sábado, junho 30, 2012

REFLEXÕES DE UM ARTISTA INSONE

Na noite de São João a Globo ofereceu um fast food do que foi a entrega do 26º Prêmio da Música Brasileira onde o grande homenageado foi o músico João Bosco. Para os insones que varavam a madrugado de segunda-feira foi um prazer ouvir as canções do mineiro – ainda que na minha ignorância musical eu tenha achado os arranjos algo demais. Over. Enfim, que sei eu?! – sobretudo duas das composições mais lindas, mais magníficas da MPB e mundial: Quando o amor acontece e Corsário. Eu que sou um apaixonado pela palavra, que me deleito com o verbo dito, com a letra impressa; que – me perdoem os Androids – sou amante dos livros que eu desvirgino abrindo aleatoriamente e enfiando o nariz para aspirar papel e tinta, fiquei me deleitando com o dizer do Bosco. Numa
“Aí que a dor do querer muda o tempo e a maré, vendaval sobe o mar azul”
, noutra
“Meu coração tropical está coberto de neve, mas ferve em seu dofre gelado e a voz vibra e a mão escreve mar”
. Fui pra cama pensando no meu eu artista e novamente João Bosco e Aldir Blanc – seu grande parceiro musical – me inspiraram: “Glória a todas as lutas inglórias”! (O Mestre Sala dos Mares). Eu que escrevo e que nunca fui premiado em minha terra e com os mesmos textos fui reconhecido fora e me questiono, porque eu não quero aprovação, mas reconhecimento dos meus pares. Claro. É essa gente, esse chão, nossas histórias e memórias que fertilizam meu escrever. Agora mesmo quatro dramaturgias minhas estão sendo editadas em São Paulo pela Giostri Editora e a apresentação do livro é do capixaba Hugo Passolo. Bom que pessoas completamente isentas e desconhecidas avaliem e julguem mérito no teu fazer, mas fica um ranço. Fica em mim. É meu. Vaidade? Orgulho ferido, egolatria? Sim! Talvez não. Sentimentos que todo artista tem perigosamente sem medida. Penso no meu teatro. Nos 10 anos da minha Companhia Nós Outros, suas vitórias e conquistas. Que 2012 tem sido fantástico graças a parceria e competência de meu companheiro e produtor, Carlos Correia Santos, que permite que eu liberte mãos e cabeça para a cena enquanto ele cuida da parte chata e necessária da coisa. Penso no esforço de produzir trabalhos de qualidade, com cuidado e atenção à equipe e ao público; da sempre falta de grana, incentivo. Grato pelas parcerias que suprem nossa falta de local de ensaios. Penso em tudo isso e reflito. As platéias cheias do Batista, não porque as sessões do SESC Boulevard eram gratuitas, porque exatamente por serem de graça não há porque se submeter a longas filas, tempo ruim, espera. Não há a obrigação de permanecer na sessão se o espetáculo não prende. Não se pagou mesmo. É só levantar e sair. Mas ninguém saiu. Em Castanhal, dia 23 passado, a Casa de Cultura lotou e com ingresso vendido. Havia um apelo educacional de um grupo de professores de língua portuguesa e história, organizadores do evento, mas havia a imensa carência de atrações como essa no município que tão perto de Belém não é atendido nesse sentido. O Terruá Pará leva nossa música para o sudeste. Louvamos estar nas novelas das 6 e das 7 da “grande emissora de televisão do Brasil”, mas quando uma grande inauguração, ou evento de monta é feito na capital, são atrações alienígenas as grandes prestigiadas e para o interior, nem a prata da casa. Penso que não é a cobrança de ingresso que impede se lote um teatro para produções ruins e humorísticos com atores e comediantes globais; vejo que não é o ingresso que impede que se lote um teatro por um espetáculo raso, ou vazio de conteúdo, que atenda unicamente a necessidade de escarnecer da nossa própria mediocridade. Minhas produções não são o supra-sumo do teatro paraense,meus textos não são clássicos da dramaturgia. Eu optei por um caminho que me satisfaça como ator, diretor, dramaturgo e que desejem ser propostas de reflexão para quem os veja. Houve um tempo em que eu me irritava com isso que chamava de inversão de valores. Julgava a platéia, os artistas, os textos; assumia o pedantismo de me crer superior em alguma instância por “não atender ao gosto vulgar do populacho”. Hoje eu decidi ser coerente com minha crença. Determinar o que eu quero fazer e dizer com a minha Arte seja para 100, 10, ou 01 criatura para ver. Quem estiver comigo merece ser honrado por ter saído do seu conforto para ser instigado e ainda – algumas vezes – pagar por isso. Deixem que o medíocre faça fortuna. Deixem que o tacanho seja ovacionado. Ainda há lugar pra beleza, pra poesia, pras intrincadas – e não raro – enfadonhas construções estéticas. Dizem meu inspirador: “O show de todo artista tem que continuar”. (O Bêbado e o Equilibrista. Grifo nosso) HUDSON ANDRADE 25 de junho de 2012 AD 11h30

segunda-feira, março 26, 2012

RABISCOS



Dois deuses regem a minha vida.
Dois deuses contraditórios, como eu próprio sou contraditório.
O primeiro deus é Deus, assim chamado – diz Victor Hugo – por não haver designação maior que nomeá-lo.
O outro é Dionísio, o caprichoso deus que ensinou os homens como tirar da uva o sêmen do delírio.
O primeiro me criou. O segundo me suporta.
Um me fez imortal. O outro me recria por efêmero.
Deus me vivifica. Dionísio me alucina.
Aquele é a razão, este, a ação.
Ambos estão em toda parte. Deus onde quer que eu esteja. Dionísio onde quer que Moliere soe suas três bastonadas.
Num me encontro, no outro me esqueço, nos dois me confio.
Para ambos, velas. Para ambos, incensos. Para os dois eu canto. Com os dois eu danço. A Deus, misericórdia. A Dionísio, sacrifício.

Neste dia coberto de cinzas meus dois deuses me fizeram luz. Deus na prece que o Evangelho conduziu, Dionísio na oração de Santiago Serrano rezada por Juliana Porto e Leoci Medeiros. A fé de um, o drama do outro.
Se a quem me lê pareço confuso, pense que ninguém sabe quem levará nossas preces aos Céus, assim como o dramaturgo, o diretor, aqueles em cena não sabem o que a plateia vai acolher de nossa messe.
Cheguei à Casa da Atriz com o corpo e o coração alquebrados. Orei a Deus e depois de um silêncio reconfortante, entreguei-me a liturgia do Teatro.
Juliana tem razão: Deus está aqui.
Evoé!

HUDSON ANDRADE
27 de janeiro de 2012 AD
22h08
No ônibus, já feliz, indo para casa.

sábado, março 24, 2012

ALGUÉM MORREU MAS NÃO SEI QUEM FUI!


Para ler ao som de Noel Rosa: Quando eu morrer, não quero choro nem vela...


Uma das principais características da comédia é o engano. Frequentemente, o cômico está baseado no fato de uma ou mais personagens serem enganadas ao longo de toda a peça. À medida que a personagem vai sendo enganada e que o equívoco vai aumentando, o público (que sabe de tudo) vai rindo cada vez mais.
A trama de Perfídia Quase Perfeita se desenrola dentro de uma radionovela dos anos 1950. No último capítulo o casal Cezinha (Geraldo Machado) e Dagmar (Viviane Bernard) precisa desvendar um mistério. O marido acorda atordoado no chão da sala e a mulher conta para o perplexo e desmemoriado Cezinha que houve uma traição conjugal e o desentendimento resultou num disparo de revólver. Há um caixão no meio da sala. Um deles está morto e o outro está alucinando. Toda a história é narrada e comentada por um locutor (Cláudio Marinho), que originalmente só existia em off, mas que no desenrolar da montagem acabou por se tornar uma personalidade da trama. Numa lembrança da infância quando ouvia as novelas acompanhadas pela mãe, Correia presta com sua dramaturgia uma homenagem aos antigos programas de rádio. Na trama os personagens não são os únicos enganados. Ou que estão se enganando. Toda a plateia vive uma mistificação embalada por jingles e argumentos humorísticos sutis que nos deixam também em constante dúvida até o desfecho surpreendente e deliciosamente engraçado. Aliás, essa é uma característica muito positiva desta comédia: sua deliciosa graça. Sempre apreciei as piadas que contadas, fazem com que aquele que a escute interrompa a gargalhada pra perguntar “isso foi uma piada, não foi?... Não?!... Foi sim...” e retoma o riso solto. À parte os pastelões e non-senses, abjuro radicalmente o humor gratuito da humilhação do grotesco, da exposição infamante de quaisquer grupos sociais, do excessivo apreço pela sexualidade aviltante.
Aristóteles (Filósofo grego. Estagira, 384 aC – Atenas, 322 aC) diferenciava a tragédia da comédia por aquela tratar dos homens superiores e esta, das pessoas comuns. E são nas situações cotidianas que a dramaturgia vai buscar sua lírica risada: no casal comum, na sua “suburbana e conturbada residência”, na hilária comparação entre mães e tuperwares, no nosso medo constante da morte e, penso eu, muito maior medo da solidão, que faz com que um dos pares prefira o fim a ficar sem sua metade. O brincar com canções conhecidas e torná-las falas dos personagens, recurso muito interessante que cria imediata identificação com o público e faz com que nos aliemos aos personagens porque nós também em nossos momentos de amor, paixão, raiva, tristeza, solitude, mágoa, separação, também recorremos às canções para fechar os buracos abertos em nosso peito.
E quando você pensa que acabou... mais uma cena, mais uma curva. E tudo é novo de novo. E você quer ver novamente, pra ter certeza de que não perdeu nenhum detalhe.
O diretor Cláudio Marinho, paraense, talvez por sua experiência como jornalista, emprestou a encenação um ritmo vibrante, ágil, que é seguido fielmente pelos atores, constantemente ligados entre si, à trama e ao público. Em alguns períodos nos é dada oportunidade de respirar e piscar para logo no momento seguinte descermos outra vez essa montanha russa de emoções. É no mínimo inusitado ver nossa linguagem de “tus” (na fala do autor, nosso DNA nortista) no sotaque cantado dos atores. Viviane, um verdadeiro furacão em cena, contrastando com a moça quieta quando o espetáculo termina. Geraldo não fica atrás, preenchendo cada espaço vazio do palco com uma energizante presença cênica.
Ainda privilegiando a prata da casa, Sônia Lopes assina a iluminação. E é de aplaudir já que tudo foi afinado na mesma tarde de estreia, dado o cronograma da Companhia Fé Cênica, pela primeira vez em Belém e em tão curta temporada. Vitoriosos, já que vieram por sua própria conta e risco, como, aliás, é a realidade do teatro em particular e da arte como um todo no Brasil.
A Fé Cênica existe há cinco anos e Perfídia Quase Perfeita estreou em 2010, na mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba. Marinho privilegia a dramaturgia paraense em seus trabalhos no sudeste, tendo encenado ainda Fogo Cruel em Lua de Mel, de Nazareno Tourinho (2007 a 2009), As Ruminantes, de Saulo Sisnando (2009), A Fábula das Águas (2011), seu primeiro infantil com texto também de Carlos Correia Santos, de quem ainda é a nova proposta da companhia: uma possível montagem de O Assassinato de Machado de Assis, já encenada em Belém.
A importância da comédia é a possibilidade democrática de satirizar todo e qualquer tipo de idéia e toda e qualquer pessoa, seja ela real ou não, divina ou terrena. É possível que daí resulte tantos desmandos e tantos equívocos. Felizmente ainda há boas comédias que nos façam rir sem constrangimento, felizes por não nos levarmos e à vida tão a sério assim.
Ao final, no riso dos atores, fica uma dúvida no ar: somos nós que os assistimos, ou são eles, esses seres encantados, que se divertem conosco?

