Teu nome: mantra
que na cabeça roda
no peito sangra.
HUDSON ANDRADE
25 de janeiro de 2009 AD
8h10
Apaga-te, ó delicada chama! Apaga-te!A vida é sombra passageira. Um mísero ator que chega, agita a cena inteira, diz sua fala e sai. e ninguém mais o nota. MACBETH (William Shakespeare)
segunda-feira, janeiro 26, 2009
sábado, janeiro 24, 2009
HAI - LU - CAIS - TEN
Ser parte, ser só.
Estar pede tão pouco.
Permita-se ser.
HUDSON ANDRADE
19 de janeiro de 2009 AD
18h35
Estar pede tão pouco.
Permita-se ser.
HUDSON ANDRADE
19 de janeiro de 2009 AD
18h35
sexta-feira, janeiro 23, 2009
HAI - LU - CAIS - NINE
Razão, coração.
O comando exige.
O medo trava.
HUDSON ANDRADE
19 de janeiro de 2009 AD
18h31
O comando exige.
O medo trava.
HUDSON ANDRADE
19 de janeiro de 2009 AD
18h31
quinta-feira, janeiro 22, 2009
HAI - LU - CAIS - EIGHT
Paixão é e não
móvel, furiosa, banal.
Prima centelha.
HUDSON ANDRADE
19 de janeiro de 2009 AD
18h29
móvel, furiosa, banal.
Prima centelha.
HUDSON ANDRADE
19 de janeiro de 2009 AD
18h29
quarta-feira, janeiro 21, 2009
HAI - LU - CAIS - SEVEN
Mão na mão, outro.
Lábio no lábio, barba.
Uma vez não basta!
HUDSON ANDRADE
16 de janeiro de 2009 AD
17h22
Lábio no lábio, barba.
Uma vez não basta!
HUDSON ANDRADE
16 de janeiro de 2009 AD
17h22
terça-feira, janeiro 20, 2009
HAI - LU - CAIS - SIX
O rio que corre.
Desejo é segredo
marginal tesão.
HUDSON ANDRADE
16 de janeiro de 2009 AD
17h17
Desejo é segredo
marginal tesão.
HUDSON ANDRADE
16 de janeiro de 2009 AD
17h17
segunda-feira, janeiro 19, 2009
HAI - LU - CAIS - FIVE
Trança desfeita.
Sedoso velo marrom
outros pensares.
HUDSON ANDRADE
16 de janeiro de 2009 AD
17h00
Sedoso velo marrom
outros pensares.
HUDSON ANDRADE
16 de janeiro de 2009 AD
17h00
domingo, janeiro 18, 2009
HAI - LU - CAIS - FOUR
Mar esmeralda
introvertido âmbar
naufraga e ri.
HUDSON ANDRADE
16 de janeiro de 2009
16h29
introvertido âmbar
naufraga e ri.
HUDSON ANDRADE
16 de janeiro de 2009
16h29
sábado, janeiro 17, 2009
HAI - LU - CAIS - THREE
No anel do teu
cabelo o sol, suor,
teu corpo em pêlo.
HUDSON ANDRADE
15 de janeiro de 2009 AD
15h00
cabelo o sol, suor,
teu corpo em pêlo.
HUDSON ANDRADE
15 de janeiro de 2009 AD
15h00
sexta-feira, janeiro 16, 2009
HAI - LU - CAIS - TWO
Teu medo é o lacre
dessa cova gris
que a minha luz lambe.
HUDSON ANDRADE
15 de janeiro de 2009.
14h15
dessa cova gris
que a minha luz lambe.
HUDSON ANDRADE
15 de janeiro de 2009.
14h15
quinta-feira, janeiro 15, 2009
HAI - LU - CAIS - ONE
03 a 14 de janeiro de 2009. Por 12 dias minha alegria pendeu numa teia de aranha (e eu nem gosto desse bicho!).
Quis a Vida (ela?!) que 2 caminhos traçassem paralelos.
Pelo que poderia ter sido e não será e pelo que será diverso do que eu (nós) desejo (amos), 12 haikais, um para cada desses dias de ansiosa dúvida e felicidade.
Em tempo: os haikais são poemas de origem japonesa que chegaram ao Brasil no início do século XX. São exercícios de concisão e sobriedade, sem obrigatoriedade de rima e título, divididos em três versos de, respectivamente, 5, 7 e 5 sílabas. Tradicionalmente fazem referência à natureza (diferente da natureza humana, ainda que aceite o ser humano como integrante dessa natureza), refere-se a um evento particular e não generalizações e apresenta este evento "acontecendo agora".
Ao ser transcrito para outras línguas, ganhou certas liberdades de estilo, sem nunca perder o laço com sua forma original. Aqui, um exercício de quem é apaixonado pela palavra e abusado por nascimento.
Teu quarto escuro
pode florescer
lírio, trigo, joio.
HUDSON ANDRADE
15 de janeiro de 2009
12h39
Quis a Vida (ela?!) que 2 caminhos traçassem paralelos.
Pelo que poderia ter sido e não será e pelo que será diverso do que eu (nós) desejo (amos), 12 haikais, um para cada desses dias de ansiosa dúvida e felicidade.
Em tempo: os haikais são poemas de origem japonesa que chegaram ao Brasil no início do século XX. São exercícios de concisão e sobriedade, sem obrigatoriedade de rima e título, divididos em três versos de, respectivamente, 5, 7 e 5 sílabas. Tradicionalmente fazem referência à natureza (diferente da natureza humana, ainda que aceite o ser humano como integrante dessa natureza), refere-se a um evento particular e não generalizações e apresenta este evento "acontecendo agora".
Ao ser transcrito para outras línguas, ganhou certas liberdades de estilo, sem nunca perder o laço com sua forma original. Aqui, um exercício de quem é apaixonado pela palavra e abusado por nascimento.
Teu quarto escuro
pode florescer
lírio, trigo, joio.
HUDSON ANDRADE
15 de janeiro de 2009
12h39
sábado, janeiro 10, 2009
dançAmemóRiaTEatro (Parte II)
O indutor de Ronald Bergman é sua origem. O de Miguel Santa Brígida é sua paixão. A dança do Mestre-sala e da Porta-bandeira é uma instalação coreográfica. Artes plásticas no figurino de Eduardo Wagner que vai desnudando os atores no persurso inverso até a origem dessa peculiar dança consagrada pelo carnaval, aqui mesmo em Belém, com a mesma paixão, garra e elegância que caracterizam o institucionalizado carnaval carioca. Plástica ainda nas bandeiras e cetros e demais adereços cheios de símbolos. Teatro na poesia dos textos de Flávio Negrão e Carol Pabiq e no retorno à cena de Miguel Santa Brígida que interfere, branco e prata, com cheiros, serpentinas e cores. É música nos sambas de enredo e é claro, dança.
