Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens

terça-feira, outubro 19, 2010

ALÉM DO HORIZONTE DEVE TER


O burburinho que se formou entre os adeptos da Doutrina Espírita e curiosos foi grande. Vem aí filme Nosso Lar! Umas das mais conhecidas e comentadas obras psicografadas por Chico Xavier iria para as telas dos cinemas depois do sucesso da cinebiografia do médium mineiro e com vários programas de TV de cunho espiritualista. O diz-que-me-diz-que foi grande. Fotos, sites, notas, traileres eram divulgados pela internet. Cartazes eram afixados nos Centros (pelo menos no meu!). Tudo empolgava e, claro, dava alguma apreensão. 03 de setembro de 2010 virou uma espécie de Dia D para o Espiritismo brasileiro.
Não, não vou comentar e-mails dizendo de atendimentos espirituais durante as sessões de exibição do filme. Qualquer mínimo bom senso se opõe a isso!
Assisti Nosso Lar dia 05 de setembro e novamente no dia 08 (acho!). a cena inicial, André Luiz (Renato Pietro) diante dos muros fechados da cidade espiritual, o céu azul cortado por um íbis, a música emocionante de Philip Glass, senti um aperto no peito. Então descemos ao Umbral (uma espécie de purgatório?! Como assim?) e o filme entra num ritmo tal e único que não se altera até o seu final. Sem conflitos, sem falha trágica. André Luiz é só alguém confuso se aclimatando com certa facilidade a uma nova realidade. Todos os demais personagens são escadas para a plenificação do médico sanitarista falecido no Rio de Janeiro, onde exercia a profissão, no início do século XX. A personagem Eloísa (Rosanne Mulholland), sobrinha de Lísias (Fernando Alves Pinto), que deveria ser o contraponto de André não passa de uma garotinha mimada e chata em quem uns bons cascudos resolveriam as tolices.
Pietro não é capaz de dar ânima ao personagem. Sua interpretação é rasa e burocrática, um certo jeito empolado de falar, uma falta de carisma.
Bons atores no elenco como o já citado Fernando Alves Pinto, Othon Bastos (o Governador da colônia), Ana Rosa (Laura, mãe de Lísias), Werner Schünemamm (Emmanuel), Paulo Goulart (ministro Genésio), entre outros, talvez por conta da direção, mantiveram-se didáticos, monocórdios e unidimensionais.
O roteiro do próprio Assis, que até consegue sintetizar bem uma obra tão vasta e detalhista quanto Nosso Lar, não consegue centrar em André Luiz e não dá a real dimensão de um personagem confrontado com suas crenças e verdades; não dá a outros temas como reencarnação, vida após a morte, mediunidade, colônias em planos extra-físicos da existência, qualquer aprofundamento além de explicações acadêmicas tais verbetes de enciclopédia.
Os efeitos realmente incomuns em produções brasileiras são tecnicamente bons, mas não podem existir por si só. Temos vários exemplos de filmes cujo visual e excelência técnica não conseguem esconder os despropósitos, ou incompetências de um roteiro mal escrito, e/ou mal dirigido.

Se você, espírita (kardecista é o censo) quiser tornar o filme de Wagner de Assis na pedra filosofal do Doutrina Espírita no Brasil, vá em frente. Ver minha mãe, que não é espírita, dar conselhos baseada em questões que viu no filme mostra que enquanto divulgador de uma mensagem a produção cumpriu o seu papel – lembrando apenas que mensagem sem estudo, reflexão e aprofundamento é meramente máxima de almanaque. Devidamente utilizado, embasado e discutido, pode ser um excelente ponto de reflexão em nossas Casas e mesmo fora dos círculos espiritualistas. Para os não espiritistas o filme é mais uma obra de ficção com pretensões de realidade. Enquanto obra de arte é fraco, inconsistente e sem brilho e só se mantêm em cartaz pela necessidade de ver que esse nosso mundo não é o único e nem o melhor. Nossos anseios de superação e imortalidade nos atraem para esses personagens, seja André Luiz, o Superman, o coronel Nascimento, ou a mocinha lacrimejante da novela das seis.
Que as próximas produções nesse filão observem cuidadosamente o seu trabalho buscando universalizar a mensagem sem moralidades maniqueístas através de um apurado e tecnicamente correto veículo, única garantia de imortalidade de uma obra de arte.

Hudson Andrade
19 de outubro de 2010 AD
16h31

segunda-feira, abril 19, 2010

NASCE UM CAPIM



Chico Xavier (Brasil, 2010), o filme dirigido por Daniel Filho a partir do roteiro de Marcel Souto Maior tornou-se um recordista de bilheteria do cinema nacional em sua primeira semana de exibição. Isso não é difícil de entender num país sem religião predominante, ou oficial, mas extremamente religioso e, portanto, espiritualizado; num país que adora reis, rainhas e mitos – e Chico Xavier é um mito desde antes de sua morte; para um povo que adora uma polêmica – e o fenômeno mediúnico dá pano pra manga nesse quesito. Num Brasil que aprecia uma produção artística de qualidade e ela existe, apesar de tanta miséria.
Chico Xavier, o médium, protagonizou situações dignas dos grandes romances: uma existência humilde e sacrificada dedicada aos outros; uma abnegação e paciência imensos diante dos ataques, bajulações, idolatrias e necessidades alheias, uma vida espartana, assexuada, rigidamente disciplinada por um tutor tão amoroso quanto inflexível, Emmanuel, seu guia espiritual. Uma missão que lhe custou a paz, a saúde e por fim, a própria vida.
Chico Xavier, o romance. As Vidas de Chico Xavier* escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior que apresentou (ou reapresentou) ao povo brasileiro um homem, um mito, numa linguagem clara e objetiva, levando o mineiro de Pedro Leopoldo, nascido Francisco Cândido Xavier para além dos círculos espíritas de forma algo massificada. Uma abrangência que eu não identifiquei quando da passagem de Souto Maior por Belém, em novembro de 2009, lançando seu trabalho na Feira do Livro Espírita e palestrando pra um reduzido número de pessoas nos salões da União Espírita Paraense. Agora, por conta do filme, uma enxurrada de publicações estampa novamente o nome do médium mais famoso do Brasil, exigindo cuidado e atenção para bem separar o joio do trigo. O Congresso Espírita Brasileiro, na capital federal, tem como tema Chico Xavier, que completaria 100 anos no último dia 02 de abril. O mineirim de fala mansa e espontânea volta à cena por mãos humanas e encarnadas, já que uma tão esperada mensagem do além ainda não veio. E por que viria?
Chico Xavier, o filme, tem uma direção contida. Nada de ousadias. Mostra o médium da infância à fase adulta através de lembranças a partir da participação de Xavier no então polêmico e famoso programa Pinga-fogo. A edição é excelente ao colocar situações-chave na história desse homem, mas essa excessiva biografia acaba por arrastar-se em mais da metade do filme, me deixando com uma sensação de o que poderia ainda caber no pouco tempo que restava de exibição. O filme começa se justificando quanto aos recortes feitos e o que realmente importava saber. Talvez desnecessário. Vimos o que deveríamos ver, pontualmente, mas a falta de curvas dramáticas deixam aqueles familiarizados com os fatos com uma sensação de eu-já-sei-isso! e os outros com aquela vontade de algo mais. Não que Daniel Filho precisasse convencer alguém de qualquer coisa. Que bom que não foi esse o caminho. Apenas precisava ter se arriscado mais e havia espaço para isso antes de cair no piegas e no apelo emocional barata. Tanto verdade que a cena em que Chico narra sua aventura no vôo que o levou a São Paulo é muito mais divertida no original apresentado nos créditos que a sua própria dramatização. As soluções cênicas do filme para as questões espirituais são ótimas. Ninguém vê, ou ouve os espíritos e isso nos coloca em igualdade com os que duvidavam de Chico e quando eles, os espíritos, aparecem – a mão do médium, D. Maria João de Deus (Letícia Sabatella), não há transparências, fumacinhas, luzes. Natural como de fato é. Exceção apenas para a primeira aparição de Emmanuel. A câmera em movimento descendente e o som de asas foi um pouco demais! A trilha de Ediberto Gismonte acompanha o filme em sua velocidade de cruzeiro, sutil e um tanto melancólica.