SERVIÇO:
Texto: pan style="font-weight:bold;">Carlos Correia Santos
Direção: Claudio Marinho
Elenco: Viviane Bernard, Geraldo Machado e Claudio Marinho
Iluminação: Sônia Lopes
Trilha sonora original: Cláudio Hodnik
Operação de som: Roger Magno Nunes
Cenário e figurinos: Geraldo Machado e Viviane Bernard
Fotos: Lenise Pinheiro
Design gráfico: Reinaldo Elias
Produção local: Sue Pavão
Direção de produção: Geraldo Machado e Claudio Marinho
Local: Centro Cultural SESC Boulevard (Boulevard Castilho França, 522/523, em frente à Estação das Docas)
Sessões nos dias 23, 24 e 25 de março, às 20h.
Classificação etária: 14 anos
Duração: 50 minutos.
Informações: (91) 3224-5305 ou 3224-5654.

HUDSON ANDRADE
24 de março de 2012 AD
10h14

terça-feira, dezembro 06, 2011

COMO SE FOSSE... COMENTÁRIOS DE UMA ESPECTATRIZ.



2011 me deu muitos presentes e entre eles, Como se fosse..., o espetáculo que me colocou em cena como ator e como autor, mas sem qualquer distanciamento de mem, do público, literalmente desnudo.
Hoje eu sou ouvinte, eu, que tantas vezes me arvorei de comentarista. As palavras são de Rosilene Cordeiro, atriz que para mim é pura essência de arte, carisma e feminilidade. Outro presente! Deleitem-se!

COMO SE FOSSE Poesia... COMO SE FOSSE Teatro... COMO SE FOSSE O que eu queria dizer!
Ao Hudson Andrade e ao Leoci Medeiros


Deleito-me em ver aquilo que tem fundura.
Fundo poço de águas turvas ou claras, o aspecto do líquido aqui pouco importa de fato.
Água em estado líquido carrega em si a inteireza do fluxo, corrente que é na "bruteza" da sua condição primeva.
Vivi algo assim, como embebida pela maré, quando estive como "espectatriz" do espetáculo encenado pelo Hudson Andrade e o Leoci Medeiros, COMO SE FOSSE, em pauta na Casa da Atriz no mês de junho deste ano.
Senti-me- por um certo momento mágico e arrebatador- uma celebridade entre célebres! Não o sou, mas estive celebridade quando tive a chance de presenciar dois atores, leves e graciosos atores!- "compartilhando mergulhos" na/ da cena teatral com apenas dois espectadores “de fora”, sendo eu mesma um deles. Na verdade éramos quatro na grande cena, ou melhor dizendo, seis porque o Paulo e a Yeyé Porto estavam lá.
Não pretendo, nem teria como fazer uma análise crítica do mesmo porque disso, nada compreendo. Nem tão pouco seria capaz de organizar um comentário tão rápido que pudesse dar conta da ebulição de coisas que essa experiência me conferiu. Ao término, apenas consegui dizer aos presentes sobre o sentimento da hora: "Primeiro eu preciso voltar à superfície! rr. È algo sobre o qual eu gostaria de escrever um pouco.”
Bem, eu tenho feito algumas incursões perceptivas pela estética teatral em “estado” de platéia que reconhece a necessidade de prestigiar colegas de ofício, produtores de arte, teatral sobretudo, pois não há como fugir disso uma vez que nessa seara estou com os dois pés embutidos. Mas move-me, também, o desejo de exercitar o olho, as sensações das diversas partes do corpo, a mente desejosa de coisas boas, belas, poesias subliminares passíveis de seguirem comigo vida a fora, ofício a dentro.
Nessas parcas andanças, tenho colhido impressões, reflexões, quadros sem molduras de questionamentos, disparos de dúvida, dor, medo os quais dou-me na tentativa de atribuir vigor a esse fazer/ pensar que tem se constituído minha atividade teatral, desde os idos (bem idos!rr) dos meus 14 anos, isso na década de 80, como cria da FUMBEL que fui.
Aprender leva tempo, a maturidade ensina-nos a abrir bem os olhos e o coração para o novo de cada coisa diante de nós.
COMO SE FOSSE mágica, ali, naquele banco que se fez MEU lugar por algum momento, dividido com outra pessoa desconhecida, fiz uma viagem não planejada para o interior de um teatro pouco difundido, ao qual me propus, mesmo antes de sabê-lo como hoje o compreendo, meu lugar de encontro e mutação, teatro trabalho, transpiração, construção física-emocional-política.
O espetáculo é idas e vindas. Sobe e desce, abre e fecha, riso e dor, pergunta e afirmação. Trata exatamente do interior disforme e pouco conhecido da grande massa. Fala dessa ARTE em 'capslock' que cruza o ser ator instigando-o à exaustão do corpo e da mente, tirando-lhe o sossego, a carne fria, a respiração tranqüila, que atira sua alma à parede arremessando verdades, inquirindo-o e devolvendo-lhe aquilo que o incomoda, que o aflige, denunciando sua fragilidade e sua permanente busca por realizá-lo com a maior verdade que lhe seja possível atribuir.
Em frases/ textos selecionados dos clássicos do teatro num passeio histórico pelos diferentes lugares dos conceitos e depoimentos teatrais por teóricos do mundo afora até o que há de mais hodierno, vazando no contemporâneo da vida, vagamos como interlocutores da cena, sendo levados a ler o que o TEATRO continua a nos colocar como questões cruciais que atravessam o tempo cronológico desembocando no fazer que pretendemos hoje quando tocados por suas múltiplas poéticas. Pra mim é uma denúncia que as vezes é preciso voltar, estudar, olhar mais dentro, investigar, debruçar-se na correnteza que levanta a canoa que nos leva ao grande e tenebroso mar da realização teatral como obra de arte que é.
Dizia aos meninos- Hudson e Leoci- inclusive, que o cerne do espetáculo deveria ser elevado a uma disciplina acadêmica, dado a necessária audiência de todos nós que nos dizemos seguidores das artes cênicas, pelo provocativo que suscita em torno desse trabalho laborioso, caótico, difuso e deleitoso do qual nos munimos como partícipes dessa empreitada que desejamos abraçar.

Por um instante, pensei no que significam os fóruns, as redes sociais criadas em torno da temática, as reuniões com pautas pontuais, os núcleos de formação específica, os estudos, as pesquisas, os eventos que temos empreendido em sua direção. Pensado sobre o largo e pedregoso caminho galgado por muitos ( bem poucos ainda!) em prol de políticas públicas que possam, finalmente, reconhecer e agregar à nossa ARTE/OFÍCIO o valor social e artístico ao qual Ela faz jus, pelo histórico de ação no mundo, pelas tantas vidas em torno dela organizadas.

Sai da Casa da Atriz mexida, sensação mista de confusão e alegria, revigorada (porque as vezes alguns espetáculos nos permitem essa vazão!) pelo fato de que não estou sozinha na ‘loucura’ (talvez a mais sã de toda minha carreira existencial) de perseguir um jeito peculiar -meu jeito- de cristalizar aquilo que eu penso, que eu acredito, que eu divulgo, que eu quero comunicar com a minha arte, não numa tentativa vazia e isolada, mas dialogando com tudo que possa colocar o teatro no lugar que lhe é merecido desde sempre: EM CENA! NA ANTEMÃO DA ARTE VIVA, PULSANTE, INTEGRAL E GALOPANTE EM PERMANENTE MUTAÇÃO!
A todos os envolvidos nesse trabalho, um abraço gostoso e desejoso de vê-los logo, logo em cena novamente.
Ao Hudson e ao Leoci, um cheiro mais que especial pela emoção que me deram, pelo olhar fundo vez ou outra dividido na contracena extrema de cada fala compartilhada, daquela apresentação que, me permitam os demais, foi devotada a mim, justamente pelo mergulho que me dei na presença de vocês.
As lágrimas dizem do resto, desse resto que não cabe no instante da palavra, mas que é capaz de resignificar o tempo e a qualidade do que sentimos uns pelos outros. Do ânimo que vamos dividindo como colegas de profissão e sonhos.
Meu sentimento? Prazer.

Com o coração festivo e de volta à respiração diafragmática!rr, abraço-os.
COMO SE FOSSE um de vocês...


Rosilene Cordeiro, julho de 2011
- É atriz. Entre seus trabalhos destacam-se Paixão Fosca e Em Algum Lugar de Mim.
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sexta-feira, dezembro 02, 2011

CHOVE CHUVA


Cheguei em casa e já chovia. E assim foi. Mais forte, mais fraco, gotejando, respingando, batucando nos telhados, nas folhas, escorrendo nas paredes e nos muros.
A chuva dá folga à Lua, que por trás das nuvens retoca o seu lado iluminado, gravitando enquanto engravida para marcar mais um mês.

A chuva enxota os gatos para as caixas de ar condicionado, empurra pessoas pras marquises, esconde o guarda-noturno. Até agora, quase duas, não ouvi seu apito, matinta-macho montado em bicicleta.
A chuva enovela os cães. O chuvisco intermitente cantarola ninares; a água refresca tudo. Ainda assim sinto calor, talvez porque não haja vento e sem vento a nuvem não viaja e continuar a chorar sobre meu bairro – ou será sobre a cidade?
Se ela engrossa, a gente se preocupa. Se ela falta, a gente lastima. Se cai no domingo, a gente reclama. Se no retorno, não molha. Se é criança, gripa. Se é semente, incha. Se lago, engorda. Se poça, sonha grandezas de mar.
Em Belém, chuva é sinônimo. Já foi relógio.
As nuvens cospem relâmpagos quase mudos. É preciso atenção. Não é como o temporal: tonitruantes, abusados, violentos. São vagalumes gigantes nessa madrugada sem insetos.
Tudo é tão calmo, tão quieto, que assusta. Tudo se recolhe, menos ela, a própria, a chuva, caindo calma como se fosse pra sempre.
Não quero dormir, mas sei que devo. Amanhã tem muito que fazer e eu vou sair e pisar no chão molhado e ver o sol multiplicado nas gotas penduradas nos galhos, nas calhas. Quem sabe o sol virá de terno cinza. Pode ser. Mas aqui é Belém. Logo ele explode e seca tudo e a gente vai dizer: Ontem foi tão bom dormir. Tomara que hoje chova de novo, que meu amor me aconchegue.
Uma formiga de asas pousa louca na cama. “Sem insetos”, eu disse?! Lanço-a longe. Protejo as orelhas “pra elas não fazerem ninho”, minha tia Coló dizia. Elas saíram de casa e procuram pousada. Eu, na minha cama, olho preguiçoso o interruptor do outro lado do quarto. Melhor fechar o caderno e apagar a luz. Tenho que dormir.
Essa chuva vai longe!

