Dies Irae.
“É como acordar de um pesadelo”, escrevi.
Pus a caneta em suspenso e fiquei olhando as paredes por tanto tempo que o suco (intocado) ao meu lado se diluiu e transbordou.
Recolhi com vagar algumas páginas manchadas, olhei-as com detida atenção e o que eu julguei dispensável juntei à pilha de bolas e picados, provocando um pequeno desmoronamento.
Segui com os olhos uma bolota amassada com tal precisão que se poderia julgá-la perfeitamente redonda. Ela correu entre seus pares, deslizou pelas lajotas e foi bater na porta trancada.
Pela fresta rente ao chão uma luz se acendeu de súbito. Ato contínuo, apaguei o abajur, prendendo a respiração, e só quando o fôlego me faltou e a vista já divisava os vultos dos poucos móveis do quarto é que tornei a acendê-lo.
Rex tremendae.
Fui ao banheiro e fiz um varal com as outras páginas. As que supus importantes. Algumas seriam reescritas antes de serem tomadas pelas formigas.
Algumas folhas exibiam círculos cinzentos com bordas esverdeadas. Outras, bordas marrons e outras ainda avermelhadas. Estas se espalhavam como rachaduras entre a minha caligrafia. Aqueloutras eram como mórulas. As primeiras eram como um bosque visto do alto.
Era preciso se abaixar e desviar para chegar do outro lado do cômodo, alcançar a pia e deixar a água fria escorrer pelo ralo, entre os dedos, pela barba enorme, de novo pelo ralo até, por fim, recolher-se novamente cano adentro.
O cheiro amargava a boca.
Empertiguei o corpo e contemplei o espaço como um suserano abastado... generoso... compassivo... misericordioso...
Confutatis.
Alguém chamou meu nome?
Alguém entrou no quarto?
Alguém leu o que eu tinha escrito?
Haveria alguém ali do outro lado da parede decorada com delicados lírios?
Haveria alguém no corredor, na escada, na sala de estar, na calçada em frente, no bairro ao lado, na cidade próxima, além do oceano...?
Haveria alguém neste mundo?
Haveria alguém no Outro?
Havia eu?
Pus a cabeça fora do banheiro.
Lacrimosa.
Nada.
Pela fresta da porta, rente ao chão, não entrava mais nenhuma luz.
Sentei à mesa, tomei da caneta, outra folha de papel.
“É como acordar de um pesadelo”, escrevi.
Amassei a folha com tamanha precisão que se poderia julgá-la perfeitamente redonda. Lancei-a entre seus pares provocando um pequeno desmoronamento.
Mais uma folha de papel.
Fiz uma tira, enrolei. Comi.
Mais uma.
Outra.
Outras.
E outras e não parei mesmo quando o fôlego me faltou e a vista mal divisava os vultos dos poucos móveis do quarto.
Era como acordar num pesadelo.
HUDSON ANDRADE
27 de julho de 2013 AD
10h10
CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&frm=1&source=images&cd=&cad=rja&docid=M5-zXBwvVDDJ3M&tbnid=Nzb5guUsKvIAaM:&ved=0CAUQjRw&url=http%3A%2F%2Fluizmeira.com%2Ffungos.htm&ei=mc_zUbv9I4nO8QScrYGoBQ&bvm=bv.49784469,d.eWU&psig=AFQjCNGfrEfD5hVPZwx6eCzQbETNUpHH_A&ust=1375019222517463
Apaga-te, ó delicada chama! Apaga-te!A vida é sombra passageira. Um mísero ator que chega, agita a cena inteira, diz sua fala e sai. e ninguém mais o nota. MACBETH (William Shakespeare)
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sábado, julho 27, 2013
EU 33
Dies Irae.
“É como acordar de um pesadelo”, escrevi.
Pus a caneta em suspenso e fiquei olhando as paredes por tanto tempo que o suco (intocado) ao meu lado se diluiu e transbordou.