A emoção e o grande mérito do filme está na constelação global que faz de Chico Xavier um filme de sorrisos, suspiros e lágrimas econômicas, mas sinceras. Dividem as vidas do médium Matheus Costa (infância), Ângelo Antonio (juventude) e Nelson Xavier (maturidade). Excelentes caracterizações, interpretações precisas. Segurança e tranqüilidade de quem sabe o tamanho da responsabilidade que tem nas mãos e a consciência do seu talento e capacidade. Paulo Goulart é Almir Guimarães, o apresentado do Pinga-fogo. Luís Melo, Giulia Gan, Giovanna Antonelli, Pedro Paulo Rangel (emocionante!), Ana Rosa, Cássio Gamos Mendes, Cássia Kiss e outros tantos, em maiores, ou menores apresentações, dão um brilho todo especial ao filme. Destaque ainda para Cristiane Torloni e Tony Ramos, que paralela a história de vida de Chico narram o incidente histórico em que a mediunidade foi aceita por um juiz para, oficialmente, inocentar um réu de um crime de homicídio. Novamente aqui não há resposta se o fenômeno é real, ou não. O que importa é a credibilidade de alguém que antes de ser médium é um ser humano de valores racionalmente inquestionáveis e o bom senso dos envolvidos no caso: jurista e, principalmente, os pais dos jovens protagonistas do drama.

Para mim a seqüência mais emocionante de todo o filme é exatamente aquela em que o personagem de Tony Ramos, sem abandonar suas convicções, mas receptivo e consolado, divide com a esposa (Torloni) a leitura de uma carta psicografada por Chico. Nessa seqüência está o grande mérito do médium mineiro: o alívio às dores de quem quer que seja, o ofertar um novo horizonte, a doação sem retribuição. “Eu sou só um carteiro!”, diz o Chico. E também o grande mérito da doutrina defendida por Xavier com a bravura de um mártir: caridade, amor ao próximo, consolação.
Talvez isso tenha feito de Chico Xavier – o filme, o homem – um campeão de bilheteria: o desejo humano e justo de paz, justiça e felicidade para além de qualquer credo, qualquer classe, qualquer filosofia.

(*) As Vidas de Chico Xavier. Marcel Souto Maior, 2ª edição ver. e ampl. – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2003.

HUDSON ANDRADE
08 de abril de 2010
16h40

sábado, abril 17, 2010

QUALITAS SP



O Sr. Raposo é um homem, perdão, uma raposa, persuasiva, inteligente, sagaz, persistente, renitente, vaidosa, de emoções contidas – mesmo as justas e verdadeiras. Por trás da fala mansa e da gravata (!) está um animal selvagem com a cabeça no topo das árvores e os pés no fundo de um buraco. O Sr. Raposo é o protagonista de O Fantástico Sr. Raposo (The Fantastic Mr. Fox, EUA, 2009), com roteiro de Noah Baumbach, Wes Anderson e Roald Dahl a partir do original do próprio Dahl, autor de A Fantástica Fábrica de Chocolate, e com direção de Wes Anderson. Feito em animação stop-motion, O Fantástico Sr. Raposo conta com as vozes de George Clooney (Sr. Raposo), Meryl Streep (Sra. Raposo), além de Wally Wolodarsky, Jason Schartzman (Ash), Michael Gambon, Owen Wilson, Bill Murray (Texugo) e Willem Dafoe (Rato)
A trama mostra o Sr. Raposo abandonando a sua vida de raposa ao prometer à Felicity, esposa grávida que não roubaria novamente, assumindo uma vida aparentemente pacata. Sua insatisfação contida talvez seja a causa do relacionamento burocrático com a esposa que pinta em quadros as tempestades que vão dentro dela, e com Ash, o filho infantilizado e rebelde com quem não consegue se entender. Tudo começa a mudar quando o Sr. Raposo decide comprar uma casa-árvore na vizinhança com os humanos. Ao ver-se limite com três homens ricos e poderosos algo dentro dele desperta e com a ajuda do zelador Kylie, a Toupeira, arquiteta o Grande Plano, sua real despedida do seu lado raposa.
Todos os animais do bosque são humanizados, vestem roupas humanas, exercem profissões humanas, mas ainda vivem em tocas e não freqüentam a cidade com seus cachorros ainda cachorros. Ao invadir as propriedades dos fazendeiros Boggins, Bunce e do terrível Sr. Bean, Raposo provoca uma confusão de proporções inimagináveis que o envolvem diretamente, sua família e o delicado equilíbrio entre os homens e os animais, colocando-o em cheque com os seus valores – sobretudo sua vaidade e necessidade de atenção – e exigindo dele uma postura diante da sociedade, da família e de si mesmo.
Bárbara Heliodora diz em seu livro O Teatro Explicado aos Meus Filhos* que a preocupação essencial do teatro são as questões humanas. Ao expandirmos esse conceito para outras formas de arte temos O Fantástico Sr. Raposo discutindo situações extremamente significativas na embalagem cuti-cuti dos bonequinhos que se movem na tela. Não é um filme infantil, mas é um filme para todas as idades. Como é isso?! Diria que é um filme para crianças inteligentes e que possam julgar valores. Quem é mais selvagem? O Sr. Raposo e seus amigos ao assumirem o seu DNA e os seus nomes científicos, ou o autoritário e irascível Sr. Bean? Quais as conseqüências para a Sra. Raposo ao perceber que a vida a qual se acomodou não é assim tão estável e que ela precisa se posicionar diante de um perigo eminente? Como o Sr. Raposo pode resolver os conflitos com o filho, piorado depois da chegada do primo Kristofferson? como acessá-lo? Como dizer que o ama e confia nele? E o Rato, vendendo seus préstimos aos humanos contra seus pares animais, como um autêntico capitão-do-mato? Este não é um filme infantil. Há cenas violentas, diálogos contundentes, debates filosóficos, tudo quebrado e equilibrado por Anderson que com os gracejos dos seus bichinhos fofinhos fala bem fundo em nós.
O único prejuízo de O Fantástico Sr. Raposo não ter ido para o circuito comercial – O Maria Sylvia o exibiu em parceria com a Oi – é que isso reduz consideravelmente o público que pôde desfrutar dessa fabulo bonita por natureza e humana por excelência. Em seus quase uma semana e meia-raposa (mais ou menos 90 minutos humanos) O Fantástico Sr. Raposo é um exercício de lirismo numa animação cada vez mais rara e extremamente bela – ainda mais nesses tempos de filmagem digital, CGI, motion caption, etc. é a prova de que cinema, arte enfim, jamais prescindirá de uma boa história, de alguém que saiba contá-la e do jeito certo de fazê-lo.

HUDSON ANDRADE
07 de abril de 2010
15h29

(*) Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 17

sábado, abril 10, 2010

EU TENHO UM SONHO...