HUDSON ANDRADE
02 de dezembro de 2011 AD
2h08


Crédito da foto: Carlos Correia Santos, em São Paulo, novembro/2011

quarta-feira, novembro 23, 2011

EU 32




Para ler ao som de Eurythmics: “Sweet dreams are made of this...”


“Dormir, talvez sonhar”, diria Hamlet. Sonhar: olhar pra dentro de si mesmo, ou olhar pra fora?
Se tudo o que há no sonho sou eu mesmo, sou parede, praça, mar e mistério. Se tudo o que se sonha está no subconsciente, o meu se chama lascívia. Se um sonho é um caminhar da alma, a minha tem tanta sede quanto meu corpo.
“Dormir, talvez sonhar...”, repito Shakespeare e viro pro lado vazio da cama. Desço a mão até meu pau rígido e aperto até que doa. O ar condicionado não refreia o suor da testa. Cerro as cortinas tapando o luar e caminho em riste pelo escuro do quarto. O relógio anuncia às cinco horas e daqui a pouco trabalho e estarei novamente exausto, olhos vermelhos, olheiras, mau humor.
Sento na cama, seguro o falo na mão que treme. O vai-vem dura pouco tempo e o jato me dá um coice contra o colchão de onde levanto duas horas depois com o toque irritante e insistente do despertador do celular.

Tiro a roupa, espalho espuma pelo rosto, corro a lâmina. Alguém bate à porta. Entreabro. Ele, sempre ele, sempre a mesma camiseta preta com letras brancas escrito sei lá o quê, o bermudão.
“Deixa eu entrar!”, ele sussurra.
A mão treme. O coração dispara. Bato a porta com força.
O som me acorda.
Desço a mão até meu pau rígido e aperto até que doa...

...espalho espuma pelo rosto, corro a lâmina. Alguém bate à porta. O toque é sutil, quase inaudível, mas o susto desnorteia a mão e o sangue brota no pescoço logo abaixo do queixo. Mais três toques suaves. A mão já avança para a maçaneta, mas pára no meio do caminho.
Se eu escuto a sua respiração tranqüila, ele certamente ouvirá a minha, ofegante. Tapo boca e nariz. Recuo dois passos. Silêncio.
Acordo quando o relógio anuncia às cinco horas. Sento na cama. O vai-vem. O coice. O toque irritante e insistente do despertador do celular.

Alguém bate à porta. Três toques. Suaves. Mas a mão desnorteada faz brotar sangue no pescoço logo abaixo do queixo. Pela porta entreaberta eu o vejo: ele, sempre ele, a mesma camiseta preta com qualquer coisa escrita e o bermudão.
“Deixa eu entrar”, ele sussurra. Abro a porta o suficiente para que ele passe. Giro a chave duas vezes. Sinto no frio das minhas costas arrepiadas o braseiro do seu corpo magro e moreno.
Me ajoelho diante do volume enorme que ameaça rasgar o bermudão e aperto com cuidado seu falo para que não doa. Entreabro os lábios. Chupo sua pica dura com fome de necessitado. Ele se curva. Olha nos meus olhos, tranqüilo; a próxima a boca da minha, mas segue até o pescoço e lambe o sangue que já alcança o peito.
Acordo com o toque irritante e insistente do despertador do celular. Estou exausto, olhos vermelhos, olheiras. Aborto um sorriso maroto. Daqui há pouco trabalho.

Nem trânsito, nem chuva, nem o calor insuportável da tarde. Tudo parece certo. A música nos fones ajuda a passar o tempo, a chuva esfria o asfalto e o sol ilumina a cidade de um jeito ímpar. Aceitei até um barzinho com os colegas de trabalho. Tantos convites recusados. Por que não? “Cerveja, não, que eu não bebo! Tem Coca em lata? Normal, claro! Com gelo e limão, por favor.” Pedi ao garçom depois de lhe perguntar o nome. Um rapaz magro, simpático e atencioso.
Fomos os últimos a sair. “Eu pego um táxi!”, agradeci, recusando a carona. “Não esquenta a cabeça.” De dentro do carro eu vi o garçom saindo pela porta de enrolar semi-aberta do boteco. Bermudão, camiseta preta com qualquer coisa escrita em branco. Prendi a respiração. “Pra onde, senhor?”. Só quando o motorista repetiu mais forte é que eu vi que divagava e dei o endereço. O carro seguiu reto e acabamos por passar pelo rapaz que caminhava tranqüilo madrugada adentro.
Fiz o taxista parar e ofereci carona. Ele entrou e sentou no banco da frente, agradecendo. Ninguém disse nada até a porta da minha casa.
O vento noturno não refreia o suor da testa. As nuvens cerram o céu tapando o luar. Em riste caminho até a porta, giro a chave duas vezes. Entreabro. Ele me segue calmamente e com paciência espera atrás de mim. Sinto no frio das minhas costas arrepiadas o braseiro do seu corpo magro e moreno. Abro a porta o suficiente para que ele passe. “Quer entrar?”, sussurro.
Ainda na sala me ajoelho diante do seu pau duro, aperto de leve para que não doa enquanto o tiro da bermuda que já ameaça rasgar. Chupo com fome de necessitado. Ele se move de leve. Vai-vem. O jato. O coice. Gemidos quase inauditos.
Ele quer mais. Sempre quer. Eu quero mais. Sempre.
Caminhamos em riste para o quarto. Sento na cama. Tiro a roupa. Ele vem, aproxima a boca da minha e pede: “Deixa eu entrar?”
Minha mão treme. O coração dispara. Deito. Me entreabro. Suas mãos correm minhas costas. O toque é sutil. Algum peso. Segura meu pescoço com a esquerda logo abaixo do queixo. Suave.
A lâmina corre. Sem susto. Sua respiração tranqüila. A minha que cessa. Silêncio.
O relógio anuncia às cinco horas.
Dormir. Talvez sonhar.

HUDSON ANDRADE
23 de novembro de 2011 AD
10h57


Crédito da imagem: http://www.flickr.com/photos/gilrodrigues/page2/

sábado, outubro 29, 2011

QUEM COME DESSE PÃO? QUEM BEBE DESSE VINHO?


Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia. Assim, também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade. Mt 23:27-28


Militante do Partido Social Cristão – PSC, afirmou no programa da sua bancada exibido em 27 de outubro de 2011, em rede nacional de rádio e televisão: Nossa prioridade é o ser humano.
No entanto, ao longo de toda a exibição, era visível a discordância com a união civil entre homossexuais, projetos de lei que garantam aos cidadãos gays direitos e deveres iguais a todos, mais proteção contra a violência alheia que ainda grassa e é elemento culturalmente apreciado, incrementado pelos tipos caricatos e infelizes que proliferam em telenovelas, humorísticos e programas em geral.
A questão (ou problema) não é a defesa do modelo patriarcal e heterossexual de união familiar, mas a indicação de que a desordem, a desarmonia entre classes, entre os jovens, a proliferação de vícios e condutas reprováveis é fruto de outras formas de linhagem que não a fórmula apresentada Homem + Mulher + Amor = Família.
Filhos criados por mães e avós, ou tias, reconhecidamente heterossexuais, serão afeminados pela ausência da figura masculina? Daí para a prática homossexual é certeza? Meninas criadas unicamente pelos pais serão masculinizadas, embrutecidas? Grupos onde somente a um dos sexos genéticos é permitida a convivência são celeiros de homossexuais? Ou não há amor entre militares e religiosos? Ou o amor entre iguais, isento de contato sexual e eivado de respeito, não é realmente amor?
Sociedades onde a diferenciação de gêneros sexuais não predominava, desapareceram. Que sociedades? Todo agrupamento tem por objetivo a congregação de seus membros em torno de diretrizes que os organizem, suportem e felicitem. Todo agrupamento é candidato a vitórias. Todo agrupamento é passível de desvirtuamentos e excessos.

Queria falar pela boca de antropólogos, filósofos, neurocientistas, psicólogos e psiquiatras, sociólogos, enfim, tantos que estudam e apresentam de forma franca e factual o fenômeno da homossexualidade como uma das facetas do ser humano, mas não tenho bagagem para isso e tal seria longo e, quiçá, enfadonho.
Falo como cidadão, trabalhador, artista, cristão, brasileiro, tio, primo, filho, irmão, biólogo e também – orgulhosamente – como homossexual: Ama o próximo como a si mesmo. Fazer por eles o que se gostaria para si próprio. Reconciliar-se com o diferente enquanto com ele se caminha. Atirar a primeira pedra apenas se totalmente isento de faltas.
Um partido que tem a marca dos cristãos que morreram nas arenas romanas como símbolo e que ergue sobre si o nome do Cristo,mas não tem caridade pelos seus irmãos – assim chamados por hipocrisia política e tolerância de fachada – não merece crédito.
Nenhum dos seus candidatos receberá o meu voto. É apenas um único voto, mas não é insignificante, porque negar-lhes esse apoio e minha forma de dizer não à mediocridade dos seus ideais.

Oremos pelos que nos perseguem e caluniam.
Bem aventurados somos, porque injuriados.
Quem de nós entrará no Paraíso?

HUDSON ANDRADE
27 de outubro de 2011 AD
22h10

sábado, outubro 08, 2011

MARIA SE MULTIPLICA



“Maria do povo meu.”
(Maria de Nazaré. Pe. Zezinho)


A santinha sempre em seu plástico de fábrica. A madona reluzindo a folhas de ouro.
Maria de barro, Maria de gesso. Maria de cera, de madeira.
A imagem pequenina incrustada no seu manto tão característico. A estátua com sua veste original (que eu sempre achei tão mais bonito!).
A Maria pequenina que vai de casa em casa: “Nossa Senhora vem aqui!”, ou “Hoje a Santa dorme em casa.” O melhor ponto da sala. Base alta. Toalha de renda. Balão de borracha. Flor de plástico. Fita de cetim. vela, que a Santa “não pode dormir no escuro.” Na periferia, no centro, nos condomínios, nas empresas, repartições. A berlinda é uma cesta, uma casa de isopor, uma réplica de arame, um andor de miriti e que vai e de volta a uma igreja de onde parte para uma nova morada – graça sorteada, prêmio ao coração.

