sábado, maio 08, 2010

PONTA DE LANÇA



Uma idéia ganha corpo. Corpo dilatado. Corpo santo. Rodrigo Braga pensou o novo espetáculo da Companhia de Teatro Madalenas em 2006 numa oficina de performance da Wlad Lima, no IAP. Então nem era espetáculo. Era algo pra si, pra estudar e construir.
O indutor foi São Jorge, escolhido não por devoção, mas por simpatia com a vida, a peleja, a ideologia mesma do soldado romano que pondo sua fé acima das obrigações militares é morto e assim, martirizado, é abraçado pelo povo como santo. Jorge da Capadócia, São Jorge, Ogun nos terreiros da crença afro, o vencedor do dragão – um monstro sob medida que habita as sombras do nosso imaginário, a lua cheia, burocráticos copinhos de café. São Jorge, guerreiro cujas histórias e mitos foram decodificados e ressignificados na pessoa que responde a impulsos, nos ritos da umbanda, no ritmo dos atabaques, no azul das guias.
Durante um ano Rodrigo e Leonel Ferreira, parceiro de grupo e diretor do espetáculo construíram Corpo Santo, parando apenas quando o ator foi para Campinas (SP) para a oficina do LUME, de onde ele voltou cheio de novas idéias e um corpo completamente alterado. Meio que recomeçar, meio que reconstruir. Tantas informações acabam por se confundir em cena. O gestual de um estado vazando para outro. Matrizes não devidamente orgânicas. Esse é um processo que leva tempo e exige repetição. Apesar de não comprometer o resultado essa dança pessoal precisa ser aprimorada enquanto objetivo do próprio ator, para além desse trabalho.
O texto – muito bom! –, segundo Leonel, foi um presente da Wlad Lima que a companhia usou como base da sua dramaturgia própria que não põe na palavra o centro da encenação. Texto, imagens corporais, música, formam o tripé sobre o qual se assenta Corpo Santo. As falas em falsete prejudicam algumas terminações de frases exigindo de Rodrigo que ele articule devidamente as palavras, projete a voz e garanta um,a boa respiração. Algumas cenas são feitas no que Viola Spolin chama de blablação, uma linguagem estranha, desarticulada, que por si não significa nada, mas que somada ao corpo ganha largos horizontes de embates, oceanos e, claro, a luta contra o dragão. Incomoda particularmente a mim uma grande tatuagem que, de perto, revela o Santo Guerreiro e seu inimigo. Há uma proposta pensada pelo Aníbal Pacha, bonequeiro, de animação dessa imagem por movimentos específicos do tronco do ator. No entanto é impossível não ver o desenho que em muitos momentos rouba o olhar do espectador da/na cena que se desenrola. A tatuagem precisará ser administrada em outros momentos, outros espetáculos, o que poderia levantar a questão se um ator/atriz deve/pode ter o corpo assim, marcado.
A trilha sonora de Kleber Benigno, o Paturi, utiliza percussão e canções de louvor a Ogun, executadas ao vivo e cantadas por Moahra Fagundes, Érika Nunes e Dina Mamede, trabalho que entrou efetivamente na encenação no último mês antes da estréia. Dina diz se sentir ainda insegura nessa nova proposta, cantar, mas acredita no resultado pela força do conjunto.
Esse um ponto extremamente positivo, o da companhia dar espaço aos seus membros e encampar a idéia de um e fazê-la coletiva. Eu acredito nesse abraçar a idéia alheia e frutificá-la em conjunto como a essência do que chamamos teatro de grupo, amador. Se é a viagem de alguém, uma tragédia grega, um clássico shakesperiano, o que seja. O que importa é dividir funções e acatar tarefas, executando-as com disponibilidade e consciência. O resultado se vê no palco: uníssono, orgânico, para além de genialidade e talento – o que não se questiona aqui por Corpo Santo ser um ótimo espetáculo. Digo isso como quem já viu coisas das quais tirada a plástica, nada mais resta.
E por falar em plástica, salve, Aníbal Pacha! Cenários, figurinos, adereços onde predominam o branco e o azul, impecáveis. Da arena de renda onde se entra com três palmas às lanças suspensas no ar; velas, alguidares, pedras que viram dragão! E mais uma vez a idéia de conjunto por saber-se que Pacha integra efetivamente o processo onde está inserido e se retroalimenta para conceber uma estética que é própria daquele espetáculo porque nasceu dele e para ele e onde tudo e cada coisa tem o seu porquê e a sua intrínseca beleza.
É lamentável que Corpo Santo esteja em cartaz apenas duas semanas. Que retorne logo! E que se mantenham essas boas idéias que corporificam grandes performances. Sequer li o programa antes da apresentação. Não quis criar expectativas e confesso que não sabia o que esperar. Saí do teatro extremamente satisfeito e feliz que minha terra produza trabalhos de qualidade, de gente jovem, pés no chão, à despeito de tão desestimulante realidade cultural.
Rodrigo iê.
Salve, Jorge.
Salve, Madalenas, salve!