... de que haverá oportunidades para todos, brancos, negros, homens, mulheres, todas as idade e etnias, com respeito a sua cultura e costumes. De que haverá uma chance para alguém – que nem todas a buscam, ou se esforçam para garanti-la – e que esse alguém fará a diferença e a multiplicará. De que haverá sorrisos, inicialmente tímidos e então abertos, francos e haverá paz nos corações.
É com um sorriso quase constante no rosto – alguma lágrima, alguma reflexão – que assisti (mos) Um Sonho Possível (Tha Blind Side, EUA, 2009), filme que deu a Sandra Bullock o Oscar de melhor atriz. O título para nós faz todo o sentido: Michael Oher (Quinto Aaron), negro, sob a tutela do estado depois que a mãe, viciada em crack, perde sua guarda, oriundo de um gueto desconhecido da própria cidade onde está encistado, é acolhido pela família Tuohy que com a paciência de quem “descasca uma cebola, camada por camada”, consegue que ele se torne um super astro do futebol americano, de onde o título original, posição ocupada por Big Mike no time. Nesse ponto eu me calo. Futebol americano é uma das coisas mais estúpidas do planeta (e eu posso falar de cátedra sobre estupidez vivendo num Brasil amoral ao som de tecnomelody) e demonstra bem a inclinação imperialista e belicosa daqueles que o praticam e prestigiam.
Mas voltemos ao filme. É difícil crer que um roteiro tão simples e lacrimosos possa render um bom drama, em se sentido real. E rende! Sandra Bullock no papel de Leigh Anne Tuohy é a locomotiva que puxa toda a trama. Segura, suave, assertiva, com um charme meio cafona de quem veio de origem humilde, cresceu e não esqueceu que ainda há um outro lado na cidade, nas pessoas, na vida. A atriz interpreta o personagem com tranqüilidade e segurança, sem carregar nas tintas, nos maneirismos, contida e luminosa. Um bem merecido prêmio. A Sra. Tuohy, o marido Sean (Tim McGraw) e os filhos Collins (Lily Collins) e o fantástico SJ (Jae Head) acolhem o grandalhão calado e esquivo com uma camisa no corpo e outra num saco plástico sem maiores preocupações. Nesse ponto o filme é feito para agradar: não há um grande conflito até Michael ser confrontado com a possibilidade de que todo aquele investimento não seja desinteressado, o que desaparece depois de um choque com sua realidade original e algumas horas meditando diante da máquina de lavar. Daí voltamos a paz onde ninguém discute as opiniões da persuasiva Leigh Anne Tuohy, onde não se briga, questiona – sejam os filhos, os professores, o treinador – e mesmo a questão racial, apesar de estarmos no Mississipi, se resume a uma meia dúzia de seis xingamentos numa partida de futebol. Aliás, estarmos no Mississipi só aumenta a relevância do feito dos Tuohy que podendo degustar saladas de 18 dólares o prato, investem num desconhecido. E é tocante a cena em que Michael recebe seu quarto. A sinceridade ingênua de quem havia dormido de sofá em sofá toda uma vida comove a mãe adotiva e a platéia. O garoto tirou a sorte grande e soube aproveitá-la porque não tinha o mesmo ânimo dos seus parceiros da periferia, como o jovem Danny, que contaminado por sua des-vida acaba como, acredita-se, devem acabar todos aqueles. E essa diversidade de ânimo se deve a um (pasmem!) conselho materno (não, eu não vou contar qual é!) que se foi eficiente em proteger o menino, produziu um jovem inerme, quase um autista social, o que lhe garantiu sucesso num mundo onde ele tanto poderia encher-se de tola vaidade, ou fugir carregando a prataria.
Apesar de seu caráter folhetinesco Um Sonho Possível é um ótimo filme para ver, rever com a família, discutir seus aspectos sociais; dar gargalhadas e fechar a janela do carro para enxugar, às escondidas, uma furtiva lágrima. E olha que quem diz isso desistiu de À Procura da Felicidade (The Pursuit of Happyness, EUA, 2006) no seu primeiro terço!
Eu tenho o sonho de um filme perfeito! Mas enquanto a perfeição – nosso maior sonho – não vem, que haja outros filmes possíveis de serem vistos com bons amigos, no escurinho do cinema, perto de um final feliz.

HUDSON ANDRADE
25 de março de 2010.
9h58

segunda-feira, março 22, 2010

A MALDIÇÃO DISSO E DAQUILO



Pessoas, pensem num sábado de madrugada, Sessão Coruja, em exibição Um Corpo que Cai, Psicose, Disque M para Matar, algo assim! Pensem naquelas letras de corte quadrado, sobre fundo branco, parecendo antiquadas já naquela época; pensem num longa comprido, cheio de personagens que gravitam em torno em um protagonista determinado, mas cheio de recalques, mais um anti-herói do que mocinho, que tem lá o seu charme, mas fuma feito um condenado; mulheres bonitas, cheias de classe e charme, movimentando-se languidamente pelas cenas, cheias de personalidade, criando a confusão e a cizânia na mente do dito personagem principal; homens sérios, calados, irônicos, pulando da sombra e voltando rapidamente pra ela, cheios de meias palavras e verdades completas disfarçadas de mentiras, ou meias verdades disfarçadas de dúvidas, ou mentiras absolutas que parecem reais de tão coerentes.
Assim é Ilha do Medo (Shutter Island, EUA, 2009), a nova produção de Martins Scorcese, o diretor ítalo-americano que já nos deu filmes tão diferentes quanto Depois de Horas, Os Bons Companheiros, A Época da Inocência e Gangues de Nova Iorque. Esse cara meio franzino e grisalho, que parece calmo, de fala mansa e que sugere ter um furacão dentro de si, mostra seu lado hitchcoquiano no longa que trás Leonardo di Caprio, Mark Ruffalo, Ben Kinsley e Michelle Willians (a esposinha de Ennis Del Mar em Brockback Mountain – aqui bem mais bonita e igualmente antipática, o personagem, naquela voz de coitadinha e olhos baixos de cachorro que quebrou panela!)
Na ilha Shutter, que abriga o Hospital Psiquiátrico Correcional de Ashecliffe, os ambientes internos são escuros e opressivos; os externos, íngremes e limitantes. Névoa, faróis sem luz, muros grossos, grades, florestas que despencam, cemitérios, tempestades, céus iluminados por relâmpagos, Gustav Mahler. Fechados nela (como o título sugere), o detetive federal Teddy Daniels (Di Caprio) e seu parceiro Chuck Aule (Ruffalo) devem investigar o desaparecimento de uma paciente e, ao mesmo tempo, empreender uma caçada redentorista a um tal Andrew Laedis, o assassino de Dolores (Willians), esposa de Daniels. Mas como diz um paciente ao detetive, ele não passa ali de um rato num labirinto e continuamente é incitado a partir, ou jamais deixará aquela ilha. Obstinado, Daniels insiste em sua cruzada mesmo percebendo que trilha um caminho sem volta.
Os movimentos de câmera, a trilha sonora, a mistura de verdade, alucinação, sonho, desconfiança, tudo nos coloca junto ao atormentado detetive e se ele enlouquecer, enlouquecemos juntos, ou saímos dali e ficamos todos bem. Talvez por isso algumas pessoas tenham saído do cinema (que bom que saíram, porque se tem uma gentalha que eu não tolero em cinemas e teatros é esse pessoalzinho que fica conversando, comentando e tals!); talvez por isso outras tenham saído logo ao final da exibição, ou ao acenderem as luzes. Semblantes carregados, gargantas secas. Ilha do Medo é um ótimo filme, mas não é um filme pra todo mundo, sobretudo praqueles que cinema é a maior diversão. Tão logo eu me livrei do desgraçado que ficava acendendo o celular bem ao meu lado e ignorei a lesa que ficava dizendo pro namoradinho que tinha medinho de escuro e que não gostava de filme assim que ela ficava nervosa (pensa aonde esse truque vai dar!) ficou zuzubem e eu nem senti as duas horas e vinte minutos de projeção. Saí com vontade de voltar e fiquei pensando que se não fosse a falta de grana pro táxi teria sido legal assistir a última sessão e caminhar na penumbra dos corredores vazios do shopping, brincando que os manequins abriam uns olhos vítreos (como o anjo na sepultura da esposa de Louis em Entrevista com o Vampiro) e os seguranças não eram mesmo quem eles pareciam ser. Brincadeira que acabaria logo na calçada, que a realidade dos pontos de ônibus aqui pelos lados da Marambaia são muito mais assustadoras que qualquer filme gótico.