O trio em cena é coeso, mas falta maior precisão nas trocas de roupa e algumas marcas que ainda estão marcas. Falta precisão nas falas. Sobra a alegria momesca, o gingado, a irreverência que nos enche de vontade de também estar em cena.
Por fim, mas não menos importante, Iracema Voa, que Ester Sá construiu a partir de citações, histórias e músicas de e sobre Iracema Oliveira: cantora, atriz de rádio, cinema e televisão e que agora dirige o Pássaro Tucano e as pastorinhas Filhas de Sião; memória viva da arte em Belém. Foi emocionante compartilhar a platéia com essa mulher lúcida e festiva e com Ester, que conta histórias, canta e dá vida (ou seria toma a vida?) a artista para recriá-la e recriar-se, fazendo do teatro o veículo. O espetáculo começa com uma exposição fotográfica, passa pela contação de histórias, tem música ao vivo e gravada, interage com o público e envolve a todos e é impossível à própria atriz e a nós não se emocionar às lágrimas. Ester tem um talento especial para fazer vozes e personagens, para nos fazer rir e contou com o apoio de uma grande equipe onde destacamos a luz de Sônia Lopes, as vozes de Paulo Marat, Pauliane Banhos e o grande cenário-figurino-relicário de Mestre Nato, artista das antigas e ainda em plena e talentosa atividade.
Penso que enquanto recorte poderíamos ter menos informações - ou conduzí-las em imagens, canções, etc -, o que reduziria um pouco o tempo do espetáculo e lhe daria mais dinamismo. Entendo a vontade de contar tudo, de falar muito e a própria Ester me dizia da preocupação em interpretar alguém ainda vivo e que a observaria. Como ser ela? A atriz não cedeu à tentação de ser Iracema; ela é a Iracema pelo filtro de outra mulher com toda uma bagagem própria de experiências. E assim ganhamos todos. Flores. Que a Arte semeie nas nossas vidas e que nos é devido regar, multiplicar e distribuir.
HUDSON ANDRADE
17 de dezembro de 2008 AD
16h30
Vaqueiro (a), substantivo: (01) Aquele que vai no vácuo dos outros para ingressar sem custo em festas, teatros, cinemas, jantares, caronas, etc...; (02) cara de pau... Vixe! A lista é extensa!
O trio em cena é coeso, mas falta maior precisão nas trocas de roupa e algumas marcas que ainda estão marcas. Falta precisão nas falas. Sobra a alegria momesca, o gingado, a irreverência que nos enche de vontade de também estar em cena.
Por fim, mas não menos importante, Iracema Voa, que Ester Sá construiu a partir de citações, histórias e músicas de e sobre Iracema Oliveira: cantora, atriz de rádio, cinema e televisão e que agora dirige o Pássaro Tucano e as pastorinhas Filhas de Sião; memória viva da arte em Belém. Foi emocionante compartilhar a platéia com essa mulher lúcida e festiva e com Ester, que conta histórias, canta e dá vida (ou seria toma a vida?) a artista para recriá-la e recriar-se, fazendo do teatro o veículo. O espetáculo começa com uma exposição fotográfica, passa pela contação de histórias, tem música ao vivo e gravada, interage com o público e envolve a todos e é impossível à própria atriz e a nós não se emocionar às lágrimas. Ester tem um talento especial para fazer vozes e personagens, para nos fazer rir e contou com o apoio de uma grande equipe onde destacamos a luz de Sônia Lopes, as vozes de Paulo Marat, Pauliane Banhos e o grande cenário-figurino-relicário de Mestre Nato, artista das antigas e ainda em plena e talentosa atividade.
Penso que enquanto recorte poderíamos ter menos informações - ou conduzí-las em imagens, canções, etc -, o que reduziria um pouco o tempo do espetáculo e lhe daria mais dinamismo. Entendo a vontade de contar tudo, de falar muito e a própria Ester me dizia da preocupação em interpretar alguém ainda vivo e que a observaria. Como ser ela? A atriz não cedeu à tentação de ser Iracema; ela é a Iracema pelo filtro de outra mulher com toda uma bagagem própria de experiências. E assim ganhamos todos. Flores. Que a Arte semeie nas nossas vidas e que nos é devido regar, multiplicar e distribuir.
HUDSON ANDRADE
17 de dezembro de 2008 AD
16h30
Vaqueiro (a), substantivo: (01) Aquele que vai no vácuo dos outros para ingressar sem custo em festas, teatros, cinemas, jantares, caronas, etc...; (02) cara de pau... Vixe! A lista é extensa!
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dançAmemóRiaTEatro
Em dezembro de 2008 o Instituto de Artes do Pará (IAP) promoveu o Circuito das Artes, apresentando o resultado de suas bolsas de pesquisa envolvendo artes cênicas (dança e teatro), musicais, plásticas, audiovisuais, literárias e de expressão da identidade. Um incentivo à produção artística local e que leva ao público totalmente de graça (para alegria dos vaqueiros* de plantão!) espetáculos nos mais diversos ambientes do IAP.
Do bafafá generalizado que ouvi dos muitos trabalhos, pude assistir quatro, resultados de amigos queridos e, acima de tudo, profissioais das artes cênicas: o ator e bailarino Ronald Bergman, o diretor e novamente ator Miguel Santa Brígida e a atriz, cantora, diretora e dramaturga Ester Sá. Três trabalhos absolutamente distintos, inscritos oficialmente em bolsas de dança (os dois primeiros) e teatro, cujos resultados são a mostra de uma arte plural e ousada que rompe os tênues e vaidosos limites entre as diferentes formas de expressão.
Assisti ainda Muragens - Crônicas de um muro, animação em 2D sobre o cotidiano do entorno do Cemitério da Soledade, de Andrei Miralha. Sobre o cimento e o limo do cemitério, feirantes, amantes, ladrões, moradores de rua, crianças, desfilam seu dia-a-dia, seus imprevistos, o trabalho exaustivo e diário que não prescinde da sesta quando o calor aumenta e por poucos instantes a alma voa livre. Trabalho de excelente qualidade, poeticamente construído e maravilhosamente musicado. Tomara vare mundo!!