FICHA TÉCNICA
Ator: Rodrigo Braga
Direção: Leonel Ferreira
Dramaturgia: Companhia de Teatro Madalenas
Direção musical: Kleber Benigno
Músicos (Percussão e coro): Kleber Benigno (Paturi), Valdeci Justino Silva Jr., Wellerson Casablancas, Wellitton Barreto, Edson (Padre).
Cantoras: Dina Mamede, Érika Nunes e Moahra Fagundes
Concepção e operação de luz: Thiago Ferradaes
Concepção de cenário e figurinos: Aníbal Pacha
Confecção de figurinos: Mariléia Aguiar
Assistência de produção e contra-regragem: Flávio Furtado
Produção e contra-regragem: Tainah Fagundes
Produção gráfica: João Paulo Guimarães
Fotografia: Bob Menezes
Assessoria de imprensa: Carolina Menezes
Realização: Companhia de Teatro Madalenas.

Este projeto foi contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz.

HUDSON ANDRADE
30.04.2010, modificado em 03.05.2010 AD
12h37

segunda-feira, abril 19, 2010

NASCE UM CAPIM



Chico Xavier (Brasil, 2010), o filme dirigido por Daniel Filho a partir do roteiro de Marcel Souto Maior tornou-se um recordista de bilheteria do cinema nacional em sua primeira semana de exibição. Isso não é difícil de entender num país sem religião predominante, ou oficial, mas extremamente religioso e, portanto, espiritualizado; num país que adora reis, rainhas e mitos – e Chico Xavier é um mito desde antes de sua morte; para um povo que adora uma polêmica – e o fenômeno mediúnico dá pano pra manga nesse quesito. Num Brasil que aprecia uma produção artística de qualidade e ela existe, apesar de tanta miséria.
Chico Xavier, o médium, protagonizou situações dignas dos grandes romances: uma existência humilde e sacrificada dedicada aos outros; uma abnegação e paciência imensos diante dos ataques, bajulações, idolatrias e necessidades alheias, uma vida espartana, assexuada, rigidamente disciplinada por um tutor tão amoroso quanto inflexível, Emmanuel, seu guia espiritual. Uma missão que lhe custou a paz, a saúde e por fim, a própria vida.
Chico Xavier, o romance. As Vidas de Chico Xavier* escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior que apresentou (ou reapresentou) ao povo brasileiro um homem, um mito, numa linguagem clara e objetiva, levando o mineiro de Pedro Leopoldo, nascido Francisco Cândido Xavier para além dos círculos espíritas de forma algo massificada. Uma abrangência que eu não identifiquei quando da passagem de Souto Maior por Belém, em novembro de 2009, lançando seu trabalho na Feira do Livro Espírita e palestrando pra um reduzido número de pessoas nos salões da União Espírita Paraense. Agora, por conta do filme, uma enxurrada de publicações estampa novamente o nome do médium mais famoso do Brasil, exigindo cuidado e atenção para bem separar o joio do trigo. O Congresso Espírita Brasileiro, na capital federal, tem como tema Chico Xavier, que completaria 100 anos no último dia 02 de abril. O mineirim de fala mansa e espontânea volta à cena por mãos humanas e encarnadas, já que uma tão esperada mensagem do além ainda não veio. E por que viria?
Chico Xavier, o filme, tem uma direção contida. Nada de ousadias. Mostra o médium da infância à fase adulta através de lembranças a partir da participação de Xavier no então polêmico e famoso programa Pinga-fogo. A edição é excelente ao colocar situações-chave na história desse homem, mas essa excessiva biografia acaba por arrastar-se em mais da metade do filme, me deixando com uma sensação de o que poderia ainda caber no pouco tempo que restava de exibição. O filme começa se justificando quanto aos recortes feitos e o que realmente importava saber. Talvez desnecessário. Vimos o que deveríamos ver, pontualmente, mas a falta de curvas dramáticas deixam aqueles familiarizados com os fatos com uma sensação de eu-já-sei-isso! e os outros com aquela vontade de algo mais. Não que Daniel Filho precisasse convencer alguém de qualquer coisa. Que bom que não foi esse o caminho. Apenas precisava ter se arriscado mais e havia espaço para isso antes de cair no piegas e no apelo emocional barata. Tanto verdade que a cena em que Chico narra sua aventura no vôo que o levou a São Paulo é muito mais divertida no original apresentado nos créditos que a sua própria dramatização. As soluções cênicas do filme para as questões espirituais são ótimas. Ninguém vê, ou ouve os espíritos e isso nos coloca em igualdade com os que duvidavam de Chico e quando eles, os espíritos, aparecem – a mão do médium, D. Maria João de Deus (Letícia Sabatella), não há transparências, fumacinhas, luzes. Natural como de fato é. Exceção apenas para a primeira aparição de Emmanuel. A câmera em movimento descendente e o som de asas foi um pouco demais! A trilha de Ediberto Gismonte acompanha o filme em sua velocidade de cruzeiro, sutil e um tanto melancólica.