HUDSON ANDRADE
20 de março de 2010.
11h20

FACE-OFF




Tenho por princípio para meus comentários no blog não escrever sobre algo que eu não tenha irremediavelmente gostado. Que é que eu diria? “Não gostei. Ponto!” Não sou um crítico de profissão e portanto não me ateria a detalhes técnicos e tal só pra falar de algo. Também não sou um blogueiro por excelência. Até gostaria de ser, mas não tenho tempo, ou desejo de postagens diárias, ainda que elas pudessem ocorrer mais amiúde, diria um desaparecido amigo.
Decidira não escrever sobre Avatar (EUA, 2009), que eu irremediavelmente odiei, mas ao finalmente assistir Guerra ao Terror (The Hunt Locker, EUA, 2009), ponderei que a melhor maneira de falar sobre o filme de Kathryn Bigelow seria comparando-o com o de James Cameron, seu principal concorrente ao Oscar 2010. Faço isso usando os princípios do Big Five: filme, diretor, roteiro, ator e atriz principais.
Um filme precisa ter um roteiro, original, ou adaptado. O resultado vem em grande parte desse roteiro, daí tantos embates, mudanças, exigências da Indústria nesse quesito. Claro que ele deve ser excelente, mas se não for, que seja conciso, coerente, limpo e tenha a propriedade de encantar o público a ponto mesmo de virar um sub-produto do filme, ou levar milhares de pessoas a querer ler o que lhe deu origem. Avatar e Guerra ao Terror têm roteiros simples, sem grandes curvas dramáticas, ou reviravoltas. O segundo, aliás, nem tem reviravoltas. O roteiro de Mark Boal é documental, franco, reflexivo. O roteiro de Cameron é apelativo, maniqueísta e repetitivo.
Cameron deu a cara de Hollywood aos seus personagens: Sam Worthington, um dos atuais queridinhos da Indústria (e que a meu ver ainda não acertou a mão e as escolhas!) e Sigourney Weaver, que tanto já fez Alien, o Oitavo Passageiro, quanto fez Alien, a Ressurreição (!!!); os demais são fantoches unidimensionais, ou personagens virtuais – o povo Na’vi. Interpretações toscas. Guerra aponta em caras novas, exceto as participações especiais e luxuosas de Guy Pierce e Ralph Fiennes (limpando a alma de Lorde Valdemort!). O filme está mesmo nas mãos de Jeremy Renner (Sargento James, concorrente ao Oscar de melhor ator), Anthony Mackie e Brian Geraghty. Seus pequenos e grandes medos, anseios, alegrias, tristezas, uma vida engarrafada nos dias que se escoam perigosos entre o fim de um rodízio e o início de outro. Guerra me ganha porque eu gosto de filmes de gente, suas incoerências, lutas, idiossincrasias (VER ISSO). Aqui os personagens têm uma falha trágica que os humaniza e engrandece. Em Avatar os torna patéticos.
Cameron e Bigelow são excelentes diretores. Rolava nos anos 80 um papo de umas camisetas de equipe onde se lia “Não mexa comigo. Trabalho para Jim Cameron.”. Preciso, inteligente, exigente, detalhista, obstinado. Tudo isso se pode dizer de Cameron e não é a toa que seus filmes são longos (3 horas e meia é demais para os atuais padrões comerciais), caros e levam anos da concepção ao produto. Infelizmente, isso não significa qualidade. O oscarizado e lacrimejante Titanic (sim, eu chorei nele!) e o testoterônico e ecologicamente correto Avatar são duas babas. Dois bolos de noiva com muito glacê e pouca manteiga. Em sua estréia, a primeira mulher a levar um Oscar de melhor direção optou por uma refeição mais simples, balanceada, bem temperada e palatável, não entrando para os clichês sanguinolentos comuns em filmes de guerra; uma violência mais fruto da tensão da cidade (Bagdá), dos seus habitantes (amigos jamais, espiões, submissos?), da vida por um fio de detonador. Seqüências longas e silenciosas que causam uma angústia em quem assiste e dão noção de quanto o tempo – esse inimigo – pode ser ingrato e sufocante.
Filmes pedem uma mão firme. Ambos têm, mas seus objetivos são diametralmente opostos. E não, Kathryn Bigelow não é a ex-senhora James Cameron.
Enquanto filme Avatar é uma embalagem, a forma escolhida por Cameron para vender seu produto. Leia-se a tecnologia para todo o processo de criação da película. E por privilegiar a forma, menosprezou o conteúdo.
Enquanto filme Guerra ao Terror é um veículo, a forma escolhida por Bigelow para questionar a guerra, sobretudo a do Iraque, atravessada na garganta dos americanos, e seus agentes, seja por convicção, vazio, ou obrigação; mas enquanto conteúdo não abriu mão da forma. A seqüência do homem-bomba é fantástica, emocionante e apavorante. Aqui destaco ainda um ponto-chave. Em Guerra os efeitos especiais estão a serviço do roteiro, do filme em si, uma parte importante que soma e dá destaque aquilo que realmente importa, camuflado que está de ocasional. Em Avatar os efeitos especiais premiados com o são o filme. Nesse aspecto Cameron alcançou seus objetivos, mesmo perdendo o Reino dos Céus.
Assistir Guerra ao Terror (esse título é pra induzir alguma coisa na gente?! Afinal, o original faz referência ao trabalho do sargento James e quem sabe sua mania de souvenires de guerra) é uma experiência para ser repetida, multiplicada (não falo em continuações, claro!), discutida. Avatar é acompanhamento de pipoca. Avatar é um filme. Guerra é prosa, poesia, amor e sexo. Fazia tempo que eu precisava ver um filme assim!

Hudson Andrade
18 de março de 2010
10h27

ACEITA ESSA CONTRADANÇA?



20 anos e dezenas de Sessões da Tarde depois eu assisti pela primeira vez Dirty Dancing. Lembro que (I’ve had) The Time of my Life concorreu ao Oscar de melhor canção (levou?) e de eu ter adorado a apresentação: um teatro de sombras em que um cavaleiro lutava por sua amada princesa. Depois nada. Afinal não é o tipo de filme que me encha os olhos. De fato a história é tosca, cafona, datada; os personagens não têm nuances, as interpretações têm a profundidade de um pires, o figurino demonstra todo o horror dos anos 80 – apesar de a trama se passar em 1963! – e até mesmo o tal dirty dancing do título (suja em contraponto aos tradicionalistas e comportados bailados do acampamento de férias Castkill´s) não passa de uma esfregação tímida e inócua nesses tempos de rebolados em velocidades ascendentes. Será que na época alguém sentiu algum comichão?! Eu não sentiria vendo casais – todos heteros e nenhum interracial – mexendo e remexendo e aqui e ali uma mão na bundinha.
Por que diabos então eu estou aqui escrevendo sobre o filme de Emile Ardolino? É que um fato interessante aconteceu. Ao assistir o tal, a famosa cena final: todo mundo dançando parece final de novela das 7; o Johnny Castle (Patrick Swayze, que Deus o tenha!) cantarolando The Time of my Life para Baby (Jennifer Grey), fiquei com os olhos marejados. Talvez isso tenha levado tanta gente ao cinema e aos recentes casamentos que usaram a cena para a entrada dos noivos. Gente como eu que vive ganhando sorteios, bingos e quermesses. Pra mim tem um adicional: eu quero ser um ator-bailarino, fazer coreografias, sair cantando e dançando pelos palcos. Mas o que realmente me tocou foi ver o beijinho apaixonado do casalzinho no salão cheio de gente feliz e redimida.
Continuo afirmando que obras de arte estimulam o pensamento, o questionamento, nossos valores. Comunicam coisas. Que não se confronta uma obra de arte incólume nem ela passa por nós “...like the wind through my tree”*. Mas arte também é emoção – o que só reforça o que eu digo! – e que bom que seja. Esse mundinho estéril em que nos tornamos precisa disso!