Recolhi com vagar algumas páginas manchadas, olhei-as com detida atenção e o que eu julguei dispensável juntei à pilha de bolas e picados, provocando um pequeno desmoronamento.
Segui com os olhos uma bolota amassada com tal precisão que se poderia julgá-la perfeitamente redonda. Ela correu entre seus pares, deslizou pelas lajotas e foi bater na porta trancada.
Pela fresta rente ao chão uma luz se acendeu de súbito. Ato contínuo, apaguei o abajur, prendendo a respiração, e só quando o fôlego me faltou e a vista já divisava os vultos dos poucos móveis do quarto é que tornei a acendê-lo.
Rex tremendae.
Fui ao banheiro e fiz um varal com as outras páginas. As que supus importantes. Algumas seriam reescritas antes de serem tomadas pelas formigas.
Algumas folhas exibiam círculos cinzentos com bordas esverdeadas. Outras, bordas marrons e outras ainda avermelhadas. Estas se espalhavam como rachaduras entre a minha caligrafia. Aqueloutras eram como mórulas. As primeiras eram como um bosque visto do alto.
Era preciso se abaixar e desviar para chegar do outro lado do cômodo, alcançar a pia e deixar a água fria escorrer pelo ralo, entre os dedos, pela barba enorme, de novo pelo ralo até, por fim, recolher-se novamente cano adentro.
O cheiro amargava a boca.
Empertiguei o corpo e contemplei o espaço como um suserano abastado... generoso... compassivo... misericordioso...
Confutatis.
Alguém chamou meu nome?
Alguém entrou no quarto?
Alguém leu o que eu tinha escrito?
Haveria alguém ali do outro lado da parede decorada com delicados lírios?
Haveria alguém no corredor, na escada, na sala de estar, na calçada em frente, no bairro ao lado, na cidade próxima, além do oceano...?
Haveria alguém neste mundo?
Haveria alguém no Outro?
Havia eu?
Pus a cabeça fora do banheiro.
Lacrimosa.
Nada.
Pela fresta da porta, rente ao chão, não entrava mais nenhuma luz.
Sentei à mesa, tomei da caneta, outra folha de papel.
“É como acordar de um pesadelo”, escrevi.
Amassei a folha com tamanha precisão que se poderia julgá-la perfeitamente redonda. Lancei-a entre seus pares provocando um pequeno desmoronamento.
Mais uma folha de papel.
Fiz uma tira, enrolei. Comi.
Mais uma.
Outra.
Outras.
E outras e não parei mesmo quando o fôlego me faltou e a vista mal divisava os vultos dos poucos móveis do quarto.
Era como acordar num pesadelo.
HUDSON ANDRADE
27 de julho de 2013 AD
10h10
CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&frm=1&source=images&cd=&cad=rja&docid=M5-zXBwvVDDJ3M&tbnid=Nzb5guUsKvIAaM:&ved=0CAUQjRw&url=http%3A%2F%2Fluizmeira.com%2Ffungos.htm&ei=mc_zUbv9I4nO8QScrYGoBQ&bvm=bv.49784469,d.eWU&psig=AFQjCNGfrEfD5hVPZwx6eCzQbETNUpHH_A&ust=1375019222517463
quarta-feira, novembro 23, 2011
EU 32
Para ler ao som de Eurythmics: “Sweet dreams are made of this...”
“Dormir, talvez sonhar”, diria Hamlet. Sonhar: olhar pra dentro de si mesmo, ou olhar pra fora?
Se tudo o que há no sonho sou eu mesmo, sou parede, praça, mar e mistério. Se tudo o que se sonha está no subconsciente, o meu se chama lascívia. Se um sonho é um caminhar da alma, a minha tem tanta sede quanto meu corpo.