E é sempre ela: Maria. Mãezinha. Rainha.

No Domingo os pés têm um só rumo, os olhos só vêem a Berlinda, as mãos todas se erguem ao céu. Toda boca tem um pedido, toda cabeça uma promessa, cada coração uma esperança.
“Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre: Jesus!”
Uma casa, trabalho, saúde. Obrigado! Uma cura, uma prova, um concurso. Obrigada!
Pela minha mãe... os meus irmãos... aquele filho... minha esposa. Todos nós.
“Livrai-nos do fogo do Inferno. Levai as almas todas para o Céu.”

E é sempre ela: Maria. Advogada. Intercessora.

Maria que põe na mesma Corda o homem e a mulher. O que pede e o que agradece. Quem vai por si, ou pelo outro.
“A vós recorremos...”
Estrelas de pólvora transformando o dia numa noite barulhenta.
Aqui se canta: “Ave, ave, ó Senhora da Berlinda...”
Ali se reza: “Ó, Maria concebida sem pecado...” e se pede: “Olhai por nós que recorremos a vós...”

Nesse dia até Deus fica um pouco menor e por ser Deus não dá a isso qualquer importância e brinca com o Cristo sorridente: “Eis aí tua mãe!”
Todos: os Santos nas nuvens, os anjos empoleirados nos ombros paternos, o povo nos galhos das figueiras da Boulevard,nas janelas dos edifícios, esperando nas calçadas. “Ave, Maria.” Todos. “Amém!”

E pato. E maniçoba. E cervejinha. Cervejinha, sim. Não é ela que paga a festa? O cansaço, o sono, o porre.
E tudo sossega.
A vela apaga. Quem se lembra?
Tudo adormece.

Enfim quieta, Maria suspira.
Ajeita o Menino nos braços, confere o bordado do manto.
Sorri.
Amanhã tem mais.
Ô, Glória!

HUDSON ANDRADE
07 de outubro de 2011 AD
14h46

segunda-feira, junho 27, 2011

DEUS E O DIABO ONDE QUER QUE SEJA


“Levantei os meus olhos para ti, que habitas nos céus.
(...)
“Tem misericórdia de nós, Senhor, tem misericórdia de nós, porque estamos mui fartos de desprezo;
“Porque mui cheia está a nossa alma, sendo objeto de escárnio para os ricos e desprezo para os soberbos.”

Salmo 122 (123)


Brasileiros e brasileiras. Eu estou convencido de que nunca, nunquinha, never, ever na história desse país se viu uma mobilização tão grande quanto às contrárias ao PL122/06: o projeto de lei que criminaliza a homofobia.
Hoje por qualquer coisa de não importa que monta o povo se revolta, fecha ruas, queima pneus, grita e se enfurece. Não raro os ânimos se exaltam, furibundos, e voam paus, pedras e chuva de fogo. Outros momentos da história brasileira registraram esses levantes. Para citar apenas dois, temos a Revolta da Vacina que de 10 a 16 de novembro de 1904 sitiou a cidade do Rio de Janeiro por conta da campanha de vacinação obrigatória. No início do século XX, o então presidente Rodrigues Alves, o prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos e o diretor geral de saúde pública, Dr. Oswaldo Cruz, criaram medidas para sanear a cidade e combater grandes epidemias como febre amarela, varíola e peste bubônica, dada a precariedade de infra-estrutura e saneamento básico. Na reforma conhecida como Bota Abaixo inúmeros prédios velhos foram derrubados levando milhares de pessoas despejadas à força para os morros e periferias. As Brigadas Mata Mosquitos e a polícia invadiam casas para desinfecção e extermínio de mosquitos e ratos. A gota d’ água foi a aprovação pelo congresso nacional no dia 31 de outubro de 1904 da Lei da Vacina Obrigatória, autorizando as brigadas e os policiais a entrarem nas residências e aplicar a vacina à força. Nesse cenário corria solta a boataria de supostos perigos causados pela vacina e que estas deveriam ser aplicadas nas partes íntimas do corpo. Confusa e descontente a população e os cadetes da escola militar da Praia Vermelha se insurgiram contra o governo. Lojas foram depredadas, bondes virados e incendiados, trilhos arrancados, postes quebrados. A polícia era atacada a paus, pedras e pedaços de ferro. Tiros, gritaria, trânsito engarrafado, 50 mortos, 110 feridos e centenas de presos. Com a suspensão da obrigatoriedade da vacina o governo pôde retomar o controle da situação e o processo de imunização reiniciou erradicando a varíola em pouco tempo.
Situações extremas, medidas extremas. Mas o que são situações extremas senão o fruto do descaso e da incompetência? E o que são medidas extremas que não a reação ao medo de que o mal escape dos guetos e invada os floridos campos dos mandatários?

14 de agosto de 1992. O então presidente Fernando Collor de Mello, cercado por inúmeras denúncias de corrupção, crimes de enriquecimento ilícito, evasão de divisas e tráfico de influências, faz um pronunciamento em rede nacional de televisão pedindo apoio à nação, convocando o povo a se vestir de verde e amarelo e sair às ruas no domingo seguinte, 16. Um verdadeiro tiro no pé! Milhares de jovens tomaram as ruas das capitais vestidos de preto e com os rostos pintados na mesma cor. Só no Rio de Janeiro foram 30 mil, pedindo em coro o impeachment de Collor. Essas pessoas, conhecidos como os Caras-Pintadas somavam-se a tantas outras manifestações que, apaixonadamente, lembravam os movimentos da década de 60, diferindo destes em seus objetivos. Estes queriam a mudança do regime político do país. Aqueles, apenas a queda do presidente, extinguindo-se em si mesmos após a renúncia de Fernando Collor em 29 de outubro do mesmo ano.

Atualmente o Diabo veste arco-íris. O número da Besta é 122. Sua sacerdotisa: a senadora Marta Suplicy. O boato: “Querem transformar o seu filho num gay.”, “Não vamos mais poder chamar os veado de veado!” (a tal Mordaça Gay), “A bicha quer entrar na santa madre igreja de noiva, com uma cauda enorme segura por pirilâmpicas drag-queens e jogar o buquê sob um temporal de purpurina”, “Tudo bem que o cara seja gay, mas beijar homem em público?! Cadê o respeito?!”, “E adotar um filho então? Como é que vai ficar a cabeça dessa criança?” e blá-blá-blá. O alvo: a moral ilibada de homens e mulheres tementes a Deus como prescreve o rei Salomão em Provérbios, capítulo 1, versículo 7 e capítulo 9, versículo 10.
O que se quer sanear agora é a mentalidade estagnada da relação homoafetiva como doença, desvio, perversão, imoralidade, despudor. O que se pretende demolir são os cortiços infectos de um modelo familiar cristão e digno que só existe pleno no palavreado vazio dos que temem a si mesmos em primeiro lugar e ao outro: o diferente! A vacina quer impedir a morte infame e a violência degradante contra centenas e centenas de cidadãos cujo crime está no foco do seu prazer.
E continuam as passeatas. A Marcha para Jesus realizada dia 23 de junho último aproveitou para repelir o projeto da senadora.

Agora se pretende descartar o PL 122/06 para que uma nova proposta seja apresentada, mais de acordo com a bancada evangélica – os maiores críticos da proposta. Onde, por exemplo, lia-se ser crime “praticar, induzir, ou incitar a discriminação ou preconceito contra gays, lésbicas e transexuais” permanece apenas o termo induzir, menos abrangente, mas um “meio termo” como chamou Suplicy, a mesma que sugeriu relaxar e gozar nos momentos de grande provação. Tudo voltaria à estaca zero, o projeto teria que tramitar por todas as comissões e voltar a ser votado na Câmara dos Deputados onde já foi aprovado em 2006!!! Isso evitaria, dizque, se rejeitado, que um novo projeto com o mesmo conteúdo só pudesse ser apresentado em 2015. A senadora alega que o número do projeto foi demonizado por religiosos. Se isso foi dito de forma figurada, um trocadilho, a estratégia se resume a maquiar – permitam-se também o chiste – o tal projeto pra que ele passe despercebido e vaselinado (antigo isso!) pelas frestas do poder. Se há algo de presumidamente sério nessa afirmação, o que eu me recuso a aceitar vivendo numa sociedade tecnicista e materialista como a nossa, vamos combinar: que qualquer coacervato percebe a manipulação política como tantas outras que têm sido feitas nesses anos todos em que o assunto é discutido.
Vamos patinar no molho béarnaise. Que mal pode haver no número 122?! Segundo a numerologia, os números 1 e 2 – princípios universais – estão entre aqueles que representam estágios pelos quais conceitos devem passar antes de se tornar realidade. 1 é o primeiro dos números, o início, único e absoluto. Está ligado à energia criativa, originalidade, poder, masculinidade e objetividade. O 2 é a dualidade, a polaridade, a necessidade de ser complementado, o convívio em harmonia com os demais. Logo, 122 representaria o início de um novo estado de coisas, ímpar, integral – e íntegro – onde os opostos se complementariam na busca da unidade plena e justa. Isso não valeria só para os homossexuais, não, mas igualmente para todo e qualquer marginalizado, incluindo heterossexuais que só querem viver o curso natural dos seus princípios.
Dia desses um amigo comentava: “Eu não gostaria de ser gay. Seria só mais um problema na minha vida.”, disse temendo (mais uma) discriminação. Ele não é o único. Quantos pais não rejeitam os filhos e filhas temendo o julgamento social? Quantos jovens não se violentam – vivendo seus prazeres e amores clandestina e perigosamente – e reprimem enveredando pela psicose e depressão, causas de tantos isolamentos, desatinos e suicídios, porque crêem não atender as expectativas de Deus, dos pais, do mundo, de si mesmos; porque não entendem como podem ser aquilo que, dizem, não devem ser e olha que não foi nenhum vídeo que os incitou a isso, mas a própria natureza.
Jesus não condenou a mulher adúltera, comeu na casa de um coletor de impostos, pediu água a uma samaritana, curou o servo de um funcionário romano. Sempre fiel aos seus valores, nunca conivente com a iniqüidade, sempre justo, íntegro e, acima de tudo, amoroso. E como o anjo perguntou a Francisco de Assis: “Quem é maior? O amo, ou o servo?”, ao que respondeu o jovem aspirante a cavaleiro “O amo, Senhor!”. “Então.”, redargüiu o anjo, “Por que queres servir ao servo?”.

Em tempo. O uso de figuras de santos durante a parada gay de São Paulo foi sim um descompasso. Impossível não crer numa retaliação, ou deboche, como chamou o bispo da cidade, quando se utilizam imagens que na consciência católica têm significado sagrado. Foi uma ofensa ao caráter dogmático dessas figuras. Respeito acima de tudo, em todos os momentos, sobretudo num em que conseguimos tão pouco e temos tanto a perder.