Teatro é um ou mais atores em cena, dando falas e executando marcas? Dança são bailarinos, ou dançarinos em coreografias que expressam sem palavras o que se quer dizer? E contar histórias de vidas alheias? Em que categoria encaixar os rodopios do Mestre-sala e sua Porta-bandeira? e se eles falarem, isso é teatro?
Dinamismo e inconformismo devem ser palavras sempre presentes no artista e todos os grandes (não necessariamente bons nem sempre belos!) gênios foram os que subverteram a ordem das coisas e provocaram olhares diferentes sobre o óbvio.
As próprias origens e a sabedoria e cultura popular inspiraram Negra Memória, experimentação cênica em dança de Ronald Bergman. A sala de dança do IAP se transformou num labirinto escuro onde na procura de um preto retinto e tinhoso, Bergman encontra a religião afro, seus sincretismo, o açoite, a cachaça, a dança, o banzo de seus antepassados e o colo materno, porto seguro.
Acompanhado de registros sonoros gravados e música ao vivo o ator-bailarino avança no claro-escuro que é tanto a cena quando seu resultado inscrito em dança mas que se utiliza da poética da fala - ponto que precisa ser amadurecido.
Negra Memória é uma celebração do Si, convidando todos a descansar a cabeça no colo da mãe África-útero-Arte.
Do bafafá generalizado que ouvi dos muitos trabalhos, pude assistir quatro, resultados de amigos queridos e, acima de tudo, profissioais das artes cênicas: o ator e bailarino Ronald Bergman, o diretor e novamente ator Miguel Santa Brígida e a atriz, cantora, diretora e dramaturga Ester Sá. Três trabalhos absolutamente distintos, inscritos oficialmente em bolsas de dança (os dois primeiros) e teatro, cujos resultados são a mostra de uma arte plural e ousada que rompe os tênues e vaidosos limites entre as diferentes formas de expressão.
Assisti ainda Muragens - Crônicas de um muro, animação em 2D sobre o cotidiano do entorno do Cemitério da Soledade, de Andrei Miralha. Sobre o cimento e o limo do cemitério, feirantes, amantes, ladrões, moradores de rua, crianças, desfilam seu dia-a-dia, seus imprevistos, o trabalho exaustivo e diário que não prescinde da sesta quando o calor aumenta e por poucos instantes a alma voa livre. Trabalho de excelente qualidade, poeticamente construído e maravilhosamente musicado. Tomara vare mundo!!
Teatro é um ou mais atores em cena, dando falas e executando marcas? Dança são bailarinos, ou dançarinos em coreografias que expressam sem palavras o que se quer dizer? E contar histórias de vidas alheias? Em que categoria encaixar os rodopios do Mestre-sala e sua Porta-bandeira? e se eles falarem, isso é teatro?
Dinamismo e inconformismo devem ser palavras sempre presentes no artista e todos os grandes (não necessariamente bons nem sempre belos!) gênios foram os que subverteram a ordem das coisas e provocaram olhares diferentes sobre o óbvio.
As próprias origens e a sabedoria e cultura popular inspiraram Negra Memória, experimentação cênica em dança de Ronald Bergman. A sala de dança do IAP se transformou num labirinto escuro onde na procura de um preto retinto e tinhoso, Bergman encontra a religião afro, seus sincretismo, o açoite, a cachaça, a dança, o banzo de seus antepassados e o colo materno, porto seguro.
Acompanhado de registros sonoros gravados e música ao vivo o ator-bailarino avança no claro-escuro que é tanto a cena quando seu resultado inscrito em dança mas que se utiliza da poética da fala - ponto que precisa ser amadurecido.
Negra Memória é uma celebração do Si, convidando todos a descansar a cabeça no colo da mãe África-útero-Arte.
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quinta-feira, janeiro 08, 2009
EU 19
Aceitei o turno da noite com a gratidão de um refugiado. Chegava com o sol se pondo,quase uma hora antes do expediente e saía no azul-marinho-azul-celeste das primeiras horas. Protegido pelos óculos escuros, seguia para casa e depois de um banho frio, dormia até que o estômago reclamasse de fome.
Pelos bons serviços prestados, uma transferência para horário mais confortável. Recusei. Primeiro pensou-se em preguiça de topar com o entra-e-sai de gente na empresa, mas isso não parecia coerente. Então veio a suspeita da desonestidade. Averiguações feitas, nada de errado, exigi uma retratação do encarregado perante meus colegas de trabalho que eu não iria amargar a pecha de supeito nem de vítima. Ele se recusou. Então eu saio. Simples assim. Mas fiquei, uma vez que bons funcionários são tão difíceis de conquistar. Mas cá entre nós, segredou o diretor, por que diabos queres esse turno tão puxado? Gosto da noite. Simples assim!
Três anos e lá estava eu, o matinta-pereira, como os colegas brincavam. Só falta pedir fumo, completavam. Mas eu não fumava. Éramos eu, uma boa garrafa de café preto, forte, quente, meio amargo e o breu, o silêncio, as sombras que pregavam peças das quais eu ria bem voltando pra casa. Carnaval, Semana Santa, Círio de Nazaré, Natal, Ano Novo. Quantas vezes eu de boamente troquei minhas folgas pela diversão alheia?
No quarto e sala aos domingos, ouvindo fossas antigas, mudava o sofá-cama de lugar, arrumava as revistas na mesinha de palha-da-costa, meus santinhos na prateleira de metal e cozinhava macarrão, sempre com alguma receita nova copiada da TV de, sei lá, 15 polegadas, ou da internet do cyber da esquina.
A noite biologicamente convida ao sono e mesmo tendo dormido o dia inteiro, tinha horas em que os olhos pesavam e eu acordava já com a cabeça pra bater nos joelhos ou no tampo da mesa. Daí eu levantava, tomava café e fazia uma ronda. São tantas horas e tudo está bem, eu gritava brincando, ouvindo minha voz bater nos corredores vazios e penumbrosos.
Foi num espantar de cochilo desses que eu vi a sombra. Negra, como lhe convêm, silenciosa e esquiva como devem ser as sombras. E fugidia quando o olhar se fixa onde ela estava. Acostumado ao vazio, dei um pulo derrubando mesa, cadeira e café, a mão imediatamente no revólver. À frente, um longo corredor que ia bebendo a luz da minha sala nas suas salas vazias.