“Dormir, talvez sonhar...”, repito Shakespeare e viro pro lado vazio da cama. Desço a mão até meu pau rígido e aperto até que doa. O ar condicionado não refreia o suor da testa. Cerro as cortinas tapando o luar e caminho em riste pelo escuro do quarto. O relógio anuncia às cinco horas e daqui a pouco trabalho e estarei novamente exausto, olhos vermelhos, olheiras, mau humor.
Sento na cama, seguro o falo na mão que treme. O vai-vem dura pouco tempo e o jato me dá um coice contra o colchão de onde levanto duas horas depois com o toque irritante e insistente do despertador do celular.
Tiro a roupa, espalho espuma pelo rosto, corro a lâmina. Alguém bate à porta. Entreabro. Ele, sempre ele, sempre a mesma camiseta preta com letras brancas escrito sei lá o quê, o bermudão.
“Deixa eu entrar!”, ele sussurra.
A mão treme. O coração dispara. Bato a porta com força.
O som me acorda.
Desço a mão até meu pau rígido e aperto até que doa...
...espalho espuma pelo rosto, corro a lâmina. Alguém bate à porta. O toque é sutil, quase inaudível, mas o susto desnorteia a mão e o sangue brota no pescoço logo abaixo do queixo. Mais três toques suaves. A mão já avança para a maçaneta, mas pára no meio do caminho.
Se eu escuto a sua respiração tranqüila, ele certamente ouvirá a minha, ofegante. Tapo boca e nariz. Recuo dois passos. Silêncio.
Acordo quando o relógio anuncia às cinco horas. Sento na cama. O vai-vem. O coice. O toque irritante e insistente do despertador do celular.
Alguém bate à porta. Três toques. Suaves. Mas a mão desnorteada faz brotar sangue no pescoço logo abaixo do queixo. Pela porta entreaberta eu o vejo: ele, sempre ele, a mesma camiseta preta com qualquer coisa escrita e o bermudão.
“Deixa eu entrar”, ele sussurra. Abro a porta o suficiente para que ele passe. Giro a chave duas vezes. Sinto no frio das minhas costas arrepiadas o braseiro do seu corpo magro e moreno.
Me ajoelho diante do volume enorme que ameaça rasgar o bermudão e aperto com cuidado seu falo para que não doa. Entreabro os lábios. Chupo sua pica dura com fome de necessitado. Ele se curva. Olha nos meus olhos, tranqüilo; a próxima a boca da minha, mas segue até o pescoço e lambe o sangue que já alcança o peito.
Acordo com o toque irritante e insistente do despertador do celular. Estou exausto, olhos vermelhos, olheiras. Aborto um sorriso maroto. Daqui há pouco trabalho.
Nem trânsito, nem chuva, nem o calor insuportável da tarde. Tudo parece certo. A música nos fones ajuda a passar o tempo, a chuva esfria o asfalto e o sol ilumina a cidade de um jeito ímpar. Aceitei até um barzinho com os colegas de trabalho. Tantos convites recusados. Por que não? “Cerveja, não, que eu não bebo! Tem Coca em lata? Normal, claro! Com gelo e limão, por favor.” Pedi ao garçom depois de lhe perguntar o nome. Um rapaz magro, simpático e atencioso.
Fomos os últimos a sair. “Eu pego um táxi!”, agradeci, recusando a carona. “Não esquenta a cabeça.” De dentro do carro eu vi o garçom saindo pela porta de enrolar semi-aberta do boteco. Bermudão, camiseta preta com qualquer coisa escrita em branco. Prendi a respiração. “Pra onde, senhor?”. Só quando o motorista repetiu mais forte é que eu vi que divagava e dei o endereço. O carro seguiu reto e acabamos por passar pelo rapaz que caminhava tranqüilo madrugada adentro.
Fiz o taxista parar e ofereci carona. Ele entrou e sentou no banco da frente, agradecendo. Ninguém disse nada até a porta da minha casa.