HUDSON ANDRADE
27 de junho de 2011 AD
17h07

sexta-feira, junho 03, 2011

PÉS DE BARRO, SOL NOS CABELOS

Numa semana miraculosamente de folga fiz o que, como ator, faço para me divertir: fui ao teatro. Assisti Aldeotas – Lugar de Memórias e Paixão Fosca e sobre eles agora discorro um pouco.


Aldeotas – Lugar de Memórias é o espetáculo que marca o retorno à cena do Grupo Gruta de Teatro e aos palcos dos atores Adriano Barroso e Aílson Braga. Aldeotas vai beber nas lembranças: o amizade de Levi (Barroso) por Elias (Braga), as delícias da infância, o prazer da poesia, o aprendizado das escolhas feitas – algumas dolorosas. O texto do ator e dramaturgo Gero Camilo é extremamente rico – de imagens, de sensações, de emoções – e tem na sua bela escrita e singeleza de uma broa de milho que abre as portas do reino no centro da Terra onde meninos com olhos de diamante cantam, dançam e silenciam num só tempo.
A dramaturgia de Henrique da Paz, decididamente um dos melhores diretores do Pará minimaliza cenários e adereços para privilegiar a interpretação, enquanto a luz de Sônia Lopes cria apontamentos cênicos e acentua as emoções dos personagens. O resultado é que está nas mãos de Adriano e Aílson o prender a platéia pelos quase 90 minutos de espetáculo, voando em cajueiros, mergulhando em cacimbas, saltando de abismos, descobrindo o amor e a sexualidade; dramas contemporâneos que devoram sonhos e lugares de conforto onde a falta de coragem fala mais que o afeto – que não é pouco, só é criança.
E esse dizer incomoda. Soa professoral, quase discursivo. Talvez opção do diretor, talvez para contrapor os momentos em que ele rasga a alma e grita e chora, abraça e beija, para retornar a uma fala rebuscada de Rs e Ss. Assim também o corpo, que não é da cena, mas cotidiano. Presente, mas não inteiro. Seguro, mas não proposto. Pés de barro nesse colosso cuja cabeça está adornada de ouro.


Paixão Fosca é para quem gosta de folhetins. A mocinha transgressora aprisionada em sua torre, o cavalheiro honrado que é amante e protetor, um médico misterioso (Marinaldo Silva) e seu comandante, (Harles Oliveira), uma mulher dúbia – leviana e dissimulada, ou fervorosamente apaixonada na sua solidão? A doença como arma de chantagem, ou molde torto para uma alma iluminada?
A partir do texto Fosca de Iginio Ugo Tarchetti o ator, diretor e dramaturgo Guál Didimo apresenta Giorgio (Rafael Feitosa), cuja paixão se movimenta lenta e tropegamente da doce Clara (Paula Diocesano) para a sofrida Fosca (Rosilene Cordeiro .Brilhante), uma mulher de personalidade marcante que assusta e encanta, cuja resistência está na espera de um grande amor que coroe a sua vida.
Com uma cenografia simples e de múltiplas possibilidade, brilham os figurinos excepcionais de Ézia Neves (responsável por ambos) e a luz de Sônia Lopes, não à toa, uma das iluminadoras mais requisitadas pelos grupos de Belém, pela certeza de um trabalho participativo e entregue que começa nos ensaios, seguindo com o grupo, propondo, construindo, até o resultado sempre competente e belo. Na sessão que eu assisti havia falhas de operação que prejudicaram algumas cenas, assim como o uso indevido da luz por alguns atores, que insistiam em falar e andar nas sombras.
Paixão Fosca é um espetáculo classudo, à italiana, naturalista, romântico, desses que pedem vermelhos e dourados e trilhas sonoras clássicas. Nenhum demérito nisso. Como encenador eu tomaria outras decisões: planos de ação diferenciados, menos ou nenhuma saída de cena dos atores, excetuando talvez Fosca, cuja ausência física não apaga o seu rastro e sua presença é marcante mesmo antes que a vejamos pela primeira vez.
Ao contrário do espetáculo do Gruta onde não há onde e com o que se camuflar, os recursos disponibilizados por Dídimo deixam alguns intérpretes bem acomodados esquecendo de fincar seus pés na rocha sólida do seu trabalho como ator.
Há que se aureolar frontes, mas sem desmerecer com o que se pisa.

SERVIÇO
Aldeotas – Lugar de Memórias todas as quartas de junho no Teatro Cuíra
21 horas.
Ingressos: R$ 20,00 (vinte reais) na bilheteria.

Enquanto Paixão Fosca não volta aos palcos, leia mais sobre o espetáculo em http://www.paixaofosca.com.br/.

HUDSON ANDRADE
03 de junho de 2011 AD
10h37

quinta-feira, maio 26, 2011

VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ?! - 2# ROUND



Ainda a pouco me chegou às mãos um documento intitulado Movimento pela Preservação da Família e Contra a Heterofobia. Nele, alguns cidadãos abaixo assinados pediam providências ao senado da república quanto ao que eles chamavam de garantia do direito constitucional de livre expressão e defesa de declaração de dogmas religioso contra o que eles classificam como heretofobia. Frente às últimas decisões do senado brasileiro quanto aos direitos e deveres do cidadão homossexual, um turbilhão de gentes passou a se manifestar, desagradadas. Esses homens (sobretudo) e mulheres de bem, que no seu dia a dia violam bem mais do que um dos antigos sete pecados capitais (aqueles que mandam direto para o fogo do Inferno), exigem o seu direito de continuar a ofender e achincalhar: Fresco filho da puta! Viado de merda! Bicha escrota! Baitola nojento! Maricona! aos berros, do alto da sua dignidade. Querem garantir impunidade e imunidade por defesa justa da honra a todos os que enfiam pimentas, estacas de madeira e outros tantos objetos pelo reto adentro de uns; que desferem múltiplas facadas, golpes de lâmpadas fluorescentes e tiros em outros. Que extorquem, chantageiam, invadem e matam muitas vezes após intrincados jogos de sedução onde, não raro, cabem mais do que simples carícias, subtraídas por conta da posição ativa de um sujeito que explora a carência de quem, muitas vezes, só quer o seu quinhão de amor na vida, mas só pode vivenciá-los nos guetos, nas praças escuras, nos matagais, nos clubes, boates e bares marginais e/ou marginalizados, já que o mundo exterior, o sol, os passeios, a proteção legislativamente garantida pertencem aos normais.

Estas pessoas citam a Bíblia para embasar seu protesto: “E criou Deus o homem à sua imagem: fê-lo à imagem de Deus e criou-os macho e fêmea”. (Gen 1, 27). Pensam unicamente na vida como se esta fosse apenas uma sucessão de práticas sexuais procriatórias quando eles mesmos não se eximem do sexo livre do compromisso de manutenção da espécie. Sexo é mais do que isso. É troca de afetos, repositor de energias, força criativa que extrapola a carne para a inventividade, a arte, a pesquisa, a construção de engenhos cada vez mais maravilhosos. Sexo não é amor. Amor não é sexo. E embora os dois nem sempre estejam juntos na mesma equação, um com o outro é o supra-sumo do prazer. Sexo exige consenso, respeito e dignidade. E isso não é privilégio de heterossexuais, que por sua vez amam seus pares: a amiga de infância, o irmão de sangue, a prima mais velha que lhe dá conselhos, o craque de futebol, a parceira de rezas, o colega de escritório. Ou vão me dizer agora que amor tem boceta, pau, ou cu?! Ou vão dizer como um amigo meu: “Eles – leia-se, os... gays – podem até namorar e tal, mas... em público, num restaurante, têm de manter o respeito!”. Esse meu amigo – muito querido por sinal – é como aquela educadora baiana que deu suspensão de dois dias a um aluno de 9 (ou 13? Não lembro!) anos porque ele acariciou a cabeça de um colega. Na carta aos pais dizia: comportamento imoral e indisciplinado. Criou um estigma tão forte que a criança não quer voltar às aulas porque sabe que vai ser discriminado e fica repetindo, envergonhado: Eu não sou assim! “Assim". Algo tão terrível que não merece nem ser mencionado.
Jesus, que estes costumam lembrar apenas nos momentos de precisão, já falava deles: “... sois semelhantes aos sepulcros branqueados, que parecem por fora formosos aos homens, e por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda a asquerosidade. Assim vós (...) por dentro estais cheios de hipocrisia e iniqüidade. (Mt 23, 27-28). Serpentes, raça de víboras, como escapareis vós de serdes condenados aos inferno?” (Mt 23, 33).

É verdade que do lado de cá há excessos de todo tipo, comportamentos equivocados, deboches desnecessários, um cabo de guerra tenso que só pode terminar em violência porque com violência é fomentado. Há sim uma heterofobia no gay que exige a aceitação plena de quem não quer aceitá-lo, não pode compreendê-lo, teme o que desconhece. Ninguém é obrigado a aceitar nada que não queira aceitar e estes podem até fechar os olhos e fingir que não podem mudar, ou aprender com o outro por considerá-lo inferior, doente, degenerado, inculto, ignorante. Isso vale para os dois lados: “Porque do interior do coração do homem é que saem os maus pensamentos, os adultérios, as fornicações, os homicídios, os furtos, as avarezas, as malícias, as fraudes, as desonestidades, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Todos estes males vêm de dentro e são os que contaminam o homem.” (Mc 7, 21-23)
Mas é da Lei o amor ao próximo porque somos todos irmãos. E se não quiserem entrar nessa seara religiosa, somos todos cidadãos do mesmo estado e sobre nós reza uma lei – a mesma lei que lá no início eu disse ser citada pelos meus concidadãos moralistas – que garante a todos direito à vida, à liberdade e ao bem-estar físico, social e moral.
O que o senado federal fez – e ainda falta muito a fazer! – foi por no papel o que deveria estar no coração. Enquanto a forma não prevalecer, que a letra se imponha!

E encerremos ainda com o Evangelho, pedindo Paz e Bem a todos os homens e mulheres: “Concerta-te sem demora com o teu adversário enquanto estás posto a caminho com ele (Mt 5, 25); Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio e orai pelos que vos perseguem e caluniam: para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus, o qual faz nascer o sol sobre bons e maus e vir a chuva sobre justos e injustos. Porque se vós não amais senão os que vos amam, que recompensa haveis de ter? (...) E se vós saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis nisso de especial? (...) Sede vós logo perfeitos, como também vosso Pai Celestial é perfeito.” (Mt 5, 43-48)

HUDSON ANDRADE
Belém, Pará – 25 de maio de 2011 AD
15h50

segunda-feira, maio 23, 2011

EU 31



Eu e o cinema sempre tivemos uma relação muito próxima e ele sempre influenciou muito da minha escrita. Adoro imagens. Dessa vez A Origem, de Christopher Nolan e A Ilha do Medo, de Martin Scorcese foram a inspiração.
Para ler ao som de Calor, de Adriana Calcanhoto.