(*) She´s Like the Wind, canção do filme interpretada por Patrick Swayze.

Hudson Andrade
13 de março de 2010
11h57

OSCAR 2010



Antes de mais nada deixa eu dizer que tenho ido pouco ao cinema. Por falta de tempo mesmo e sobretudo por falta de paciência. Sabe aquela exigência que eu já comentei antes e que alguns amigos reclamam que tem ficado demais? Poizé! Quanto mais eu trabalho com teatro, tenho contato com teóricos, trabalhos os mais diversos e, recentemente, com a filosofia da arte, começo a perceber que tenho que ser seletivo, pro bem, claro. Ainda devo continuar a ver de tudo e ter base para discutir de tudo. No entanto o fator financeiro é algo que vai ser agregado nessa equação e já que meu dinheiro não dá em árvore, coloco esse também como um critério. Devo ver tal trabalho, mas isso vai me custar dinheiro além do aborrecimento, então não vejo (é claro que não vou só a sessões gratuitas, afinal estou pagando o trabalho de alguém!). Nessa categoria já estavam todas as comédias americanas, todos os filmes romanticozinhos, todos os com adolescentes, sobretudo se eles cantam e dançam e andam as voltas com o outro mundo, todos os com bichinhos, muitas refilmagens, alguns de diretores como Steven Spilberg, Chris Columbus (seu seguidor fiel), os antigos filmes de aventura, agora testosterônicos, as terceiras continuações e além (mesmo com o Johnny Deep nelas!), enfim. A lista é grande e não estamos aqui pra discutir isso. Essa arenga toda foi pra dizer que eu não vi quase nenhum filme concorrente ao Oscar e nem sabia de muitos e desconhecia os concorrentes ao prêmio. E tinha decidido não assistir a entrega do Oscar, que aconteceu domingo , 07 de março. O motivo? Birra! Não queria ver a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood premiando a cultura de massa e entretenimento representada por Avatar, a colorida (mesmo!) embalagem que James Cameron usou pra vender sua nova tecnologia cinematográfica e que ele chama de filme.
Aliás, de tanto as pessoas dizerem que só eu não gosto de Avatar, estou pensando seriamente em criar uma comunidade no Orkut: “Ei! Mais alguém aí NÃO gosta de Avatar?”. Vamos ver no que é que dá! Justifico não gostar do dito porque gosto de filmes de pessoas e para pessoas, que roteiros simples não precisam ser rasos, que as histórias, os personagens, têm que ter nuances, curvas, precisam ser verossímeis, criando identificação com quem os assiste. Só pra justificar o roteiro, ele é absolutamente igual a Dança com Lobos e foi mesmo comparado com ele, mas interpretações tocantes (Kevin Costner estava ainda em sua boa forma naqueles tempos!), uma trilha sonora fantástica, uma busca pelo emocional (mesmo piegas em muitos momentos, como a cena final!) e detalhes outros me ganharam para a história do soldado que se envolve com os indígenas nas pradarias norte-americanas e me fizeram, pela total ausência, odiar o soldado que se envolve com os indígenas das drag-queenérrimas florestas de Pandora, o mundo fictício do povo Na´vi.
Daí que não assisti a premiação e qual não foi minha surpresa ao ver no dia seguinte o resultado. Avatar ficou com apenas três estatuetas para os chamados prêmios técnicos: Efeitos visuais, fotografia (que eu questiono, mas chega!!!) e direção de arte. Acho justo (com aquela ressalva ali atrás). Para os fins a que se destina, o filme recebeu o que merecia. O que me surpreende é que a Indústria do cinema tenha optado por outros caminhos, outros valores. Pra ter certeza disso eu precisaria assistir Um Sonho Possível e Preciosa, pra saber se a Sandra Bullock está realmente melhor no papel da mãe adotiva, ou se eu com algum protecionismo disfarçado de discurso moral não estou privilegiando Gaboury Sidibi por ela ser negra, obesa e fora de qualquer padrão para estar no elenco de uma produção decente, vivendo um personagem que mal dirigido pode virar um estereótipo desagradável.
Não vi o grande vencedor da noite, Guerra ao Terror, da diretora premiada Kathryn Bigelow, apresentada sempre como a ex-senhora James Cameron, como se isso fosse cartão de visitas. Além desse, recebeu ainda o oscar para melhor filme, edição de som, mixagem de som, edição (segundo Martin Scorcese, a essência da Sétima Arte!) e roteiro original, do jornalista BLÁ-BLÁ-BLÁ, o que me fez desejar ainda mais vê-lo e lamentar profundamente que ele tenha sido exibido em Belém ao longo de uma única semana, na chamada sessão Moviecom Arte, o que significa uma medíocre exibição única às 17 horas. Filmes considerados de arte tendem a ser algo obscuros, metafísicos, intelectualóides, destinados a um público seleto, privilegiado e pelo visto, ocioso. Às vezes, quando Deus dá bom tempo, os vencedores de melhor filme voltam à cena. Tomara. Desta vez, em seu devido lugar, já que na verdade a tal sessão de arte é destinada a filmes de baixo apelo público e que não arriscaria a rentabilidade da empresa que ainda pode pagar de séria e apoiadora da cultura. Afinal, dentro de um contexto obra de arte, Xuxa e o Mistério de Feiurinha, há semanas em cartaz em várias sessões também é arte.
Né?!!

sábado, março 06, 2010

AQUELES DOIS...




Para ler e depois ler Caio F, que faz, ele sim, parecer essa coisa de igual ser de verdade!)