Caí numa gargalhada nervosa e me recompus, mas não dormi mais a noite toda. Fui para casa com uma sensação estranha, ainda que não sendo dado a superstições. Banho frio, sono. Desencanei.
Mas no outro dia e no seguinte e no outro ainda, lá estava novamente a sombra de pé, estática, fosse no corredor principal, no refeitório, no vestiário, atrás da minha mesa, às duas, às cinco. Não dormia mais. Passava as madrugadas vasculhando os cantos com uma lanterna, a mão ridiculamente no cabo do revólver, os ouvidos atentos para os quais quaisquer ruídos viravam passos, portas abrindo, trincos. Percebi então que a cada noite a minha negra companheira aparecia em um local cada vez mais distante da minha sala, como que tentando que eu a seguisse, até que eu cheguei ao velho depósito do qual nem eu tinha as chaves. Ao olhar pelo buraco da fechadura antiga, um vento gelado pareceu sussurar meu nome. Eriçado, corri de volta e lavei demoradamente o rosto na pia do banheiro, acendi todas as luzes, pus a arma sobre a mesa, queimei a língua com café. Pela manhã estava destruído.
Ainda assim falei com funcionários antigos, fucei anotações, fui à sede do jornal local e mesmo ao cartório: Nenhum acidente, ou vítima, ou catástrofe. O prédio fora erguido onde antes havia uma floricultura que fechou depois que os donos voltaram para Holambra.
Naquela noite eu apaguei novamente as lâmpadas, empunhei a lanterna e segui o longo corredor, o silêncio e a penumbra criando fantasias na cabeça. Em frente ao velho depósito, parei. O cadeado era antigo,mas resistente, a porta estava chaveada; as dobradiças pareciam ainda mais velhas do que a madeira do caixilho. De súbito, meti o pé na porta, arrancando-a dos seus encaixes. Entrei tateando um interruptor que não acendeu luz alguma. Com a lanterna, vasculhei o espaço. Vazio. Completamente vazio. Foi ao virar para a porta que eu a vi, desenhada contra a luz mortiça do corredor. Dei um grito, recuei dois passos e deixei cair a lanterna que apagou assim como as lâmpadas de fora.
Na completa escuridão, com o coração aos saltos e a respiração curta, tateava à procura da lanterna e da saída. Então a mão suave de alguém tocou a minha. Fiquei imóvel, mas nem pensei em reagir ao toque. A despeito da completa ausência de luz, o rosto era plenamente visível - os traços finos, lábios carnudos, olhos brilhando com uma paixão incontida. De pé frente à frente senti um ardor no peito tão forte que foi impossível não chorar. Aquela mão macia tocou meu rosto e seus lábios sorriram tudo.
E com um som de besouros as luzes do corredor se acenderam, piscando, e a lanterna iluminou meus pés. Da minha negra sombra nem sinal.
E um vazio foi tomando meu coração que até há pouco transbordava de algo bom.
Caminhei até a porta, recoloquei-a nos caixilhos como pude deixando a luz do corredor lá fora. Pensei sentir um leve roçar no meu ombro direito e com força exagerada quebrei a lanterna contra a parede.
E uma noite calma e plena me tomou inteiro.
Hudson Andrade
07 de janeiro de 2009 AD
17h30
segunda-feira, janeiro 05, 2009
A MÃO E A LUVA (parte II)
Belém, um dia, um mês, 2008 é uma construção coletiva por excelência. Dividiram a direção Olinda Charone, Cesário Augusto e Miguel Santa Brígida, cada um imprimindo seus próprios registros na encenação do espetáculo, com destaque para o Teatro do Movimento de Santa Brígida escavado no corpo do elenco e em imagens utilizadas em outros espetáculos (próprios e da Escola), perigosamente repetidos.
Como todo espetáculo dessa natureza o resultado é irregular, variando com o ator e com a cena na qual ele está inserido. Todos precisam ter seu espaço e devem utilizá-lo com afeto, tendo por sua vez a direção o cuidado de dividir esse bolo em fatias mais ou menos generosas, conforme o rendimento individual e o efeito que se deseja obter. O produto no caso é muito bom: musical, delicado, emocional, apaixonado, melancólico, engraçado e, sobretudo, prazeroso para quem assiste e para quem executa.
Calçando delicadas luvas a direção ordenou essa sempre complicada colcha de retalhos e costurou tudo com precisão. As falhas estão no exagero de algumas atuações – que os entendidos chamariam de overacting –,na obviedade de outros – que são bons no que fazem, mas seriam melhores no terreno movediço do desconhecido –, no texto panfletário e raso de muitos e em um ou dois toques de mediocridade. O enorme elenco (mais de dez pra mim é um pesadelo!), no entanto, parece coeso e consciente do que estão propondo a partir da idéia central do espetáculo construído sobre sentimentos e impressões dos próprios atores num exercício que certamente exigiu doses quimioterápicas de confiança e cumplicidade.
Fugindo também da caixa preta, Belém... nos levou a um MABE (Museu de Arte de Belém) belíssimo, sob um céu cobalto e fresco, numa acústica impressionante.
É pena que esses trabalhos raramente retornem. A dificuldade de reunir novamente o elenco, entre outras questões inviabilizam essas remontagens.
Parabéns aos diretores de Paraíso Perdido e Belém, um dia, um mês, 2008 por extrapolarem os espaços cênicos desta cidade que insiste em se fechar em si mesma como se já tivesse de si o bastante.
Parabéns aqueles cuja visão alcança além das suas mesas de gabinete e percebe que preservação passa por cuidado e cuidado nasce do conhecimento que faz com que eu crie laços e carinhos com os espaços que me cercam.
Parabéns aos que foram para a cena, mesmos os que jamais serão atores ou atrizes. Valeu a ousadia, mas esse, como qualquer outro oficio, exige muito mais do que vontade de fazer.
Os dois espetáculos também foram resultado das turmas de cenografia da ETDUFPA que recebe os parabéns por expandir seus trabalhos tablado afora.
Apenas soaram os três toques. Merda!!!
HUDSON ANDRADE
15 de dezembro de 2008.