A emoção e o grande mérito do filme está na constelação global que faz de Chico Xavier um filme de sorrisos, suspiros e lágrimas econômicas, mas sinceras. Dividem as vidas do médium Matheus Costa (infância), Ângelo Antonio (juventude) e Nelson Xavier (maturidade). Excelentes caracterizações, interpretações precisas. Segurança e tranqüilidade de quem sabe o tamanho da responsabilidade que tem nas mãos e a consciência do seu talento e capacidade. Paulo Goulart é Almir Guimarães, o apresentado do Pinga-fogo. Luís Melo, Giulia Gan, Giovanna Antonelli, Pedro Paulo Rangel (emocionante!), Ana Rosa, Cássio Gamos Mendes, Cássia Kiss e outros tantos, em maiores, ou menores apresentações, dão um brilho todo especial ao filme. Destaque ainda para Cristiane Torloni e Tony Ramos, que paralela a história de vida de Chico narram o incidente histórico em que a mediunidade foi aceita por um juiz para, oficialmente, inocentar um réu de um crime de homicídio. Novamente aqui não há resposta se o fenômeno é real, ou não. O que importa é a credibilidade de alguém que antes de ser médium é um ser humano de valores racionalmente inquestionáveis e o bom senso dos envolvidos no caso: jurista e, principalmente, os pais dos jovens protagonistas do drama.

Para mim a seqüência mais emocionante de todo o filme é exatamente aquela em que o personagem de Tony Ramos, sem abandonar suas convicções, mas receptivo e consolado, divide com a esposa (Torloni) a leitura de uma carta psicografada por Chico. Nessa seqüência está o grande mérito do médium mineiro: o alívio às dores de quem quer que seja, o ofertar um novo horizonte, a doação sem retribuição. “Eu sou só um carteiro!”, diz o Chico. E também o grande mérito da doutrina defendida por Xavier com a bravura de um mártir: caridade, amor ao próximo, consolação.
Talvez isso tenha feito de Chico Xavier – o filme, o homem – um campeão de bilheteria: o desejo humano e justo de paz, justiça e felicidade para além de qualquer credo, qualquer classe, qualquer filosofia.

(*) As Vidas de Chico Xavier. Marcel Souto Maior, 2ª edição ver. e ampl. – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2003.

HUDSON ANDRADE
08 de abril de 2010
16h40

sábado, abril 17, 2010

VIDA, PAIXÃO, MORTE, RESSURREIÇÃO.




“O objetivo do ator é transmitir suas idéias e sentimentos usando suas próprias emoções (...), sua experiência pessoal de vida (...), sem ocultar nada.” (Antonio Januzelli - Janô)


Vida. 53 anos de idade. Tempo cronológico. Calendário. Um quarto de século de teatro, dentro e fora dos palcos.
Paixão. Pelas filhas gêmeas, pelo marido e parceiro, por essa mesma arte que contaminou todos e fez da própria casa abrigo, ala de ensaios, auditório, teatro.
Morte. Abarcar e ao mesmo tempo esquecer toda uma bagagem pra viver algo novo. Solo, intimidade, numa troca que exigiu confiança, respeito, transpiração e inspiração.
Ressurgir sem ser cinza, mas ser novo, vendo dois meses de trabalho coroado de aplausos e a certeza expressa: Agora eu posso dizer que sou atriz!
Yeyé Porto é dessa geração de atores e atrizes paraenses que tem como integrantes Geraldo Sales, Cacá Carvalho, Cláudio Barradas, Nilza Maria, Zélia Amador, Luis Otávio Barata, entre outros. Nomes que a gente fala com um acento grave na voz. Gente que eu com meus apenas 39 anos de idade e 09 de carreira tive a chance e a honra de conhecer (exceto o Barata). Fui chamado a integrar o projeto A Casa da Atriz pelo Adriano Barroso que dirige o espetáculo A Troca e a Tarefa, que inaugura oficialmente a residência dos Porto como espaço cênico. Integro-me como ferramenta, como elemento, somando o que eu sei – porque há o que eu saiba – e o que me falta – porque há muito disso – e acreditando em fazer teatro.
Após a estréia do espetáculo a comoção da equipe era geral. “É isso!”, o Barroso dizia, olhos brilhando. “É isso!”, concordávamos.
Fazer teatro é pra todo mundo, mas não é pra qualquer um. Toda pessoa pode subir ao palco, escrever peças, conceber figurinos, cenários, adereços; iluminar, compor trilhas e organizar as apresentações. Mas não é qualquer pessoa que se entrega, que se joga, que acredita; que sente uma cuíra entrando por trás, subindo pela espinha e desarrumando a cabeça. Talvez por isso Dionísio, o rubicundo deus da embriaguez e do delírio místico, seja o patrono do teatro. Teatro é uma experiência mística, não no contexto religioso, mas no mais pleno sentido transcendental.
E Yeyé Porto e sua equipe – minha equipe! – transcende o texto de Lygia Bojunga; dá a ele que é um texto sobre escrever uma expressão cênica; dá a ele que fala em transformação um sentido todo pessoal do que seja ser outra coisa, pessoa, vivência.
A encenação aposta na simplicidade e o público (18 pessoas por sessão) entra na sala da casa da atriz com a intimidade e a informalidade de quem visita para um café, efetivamente disponível se se queira!
Aníbal Pacha questionou e instigou a equipe até chegar a um resultado onde cenário e figurino têm o seu porquê.
Sônia Lopes produz um jogo de claro e escuro que é a alma mesma dessa mulher – e a nossa! – de certezas e dúvidas, de medo e tranqüilidade, da alegria de uma festa à sombra do medo e de morrer que é, antes de qualquer coisa, o medo da solidão e do esquecimento. É essa luz também que nos faz renascer em tons de azul, com num sonho bom recheado de lembranças.
O entorno com suas buzinas e vendedores se integra à encenação, mas eu sinto falta de som, não necessariamente música, mas algo que preencha o silêncio constrangedor que precede as revelações. Por não ser um teatro, nosso hall é a calçada. Se chover (Belém, Belém...) existe abrigo e a espera pode ser feita degustando um maravilhoso tacacá, ou outras iguarias.
A Casa da Atriz nasceu da vontade de fazer teatro.
A Troca e a Tarefa nasceu da vontade de fazer teatro. Um teatro pobre defendido por Grotowski de ter, ser e mostrar aquilo que realmente importante à cena, ao público. Pobre de recursos sim, porque quem está ali faz o que faz porque ama o que faz e, sobretudo, sabe o que faz e consegue tirar “faíscas das britas e leite das pedras”. Pobre porque a pirotecnia não interessa e é mesmo desnecessária. Os valores que este projeto e este espetáculo oferecem em troca extrapolam qualquer sentido monetário que, claro, não são dispensados por necessário. É nosso trabalho, afinal. É o fazer teatral que conta aqui e todo aquele que abraçou este ofício deveria ter uma experiência assim. Disciplina, retidão, talento não se aprende em escolas e livros. A teoria todo mundo pode ter, mas teatro é Ser. Isso não é qualquer um que queira ou possa!