Homossexualidade não é tema novo no cinema. Desde a sutileza dos diálogos de Ben Hur passando pelos vários matizes e glitteres de deboche, violência, romantismo, até o recente desencontrado amor de Jack Twist e Ennis Del Mar em Brokeback Mountain. Logo, contar uma história cujo foco seja esse precisa de um diferencial. E Aluísio Abranches apostou na consangüinidade e no incesto para contar seu Do Começo ao Fim (Brasil, 2009). Mas a ousadia acaba aí! Desde o início percebemos que aquilo não pode dar em outra coisa e quando Pedro (Jean P. Noher), pai de Francisco, questiona Julieta (Julia Lemmert), ex-esposa e mãe do garoto se ela não teme que a intimidade excessiva com o meio-irmão Tomás acabe sexualizada, a resposta é um tímido “sim” de olhos perdidos. E nada mais. Aliás, esse negócio de meio-irmão é só pra atenuar o climão de incesto da coisa.
Francisco e Tomás (... e ... quando crianças e ... e ..., adultos) vivem um e para o outro num mundo idílico: uma mãe incondicionalmente amorosa e compreensiva, Alexandre (Fábio Assunção), um pai-padrastro capaz de sufocar suas dúvidas e medos pelo amor à esposa, uma ama (seria esse o papel de Louise Cardoso?), uma casa linda, confortável, dinheiro bamburrando e ninguém mais. Nenhuma outra criança, empregados, escola, vizinhos e até mesmo o esporte dos meninos, a natação, prescinde de uma equipe. Como não se apaixonar (ou criar uma dependência?) daquele que é a sua mais presente referência?!
Daí tão logo se vêem sós Francisco e Tomás se entregam um ao outro como se aquilo fosse o mais natural e plausível possível, sem qualquer impedimento moral (o fato de serem irmãos), social, ou o que quer que seja. E a cama que os recebe, branca, imaculada, num quarto branco, imaculado, numa penumbra acolhedora e um discurso de “eu te amo porque...” que faz o sol nascer amarelinho, cedinho, cheio de um amor azulzinho, azulzinho, os redime de qualquer pecado, seja lá em que hemisfério for.
Aliás, ninguém questiona nada. Nem Alexandre, ou o treinador, ninguém. O que Abranches quer que pareça natural tira do roteiro o conflito, a falha trágica dos heróis lindos, másculos, honestos, queridos. Não existem curvas emocionais. O filme engata uma velocidade de cruzeiro e navega sem procelas. Daí eu vou discutir o quê?! O mundo não existe. Só existem Francisco e Tontom.
Quando os dois se separam pelo treinamento de Tomás na Rússia (!) os textinhos sobre ciúmes não convencem ninguém, assim como o sexo virtual. Francisco definha como um dependente químico e sua tentativa de transgressão é frustrada não por culpa ou moralidade própria, mas da moça que ao ver a aliança em seu dedo decide ir embora mesmo desmentindo a própria fala anterior “Se ele tem alguém esse alguém tem um problema porque ele é meu!”. Cadê aquela atitude? De fêmea fatal a madre da Castíssima Irmandade das Mantenedoras de Lares em alguns poucos fotogramas!
Francisco não resiste e vai atrás do irmão e amante. Putz! Contei o final. Relaxa. Em dez minutos de filme a gente saca isso. E o filme termina, abrupto, e eu fiquei pensando numa frase da Elen Vaneau, personagem de Andréia Beltrão em Som & Fúria: “Essa história é uma idiotice. Um amor assim não existe!”

HUDSON ANDRADE
09 de fevereiro de 2010 – 11h06

sábado, junho 13, 2009

MUTANTES, EXTERMINADORES... NA DÚVIDA, DANCE.

Os quatro últimos filmes que assisti foram X-Men Origens: Wolverine, O Exterminador do Futuro 4: A Salvação, Dúvida e Valsa com Bashir, estes últimos no Líbero Luxardo, do CENTUR. Dúvida num domingo de temporal que foi de impressionar que o cinema, mesmo pequeno, estivesse lotado; Valsa num feriado solitário que doía.


WOLVERINE (X-Men Origins: Wolverine, EUA, 2009) é uma falácia. O roteirista David Banioff e o diretor Gavin Hood vãona cola do sucesso de X-Men, no peso da DC, no carisma do mutante com garras de adamantium. Empatia que é devida a Hugh Jackman e seu carão, costão, peitão, pernão, etc... Mas carisma só não basta para reaver os milhões que o próprio Jackman investiu no filme. Vejam, por exemplo, Russel Crowe. Ele podia ficar feliz com a boca escancarada cheia de dentes com o seu Gladiador e enveredar por continuações e filmes que só mudam o nome sem mudar o enredo, dos quais Hollywood é pródiga. Mas não. Los Angeles – Cidade Proibida, Uma Mente Brilhante e O Informante (mesmo feitos antes de Gladiador) estão aí pra mostrar o contrário, ainda que haja Mestre dos Mares. Mas e Hugh Jackman? A Senha, Van Helsing e agora Wolverine. Caras e bocas, músculos à mostra, testosterona vazando pela tela. História que é bom, nada. Aquelas subversões que sempre ocorrem de uma linguagem para outra, efeitos especiais estonteantes, brecha para um próximo filme e só. Ejaculação sem prazer.



O EXTERMINADOR DO FUTURO 4: A SALVAÇÃO (Terminator Salvation, EUA, 2009) é mais filme. Desses de ação, com todas as idiossincrasias que essa fala carrega quando eu as digo. Machos, mulheres masculinizadas – as não masculinizadas são dadivosas, servis e de grandes olhos lacrimejantes! –, atitudes heróicas, redenção e rajadas de metralhadoras pra matar um Aedes aegypti. Aqui a vaidade de um ator custou ao filme uma maior linearidade e consisão. Christian Bale foi chamado para viver Marcus Wright, personagem que acabou ficando com Sam Worthington. Bale aceitou o trabalho com a condição de viver John Connor, o líder da Resistência contra a Skynet, mas quando leu o roteiro, percebeu que Marcus era o personagem principal e exigiu mais falas e maior visibilidade em cena, o que provocou os tais problemas de linearidade do filme. O que mais se vê é Bale voando, saltando no mar bravio, lutando. “Eu sou John Connor” volta e meia ecoa no filme. Mas não adiantou. Mesmo passando para um próximo filme – e não duvidem que haja um próximo filme!- Connor é menor que Wright e é do condenado à morte que busca uma segunda chance que se vai lembrar. Bale deu um tiro no pé. E falando nisso e em próximo filme, A Salvação, cuja ação se passa em 2018, no apocalíptico futuro apenas sugerido nos filmes anteriores, nos coloca exatamente no ponto em que nos idos de 1984 começava O Exterminador do Futuro, ainda com Arnold Schwarzenegger como o monossilábico T-800 – que agora volta completamente digital, já que o ator não aceitou participar do filme dadas as suas ocupações como governador da Califórnia – e James Cameron – o idealizador de tudo – na direção. Daí ou temos um roteirista inteligente e criativo (?!) ou a desgraça estará feita. E sem um bom roteiro (e talvez até com um!) McG (As Panteras e As Panteras Detonando) não é Cameron e a Resistência terá uma batalha bem maior e mais inglória do que enfrentar T-800s!


DÚVIDA (Doubt, EUA, 2008) é dirigido por John Patrick Shanley, cujo roteiro é uma adaptação da peça teatral de sua autoria, vencedora do Pulitzer e de quatro Tonys, contando agora com cinco indicações para o Oscar. O filme tem um elenco espetacular encabeçado por Meryl Streep e Philip Seymour-Hoffman, protagonistas das melhores sequências de um filme cheio de grandes diálogos, palavras veladas, meias verdades, olhos baixos, enfrentamentos, torneios de força em que o poder está na persuasão enquanto as mãos se ocupam com terços e delicadas xícaras de café.
A irmã Aloysius Beauvier (Streep) é dessas mulheres imbuídas de um objetivo cego do qual não se desvia por mais consistentes sejam as evidências em contrário. Rígida, autoritária, centralizadora, esconde nessa capa de sisudez uma alma fragilizada, cheia de receios e dúvidas. Alertada pela jovem irmã James, vivida pela atriz Amy Adams, natural, numa performance tocante, de um possível assédio contra Donald Miller (o ótimo Joseph Foster),primeiro aluno negro da tradiconal escola St. Nicholas, pelo liberal padre Flynn (Hoffman), a irmã Aloysius inicia uma batalha que vai além de questões raciais, ou sexuais. É uma disputa por poder de alguém que busca uma brecha para se sobressair num 1964 em que ela é constantemente constrangida pelo seu sexo, sua posição na hierarquia religiosa, valores. Destaque para as sequências em que a irmã Aloysius conversa com a mãe do jovem Donald (Viola Davis) cuja linha de raciocínio não cabe no entendimento inflexível da religiosa e no embate final entre Beauvier e o padre Flynn, desses textos que nos pegam tanto pela escrita quanto pela atuação precisa de excelentes atores.
Num filme quase tão silencioso e sombrio quanto os corredores da St. Nicholas, sobram dúvidas: dos personagens, nossas, dos valores de cada um, do que é certo, do que é errado e se há certo e errado. Dúvidas que se espalham como plumas ao vento, impossíveis de serem totalmente resgatadas. Resta-nos manter distância – pretensa isenção –, ou buscar a verdade, custe o que custar.