12h45
Como todo espetáculo dessa natureza o resultado é irregular, variando com o ator e com a cena na qual ele está inserido. Todos precisam ter seu espaço e devem utilizá-lo com afeto, tendo por sua vez a direção o cuidado de dividir esse bolo em fatias mais ou menos generosas, conforme o rendimento individual e o efeito que se deseja obter. O produto no caso é muito bom: musical, delicado, emocional, apaixonado, melancólico, engraçado e, sobretudo, prazeroso para quem assiste e para quem executa.
Calçando delicadas luvas a direção ordenou essa sempre complicada colcha de retalhos e costurou tudo com precisão. As falhas estão no exagero de algumas atuações – que os entendidos chamariam de overacting –,na obviedade de outros – que são bons no que fazem, mas seriam melhores no terreno movediço do desconhecido –, no texto panfletário e raso de muitos e em um ou dois toques de mediocridade. O enorme elenco (mais de dez pra mim é um pesadelo!), no entanto, parece coeso e consciente do que estão propondo a partir da idéia central do espetáculo construído sobre sentimentos e impressões dos próprios atores num exercício que certamente exigiu doses quimioterápicas de confiança e cumplicidade.
Fugindo também da caixa preta, Belém... nos levou a um MABE (Museu de Arte de Belém) belíssimo, sob um céu cobalto e fresco, numa acústica impressionante.
É pena que esses trabalhos raramente retornem. A dificuldade de reunir novamente o elenco, entre outras questões inviabilizam essas remontagens.
Parabéns aos diretores de Paraíso Perdido e Belém, um dia, um mês, 2008 por extrapolarem os espaços cênicos desta cidade que insiste em se fechar em si mesma como se já tivesse de si o bastante.
Parabéns aqueles cuja visão alcança além das suas mesas de gabinete e percebe que preservação passa por cuidado e cuidado nasce do conhecimento que faz com que eu crie laços e carinhos com os espaços que me cercam.
Parabéns aos que foram para a cena, mesmos os que jamais serão atores ou atrizes. Valeu a ousadia, mas esse, como qualquer outro oficio, exige muito mais do que vontade de fazer.
Os dois espetáculos também foram resultado das turmas de cenografia da ETDUFPA que recebe os parabéns por expandir seus trabalhos tablado afora.
Apenas soaram os três toques. Merda!!!
HUDSON ANDRADE
15 de dezembro de 2008.
12h45
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A MÃO E A LUVA
Final de ano e a Escola de Teatro e Dança da UFPA apresenta o resultado de seus cursos e oficinas. Dos tantos trabalhos apresentados assisti dois: Paraíso Perdido, dos alunos de teatro juvenil e Belém, um dia, um mês, 2008, da turma do segundo ano 2008 do curso de formação de atores.
Paraíso Perdido foi apresentado em novembro passado. Baseado na obra de John Milton e dirigido por Cláudio de Melo, o espetáculo reuniu um elenco extremamente jovem e para contar a história de um anjo que vem à Terra, propôs utilizar um dos locais mais bonitos de Belém, o Cemitério da Soledade. Simbolicamente o uso desse espaço que remete à morte queria dizer, às avessas, do nascimento humano desse anjo, assim como do surgimento de mais um grupo de atores. Mas a ousadia pára por aí. Noves fora as dificuldades de cessão do espaço – na ainda atrasada mentalidade local de que é melhor deixar apodrecer e cair do que utilizar – e de questões com o público desacostumado ao uso de locais não convencionais e o ingresso em quaisquer lugares com cadeiras não numeradas (aquela correria desembestada e grosseira pela primeira fila, para quem não entendeu!), o soledade foi, quando muito, uma moldura. E que moldura! Enquanto um cordão de isolamento humano barrava o acesso à área da apresentação, caminhei um pouco entre os túmulos com um milhão de imagens na cabeça para aquele início de espetáculo que não poderia ser menos do que a proposta do espaço. No entanto a encenação citada poderia ter sido feita em qualquer cemitério, na própria ETDUFPA e mesmo em qualquer teatro. Valeu por ter quebrado aquele silêncio todo e abrir portas para novas tentativas.
Quanto a encenação há dois pontos principais a ser considerados. Primeiro, a imaturidade dos atores e, segundo, a mão pesada da direção. Falo imaturidade de tudo: do teatro, da vida, da formação acadêmica e ate mesmo de valores. De formação para entender para que servem pontos e vírgulas; do teatro pela postura, pela fala, pelas intenções; de vida e de valores para perceber a profundidade filosófica e as implicações do texto do Milton. Claro que estou sendo generalista e reconheço que há exceções. Boas, fruto de talento e dedicação de uma arte que carece tanto de exercício físico quanto intelectual em porções superlativas. Infelizmente talento não é tudo, sequer o princípio, mas e um bom caminho.
A direção: Cláudio de Melo deveria ter optado por outro texto, pra começo de conversa. A grande questão envolvendo essa opção é exatamente a imaturidade supra citada do elenco. Quer dizer que para atores jovens eu deva dar sempre água com açúcar e textos medíocres? Nada disso! Mas para grandes passos, longas pernas e esse elenco em particular teria rendido muito mais em outra proposta. E teriam rendido muito mai com – sem trocadilho! – mais asas. Optando por um modelo de direção mais rígido, Melo acabou tolhendo seus atores que por sua vez não tinham conteúdo para contrapropor. Paraíso Perdido cai num formato carente de real ousadia e do qual o teatro contemporâneo busca fugir de forma até meio exagerada, caindo para o extremo oposto onde talvez nem o diretor saiba dizer o que quis dizer. Diretor, aliás, é o adjetivo que realmente cabe nesse contexto e que seria adequado a um grupo mais experiente e por que não dizer, mais tradicional.
Aqueles meninos e meninas devem guardar essa experiência com carinho, cientes de que elas representam um primeiro passo num longo aprendizado. É evidente o esforço feito nessa empreitada e minhas palavras irão certamente contra suas impressões pessoais quanto ao resultado obtido. Tomara! Assim eles não desistirão,mas espero que eles realmente pensem sobre o assunto e invistam pesado na sua construção cênica, voltando quem sabe aquele cemitério e aquele paraíso com propriedade e sem medo da queda.
HUDSON ANDRADE
15 de dezembro de 2008.
