como diz um grande e querido amigo, é quando ao convidar alguém para a apresentação que levou toda essa novela pra acontecer a criatura diz: Tem de pagar? Ou pior: Tens cortesia, ou convite? Ou pior ainda: Arranja duas entradas aí que eu vou levar uma pessoa comigo!
Puta que o pariu! Só consigo pensar em mandar o sujeito (a) tomar onde o sol não bate! E não é piada da figura, não! É seríssimo! E se ofende quando eu digo que o ingresso é tanto! E em Belém o ingresso mais caro cobrado por um espetáculo local é R$ 20,00 (vinte reais). Um pouco mais que um ingresso de cinema, penso, que faz tempo que não vou a uma sessão. Sete, ou oito cervejas sem tira-gosto, uma pizza escrota, 10% de um abadá para os três dias de Pará Folia. A maioria dos ingressos custa mesmo R$ 10,00 (dez reais), menos de 1/6 do ingresso de Dona Flor e Seus Dois Maridos que lotou o Theatro da Paz no primeiro final de semana de novembro e que ganhou ainda três sessões extras. O motivo? Atores globais e a bunda do Marcelo Faria (e talvez algo mais!). Não vi o espetáculo e não posso julgar seus méritos, mas posso questionar essa eterna sensação de que a grama do vizinho é mais verde! E nem são meus vizinhos. Os caras ficam lá pra baixo e nem sabem que a gente existe e que produzimos espetáculos de excelente qualidade. Levo em consideração, claro, que pra trazer uma produção dessas pra esse fim de mundo é um osso duro de roer. A equipe, os cenários, equipamentos, elenco. E não dá pra vir de bonde. É pelo céu mesmo. Some-se a isso o aluguel do teatro, alimentação, etc... soma-se dois, caiu um, veio sete, noves fora e o preço é esse mesmo! E talvez nem seja o preço justo!
Alguém já tentou alugar um teatro em Belém? Quem já tentou sabe as dificuldades. E não é só grana, mas a falta de equipamentos, técnicos, disposição, respeito. A administração desses locais (de alguns pelo menos) não entendem sequer o que estão fazendo ali. Acham que eu posso entrar no teatro no dia da minha apresentação, algumas horas antes, montar tudo, ensaiar num espaço novo e ao final de tudo ter cerca de 90 minutos pra botar tudo nas costas e liberar o espaço. Acha pouco. É só pagar mais. No Da Paz a hora de ensaio custa (custava, sei lá!) R$ 500,00 e tem uma hoje, outra daqui dois dias, depois mais uma semana, sendo uma de tarde e as outras de manhã. Pergunto: quem determinou isso conhece a dinâmica de ensaio de uma peça teatral? Claro que não. Age como um mau administrador que visa apenas o lucro com o uso do espaço e está naquela cadeira só porque alguém botou.
Daí euzinho quero levar meu espetáculo pra lá, mas ele não se encaixa nos padrões elevadíssimos da nossa maior casa de espetáculos. A bunda do Faria e o carão da Carol Castro cabem! Então eu tento levar pra outro teatro, do governo, e caio numa fila enorme porque outros como eu estão querendo a mesma coisa. E é justo que queiram! Última alternativa, um teatro pequeno, mas particular: se eu pagá-lo, não tenho figurino nem luz nem nem, porque não tenho apoio que banca isso tudo. Se eu insistir e jogar todo esse bolo, contabilizar, ratear, dividir, enxugar, apertar, meu ingresso vai custar uns R$ 50,00. Isso pra não ter lucro!
Aí vem a criatura e diz: Tudo isso?! Qual é o nome do grupo de vocês mesmo? Vocês já se apresentaram fora daqui? Tá, eu acho que vou no domingo! E sai pra tomar sete, ou oito cervejas sem tira-gosto. Ou comer uma pizza escrota!

sexta-feira, setembro 19, 2008

BROCARDOS (05)