SERVIÇO:
A Troca e a Tarefa. Espetáculo inaugural do projeto A Casa da Atriz.
Elenco: Yeyé Porto
Direção: Adriano Barroso
Assistente de direção: Aílson Braga
Iluminação: Sônia Lopes
Cenário e figurino: Aníbal Pacha
Contra-regra: Leoci Medeiros
Produção: Paulo Porto

De sexta à domingo, sempre às 20 horas, nos meses de abril a junho.
Rua Oliveira Belo, nº 95, entre Generalíssimo e D. Romualdo de Seixas.
Ingressos: R$ 20,00
Informações e antecipações de ingressos: 8266 4397 e 8127 6366

HUDSON ANDRADE
16 de abril de 2010
9h45

QUALITAS SP



O Sr. Raposo é um homem, perdão, uma raposa, persuasiva, inteligente, sagaz, persistente, renitente, vaidosa, de emoções contidas – mesmo as justas e verdadeiras. Por trás da fala mansa e da gravata (!) está um animal selvagem com a cabeça no topo das árvores e os pés no fundo de um buraco. O Sr. Raposo é o protagonista de O Fantástico Sr. Raposo (The Fantastic Mr. Fox, EUA, 2009), com roteiro de Noah Baumbach, Wes Anderson e Roald Dahl a partir do original do próprio Dahl, autor de A Fantástica Fábrica de Chocolate, e com direção de Wes Anderson. Feito em animação stop-motion, O Fantástico Sr. Raposo conta com as vozes de George Clooney (Sr. Raposo), Meryl Streep (Sra. Raposo), além de Wally Wolodarsky, Jason Schartzman (Ash), Michael Gambon, Owen Wilson, Bill Murray (Texugo) e Willem Dafoe (Rato)
A trama mostra o Sr. Raposo abandonando a sua vida de raposa ao prometer à Felicity, esposa grávida que não roubaria novamente, assumindo uma vida aparentemente pacata. Sua insatisfação contida talvez seja a causa do relacionamento burocrático com a esposa que pinta em quadros as tempestades que vão dentro dela, e com Ash, o filho infantilizado e rebelde com quem não consegue se entender. Tudo começa a mudar quando o Sr. Raposo decide comprar uma casa-árvore na vizinhança com os humanos. Ao ver-se limite com três homens ricos e poderosos algo dentro dele desperta e com a ajuda do zelador Kylie, a Toupeira, arquiteta o Grande Plano, sua real despedida do seu lado raposa.
Todos os animais do bosque são humanizados, vestem roupas humanas, exercem profissões humanas, mas ainda vivem em tocas e não freqüentam a cidade com seus cachorros ainda cachorros. Ao invadir as propriedades dos fazendeiros Boggins, Bunce e do terrível Sr. Bean, Raposo provoca uma confusão de proporções inimagináveis que o envolvem diretamente, sua família e o delicado equilíbrio entre os homens e os animais, colocando-o em cheque com os seus valores – sobretudo sua vaidade e necessidade de atenção – e exigindo dele uma postura diante da sociedade, da família e de si mesmo.
Bárbara Heliodora diz em seu livro O Teatro Explicado aos Meus Filhos* que a preocupação essencial do teatro são as questões humanas. Ao expandirmos esse conceito para outras formas de arte temos O Fantástico Sr. Raposo discutindo situações extremamente significativas na embalagem cuti-cuti dos bonequinhos que se movem na tela. Não é um filme infantil, mas é um filme para todas as idades. Como é isso?! Diria que é um filme para crianças inteligentes e que possam julgar valores. Quem é mais selvagem? O Sr. Raposo e seus amigos ao assumirem o seu DNA e os seus nomes científicos, ou o autoritário e irascível Sr. Bean? Quais as conseqüências para a Sra. Raposo ao perceber que a vida a qual se acomodou não é assim tão estável e que ela precisa se posicionar diante de um perigo eminente? Como o Sr. Raposo pode resolver os conflitos com o filho, piorado depois da chegada do primo Kristofferson? como acessá-lo? Como dizer que o ama e confia nele? E o Rato, vendendo seus préstimos aos humanos contra seus pares animais, como um autêntico capitão-do-mato? Este não é um filme infantil. Há cenas violentas, diálogos contundentes, debates filosóficos, tudo quebrado e equilibrado por Anderson que com os gracejos dos seus bichinhos fofinhos fala bem fundo em nós.