11h30
Paraíso Perdido foi apresentado em novembro passado. Baseado na obra de John Milton e dirigido por Cláudio de Melo, o espetáculo reuniu um elenco extremamente jovem e para contar a história de um anjo que vem à Terra, propôs utilizar um dos locais mais bonitos de Belém, o Cemitério da Soledade. Simbolicamente o uso desse espaço que remete à morte queria dizer, às avessas, do nascimento humano desse anjo, assim como do surgimento de mais um grupo de atores. Mas a ousadia pára por aí. Noves fora as dificuldades de cessão do espaço – na ainda atrasada mentalidade local de que é melhor deixar apodrecer e cair do que utilizar – e de questões com o público desacostumado ao uso de locais não convencionais e o ingresso em quaisquer lugares com cadeiras não numeradas (aquela correria desembestada e grosseira pela primeira fila, para quem não entendeu!), o soledade foi, quando muito, uma moldura. E que moldura! Enquanto um cordão de isolamento humano barrava o acesso à área da apresentação, caminhei um pouco entre os túmulos com um milhão de imagens na cabeça para aquele início de espetáculo que não poderia ser menos do que a proposta do espaço. No entanto a encenação citada poderia ter sido feita em qualquer cemitério, na própria ETDUFPA e mesmo em qualquer teatro. Valeu por ter quebrado aquele silêncio todo e abrir portas para novas tentativas.
Quanto a encenação há dois pontos principais a ser considerados. Primeiro, a imaturidade dos atores e, segundo, a mão pesada da direção. Falo imaturidade de tudo: do teatro, da vida, da formação acadêmica e ate mesmo de valores. De formação para entender para que servem pontos e vírgulas; do teatro pela postura, pela fala, pelas intenções; de vida e de valores para perceber a profundidade filosófica e as implicações do texto do Milton. Claro que estou sendo generalista e reconheço que há exceções. Boas, fruto de talento e dedicação de uma arte que carece tanto de exercício físico quanto intelectual em porções superlativas. Infelizmente talento não é tudo, sequer o princípio, mas e um bom caminho.
A direção: Cláudio de Melo deveria ter optado por outro texto, pra começo de conversa. A grande questão envolvendo essa opção é exatamente a imaturidade supra citada do elenco. Quer dizer que para atores jovens eu deva dar sempre água com açúcar e textos medíocres? Nada disso! Mas para grandes passos, longas pernas e esse elenco em particular teria rendido muito mais em outra proposta. E teriam rendido muito mai com – sem trocadilho! – mais asas. Optando por um modelo de direção mais rígido, Melo acabou tolhendo seus atores que por sua vez não tinham conteúdo para contrapropor. Paraíso Perdido cai num formato carente de real ousadia e do qual o teatro contemporâneo busca fugir de forma até meio exagerada, caindo para o extremo oposto onde talvez nem o diretor saiba dizer o que quis dizer. Diretor, aliás, é o adjetivo que realmente cabe nesse contexto e que seria adequado a um grupo mais experiente e por que não dizer, mais tradicional.
Aqueles meninos e meninas devem guardar essa experiência com carinho, cientes de que elas representam um primeiro passo num longo aprendizado. É evidente o esforço feito nessa empreitada e minhas palavras irão certamente contra suas impressões pessoais quanto ao resultado obtido. Tomara! Assim eles não desistirão,mas espero que eles realmente pensem sobre o assunto e invistam pesado na sua construção cênica, voltando quem sabe aquele cemitério e aquele paraíso com propriedade e sem medo da queda.
HUDSON ANDRADE
15 de dezembro de 2008.
11h30
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quarta-feira, dezembro 31, 2008
BROCARDOS (07)
As horas, os dias são uma invenção do Homem.
Os 366 dias que compõem 2008 são nossa tentativa de controlar o incontrolável: o Tempo!
Aliás, essa é a maior marca dos nossos desencontros, das nossas ansiedades: o desejo de controle. De pôr rédeas aos outros, às nossas necessidades, colocar o cabresto nos desejos alheios, cercear o tempo, limitar as coisas e querer que a banda toque por uma pauta nossa, mesmo que a melodia resulte dissonante.
Ainda não aprendemos que o outro é melhor se livre e que ainda que por caminhos tortuosos, melhor é que ele se vá do que atrelado a nós, definhe.
Ainda não descobrimos o tamanho das nossas pernas e continuamos a colocar nossas “necessidades” no topo mais alto, onde por vezes estão os de fulano e de sicrano, ícones da modernidade, que alguém determinou como gabarito.
E nesse turbilhão nos vemos escravizados por aquele que tentamos controlar, o Tempo, pois na ânsia de ser senhor ocupamos nossas horas com o alheio e deixamos de viver, de aprender, dormir, fazer sexo, comer adequadamente, exercitarmo-nos, escrever um e-mail (até mesmo uma carta, por que não?!), corrigir os deveres dos pequenos, olhá-los de longe e ver que já não são tão pequenos assim, curtir um bom filme e principalmente um bom espetáculo teatral, curtir a música, dançar por uma coreografia torta, mas pessoal, comprar tomates frescos na feira, tomar açaí gelado, dormir. Ao final das 24 horas, ficamos com a sensação de que faltou tanta coisa e que nosso cansaço é o maior que existe e já nos angustiamos com o dia seguinte, prenúncio de novos dissabores.
Mas o tempo continua inexorável. Amanhã, 01 de janeiro de 2009, o dia começará exatamente como hoje, o último de 2008, com a Terra tendo dado a volta sobre si mesma, tornando este lado do mundo aos raios do Astro-Rei. Estaremos um dia mais velhos, mais experientes, teremos morrido um pouco mais diriam os pessimistas e continuaremos vivos, deste, ou do outro lado da vida.
Das tradicionais resoluções que tomaremos para 2009 que tal incluir uma nova diretriz? O de tentar controlar apenas a nós mesmos. Regular nossos horários, assumir realmente as responsabilidades que tomamos para nós, ir, ficar, casar, estudar as novas (e para mim nem tão boas) regras ortográficas, comprar roupas novas, fazer um curso de qualquer coisa, aprender estenografia, ou mandarim. O que quer que façamos, façamos por nós. Apaziguados assim perceberemos que o outro não é lá tão lerdo nem apressado demais, que ele não é tão guloso assim, ou dorme tanto; que eu posso correr, mas o outro apenas caminhar. Entender o limite do outro e assumir o que é seu. Respirar isso, diria um bom amigo.
Um ciclo humano de dias se encerra hoje numa invenção também humana de 24 horas.
Fechemos esse ciclo. Aproveitemos o que foi bom, avaliemos o que não foi e não o joguemos pra baixo do tapete que isso também é aprendizado.
Amanhã tem mais um dia dos 365 que tornarão 2009 um ano ímpar, sem qualquer trocadilho!