Agora dá pra falar de Olimpíadas, já que somente no último dia 17 terminaram as competições para atletas com deficiência. Toda a pompa e circunstância ficam com os atletas “normais”, os super-humanos que têm a missão de elevar seus países à categoria de potências esportivas e servir de propaganda para a superioridade desse ou daquele povo.
Os Jogos Olímpicos de 2008 aconteceram em Pequim, na China, de 06 a 24 de agosto. As paraolimpíadas aconteceram de 06 a 17 de setembro de 2008. Naquela, grandes delegações, maiores quanto mais rico o país que as enviou. Investimentos altíssimos, alta tecnologia de tecidos a materiais antiderrapantes. Grandes cobranças. Nas paraolimpíadas é o inverso. Países mais pobres, os emergentes, mandaram delegações muito maiores do que os seus primos ricos, que reduziram suas equipes em média pela metade. Isso pode ser compreendido, segundo a Organização Mundial de Saúde, pelo grande número de pessoas com deficiência nos países em desenvolvimento, vítimas da ineficiência no combate a doenças como a poliomielite e por amputações causadas por conflitos armados. O Brasil enviou 200 atletas que competiram em 25 modalidades nestes jogos, contra 188 atletas com deficiência. Uma redução pequena frente a outros países como EUA (600 atletas nas Olimpíadas, contra 213 nas Paraolimpíadas), Japão e Austrália.
Nadando contra a corrente, os atletas paraolímpicos se destacaram em sentido inverso aos seus companheiros ditos “normais”. Primeiro lugar no quadro de medalhas olímpicas, os americanos abocanharam 110 lauréis, sendo 36 de ouro, caindo para terceiro lugar nas Paraolimpíadas, com 99 medalhas, sendo 36 de ouro. A Venezuela terminou as Olimpíadas em 82º lugar, com uma medalha de prata e outra de bronze. Setenta e quatro países sequer subiram ao pódio entre africanos, latinos e países do oriente médio. Já nas Paraolimpíadas o destaque ficou com a Tunísia, país do norte da África, 52º lugar nas Olimpíadas onde competiu com 27 atletas. Na competição para deficientes, foram 35 atletas que angariaram 21 medalhas, 09 delas douradas, ficando em 15º lugar no quadro geral.
Nosso Brasil terminou a competição olímpica em 17º lugar, com 03 medalhas de ouro, 04 de prata e 08 de bronze, logo atrás da Bielo-Rússia, também com 15 medalhas, sendo 04 de ouro. Nas paraolimpíadas foram 47 medalhas, 16 douradas, com destaque para o corredor cego Lucas Prado, que subiu ao pódio mais alto nos 100, 200 e 400 metros.
Terminamos as Olimpíadas com uma sensação de derrota muito grande. Os grandes nomes do esporte nacional com Tiago Camilo e João Derly, judocas, o ginasta Diego Hypólito, os times de vôlei masculino, vôlei de praia masculino e o futebol feminino deixaram uma grande dúvida no ar. O que acontece com nossos atletas? O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman disse haver necessidade de um psicólogo na delegação brasileira, função tão importante quanto fisioterapeutas, preparadores físicos e nutricionistas. Isso já acontece na equipe feminina de vôlei. A psicóloga Sâmia Hallage vem trabalhando as meninas desde o início deste ano e colheu bons frutos: a inédita medalha de ouro para o vôlei feminino do Brasil.
É claro que problemas há em todos os países, em todas as delegações, mesmo as mais ricas. Mas o que interessa falar aqui é do Brasil. Somos um povo apaixonado, torcemos de deixar a cabeça do dedo no osso, beijamos na boca pra logo em seguida, tendo frustradas as nossas expectativas, virar as costas aos nossos candidatos a heróis. E ainda temos que agüentar o Galvão Bueno dizendo aquele clichê idiota de que o que vale é ter chegado até aqui e que ir pra uma final já é uma vitória e que somos maiores do que isso. O escambau! Fora a seleção brasileira de futebol e sua milionária federação, quem tem apoio digno no esporte brazuca, guardadas as devidas proporções aos Correios e Caixa Econômica Federal? Não vou entrar nesse mérito porque serei tendencioso. Não gosto de futebol e renego o tratamento diferenciado que os jogadores desta seleção recebem. Alguém veio aqui no Bengui passar a mão na cabeça da Formiga depois que ela voltou da China? Nada! Toda a preocupação é com as eliminatórias, ou classificatórias, ou a droga que seja pra próxima Copa que eu bem queria que o Brasil não fosse pra ver o que é bom pra tosse!
No meu ver os atletas brasileiros chegam aonde chegam com a garra que nos é peculiar. Vão abrindo caminho no peito e na raça, comendo pelas beiras, caindo de cabeça, dando os pulos até chegar nas semi-finais e finais. Daí esbarram na categoria do treinamento dos países desenvolvidos que investem milhões em seus representantes. Contra a técnica, não tem garra que chegue. E técnica eles têm. A fleuma de chegar, colar um sorriso ACME na cara, fazer o que tem que fazer e aguardar, frios, o resultado que todo mundo já sabe qual é. Isso está longe de ser a nossa realidade. Como é que o Tiago Camilo vai concorrer com um Michael Phelps cuja vida é dedicada à água? E recebe investimentos pesados pra isso. Quantos exemplos temos iguais a este em nosso país. Ruim é só que o povo parece não ver esse tipo de coisa e quer a vitória sempre e nada menos do que o ouro, querendo colher onde não lançou semente alguma!
Esse estado de coisas é ainda mais contundente quando os atletas têm qualquer tipo de deficiência num país que diz não ser preconceituoso, diz não ser racista, diz não ser homofóbico.
Na raiz disso tudo está novamente o descaso com o processo educacional do brasileiro, que precisa ser integral, incluindo não só as matérias formais de estudo, mas igualmente o esporte e a arte como elementos formadores de opinião e da condição de cidadão de qualquer pessoa. De absoluta inclusão! Não se desenvolvem as habilidades do indivíduo, que poderia ser um excelente músico, um dramaturgo maravilhoso, um pintor genial, um grande atleta. Todos somos limitados a fazer contas e entrar no saturado mercado de médicos e advogados e tecnólogos e engenheiros pelo status da profissão. Lamentável!
Americanos, chineses, japoneses, europeus, todos já começaram a se preparar para Londres 2012. Crianças vão ser estimuladas, domadas, doutrinadas, torcidas e ser os novos heróis dos seus países, representando a glória dourada do ideal de superar milésimos de segundos, metros e marcas. Por aqui, vamos correr atrás de um bom tênis, de uma piscina, dividindo tudo isso com um trabalho formal que garanta o do fim do mês. No ritmo que as coisas vão, não será ainda nas próximas Olimpíadas que o Brasil será destaque no quadro de medalhas. Quem sabe na outra, ou na seguinte? Desde que comecemos agora. Desde que comecemos já!

HUDSON ANDRADE
19 de setembro de 2008
16h23