Enquanto tudo derrete.
Enquanto tudo derrete.
Enquanto tudo parece
Derreter.


A rua parecia interminável. Larga. Sem curvas. Muitas transversais. Limpa e silenciosa se estendendo até onde a vista alcançava, coberta por um céu turquesa sem qualquer nuvem.
Nas calçadas igualmente largas, enormes mangueiras cujas copas não chegavam a se fechar em túnel, carregadas de frutas que despencavam com um burburinho de folhas e galhos estalando; bombas amarelas que a terra engolia assim que tocavam o chão, alimentando os canteiros de flores coloridas. No ar, um perfume de jasmim.
O calor de quarenta graus era amenizado por uma lufada de vento que de tempos em tempos atravessava a via principal e suas várias travessas.
A avenida era ladeada de cinemas, um seguido do outro, exibindo todos os tipos de filmes, clássicos, antigos, comédias, P&B, 3D, aventuras. Bem a minha direita o Palácio exibia Branca de Neve e os Sete Anões e à esquerda o Olímpia mostrava Jornada nas Estrelas. Ao longe se ouvia o estalar das pipocas e a brisa trazia um leve cheiro de manteiga.

Teria sentido um leve tremor?

Subi num ônibus e percorri a avenida e foi numa quadra mais distante que eu o vi caminhando pela rua, o rosto fechado. Dei sinal para que o veículo parasse e me precipitei porta afora alcançando-o quase numa esquina. Chamei-o pelo nome. Ele se virou, a testa franzida, me viu e disse um oi seco e completou com um “que é que aconteceu?” seguido também pelo meu nome. Não consegui dizer nada. Ele deu as costas e dobrou a rua, sumindo.

Novamente aquela sensação de que o chão tremia e um som de queda ao longe.

Subi num ônibus e percorri calmamente a avenida e foi numa quadra mais distante que eu o vi caminhando pela rua, o rosto fechado e sério. Dei sinal para que o veículo parasse e me precipitei porta afora o alcançando quase numa esquina. Chamei-o pelo nome. Ele se virou e sorriu o sorriso mais lindo do mundo e me disse oi com um beijo. Não consegui dizer nada. Pra quê?

Agora eu tinha certeza que o chão tremia.

Subi num ônibus e percorri ansioso a avenida e foi...

Uma imensa árvore caiu arrastando a fiação elétrica, deixando tudo às escuras. Desci do ônibus e caminhei pela rua cada vez mais rápido até começar a correr desembestado. Dobrei na esquina e entre o hospital e a sorveteria a casa de dois andares estava abandonada. Os vitrais opacos, cadavéricos, as paredes pichadas de azul. Eu mesmo pichara, num aceso ridículo de fúria. A parede frontal fendida de alto a baixo e das suas bases as rachaduras iam se abrindo e aprofundando e espalhando para o resto da cidade.

Gritei por ele. Ninguém respondeu. Teria ouvido um latido? Sempre havia cães por perto, mas eu nunca os via. Sabia deles pelas muitas vasilhas com ração que ele colocava pela casa toda, pelas calçadas, na vizinhança, por toda a parte. Eu não reclamava. Apesar de vir aqui todos os dias eu sabia que passava muito tempo fora e que ele se sentia sozinho. E preso e triste e angustiado e indeciso e sufocado. Apaixonado? Sim! Quanto? Que tipo de pergunta é essa?
Chamei de novo. Ganidos de filhotes reclamando o leite materno.
Corri dali pra rua principal e até o final onde um cinema escuro exibia filmes escuros. Por que aqui? Ele nunca vinha aqui!
Mas lá estava ele. Caminhei devagar até a fila em que ele estava e sentei ao seu lado. Levei a mão sobre a sua coxa e apertei. Seu olhar afundou no meu. Eu sentia febre, suava, tremia. O toque dele corria por mim como eletricidade. O coração aos saltos sentindo seu cheiro misturado ao meu. Levantei sem camisa e tirei a dele. Nossos peitos se encontraram batucando. Meu fôlego ficou curto, meu corpo teso, todo ele. Nos abraçamos com tanta força que nosso beijo doeu. A poeira caia abundante do teto que balançava, os azulejos soltavam das paredes. O filme interrompia e voltava. Puxei seu pau contra o meu e então ouvi a música. A orquestra subindo e a voz firme de Piaf.
Ele me olhou e sorriu. Os olhos brilharam em brasa, os lábios, e um fogo rubro o consumiu de dentro pra fora, deixando nos meus braços uma casca negra que se desfez.
A música ficou mais forte e a luz da saída de emergência piscou. Corri pelo corredor para a porta quando a parede lateral ruiu revelando um mundo que se desmanchava. Parei antes da cortina de veludo azul. Piaf parecia pedir que eu me apressasse, mas não me mexi.
Sentei em frente à tela branca. A luz de emergência apagou totalmente.
Silêncio.

HUDSON ANDRADE
26 de março de 2011.
10h07

Crédito da foto: imagem do filme A Origem, coletada do site omelete.com

sexta-feira, abril 15, 2011

VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ?!




O Sr. Jair Bolsonaro ao se defender das acusações de preconceito racial feitas pela cantora Preta Gil às suas declarações no programa CQC disse ter entendido a pergunta como tendo questões homossexuais. “Que pai quer ter um filho gay?!” ele perguntou. E por que ele se defendeu assim? Porque ele sabe que preconceito racial é crime, mas não há sequer intenção de criminalizar a homofobia. Lamentável!
Depois o jogador de vôlei Michael (Vôlei Futuro) moveu ação contra a torcida de um time adversário que, incessantemente, clamava “Bicha! Bicha!” durante partida da qual ele participava. O clube se defendeu dizendo que repudiava qualquer comportamento discriminatório quanto a dita “opção” sexual.
Até quando nossos legisladores vão resistir ao fato de que é imprescindível tomar providências quanto a um estado de coisas que vai do achincalhe de natureza cultural em quadra até agressões em plena avenida Paulista após as festas de ano novo e tantos assassinatos sempre impunes? Sem desmerecer leis como Maria da Penha, ou o Estatuto do Idoso, é bom ver que eles seriam totalmente desnecessários se o cidadão reconhecesse no outro o ser humano que ele é na sua integralidade, integridade e alteridade. Se nós soubéssemos nos reger pelo que é justo, as leis seriam outras, mas infelizmente ainda é necessária a rudeza da legislação humana, o cárcere e mesmo a morte que, felizmente, ainda não é penalidade em nosso país.
Nesse Brasil de contrastes o Sr. Bolsonaro é membro de uma comissão de Direitos Humanos apesar de um histórico de ditos e feitos preconceituosos. A repercussão agora foi maior e a ação movida por Preta Gil e o jogador Michael engrossam um caldo ainda ralo em defesa de um grupo de homens e mulheres que exercem seus direitos e deveres e devem ser respeitados em sua natureza sexual quanto por sua simples humanidade. Há que se mudar já o pensamento de que ser homossexual é demérito, desvio, doença. Chamar Michael de bicha é algo corrente. Bicha, viado entre outros são naturalmente usados para agredir mesmo os não homossexuais pelo simples prazer de ofender. Astros de cinema, TV e música – alvos de inveja –, são frequentemente tachados de homossexuais. A frase “tu é fresco, é?” corre de boca em boca para determinar um comportamento não aceito por determinado grupo; “Deixa da tua frescura!” denota fraqueza física e de caráter.
Nós, homossexuais, precisamos tomar partido. Sem perder a alegria e a naturalidade, não descambar no deboche e no ridículo. Sem deixar de lutar pelo que cremos, não enveredarmos pela heterofobia tão perniciosa e violenta quanto a homofobia que criticamos. Lutar pelo nosso lugar ao sol sem perder de vista que a aceitação é fruto do respeito e da dignidade contra as quais nem todo um estádio de Bolsonaros pode contrariar e abafar.

HUDSON ANDRADE
07 de abril de 2011 AD
9h17

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

EU 30



Insones, leiam ao som de Come What May, da trilha sonora de Moulin Rouge.
I want to vanish inside yours.


Cheguei em casa realmente cansado. Tirei as roupas mastigando uma banana e com o que me restava de forças tomei um banho.
No quarto uma porta se abria para uma sacada gradeada onde deveria haver flores, mas suas tantas roseiras há quatro meses não floriam e seus galhos mirrados e quase nus perdiam seu verde-escuro para um marrom progressivo e fatal.
Me joguei na cama, braços em cruz, sem tirar a coberta azul. Contra as minhas costas e bunda a textura do tecido provocou um arrepio. Como um peixe encalhado mexi os braços, as palmas contra o pano grosso e meu pau ficou imediatamente duro. Virei o rosto. Abri a boca. Suspirei. Não havia qualquer cheiro ali. Nem o meu. Nem o dele. Muito menos o nosso. O peixe se virou, debateu-se, arquejou num sem-fôlego de saudade. Me esfreguei na coberta, mordi os travesseiros, agarrei o colchão e quando senti a pressão vindo tornei a virar e me recolhi na mão direita, solitário, acompanhado apenas pelas folhas das roseiras e por folhas de papel.
Afundei na cama exausto de morte, mas essa benção não me era devida. Eu deveria ficar, des-sentir e aprender. De mim, como ser brando. De mim, nem manso nem humilde. Desse fardo ao qual me jugo. De ti, coração.
Preciso me limpar, mas não consigo me mexer; preciso não dormir a tempo de poder depois de te querer, bruta flor, bruta flor que eu quero mel, meu, teu vosso...
Não tô dizendo-pensando-querendo coisa com coisa.
Maria... tinha... um carneirinho...
A cabeça doía – Maria... tinha... – os olhos ardiam – um carneirinho... dois carneirinhos, três carneirinhos, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove para doze faltam 3 quatro meses. Outros quatro meses. Quase doze de um ano inconcluso que jamais vai se concretizar, armado, cimento, areia, ferro, pedra, papel, tesoura...
Minha mente febril não conseguia desligar. Meus músculos tensos não me deixavam repousar. Resquiecat in pace in nomine Patris in excelsis Deo. Mea culpa. Mea máxima culpa sem remissão, sem penitência, sem. Não fizeste nada. Terá sido isso? nada feito além de palavras, muitas, ditas, escritas, digitadas. Palavras ao vento, pequenas, apenas. O Amor que só tem palavras não pode ser verdade (?!).
Um passarinho. Deus, o dia vai me encontrar aqui, assim, melado, seco, rachando, pegajoso?
Boi, boi, boi, boi da cara preta, vai pra casa do caralho! Como é possível que eu não durma se tudo o que eu quero é dormir e ter esse pequeno desenlace até que o dia torne e eu me veja de novo sem?
Outro canto e outro e mais um e o céu marinho, lilás, rosa e azul clarinho cedinho, cedinho, cedinho e o meu benzinho é só uma fotografia. Felicidade congelada. Fast food. Ambrósia. Néctar. Desejo olímpico. Louro sobre a testa.
No celular o despertador que não me desperta. Função vazia.
Sento na cama. Fico tonto. O corpo treme. Como estará minha cara dada a tapa? Uma face. A outra. A túnica. A capa. Um passo. Mil. Setenta vezes 7 vezes.
Preciso ir.
Até quando?