HUDSON ANDRADE
Belém, Pará, 31 de dezembro de 2008.
8h40
sábado, dezembro 13, 2008
EU 18

Ele era o zelador. Tinha outros adjetivos e substantivos. Nada significativo.
Estava lá quando chegávamos, ia e vinha enquanto estávamos, mas eu nunca tinha reparado que ele permanecia quando saíamos.
Até aquela noite.
Inconformado com o que eu considerava uma performance medíocre, ficara no camarim até ouvir última porta bater e diante do espelho iluminado buscava o tom que me igualaria aos companheiros de cena. Sozinho, no entanto, eu apenas repetia falas.
Irritado, joguei o texto sobre a bancada espalhando maquiagem e um copo com água inadvertidamente esquecido. Sequei tudo com papel-toalha e pragas, arrumando depois com esmero os lápis, sombras, pancakes, esponjas.
Foi ao passar pelas coxias que eu vi o zelador. Acendera um foco branco sobre si mesmo, círculo perfeito, e com sua vassoura fazia a cena que tanto me inquietava. Seu corpo se movimentava pequeno e preciso, nenhum gesto fora do lugar. A destra segurava a vassoura com força, o braço tensionado, mas sem apertar o cabo, ou amassar os pêlos contra o chão. A outra mão num gesto congelado de quem se despede, permanecia no ar. Seguia com a fala e descia o corpo, sentando-se por fim e depondo a vassoura no colo, descendo finalmente a mão para acariciar a madeira tosca, levando-a depois para o chão, usando-a como apoio para o corpo que descia mais ou menos lento, subindo rápido, descendo novamente. Por fim deitou-se, a parceira de trabalho (e agora de cena) ao lado. Respirou profundamente três vezes e movimentando apenas os lábios, terminou as falas.
Para si mesmo murmurou vivas e aplausos. Levantou-se solene e solene ergueu sua companheira inclinando-se ambos para as cadeiras vazias. Lágrimas nos olhos, não resisti ao aplauso. Ele me olhou apavorado como se pego no maior dos crimes e depois de balbuciar um “...o senhor me desculpe... eu não tive a intenção...” sumiu na escuridão do teatro e eu não consegui encontrá-lo em lugar algum. Queria lhe dizer da minha admiração e que ele tivera toda a intenção sim. Lembrava-o agora parado e atento por trás das panadas. Vira-o dançar com a vassoura, mas creditara a varrição do muito pó. Ouvira-o murmurar e atribuíra ao cansaço, à aporrinhação.
No dia seguinte, deitado ao lado da minha parceira, Black-out, ouvi os aplausos ruidosos da platéia. Enquanto agradecíamos perfilados, apontei para as coxias e fiz uma mesura. Ninguém entendeu.
O zelador foi mais para o fundo e sumiu na escuridão e eu não o encontrei mais na saída do teatro.
HUDSON ANDRADE
11 de dezembro de 2008, 12h43. Revisado em 13 de dezembro de 2008, 11h40.
sábado, dezembro 06, 2008
BROCARDOS (06)
A situação é muito simples. Chega o final do mês e tu diligentemente te encaminhas para o Departamento de Pessoal, recebes o contra-cheque (ou holerite, ou envelopinho, enfim...), assinas e ao devolver ao encarregado, devolves também o dinheiro que te foi oferecido. “Não, muito obrigado. Isso não é necessário!”, saindo logo depois feliz e sorridente para mais uma jornada de oito horas.
Essa situação é irreal até mesmo em Dubai e ninguém em sã consciência, ninguém, repito, sequer sonhou em tomar essa atitude. No entanto, é exatamente o que querem que eu faça: que eu trabalhe, me esforce, use meu tempo, meu físico, minha mente, enfrente engarrafamentos, falta de transporte público, de infra-estrutura, de apoio, de vergonha e ao final de tudo ofereça “de grátis” o meu produto!
Deixa eu ser mais claro. Sou ator. Tenho uma companhia de teatro. Temos toda uma rotina de preparação e ensaios e tudo o mais quando estamos numa nova montagem, numa remontagem, pesquisando um novo projeto, etc. Nenhuma produção leva um mês, dois, pra ficar pronta e mesmo quando algumas estréiam precisam continuar a ser buriladas para um resultado mais interessante. São muitas horas de atividade e poucas de sono! Não reclamo, não. É o que gosto de fazer. É o que digo que sei fazer e faço porque acredito e porque quero. Agora queres me ver descer das tamancas, tufar a veia do pescoço como diz um grande e querido amigo, é quando ao convidar alguém para a apresentação que levou toda essa novela pra acontecer a criatura diz: Tem de pagar? Ou pior: Tens cortesia, ou convite? Ou pior ainda: Arranja duas entradas aí que eu vou levar uma pessoa comigo!
Puta que o pariu! Só consigo pensar em mandar o sujeito (a) tomar onde o sol não bate! E não é piada da figura, não! É seríssimo! E se ofende quando eu digo que o ingresso é tanto! E em Belém o ingresso mais caro cobrado por um espetáculo local é R$ 20,00 (vinte reais). Um pouco mais que um ingresso de cinema, penso, que faz tempo que não vou a uma sessão. Sete, ou oito cervejas sem tira-gosto, uma pizza escrota, 10% de um abadá para os três dias de Pará Folia. A maioria dos ingressos custa mesmo R$ 10,00 (dez reais), menos de 1/6 do ingresso de Dona Flor e Seus Dois Maridos que lotou o Theatro da Paz no primeiro final de semana de novembro e que ganhou ainda três sessões extras. O motivo? Atores globais e a bunda do Marcelo Faria (e talvez algo mais!). Não vi o espetáculo e não posso julgar seus méritos, mas posso questionar essa eterna sensação de que a grama do vizinho é mais verde! E nem são meus vizinhos. Os caras ficam lá pra baixo e nem sabem que a gente existe e que produzimos espetáculos de excelente qualidade. Levo em consideração, claro, que pra trazer uma produção dessas pra esse fim de mundo é um osso duro de roer. A equipe, os cenários, equipamentos, elenco. E não dá pra vir de bonde. É pelo céu mesmo. Some-se a isso o aluguel do teatro, alimentação, etc... soma-se dois, caiu um, veio sete, noves fora e o preço é esse mesmo! E talvez nem seja o preço justo!