O único prejuízo de O Fantástico Sr. Raposo não ter ido para o circuito comercial – O Maria Sylvia o exibiu em parceria com a Oi – é que isso reduz consideravelmente o público que pôde desfrutar dessa fabulo bonita por natureza e humana por excelência. Em seus quase uma semana e meia-raposa (mais ou menos 90 minutos humanos) O Fantástico Sr. Raposo é um exercício de lirismo numa animação cada vez mais rara e extremamente bela – ainda mais nesses tempos de filmagem digital, CGI, motion caption, etc. é a prova de que cinema, arte enfim, jamais prescindirá de uma boa história, de alguém que saiba contá-la e do jeito certo de fazê-lo.

HUDSON ANDRADE
07 de abril de 2010
15h29

(*) Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 17

sábado, abril 10, 2010

ÉGUA, PRIMO!



Wlad Lima e Karine Jansen são dessas tias velhas que costuram enormes e aconchegantes colchas de retalhos e nos dão de presente. Essa cara fragmentada e colorida é a marca dos seus trabalhos, seja em Macunaíma – O fim do que não tem fim, no qual eu atuei em 2000, na Escola de Teatro, passando por Amortemor, Paixão Barata e Madalenas, Laquê, Quando a Sorte te Solta um Cisne na Noite, entre tantos, até Brasileiramente, Árabes! que estreou no último dia 31 de março.
Vivi esse processo em que o texto do Mário de Andrade, nossas histórias, sensações físicas, jogos, um-bilhão-quinhentas-e-oitenta-e-quatro-milhões de referências de um-tudo alimentavam elenco e direção na construção do espetáculo. Cada ator/atriz tem sua chance, cada um oferece e recebe, cada um constrói, desconstrói, reconstrói. Às vezes eu ficava no escuro, querendo saber se tinha acertado, errado, qualquer coisa, e elas ali, sugando de mim até o bagaço pra depois devolver reidratado e fresco, com um tempero e um sabor peculiar a cada um: nós, atores, os retalhos. Elas, agulha e linha. E tesoura, se preciso.
O trabalho começou em 2008 com Maridete Daibes, Larissa Latif, Wlad Lima e Karine Jansen a partir de narrativas familiares; um grupo de pesquisadores recolheu cartas de descendentes de libaneses e todo esse material foi decodificado em símbolos. Wlad e Karine são mestras em transformar letras e contos e falas e sentimentos e sensações em símbolos e estes na poesia que preenche o palco. Daí nasceu Brasileiramente, Árabes! a pesquisa e o espetáculo, trazendo a identidade dos descendentes libaneses no Pará, sobretudo em Belém, buscando revelar uma ascendência árabe oculta aos nossos olhos e que faz parte de nossa história individual e coletiva de forma insuspeitada.
O espetáculo de 75 minutos avança em quadros com apresentações genealógicas, relatos pessoais, familiares, históricos, a imigração, os costumes, a culinária, os ditos, a fama de mercadores, a mitologia. Quatro atores descendentes de libaneses nos conduzem nessa viagem quase sinestésica, mas irregular, fruto de diferenças de maturidade cênica – todo ator/atriz tem seu espaço –, seguros pelo conjunto. Parece que aquelas histórias não são deles – de certa forma não! –, mas que precisavam de uma apropriação que tornaria tudo mais crível e emocional. A cenografia e o figurino de Klau Menezes têm a beleza das coisas simples e significantes – ainda que nem tanto para quem assiste –, contida nas cores, étnica e onírica como os personagens de nossos livros infantis. A sonoplastia de Eddie Pereira calcada na tradição árabe dá na gente aquela vontade de sacudir as cadeiras e os ombros (dizque o ECAD apareceu por lá! Essa gente não se manca!) e só peca pela falta comum em nosso teatro que usando música mecânica estanca tudo com um clique seco do pause/stop.
Todos rimos das contas de cabeça feitas para a construção de uma casa, calamos para ouvir as lendas de mercadores e califas, relembramos conflitos sangrentos, saudades. Atrás de mim uma senhora reconhecia sua própria história e comentava, antecipando-se a fala como se conhecesse o roteiro – de alguma forma sim! –; reconhecíamos as lojas e os nomes de família e no ponto de ônibus, muitos minutos depois (muitos mesmo, pois o ônibus demorou pacaraio!) três amigos comparavam os narizes e concluíam: a gente é tudo misturado mesmo!!!
Se Brasileiramente, Árabes! se propõe a revelar (nos), bingo!!!
Cá estamos. Eu desejando tanto ser novamente retalho. Caminhos diversos... Cá estamos, flutuando na fumaça luminosa dos narguilés.
“ASSALAN ALEIKUM”