HUDSON ANDRADE
Belém, Pará
27.02.2011 AD – 19h12
28.02.2011 AD – 16h43

segunda-feira, novembro 29, 2010

EU 29

“Me beije só mais uma vez. Depois volte pra lá.”
(Jardim da Fantasia. Paulinho Pedra Azul)


Cento e quarenta e nove dias. Não sabia que uma vida cabe em cento e quarenta e nove. Sempre. Nunca.
Quando te vi pela primeira vez não percebi o castanho dos teus olhos, ou a cor dos teus cabelos. Foi teu calor que me atiçou os sentidos. Tua boca pingando mel. Agora que estás distante, nas nuvens, ou na insensatez, te quero muito. Mais; e os dias são contados em reverso.
Minha vida é assim: tirada de um folhetim romântico, papel de miolo de pão que os bem-te-vis catam da beira da estrada e me perco de mim, de ti. De nós. Onde estás?
Nem Cecília veria flores nesse jardim de sua janela agora aberta pro muro, com cães passando embaixo num andar que não fica acima, como também nada vejo com meus olhos afogados e um sorriso de leiteiro.
Tão pouco...
Que mais dizer? TE AMO...

HUDSON ANDRADE
27 de novembro de 2010.
8h43

terça-feira, outubro 19, 2010

ALÉM DO HORIZONTE DEVE TER


O burburinho que se formou entre os adeptos da Doutrina Espírita e curiosos foi grande. Vem aí filme Nosso Lar! Umas das mais conhecidas e comentadas obras psicografadas por Chico Xavier iria para as telas dos cinemas depois do sucesso da cinebiografia do médium mineiro e com vários programas de TV de cunho espiritualista. O diz-que-me-diz-que foi grande. Fotos, sites, notas, traileres eram divulgados pela internet. Cartazes eram afixados nos Centros (pelo menos no meu!). Tudo empolgava e, claro, dava alguma apreensão. 03 de setembro de 2010 virou uma espécie de Dia D para o Espiritismo brasileiro.
Não, não vou comentar e-mails dizendo de atendimentos espirituais durante as sessões de exibição do filme. Qualquer mínimo bom senso se opõe a isso!
Assisti Nosso Lar dia 05 de setembro e novamente no dia 08 (acho!). a cena inicial, André Luiz (Renato Pietro) diante dos muros fechados da cidade espiritual, o céu azul cortado por um íbis, a música emocionante de Philip Glass, senti um aperto no peito. Então descemos ao Umbral (uma espécie de purgatório?! Como assim?) e o filme entra num ritmo tal e único que não se altera até o seu final. Sem conflitos, sem falha trágica. André Luiz é só alguém confuso se aclimatando com certa facilidade a uma nova realidade. Todos os demais personagens são escadas para a plenificação do médico sanitarista falecido no Rio de Janeiro, onde exercia a profissão, no início do século XX. A personagem Eloísa (Rosanne Mulholland), sobrinha de Lísias (Fernando Alves Pinto), que deveria ser o contraponto de André não passa de uma garotinha mimada e chata em quem uns bons cascudos resolveriam as tolices.
Pietro não é capaz de dar ânima ao personagem. Sua interpretação é rasa e burocrática, um certo jeito empolado de falar, uma falta de carisma.
Bons atores no elenco como o já citado Fernando Alves Pinto, Othon Bastos (o Governador da colônia), Ana Rosa (Laura, mãe de Lísias), Werner Schünemamm (Emmanuel), Paulo Goulart (ministro Genésio), entre outros, talvez por conta da direção, mantiveram-se didáticos, monocórdios e unidimensionais.
O roteiro do próprio Assis, que até consegue sintetizar bem uma obra tão vasta e detalhista quanto Nosso Lar, não consegue centrar em André Luiz e não dá a real dimensão de um personagem confrontado com suas crenças e verdades; não dá a outros temas como reencarnação, vida após a morte, mediunidade, colônias em planos extra-físicos da existência, qualquer aprofundamento além de explicações acadêmicas tais verbetes de enciclopédia.
Os efeitos realmente incomuns em produções brasileiras são tecnicamente bons, mas não podem existir por si só. Temos vários exemplos de filmes cujo visual e excelência técnica não conseguem esconder os despropósitos, ou incompetências de um roteiro mal escrito, e/ou mal dirigido.

Se você, espírita (kardecista é o censo) quiser tornar o filme de Wagner de Assis na pedra filosofal do Doutrina Espírita no Brasil, vá em frente. Ver minha mãe, que não é espírita, dar conselhos baseada em questões que viu no filme mostra que enquanto divulgador de uma mensagem a produção cumpriu o seu papel – lembrando apenas que mensagem sem estudo, reflexão e aprofundamento é meramente máxima de almanaque. Devidamente utilizado, embasado e discutido, pode ser um excelente ponto de reflexão em nossas Casas e mesmo fora dos círculos espiritualistas. Para os não espiritistas o filme é mais uma obra de ficção com pretensões de realidade. Enquanto obra de arte é fraco, inconsistente e sem brilho e só se mantêm em cartaz pela necessidade de ver que esse nosso mundo não é o único e nem o melhor. Nossos anseios de superação e imortalidade nos atraem para esses personagens, seja André Luiz, o Superman, o coronel Nascimento, ou a mocinha lacrimejante da novela das seis.
Que as próximas produções nesse filão observem cuidadosamente o seu trabalho buscando universalizar a mensagem sem moralidades maniqueístas através de um apurado e tecnicamente correto veículo, única garantia de imortalidade de uma obra de arte.

Hudson Andrade
19 de outubro de 2010 AD
16h31

segunda-feira, outubro 18, 2010

JÁ TENS ÁGUA DEMAIS




Num mundo de homens o feminino se afoga em flores, fronhas, promessas...
Todos os dias tantas mulheres se calam feridas naquilo que lhes é tão caro: sua dignidade.
Texto original escrito por Hudson Andrade com referências a Hamlet, de William Shakespeare e Que Será, bolero de Marino Pinto e Mário Rossi, apresentado durante o Curta a Cena III, nA Casa da Atriz, nos dias 15 a 17 de outubro de 2010.


Uma desgraça sempre vem nos calcanhares da outra, tão depressa se sucede uma à outra.
Ofélia se afogou.
Afogou-se?...

Acordava todos os dias às quatro e meia da manhã, acendia a vela que (ele) insistia em apagar debochando da sua crença em Deus e nos homens. Fazia café. Lavava um tanque de roupas cantando pra dentro uns sambinhas antigos e uns boleros desses de chorar. Gostava de dançar bolero. Dançara muito quando era mais jovem e saia (com ele) pro clube do bairro de onde só voltavam bem depois da hora marcada pelo pai. Afinal (ele) estava se divertindo. Valia a pena o puxão de orelha. Gostava de teatro também. Vira só uma vez, não entendera muito, mas achara lindo e até decorara umas frases inteiras que o filho mais velho copiara de um livro da biblioteca.
Casara por causa de barriga, ficara por causa de barriga, voltara por causa de barriga e a cada vez pensara que desta vez seria diferente. (Ele) dizia.
Ouviu passos dentro de casa. Estremeceu. Entrando ou saindo? Olhou o tanque cheio. Iria se atrasar de novo pro serviço. Fazer o quê? Ainda tinha que passar o vestido de uma amiga (dele) que viera manchado de cerveja e levar os meninos no colégio. Outros passos. Tampas de panela. A porta da geladeira velha batida com força. Abaixou-se pra pegar a bacia e sentiu uma pontada no lado esquerdo. Levantou a blusa. A mancha ainda iria demorar a sumir. Sempre demorava demais. Como gesso, que acabava se desfazendo no tanque de lavar roupa.
Mais passos. Mais perto. Prendeu a respiração. Fechou os olhos. Num segundo estava correndo, os pés descalços subindo a escadinha da caixa d´agua do prédio no fim da rua. Parada diante da água morninha se viu novamente no teatro chorando sem saber por quê.

Inclinado nas margens de um arroio, levanta-se um salgueiro que reflete as prateadas folhas na corrente cristalina. Para lá se dirigiu, adornada com estranhas grinaldas de botões de ouro, urtigas, margaridas e com aquelas largas flores púrpuras às quais nossos licenciosos pastores dão um nome grosseiro, que, porém, nossas castas donzelas chamam de dedos de defunto. Ali trepou pelas ramagens pendentes para colher sua coroa silvestre, quando um traiçoeiro ramo se desprendeu e, junto com seus agrestes troféus, foi cair no soluçante arroio. Suas roupas, a princípio, se espalharam e a sustentaram durante alguns instantes, como se ela fosse uma sereia. Enquanto isso cantava estrofes de antigas árias, como se estivesse inconsciente da própria desgraça, “Que será da minha vida sem o teu amor?... Mas aquilo não poderia durar muito e os vestidos embebidos tornaram-se mais pesados e arrastaram a desgraçada para uma morte lamacenta, em meio de seus melodiosos cantos. “Eu errei, mas se me ouvires vais me dar razão...”
Afogou-se! Afogou-se!
Já tens água demais, pobre Ofélia! Eis porque contenho minhas lágrimas. Ainda assim, é uma necessidade humana: nossa natureza as reclama, embora a vergonha não cesse de protestar. Quando este pranto cessar, tudo o que em mim houver de feminino terá acabado.

Hamlet, Ato 4º, cena VII (falas da rainha Gertrudes e Laertes), W. Shakespeare.
Tradução: Pietro Nassett
Editora Martin Claret, São Paulo, 2001.
Texto original de Hudson Andrade* com referências a canção “Que Será” de Marino Pinto e Mário Rossi.


(*) 02 de outubro de 2010 AD 10h53.

CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.stickel.com.br/atc/uploads/agua.jpg

sábado, outubro 16, 2010

EU 28



Para ler ao som de Poema, do Cazuza: “Eu procurei no escuro alguém com o seu carinho e lembrei de um tempo...”