Alguém já tentou alugar um teatro em Belém? Quem já tentou sabe as dificuldades. E não é só grana, mas a falta de equipamentos, técnicos, disposição, respeito. A administração desses locais (de alguns pelo menos) não entendem sequer o que estão fazendo ali. Acham que eu posso entrar no teatro no dia da minha apresentação, algumas horas antes, montar tudo, ensaiar num espaço novo e ao final de tudo ter cerca de 90 minutos pra botar tudo nas costas e liberar o espaço. Acha pouco. É só pagar mais. No Da Paz a hora de ensaio custa (custava, sei lá!) R$ 500,00 e tem uma hoje, outra daqui dois dias, depois mais uma semana, sendo uma de tarde e as outras de manhã. Pergunto: quem determinou isso conhece a dinâmica de ensaio de uma peça teatral? Claro que não. Age como um mau administrador que visa apenas o lucro com o uso do espaço e está naquela cadeira só porque alguém botou.
Daí euzinho quero levar meu espetáculo pra lá, mas ele não se encaixa nos padrões elevadíssimos da nossa maior casa de espetáculos. A bunda do Faria e o carão da Carol Castro cabem! Então eu tento levar pra outro teatro, do governo, e caio numa fila enorme porque outros como eu estão querendo a mesma coisa. E é justo que queiram! Última alternativa, um teatro pequeno, mas particular: se eu pagá-lo, não tenho figurino nem luz nem nem, porque não tenho apoio que banca isso tudo. Se eu insistir e jogar todo esse bolo, contabilizar, ratear, dividir, enxugar, apertar, meu ingresso vai custar uns R$ 50,00. Isso pra não ter lucro!
Aí vem a criatura e diz: Tudo isso?! Qual é o nome do grupo de vocês mesmo? Vocês já se apresentaram fora daqui? Tá, eu acho que vou no domingo! E sai pra tomar sete, ou oito cervejas sem tira-gosto. Ou comer uma pizza escrota!
quarta-feira, novembro 12, 2008
EU 17
Colo o nariz na janela do quarto do hotel. Prédio antiquado, limpo e arrumado. Uma construção, um estacionamento, uma barraca de camelô, um ponto de ônibus. E o Cristo Redentor, lá longe, encarapitado no seu morro temporariamente inacessível.
O medo da cidade desconhecida tinha sumido. Nem maravilhosa nem Babilônia nem quarenta graus nem indiferente. Tomei uma média com pão rances, almocei batata frita, jantei sopa de cebola, trabalhei, atravessei ruas, cruzei arcos, via praia de longe, o pecado de perto, trabalhei, dancei, ri, mas não chorei (o que é de se estranhar!).Peguei sol, trabalhei, tomei chuva. O Cristo,lá de longe, sumiu no meio da cerração.
Ao meu lado sempre tinha um bom amigo, o que dava alegria e reconforto. Mas a cidade não me reconhecia como eu era. Podia passar despercebido entre os nativos sem sotaque, cabeça chata ou cor de pele que merecesse um olhar mais atento. Isso me deixava mais seguro. Andava com desenvoltura certo que a má-fé não me pegaria desprevenido. O Cristo Redentor (Que horror! Que lindo!) nunca me olhou de frente.
E fui sumindo. É! Sumindo! Desaparecendo, ficando invisível! Notei isso a primeira vez quando pensei terem retirado o espelho do elevador social. Olhando a superfície polida sem me ver de volta tive um frio na espinha e depois um leve sorriso nervoso de que a pessoa esta prejudicando um julgamento. Quando desci, o rapaz de roupa social e mochila nas costas não retribuiu meu cumprimento. E todos tinham sido tão educados até agora, pensei! Na rua nenhuma diferença. Todos iam, vinham, davam encontrões e sequer se desculpavam. Desci a Rua da Carioca, entrei no metrô e ninguém me atendeu para vender o cartão. Os outros passavam à frente, não atendiam meus protestos. O tempo foi passando e eu fui me estressando. Bati no balcão, soquei o vidro. A moça e o rapazola de chinelo e bermudão recuaram assustados. Ela chamou o segurança. Ele se foi sob protestos. Eu também não me vi no espelho do guichê. Saí dali, pulei a catraca, entrei no vagão quando a porta abriu para os outros e me encolhi no ladinho da porta. Desci correndo, morrendo de fome, medo e dúvida. No restaurante do hotel, outro espelho e a certeza de que deixara de existir para os outros. No começo até que foi divertido: no banheiro um hóspede cubano oferecia o pau pro garçom de aliança no dedo esquerdo, sem notar minha presença nem quando a luz acendeu automaticamente à minha passagem; no décimo segundo andar comi o almoço deixado sobre uma mesa no corredor; assustei a camareira gorda do sétimo que fugiu com dificuldades, assisti um ou dois filmes e na igreja apaguei velas com sopros fortes, bailando entre os candelabros alterando ritmos e formas. Foi quando o padre jogou água benta na minha direção e eu não senti as gotas que percebi que aquilo estava ficando sério demais. Eu não era visto e logo não seria mais sentido. Voltei para o hotel. No caminho o Cristo, sempre de lado, recebia o brilho de um sol dourado.
Tomei as malas com dificuldade, joguei-as num táxi amarelinho e como não seria atendido pelo motorista, tirei-lhe calmamente as chaves, entrei no carro e saí, tomando o cuidado de fechar os vidros peliculados. Dirigia com cuidado e olhava para o retrovisor para ver se nenhuma viatura me seguia. Na linha vermelha, ao olhar pelo espelho, vi uma leve sombra de mim e quanto mais me afastava da cidade mais essa sombra ganhava contornos, cores e tons. No check-in a moça me deu a passagem com um olhar de estranhamento fixo em mim. O que era pior, meu Deus? Não ser visto, ou aquele olhar que misturava medo e curiosidade? Suspirei aliviado quando o comissário de bordo sorriu e disse boa tarde, senhor!
O avião subiu e o que eu vi do Cristo foram luzes e frágeis contornos. E luzinhas, como um grande bolo de aniversário, ou um cruzeiro no dia de finados. Outra bebida, senhor? Perguntou a jovem loura e uniformizada. Sim, água, por favor!
Indo, ou voltando, quis saber a senhora cheia de livros ao meu lado. Voltando! Respondi. Bom, não?! Ela sorriu. Muito!
E reclinei a poltrona.
Muito!!
HUDSON ANDRADE
11 de novembro de 2008.
12h30
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