Brasileiramente, Árabes! é vinculado a pesquisa “Brasileiramente, Árabes! um estudo das práticas performáticas dos descendentes de libaneses na cidade de Belém”.
Equipe de pesquisa: Carlos Vera Cruz, Cleice Maciel, Karla Pessoa, Ives Oliveira, Karine Jansen e Wlad Lima.
As cartas que originaram a dramaturgia estão disponíveis em HTTP://brasileiramentearabe.wordpress.com
SERVIÇO
Brasileiramente, Árabes!
Direção: Karine Jansen e Wlad Lima
Com Natalia Abdul Khalek (Família Abdul Khalek), Dario Jaime (Família Abdon Khalarg), Maridete Daibes (Família Daibes) e Klau Menezes (Família Anaisse).
Teatro Cláudio Barradas (Escola de Teatro e Dança da UFPA. Av. Jerônimo Pimentel, esquina com D. Romualdo de Seixas).
De 31 de março a 11 de abril de 2010, de quarta a domingo, 21 horas.
Ingressos: R$ 20,00 (vinte reais) com meia entrada para quem de direito, incluindo a categoria teatral e descendentes de libaneses, mediante comprovação.
Este projeto tem o patrocínio da Petrobras através da Fundação Nacional de Artes – FUNARTE, Ministério da Cultura.

HUDSON ANDRADE
01 de abril de 2010.
10h53

...E TAMBÉM COM O TEU ESPÍRITO...



“Que padeceu por nós, morreu por nosso amor.”