Eu tinha uns 8 anos, acho. Como meu pai tinha ido embora, minha mãe precisou trabalhar e eu ficava em casa com o meu irmão mais novo.
À tarde eu sentava na janela da frente da casa e ficava encostado contra a grade de ferro espiando o movimento da rua, os moleques correndo, a chuva que caía e evaporava da calçada provocando aquele vapor sufocante e aquele cheiro de coisa molhada: terra, grama, bom de sentir; asfalto, reboco, coisa estranha. De vez em quando meu irmão me olhava perguntando com os olhos se já estava na hora do pão com suco de pozinho. Não. Ainda não, eu respondia virando o rosto pra rua. Eu bem que queria, mas devia esperar mais um pouco, até o sol ir ficando mais vermelho e antes das cigarras começarem a cantar. Meu irmão brincava com um cachorro de plástico que tinha perdido o rabo. Dia desses eu achei um guarda-chuva velho e usando o cabo substituí a cauda perdida. Meu irmão achou engraçado. Realmente não ficou lá muito diferente. Ele levantou os olhos de novo. Não. Ainda não.
Quando eu via minha mãe chegando eu corria pra buscar a chave que ficava num lugar secreto e tirava a tranca. Assim que ela pisava na soleira eu abria a porta. Ela entrava com um oi meus filhos e passava direto pra cozinha. Depois do jantar queria ver nossos cadernos e nos mandava pra cama. Meu irmão dizia que seu cachorro rabo de guarda-chuva estava chamando por ela, mas minha mãe respondia um agora não, meu filho entre os pratos e talheres e eu o pegava e levava pra escovar os dentes e mudar de roupa. Até hoje é assim! Teu almoço tá na mesa, tem toalha limpa em cima da tua cama, essas calças estão sujas? E quando eu fico olhando pra ela, apenas responde agora não, meu filho.
Já de pijama tomávamos a benção e ela nos mandava dormir. Às vezes eu não ia e ficava olhando pra ela e quando perguntava que foi eu sentava no chão, colocava a cabeça no seu colo e ela fazia um cafunezinho que logo parava e quando eu olhava, ela estava dormindo. Eu levantava devagar e desligava o televisor, mas minha mãe resmungava deixa que eu tô vendo a novela. Vai dormir. Eu sempre ia.
Um dia minha mãe chegou e antes de ir pra cozinha me entregou um pacote. Abre. Vê se gosta, ela disse. Esse é pro teu irmão, pra vocês não brigarem. Os pacotes eram idênticos. O conteúdo também: um caminhãozinho de plástico de um palmo mais, ou menos. Na carroceria, três boizinhos desses de plástico fino e oco. O presente em si não tinha a menor importância, mas quando ela o entregou disse lembrei de você. Virou de costas e foi providenciar o jantar. Aquele caminhãozinho e seus bois viraram o meu brinquedo favorito e eu o levava aonde fosse. Um dia ele se perdeu. Como quase tudo na vida. Isso também não tinha importância porque pra mim ficou muito mais forte aquele lembrei de você dito tão poucas vezes.
Hoje em dia quando minha mãe vem em casa (e é bem pouco) e ela que desliga o televisor e me tocando o braço diz pra eu ir pra cama que eu tô cansado e amanhã tem trabalho e que ela fica mais um dia pra poder preparar aquela carne que eu gosto tanto e se está tudo trancado, se eu paguei o telefone e pra eu não acender a luz do quarto nem fazer barulho que os netinhos dela tão dormindo com o pai.
Vai dormir. Eu sempre vou.

HUDSON ANDRADE
16 de outubro de 2010 AD
10h22

segunda-feira, setembro 13, 2010

EU 27



“Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim”
(Pedaço de mim. Chico Buarque)


Meu peito guarda um coração. Um só. Circulatório. Átrios, ventrículos, encharcados de sangue arterial que alimenta de oxigênio as células do meu corpo inteiro.
Meu peito guarda um só coração, sede das minhas emoções, meio-guia das minhas decisões, sobretudo as mais difíceis; véu nos momentos em que eu devo ver mais claramente. Enorme pra tanta gente, mas ínfimo pra tanto amor.
Dia desses perguntei a ele, meu coração: “Tu me amas?”, mas ele fez ouvidos de mercador. Por toda a semana insisti entre rogativas, exigências e questionamentos, alguns dissimulados. Nada. “Tu me amas?”. Latidos de cães e motores de carros.
Noutra noite, ensurdecido daquele silêncio eu comprimi o indicador e o médio da mão esquerda contra o peito e fui devagarzinho abrindo caminho. Enfiei então o anelar, retirei tudo e juntando a ponta de todos os dedos fui buscar com a mão aquele rebelde. “Quando eras mais moço”, eu ia dizendo, “ias aonde desejavas, mas agora...”, falei, já sentindo sua musculatura rígida pulsando acelerada – teria medo? –, “...outro é o que te cinge e te leva aonde não queiras.”, e trazendo-o para fora, afastei retratos e coisinhas e o coloquei sobre o criado-mudo, ajoelhando-me em frente e, olhos fixos, tornei a perguntar: “Tu me amas?”
Meu coração tremeu todo, tentando dizer algo. Um lado seu dizia “sim”. O outro lado também. Um era o lado do nascimento, da manutenção, da necessidade, do direito. Disciplina e autoridade. O outro era o lado do encontro, da companhia, da necessidade, do direito. Descoberta e respeito. Havia no meu coração um jogo intrincado de forças. Um lado não poderia ser maior que o outro. Um lado não poderia assumir mais espaço, anular, subtrair, desejar-me maios que o outro e mesmo sendo meu aquele coração eu não tinha mais direito sobre ele (?!). E por não se reconhecerem, cada lado respondia do lugar que lhe era próprio, com sinceridade, mas seu burburinho assim, misturado, confundia minha cabeça e eu nada ouvia onde, na verdade, havia acalanto, conforto e conselhos. E por mais que eu pedisse nenhum dos lados me escutava. Pela janela, latidos de cães e motores de carros.
Corri pra noite e tão logo tinha posto os pés no batente da janela ouvi “Amo!”. Claro, claro. E numa inflexão que eu jamais ouvira antes: “Amamos!”
A noite, lá fora, com seus cães e carros não me interessa mais. Dentro do meu peito meu coração dorme comigo a sono solto.

HUDSON ANDRADE
13 de setembro de 2010.
10h30

(*) Referência ao Evangelho de João 21, 17 – 18.


Crédito da imagem: http://flyingtime28.files.wordpress.com/2010/05/coracao_blog1.jpg

segunda-feira, agosto 23, 2010

ALMA FEITA DE ÁGUA



“Foi meu amor que me disse assim...”
(Adaptado da canção Alecrim, de Rodolfo C. Ortiz)


Aqui no norte do Brasil é comum nossa vida ser regida pela água. A água da chuva da tarde que agora só no imaginário determina nossos compromissos – particularmente eu acho lindo que tenha havido um tempo em que os horários dos nossos compromissos fossem pautados por outra coisa além das nossas “necessidades”! – e sobretudo as marés, as águas grandes, que mobilizam e imobilizam comunidades inteiras, ensimesmando gentes que só podem esperar, ganhando fama inglória e injusta de preguiçosos. Tem uma água dentro também, que inunda, mas disso eu falo depois.
A água também governa Eutanázio e o Princípio do Mundo, espetáculo da Usina Contemporânea de Teatro em cartaz no Instituto de Artes do Pará. Inspirado no romance Chove nos campos de Cachoeira, do paraense Dalcídio Jurandir (http://www.dalcidiojurandir.com.br) (cuja escrita ainda me é desconhecida, mas do que eu já percebi, tem o jeito, o ritmo, os termos que eu gosto de usar e ler.), o espetáculo fala de Eutanázio que, doente, relembra a vida enquanto espera a morte. Sua história é contada por três mulheres: a desencantada Raquel (Valéria Andrade. Maravilhosa!), Irene (Vandiléia Foro), que na rudeza de modos esconde a menina que – como nós – só quer ser amada e ser feliz, e Felícia, empobrecida, abandonada, violentada e solitária como os campos do Marajó e o peito da gente. Paralelamente temos a vida de Alfredo, irmão mais novo de Eutanázio que deseja estudar em Belém. O ator Milton Aires mistura sua própria vida a de Alfredo criando um pequeno Hamlet vivendo num reino podre que afoga repetidamente seus sonhos. Com dramaturgia do paraense Paulo Faria, que atualmente vive e trabalha em São Paulo, Eutanázio e o Princípio do Mundo começou doze anos atrás, da vontade de encenar Jurandir, até a premiação pela FUNARTE através do Prêmio Myriam Muniz 2008, liberação de recursos e sua estréia nesse 21 de agosto de 2010.
O maior desafio, segundo o diretor Alberto Silva Neto, foi extrair o que dizer e como dizer da riquíssima obra do Dalcídio e seu primeiro livro publicado originalmente m 1941 e que também rendeu Solo de Marajó (VER A Menina. O moço. Ritinha. A ama de leite. http://curiadarte.blogspot.com/2010/03/menina-o-moco-ritinha-ama-de-leite.html), o excelente solo de Cláudio Barros que teve uma infelizmente curta temporada em Belém. Depois foi deixar-se encher, encher como os campos marajoaras e quando a água baixou, por mãos à obra. Paciência e dedicação de quem vive nestas bandas e faz teatro num Estado e num país alheio a formação cultural do seu povo!
A mais de hora de espetáculo vai exigir do público não acostumado a teatro alguma calma. Tudo é lento: movimentos, falas, olhares, respiração; então a vida daquelas quatro pessoas te joga um laço e se pegar – porque também pode não pegar! – é mergulhar junto e remexer naquelas águas de dentro que eu falei no começo e o coração se enche de saudades e quereres e solidão e lembranças boas e tudo isso é bom e também machuca e também comove e também faz crie uma casca onde a gente não mexe, mas se não mexer não vê o fundo.
Eutanázio e o Princípio do Mundo exige atenção: o elemento cênico que destoa, o ângulo do qual se quer ver essa história, a voz afinada da Nani, os solos brechtianos de Milton Aires, o tempo para primeiro conhecer aquelas criaturas para só então se envolver com elas, tomar partido, quem sabe, e até mesmo assistir, aplaudir, retirar-se que se este não se pretende um espetáculo arrogante e intelectualizado – no sentido pávulo do termo – também não é folhetim gratuito e simplório.
Eutanázio e o Princípio do Mundo é como os campos alagados desse norte do país onde o meu eu-búfalo pasta tranqüilo e pacífico inconsciente de sua força. Ou exatamente pelo saber dela.

HUDSON ANDRADE
23 de agosto de 2010 AD
9h34

SERVIÇO
Eutanázio e o Princípio do Mundo
Inspirado no romance Chove nos Campos de Cachoeira de Dalcídio Jurandir, com dramaturgia de Paulo Faria.
Direção: Alberto Silva Neto
Elenco: Milton Aires, Nani Tavares, Valéria Andrade e Vandiléia Foro.
Cenografia e figurinos: Nando Lima
Iluminação: Sônia lopes
Operação de luz: Frank Costa
Desenho de som: Cláudio Melo (com registro de sons do Marajó de Léo Bitar)
Operação de som: Lucas Cunha

De 21 de agosto a 26 de setembro
IAP – Instituto de Artes do Pará (Nazaré, ao lado da Basílica)
Sábados e domingo – 20 horas
Entrada franca.