VALSA COM BASHIR (Val sim Bashir, ISR, ALM, FRA, EUA, FIN, SUI, BEL, AUS, 2008) tem roteiro e direção de Ary Folman. Um semi-documentário de animação que tem como pano de fundo a guerra no Líbano. Bashir é uma referência a Bashir Gemayel, líder miliciano cristão de extrema-direita, opositor de muçulmanos nacionalistas e militantes palestinos, eleito presidente do Líbano e assassinado dois dias antes de tomar posse durante a guerra civil do Líbano, fato que provocou uma violenta cruzada entre os grupos rivais.
Ao ouvir um sonho recorrente do amigo Boaz, parceiro no front, o cineasta Folman percebe que ele mesmo não tem lembranças daquela guerra e decide procurar antigos camaradas e a partir de suas histórias, refazer a sua própria. Misturando recordações e explicações médicas sobre memórias e traumas, Folman vai remontando seu quebra-cabeças, não sem dúvidas, que parecem aumentar a cada nova entrevista, até achar-se no meio de um caos do qual ele tentou fugir seja por culpa, medo, ou simplesmente por não compreender uma guerra que, em essência, não tem explicação.
A narrativa é limpa, linear, objetiva; as histórias se sucedem com crescente intimidade entre quem conta e quem escuta – o que nos inclui. A animação, longe do virtuosismo da Pixar onde grãos de areia e pêlos dançam individualmente ao sabor do vento não é menos impactante. Yoni Goodman utilizou técnicas de animação em Flash, clássicas e 3D para amenizar imagens que, de outra forma, seriam duras demais pra suportar. Como as imagens jornalísticas apresentadas no final do filme e que bem gostaríamos também de apagar e esquecer. Destaque para a sequência inicial, o tal sonho de Boaz, com vinte e seis cães ferozes, e outra, noturna, de uma cidade destruída iluminada por foguetes sinalizadores. De um vigor e uma beleza impressionantes. A trilha sonora de Max Richter é um dos pontos altos de Valsa com Bashir e ouvir “This is Not a Lova Song” dos ingleses do Public Image Ltd. me trouxe umas tantas lembranças e me colocou de alguma maneira dentro daquela busca, por meus particulares anseios.
É muito bom isso de ir atrás de si. Apesar do medo que dá!

HUDSON ANDRADE
12 de junho de 2009 AD
9h00

quinta-feira, julho 31, 2008

DAS TREVAS VÊM OS CAVALEIROS.

Batman, personagem criados pelos americanos Bob Kane (1915 – 1998) e Bill Finger (1914 – 1974), deve ser muito respeitado. Perto das outras adaptações dos quadrinhos, o Paladino de Gothan tem muita sorte. O Homem-Aranha 3 e Superman são peças típicas do mau cinema americano: imperialistas, rasos, medíocres. Homem de Ferro e Hulk 2 eu não vi e não posso opinar. Daí que é correto dizer que Batman veio das trevas. As trevas das adaptações ruins dos heróis dos quadrinhos, da palhaçada em que terminou a série dirigida por Tim Burton e Joel Schumacher. Trevas que nas mãos de Christopher Nolan promoveram o (re)começo do Homem Morcego. Batman Begins (EUA, 2005) e o recente O Cavaleiro das Trevas devolveram ao herói o seu verdadeiro trono: as sombras de Gothan City.

Batman é meu herói preferido dos tempos em que, encarnado por Adam West dava Socs!, Pans! Tuns!, em vilões com figurino duvidosos. Só fui retomar, ou incorporar, o gosto quando Burton lançou Batman, em 1989. Então foi uma enxurrada de revistas, séries, botons, camisetas, figurinhas, tudo, trancafiados depois de Batman e Robim (EUA, 1997) e porque esse negócio de coleção gasta uma boa grana. Hoje os meus olhos de fã compartilham a imagem do Homem Morcego com uma visão crítica e pretensiosa do cinema e da arte em geral.

Batman: O Cavaleiro das Trevas (Batman – The Dark Knight, EUA, 2008) é um ótimo filme. Suas quase três horas de duração mostram que Nolan queria algo além do comercial. O diretor construiu seu filme com calma, desfiou pontas, desfez nós, abriu brechas e amarrou uma história que grita por uma continuação, mas pode viver perfeitamente sem ela. O grande barato do filme é que Batman é o protagonista oficial e quando voltamos a atenção para ele nos desviamos dos personagens secundários. Enquanto expressão artística é a chance de dar aos outros atores uma real função na trama, alicerçando o enredo em vários pilares seguros; enquanto mitologia mostra o Batman (Christian Bale) como a infantaria que abre caminho para o verdadeiro exército: a honestidade de Jim Gordon (Gary Oldman), a sensatez de Alfred (Michael Caine), a obstinação de Harvey Dent (Aaron Eckhart), a nobreza de Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal) e, claro, a loucura do Coringa (Heath Ledger), o contrapeso, o caos e, apesar de representar o mal, a luz sobre quem realmente é o justiceiro que vigia a cidade de dentro da noite.

No filme de Nolan o Coringa é imenso! Em parte pelo proclamado processo de construção do personagem, pela impressionante entrega de Ledger, mas também porque o roteiro põe em seus atos e falas o destino de um mito e de toda Gothan. Sozinho, ele instaura a desordem na já conturbada vida da cidade, enreda todos numa teia intrincada e, não sem a devida e inteligente resistência, vai ganhando terreno até chegar ao seu real objetivo: Batman. Não para detê-lo, mas para justificá-lo, porque só assim sua existência é viável. No entanto, Heath Ledger não merece o Oscar, pelo menos não até sabermos quem concorreria com ele. Há grandes méritos no trabalho do australiano nascido 29 anos atrás e morto no último 22 de janeiro por overdose acidental de medicamentos. Sua propalada indicação ao prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood é motivada claramente pela comoção em torno do trágico incidente e pela propaganda gratuita (?) para a Warner que, ao negar os efeitos devastadores de interpretar o Palhaço do Crime sobre a morte de Ledger, só reforça a lenda de um personagem maior do que o seu intérprete.

O Coringa nasceu das mãos de Jerry Robinson* em parceria com os criadores do Batman, em 1940. Robinson afirma que originalmente ele era um palhaço metido a gênio do crime e sua caracterização remetia a traquinagem. O Coringa psicopata e maldito foi ganhando corpo e crescendo posteriormente. Ainda assim o cartunista não acredita que interpretá-lo perturbe os atores, como afirmou Jack Nicholson que viveu o algoz do Batman no longa de Burton. Para Robinson, César Romero (1907 – 1994) que interpretou o vilão na série de TV dos anos 1960 é quem fisicamente mais se aproxima da sua criatura, mas faz coro com os amigos de set e o diretor Terry Gilliam – para quem o ator trabalhou em The Imaginarium of Doctor Parnassus, que ficou incompleto – de que Heath Ledger era um grande ator. Exatamente por isso,diz, ele não se deixaria “contaminar” pelo personagem. Afirmam ainda que a criação de Ledger para o Coringa é definitiva, o que certamente impedirá, ou dificultará Nolan de substituir o ator ao usar o personagem na possibilidade de um terceiro filme.

A loucura salta aos olhos em O Cavaleiro das Trevas. Se o Coringa a cospe na nossa cara, é no cidadão comum que ela realmente vive, ora gritando por socorro para logo em seguida condenar, num senso de justiça que é distorcido pela dor, nos dois pesos e duas medidas em que se pesa a vida humana, na corrupção. E como falamos em humanos, é preciso também dizer da retidão ainda que ao preço da própria vida.

Ao mergulhar nas sombras, Batman nos dá a verdadeira dimensão da palavra herói.