Todo mundo que trabalha com teatro já ouviu a expressão “teatro de igreja”. Normalmente isso é dito num contexto pejorativo, indicando algo extremamente amador, simplório e conteudista. Amador, sim, afinal quem o pratica não tem como foco salário, sistematização e/ou regulamentação da atividade, foco em artes cênicas. Simplório não significa necessariamente piegas, ou mal feito, ou de mau gosto. Conteudista, talvez. Esta é uma relação séria na relação arte e sociedade: a arte só ser arte se for pura, o que é impossível porque arte e artista estão enraizados num contexto histórico-cultural-social. Por outro lado a chamada “arte engajada” quer tornar o artista a consciência crítica do povo oprimido, sacrificando o trabalho artístico pela “mensagem”. Há que se encontrar um meio termo entre formalismo e conteudismo, de vez que toda arte comunica e toda mensagem precisa de uma embalagem adequada.
Outro ponto são as relações entre religião e arte, aqui especificamente o teatro. Há quem veja esse relacionamento como promissor, outros com desconfiada tolerância, alguns com algum desgosto e mesmo total desprezo. Não dá pra desvincular o que tem origens tão íntimas – dos cultos tribais aos ritos religiosos, passando por Téspis na antiga Grécia, a proibição e a excomunhão pela igreja católica coibindo os despautérios do teatro romano até que essa mesma igreja o resgatasse dos mercados para seus átrios, catequizando através de Mistérios e Paixões.
Vi uma dessas paixões, O Canto da Paixão, de autoria do padre Reginaldo Veloso, encenada na Igreja de Jesus Ressuscitado, com direção do seu pároco, ninguém menos que Cláudio Barradas. O texto extremamente bem escrito, em versos, cantado ao vivo pelo próprio Barradas, narra da entrada de Jesus na Cidade Santa até sua ressurreição. É dividido em quatro blocos que mostram o Jesus histórico, encerrando cada período com uma reflexão da paixão crística em nossa realidade atual. Não há falas para os atores, apenas algumas interferências. O elenco, notadamente jovem, interpreta coro e vários personagens, exceto aquele que faz o Cristo, único a permanecer apenas com um personagem. A encenação é simples, ilustrando os acontecimentos apresentados um a um. O figurino, básico – calças de tactel preto, camisetas brancas, pés descalços, sem maquiagem, faixas de tecido roxo que se alternam em mantos, cintas, chicotes, correntes, romanos, judeus. Exceção novamente ao Cristo, numa túnica branca e manto vermelho sobre um trançado de tecido branco que lhe cobre abaixo da cintura. Nenhum adereço, nem mesmo a própria cruz, representada também por um ator.
Assisti tudo atento e realmente comovido. Ciente de uma cronologia e de seu elenco, Barradas interrompeu duas vezes a encenação, reiniciando e inserindo uma cena esquecida. O que no teatro, digamos, formal, não acontece, com o ator devendo resolver sua cena e dando prosseguimento a trama, aqui atende aos objetivos catequéticos da apresentação; observei que a dramaturgia, em tudo coerente com a doutrina que expressa, não é meramente jornalística e não descamba no pieguismo, sobretudo ao conectar o sofrimento de Jesus ao povo no cenário opressor, corrupto, preconceituoso e intolerante em que vivemos. O tom monocórdico de ladainha, quebrado ao final de cada bloco parecendo querer nos despertar para uma realidade esquecida, ou propositalmente relegada às periferias. O elenco, decididamente, precisa de um corpo de ator. Geralmente frouxo (ou tenso quando e onde não deveria) daria muito mais clareza e força às cenas se os gestos fossem mais limpos, decodificados e precisos, mas isso faz parte daquela sistematização supra-citada e que ainda não está na sua realidade.
Pensei por um momento na Paixão de Cristo, lá em Nova Jerusalém. Ela teria trocado a mensagem, ou a idéia na sua concepção pelo show? Ou tudo sempre fora pensado assim e só aos poucos ganhou a estrutura atual, pirotécnica, com seus atores globais? E quem assiste quer ver seus ídolos, ou relembrar Jesus nessa passagem ímpar da história humana? Ou as duas coisas? De quantas trocas de roupa, cenários e efeitos de luz e som eu preciso para emocionar e comunicar? Uma faixa de malha roxa e um gesto no ar não chegam ao mesmo fim? Aquele é Teatro e esse “teatro de igreja”, no seu conceito pejorativo dito por alguém cheio de empáfia? Muitas outras perguntas poderiam surgir daqui, debates, que passariam mesmo ao largo da equipe da paróquia de Jesus Ressuscitado cujas mãos experientes de um dos maiores artistas desse estado, Cláudio Barradas, criou um espetáculo de uma beleza tão singela quanto marcante. Na sua paixão, tanto o ator era o foco – limpo, trocando personagens e agindo diante da platéia, ciente de suas próprias limitações –, quanto o Evangelho de Jesus, sua morte e ressurreição. É a arte – habilidade, instrumento, agilidade, ofício – ordenando a vida humana por regras e símbolos, contando e emocionando. Adaptando Djavan: arte é assim: invade. E fim!

Participam de O Canto da Paixão: Marcelo Rocha, Pedro, Kátia, Fabrício, Meire, Jhony, Isabel, Cristiano, Radarani, Raimundo, Laiana, Alan, Iranildes, Adriano e Franklin.

HUDSON ANDRADE
29 de março de 2010.
10h19

EU TENHO UM SONHO...