O vento noturno não refreia o suor da testa. As nuvens cerram o céu tapando o luar. Em riste caminho até a porta, giro a chave duas vezes. Entreabro. Ele me segue calmamente e com paciência espera atrás de mim. Sinto no frio das minhas costas arrepiadas o braseiro do seu corpo magro e moreno. Abro a porta o suficiente para que ele passe. “Quer entrar?”, sussurro.
Ainda na sala me ajoelho diante do seu pau duro, aperto de leve para que não doa enquanto o tiro da bermuda que já ameaça rasgar. Chupo com fome de necessitado. Ele se move de leve. Vai-vem. O jato. O coice. Gemidos quase inauditos.
Ele quer mais. Sempre quer. Eu quero mais. Sempre.
Caminhamos em riste para o quarto. Sento na cama. Tiro a roupa. Ele vem, aproxima a boca da minha e pede: “Deixa eu entrar?”
Minha mão treme. O coração dispara. Deito. Me entreabro. Suas mãos correm minhas costas. O toque é sutil. Algum peso. Segura meu pescoço com a esquerda logo abaixo do queixo. Suave.
A lâmina corre. Sem susto. Sua respiração tranqüila. A minha que cessa. Silêncio.
O relógio anuncia às cinco horas.
Dormir. Talvez sonhar.
HUDSON ANDRADE
23 de novembro de 2011 AD
10h57
Crédito da imagem: http://www.flickr.com/photos/gilrodrigues/page2/
quinta-feira, janeiro 08, 2009
EU 19
Aceitei o turno da noite com a gratidão de um refugiado. Chegava com o sol se pondo,quase uma hora antes do expediente e saía no azul-marinho-azul-celeste das primeiras horas. Protegido pelos óculos escuros, seguia para casa e depois de um banho frio, dormia até que o estômago reclamasse de fome.
Pelos bons serviços prestados, uma transferência para horário mais confortável. Recusei. Primeiro pensou-se em preguiça de topar com o entra-e-sai de gente na empresa, mas isso não parecia coerente. Então veio a suspeita da desonestidade. Averiguações feitas, nada de errado, exigi uma retratação do encarregado perante meus colegas de trabalho que eu não iria amargar a pecha de supeito nem de vítima. Ele se recusou. Então eu saio. Simples assim. Mas fiquei, uma vez que bons funcionários são tão difíceis de conquistar. Mas cá entre nós, segredou o diretor, por que diabos queres esse turno tão puxado? Gosto da noite. Simples assim!
Três anos e lá estava eu, o matinta-pereira, como os colegas brincavam. Só falta pedir fumo, completavam. Mas eu não fumava. Éramos eu, uma boa garrafa de café preto, forte, quente, meio amargo e o breu, o silêncio, as sombras que pregavam peças das quais eu ria bem voltando pra casa. Carnaval, Semana Santa, Círio de Nazaré, Natal, Ano Novo. Quantas vezes eu de boamente troquei minhas folgas pela diversão alheia?
No quarto e sala aos domingos, ouvindo fossas antigas, mudava o sofá-cama de lugar, arrumava as revistas na mesinha de palha-da-costa, meus santinhos na prateleira de metal e cozinhava macarrão, sempre com alguma receita nova copiada da TV de, sei lá, 15 polegadas, ou da internet do cyber da esquina.
A noite biologicamente convida ao sono e mesmo tendo dormido o dia inteiro, tinha horas em que os olhos pesavam e eu acordava já com a cabeça pra bater nos joelhos ou no tampo da mesa. Daí eu levantava, tomava café e fazia uma ronda. São tantas horas e tudo está bem, eu gritava brincando, ouvindo minha voz bater nos corredores vazios e penumbrosos.
Foi num espantar de cochilo desses que eu vi a sombra. Negra, como lhe convêm, silenciosa e esquiva como devem ser as sombras. E fugidia quando o olhar se fixa onde ela estava. Acostumado ao vazio, dei um pulo derrubando mesa, cadeira e café, a mão imediatamente no revólver. À frente, um longo corredor que ia bebendo a luz da minha sala nas suas salas vazias.