HUDSON ANDRADE

Belém, Pará, 30 de julho de 2008 AD. 12h50

(*) Conforme artigo de Rodrigo Fonseca, publicado em O Diário do Pará, caderno D, página 4, em 15 de julho de 2008.

NOTA: Alguns links remetem a informações em inglês. Desculpem os que não dominam o idioma. Tentei dar ao texto um conteúdo maior e exatamente a busca de um conteúdo mais completo e/ou mais confiável é que direcionaram a escolha dos links. Meu texto, contudo, pode ser lido sem a necessidade de acesso às referidas informações.

quarta-feira, maio 21, 2008

BROCARDOS. (2)

Através do Decreto Nº 6.325, de 27 de dezembro de 2007, a ANCINE – Agência Nacional do Cinema estabelece cotas para a exibição de filmes nacionais de longa metragem. Dia desses num jornal, li que algumas empresas preferiam pagar a multa aplicada em caso de não cumprimento do referido decreto do que ocupar suas salas com filmes ruins (no caso citado, Os Poralokinhas – pelo título, já se vê tudo!). Quem pode culpá-los? Distribuidores e exibidoras são, antes de mais nada, empresas. Prestam um serviço e esperam retorno financeiro.

Outras tentativas já aconteceram. Quando do lançamento do filme Dias Melhores Virão (Brasil, 1989), a aposta era na simultaneidade cinema e televisão. Então, numa segunda-feira, a Tela Quente da Globo exibia o filme de Cacá Diegues, uma forma de incentivar as pessoas a vê-lo na tela grande. Alguém aí conhece alguém que foi ao cinema? Alguém aí pelo menos sabia da existência desse filme?

A chamada Cota de Tela lembra muito as outras Cotas do Brasil. A tentativa é louvável: garantir a exibição da produção cinematográfica nacional, mas como toda ação compulsória, esbarra no desconforto e na arbitrariedade. O que deveria garantir a exibição de filmes, qualquer que seja a sua nacionalidade, é sua qualidade. Ninguém pode negar a existência de filmes de extremo bom gosto e refinado senso estético em nossa produção brazuca, desde os feitos pelos glamourizados Walter Salles e Fernando Meireles, passando por pequenas jóias de outros e talentosos diretores e diretoras. Todos têm impresso a alma brasileira e nossos costumes. Existe como uma assinatura auriverde que nem sempre agrada ao público comum. Quantos comentários já não foram feitos sobre “mais um filme sobre a ditadura”? E, no entanto, (quase) ninguém se furta a ver “mais um filme sobre o Vietnã”. Desnecessário dizer que temos muita, mas muita porcaria, filmes de apelo fácil e de humor duvidoso em nada diferentes das imundícies americanas com tortas, pânicos, bichos, bebês e outras sandices envolvendo minorias e sexo. A diferença é que eles têm dinheiro pra gastar e nós não. Além do mais, se percebem que o filme será um fiasco, mandam direto para as locadoras e não ocupam as concorridas salas de projeção com algo sabidamente inviável. Este um exemplo que pode ser seguido!

A defesa que Rodrigo Santoro fez da filmografia brasileira nesta edição do Festival de Cannes é justa, tanto quanto citar produções menores como A Festa da Menina Morta (2008), estréia na direção do talentosíssimo Matheus Nachtergaele, louvando-lhe a qualidade. Pronto, voltamos a ela!

Os investimentos em áudio-visual no país ainda são modestos (estou sendo educado!) – ainda que muito superiores aos investimentos em teatro. Uma vergonha que eu comento depois! –. Não existem empresas (os chamados estúdios) cuja ação seja a de produzir filmes; essa dependência estatal é ridícula e me faz pensar que ainda não saíamos de todo dos regimes opressores de governo. Como esperar alguma coisa que possamos realmente chamar de produção nacional? Daí a criar cotas como paliativo é abusar da minha inteligência. Vá pagar na cabeça de outro!!!

(Só pra constar. Ainda não vi o filme de Nachtegaele. Não sei dizer nada dele além do que li e isso não é muita base para avaliações. Apenas confio no seu trabalho.)

Hudson Andrade

Belém, Pará, 21 de maio de 2008 AD

12h25

terça-feira, abril 22, 2008

ELIZABETH: A ERA DE OURO

Domingo, 20 de abril, assisti Elizabeth: A Era de Ouro (Elizabeth: The Golden Age, Inglaterra / França, 2007). Saí de casa naquele impulso básico de fazer algo decente num domingo fim-de-tarde-feriadão chuvoso e porque era meu interesse ver como funcionava a corte na qual William Shakespeare – atual objeto do meu trabalho, em A Comédia dos Erros – prosperou. Isso o diretor Shekar Khapur ficou devendo. Na verdade o subtítulo é um equívoco. Da tal Era de Ouro vemos apenas uma referência enquanto a câmera gira em torno de Elizabeth I (Cate Blanchett) num brilhante vestido branco, coroada como a Estátua da Liberdade (a referência e o desagrado são meus. O filme nem americano é!). A história é um recorte da disputa entre a protestante Rainha Virgem e Felipe II (Jordi Mollá), rei da Espanha, fundamentalista, testa de ferro da igreja católica e que por artimanhas políticas consegue apoio do Vaticano e da Inquisição para atacar o reino inglês.
Parece um retalho muito pequeno, mas a direção consegue fazê-lo render nas conspirações internas entre os dois reinos, jogos de espionagem e dissimulação, atos de traição, covardia e bravura. Na visão de Khapur a decapitação de Mary Stuart (Samantha Morton), rainha dos escoceses e pretendente ao trono inglês, aprisionada por Elizabeth no castelo de Fotheringhay e estopim para a guerra santa de Felipe II, é responsabilidade indireta e dolorosa da rainha inglesa, enredada na conspiração espanhola que não mede esforços, dinheiro e amoralidade para alcançar seu intento. A cobertura do bolo, atrativo para o público habitual das vesperais é o amor proibido entre Elizabeth e o aventureiro Sir Walter Raleigh (Clive Owen). O filme todo é pródigo em referências às responsabilidades, limites e castrações que o poder traz, seja dos súditos, “mortais, mas com a possibilidade de amar”, nas palavras de Raleigh, sobretudo na realeza, no choro sufocado da rainha entre suntuosos vestidos, palácios e pretendentes tão prisioneiros quanto ela. Mesmo a morte de Stuart é imposta pela sua condição de regente. Ante a relutância de Elizabeth, seu conselheiro Sir Francis Walsingham (o excelente Geoffrey Rush) lembra que a misericórdia real custará a paz de todo o povo.
Com uma cenografia e direção de arte econômicas, mas belas, iluminação eficiente, que dá um ar dramático às cenas, locações suntuosas, figurino arrebatador vencedor do Oscar 2008, e uma trilha sonora coerente que age nos momentos certos criando devidamente os climas das cenas – vide a narrativa das viagens de Raleigh à monarca e suas aias, Elizabeth: A Era de Ouro é um filme que vale a pena assistir sem ser inesquecível. Não é histórico o bastante, nem totalmente romântico, ou cheio de batalhas. Tem o bom e velho discurso da rainha ante seus minguados soldados prestes a oferecer o pescoço ao evidentemente maior poderio inimigo e fatos quase miraculosos que favorecem os poucos e bons ingleses contra os numerosos e malvados espanhóis e seus aliados. Aliás, mais de uma vez a luz incide sobre Blanchett dando à rainha ares de criatura divina que do alto dos rochedos comanda os ventos e tempestades, iniciando uma nova e próspera era que se eu quiser conhecer melhor, terei de buscar nos livros de história.

HUDSON ANDRADE
Belém, Pará, 22 de abril de 2008 AD
10h05