Caí numa gargalhada nervosa e me recompus, mas não dormi mais a noite toda. Fui para casa com uma sensação estranha, ainda que não sendo dado a superstições. Banho frio, sono. Desencanei.
Mas no outro dia e no seguinte e no outro ainda, lá estava novamente a sombra de pé, estática, fosse no corredor principal, no refeitório, no vestiário, atrás da minha mesa, às duas, às cinco. Não dormia mais. Passava as madrugadas vasculhando os cantos com uma lanterna, a mão ridiculamente no cabo do revólver, os ouvidos atentos para os quais quaisquer ruídos viravam passos, portas abrindo, trincos. Percebi então que a cada noite a minha negra companheira aparecia em um local cada vez mais distante da minha sala, como que tentando que eu a seguisse, até que eu cheguei ao velho depósito do qual nem eu tinha as chaves. Ao olhar pelo buraco da fechadura antiga, um vento gelado pareceu sussurar meu nome. Eriçado, corri de volta e lavei demoradamente o rosto na pia do banheiro, acendi todas as luzes, pus a arma sobre a mesa, queimei a língua com café. Pela manhã estava destruído.
Ainda assim falei com funcionários antigos, fucei anotações, fui à sede do jornal local e mesmo ao cartório: Nenhum acidente, ou vítima, ou catástrofe. O prédio fora erguido onde antes havia uma floricultura que fechou depois que os donos voltaram para Holambra.
Naquela noite eu apaguei novamente as lâmpadas, empunhei a lanterna e segui o longo corredor, o silêncio e a penumbra criando fantasias na cabeça. Em frente ao velho depósito, parei. O cadeado era antigo,mas resistente, a porta estava chaveada; as dobradiças pareciam ainda mais velhas do que a madeira do caixilho. De súbito, meti o pé na porta, arrancando-a dos seus encaixes. Entrei tateando um interruptor que não acendeu luz alguma. Com a lanterna, vasculhei o espaço. Vazio. Completamente vazio. Foi ao virar para a porta que eu a vi, desenhada contra a luz mortiça do corredor. Dei um grito, recuei dois passos e deixei cair a lanterna que apagou assim como as lâmpadas de fora.
Na completa escuridão, com o coração aos saltos e a respiração curta, tateava à procura da lanterna e da saída. Então a mão suave de alguém tocou a minha. Fiquei imóvel, mas nem pensei em reagir ao toque. A despeito da completa ausência de luz, o rosto era plenamente visível - os traços finos, lábios carnudos, olhos brilhando com uma paixão incontida. De pé frente à frente senti um ardor no peito tão forte que foi impossível não chorar. Aquela mão macia tocou meu rosto e seus lábios sorriram tudo.
E com um som de besouros as luzes do corredor se acenderam, piscando, e a lanterna iluminou meus pés. Da minha negra sombra nem sinal.
E um vazio foi tomando meu coração que até há pouco transbordava de algo bom.
Caminhei até a porta, recoloquei-a nos caixilhos como pude deixando a luz do corredor lá fora. Pensei sentir um leve roçar no meu ombro direito e com força exagerada quebrei a lanterna contra a parede.
E uma noite calma e plena me tomou inteiro.
Hudson Andrade
07 de janeiro de 2009 AD
17h30
quarta-feira, novembro 12, 2008
EU 17
Colo o nariz na janela do quarto do hotel. Prédio antiquado, limpo e arrumado. Uma construção, um estacionamento, uma barraca de camelô, um ponto de ônibus. E o Cristo Redentor, lá longe, encarapitado no seu morro temporariamente inacessível.
O medo da cidade desconhecida tinha sumido. Nem maravilhosa nem Babilônia nem quarenta graus nem indiferente. Tomei uma média com pão rances, almocei batata frita, jantei sopa de cebola, trabalhei, atravessei ruas, cruzei arcos, via praia de longe, o pecado de perto, trabalhei, dancei, ri, mas não chorei (o que é de se estranhar!).Peguei sol, trabalhei, tomei chuva. O Cristo,lá de longe, sumiu no meio da cerração.
Ao meu lado sempre tinha um bom amigo, o que dava alegria e reconforto. Mas a cidade não me reconhecia como eu era. Podia passar despercebido entre os nativos sem sotaque, cabeça chata ou cor de pele que merecesse um olhar mais atento. Isso me deixava mais seguro. Andava com desenvoltura certo que a má-fé não me pegaria desprevenido. O Cristo Redentor (Que horror! Que lindo!) nunca me olhou de frente.
E fui sumindo. É! Sumindo! Desaparecendo, ficando invisível! Notei isso a primeira vez quando pensei terem retirado o espelho do elevador social. Olhando a superfície polida sem me ver de volta tive um frio na espinha e depois um leve sorriso nervoso de que a pessoa esta prejudicando um julgamento. Quando desci, o rapaz de roupa social e mochila nas costas não retribuiu meu cumprimento. E todos tinham sido tão educados até agora, pensei! Na rua nenhuma diferença. Todos iam, vinham, davam encontrões e sequer se desculpavam. Desci a Rua da Carioca, entrei no metrô e ninguém me atendeu para vender o cartão. Os outros passavam à frente, não atendiam meus protestos. O tempo foi passando e eu fui me estressando. Bati no balcão, soquei o vidro. A moça e o rapazola de chinelo e bermudão recuaram assustados. Ela chamou o segurança. Ele se foi sob protestos. Eu também não me vi no espelho do guichê. Saí dali, pulei a catraca, entrei no vagão quando a porta abriu para os outros e me encolhi no ladinho da porta. Desci correndo, morrendo de fome, medo e dúvida. No restaurante do hotel, outro espelho e a certeza de que deixara de existir para os outros. No começo até que foi divertido: no banheiro um hóspede cubano oferecia o pau pro garçom de aliança no dedo esquerdo, sem notar minha presença nem quando a luz acendeu automaticamente à minha passagem; no décimo segundo andar comi o almoço deixado sobre uma mesa no corredor; assustei a camareira gorda do sétimo que fugiu com dificuldades, assisti um ou dois filmes e na igreja apaguei velas com sopros fortes, bailando entre os candelabros alterando ritmos e formas. Foi quando o padre jogou água benta na minha direção e eu não senti as gotas que percebi que aquilo estava ficando sério demais. Eu não era visto e logo não seria mais sentido. Voltei para o hotel. No caminho o Cristo, sempre de lado, recebia o brilho de um sol dourado.
Tomei as malas com dificuldade, joguei-as num táxi amarelinho e como não seria atendido pelo motorista, tirei-lhe calmamente as chaves, entrei no carro e saí, tomando o cuidado de fechar os vidros peliculados. Dirigia com cuidado e olhava para o retrovisor para ver se nenhuma viatura me seguia. Na linha vermelha, ao olhar pelo espelho, vi uma leve sombra de mim e quanto mais me afastava da cidade mais essa sombra ganhava contornos, cores e tons. No check-in a moça me deu a passagem com um olhar de estranhamento fixo em mim. O que era pior, meu Deus? Não ser visto, ou aquele olhar que misturava medo e curiosidade? Suspirei aliviado quando o comissário de bordo sorriu e disse boa tarde, senhor!
O avião subiu e o que eu vi do Cristo foram luzes e frágeis contornos. E luzinhas, como um grande bolo de aniversário, ou um cruzeiro no dia de finados. Outra bebida, senhor? Perguntou a jovem loura e uniformizada. Sim, água, por favor!
Indo, ou voltando, quis saber a senhora cheia de livros ao meu lado. Voltando! Respondi. Bom, não?! Ela sorriu. Muito!
E reclinei a poltrona.
Muito!!
HUDSON ANDRADE
11 de novembro de 2008.
12h30
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