... de que haverá oportunidades para todos, brancos, negros, homens, mulheres, todas as idade e etnias, com respeito a sua cultura e costumes. De que haverá uma chance para alguém – que nem todas a buscam, ou se esforçam para garanti-la – e que esse alguém fará a diferença e a multiplicará. De que haverá sorrisos, inicialmente tímidos e então abertos, francos e haverá paz nos corações.
É com um sorriso quase constante no rosto – alguma lágrima, alguma reflexão – que assisti (mos) Um Sonho Possível (Tha Blind Side, EUA, 2009), filme que deu a Sandra Bullock o Oscar de melhor atriz. O título para nós faz todo o sentido: Michael Oher (Quinto Aaron), negro, sob a tutela do estado depois que a mãe, viciada em crack, perde sua guarda, oriundo de um gueto desconhecido da própria cidade onde está encistado, é acolhido pela família Tuohy que com a paciência de quem “descasca uma cebola, camada por camada”, consegue que ele se torne um super astro do futebol americano, de onde o título original, posição ocupada por Big Mike no time. Nesse ponto eu me calo. Futebol americano é uma das coisas mais estúpidas do planeta (e eu posso falar de cátedra sobre estupidez vivendo num Brasil amoral ao som de tecnomelody) e demonstra bem a inclinação imperialista e belicosa daqueles que o praticam e prestigiam.
Mas voltemos ao filme. É difícil crer que um roteiro tão simples e lacrimosos possa render um bom drama, em se sentido real. E rende! Sandra Bullock no papel de Leigh Anne Tuohy é a locomotiva que puxa toda a trama. Segura, suave, assertiva, com um charme meio cafona de quem veio de origem humilde, cresceu e não esqueceu que ainda há um outro lado na cidade, nas pessoas, na vida. A atriz interpreta o personagem com tranqüilidade e segurança, sem carregar nas tintas, nos maneirismos, contida e luminosa. Um bem merecido prêmio. A Sra. Tuohy, o marido Sean (Tim McGraw) e os filhos Collins (Lily Collins) e o fantástico SJ (Jae Head) acolhem o grandalhão calado e esquivo com uma camisa no corpo e outra num saco plástico sem maiores preocupações. Nesse ponto o filme é feito para agradar: não há um grande conflito até Michael ser confrontado com a possibilidade de que todo aquele investimento não seja desinteressado, o que desaparece depois de um choque com sua realidade original e algumas horas meditando diante da máquina de lavar. Daí voltamos a paz onde ninguém discute as opiniões da persuasiva Leigh Anne Tuohy, onde não se briga, questiona – sejam os filhos, os professores, o treinador – e mesmo a questão racial, apesar de estarmos no Mississipi, se resume a uma meia dúzia de seis xingamentos numa partida de futebol. Aliás, estarmos no Mississipi só aumenta a relevância do feito dos Tuohy que podendo degustar saladas de 18 dólares o prato, investem num desconhecido. E é tocante a cena em que Michael recebe seu quarto. A sinceridade ingênua de quem havia dormido de sofá em sofá toda uma vida comove a mãe adotiva e a platéia. O garoto tirou a sorte grande e soube aproveitá-la porque não tinha o mesmo ânimo dos seus parceiros da periferia, como o jovem Danny, que contaminado por sua des-vida acaba como, acredita-se, devem acabar todos aqueles. E essa diversidade de ânimo se deve a um (pasmem!) conselho materno (não, eu não vou contar qual é!) que se foi eficiente em proteger o menino, produziu um jovem inerme, quase um autista social, o que lhe garantiu sucesso num mundo onde ele tanto poderia encher-se de tola vaidade, ou fugir carregando a prataria.
Apesar de seu caráter folhetinesco Um Sonho Possível é um ótimo filme para ver, rever com a família, discutir seus aspectos sociais; dar gargalhadas e fechar a janela do carro para enxugar, às escondidas, uma furtiva lágrima. E olha que quem diz isso desistiu de À Procura da Felicidade (The Pursuit of Happyness, EUA, 2006) no seu primeiro terço!
Eu tenho o sonho de um filme perfeito! Mas enquanto a perfeição – nosso maior sonho – não vem, que haja outros filmes possíveis de serem vistos com bons amigos, no escurinho do cinema, perto de um final feliz.

HUDSON ANDRADE
25 de março de 2010.
9h58

O MÃO DE VACA



O clown é a exposição do ridículo e das fraquezas de cada um. Logo, ele é um tipo pessoal e único... O clown não representa, ele é – o que faz lembrar os bobos e bufões da Idade Média. Não se trata de um personagem, ou seja, uma entidade externa a nós, mas da ampliação e dilatação dos aspectos ingênuos, puros e humanos (como no clods), portanto ‘estúpidos’, do nosso próprio ser (Burnier, 2001, p. 209).


“Façam versos pr’um palhaço que na vida já foi tudo: foi soldado, carpinteiro, seresteiro e vagabundo...”* e nessa multiplicidade os Palhaços Trovadores fizeram nesses 11 anos de experiência um público cativo, fiel e entusiasmado, apresentando seus espetáculos nos teatros, ruas, escolas, praças e até bares; participaram ainda do Festival de Ópera nas apresentações de de Il Pagliacci e foram nesse 2010 homenageados pela Escola de Samba Bole-bole, do Guamá, cujo enredo foi o campeão do carnaval em Belém. E finalmente depois de 11 anos conseguiram uma sede onde trabalhar e agora pelejam para restaurar o prédio cedido pela Santa Casa de Misericórdia.
Um grupo grande, de aparente pouca rotatividade, coeso, que introduziu na cidade a linguagem dos clowns enquanto teatro – entenda-se, fora do circo. Seus espetáculos costumam ter um tema central desenvolvido em pequenos quadros, exceto suas duas últimas produções, adaptações da obra de Molière (Jean-Baptiste Poquelin, Paris, 15 de janeiro de 1622 – 17 de fevereiro de 1673). de O Doente Imaginário nasceu O Hipocondríaco e de O Avarento, o então em cartaz O Mão de Vaca. Esses dois trabalhos fogem a regra por terem um roteiro mais fixo e linear; os atores representam dois personagens: o seu próprio clown que por sua vez representa o personagem da peça. A estrutura cênica de ambos é igual: toda a trupe em cena, ao fundo, de onde se deslocam para suas ações e onde acontecem (pequenas) interferências. Marcelo Villela e seu clown, Bubutchelho, são os protagonistas desses trabalhos, o cenário é simples e pontual; há música ao vivo, os figurinos são de Aníbal Pacha. As semelhanças acabam aí. Apesar de parecidos em estrutura e encenação, O Mão de Vaca é muito mais ralentado, menos emocional e divertido que seu duplo. Há pequenas variações de elenco nos dois e eles têm, pelas suas próprias características, improvisos e cacos que tanto podem render ótimas sacadas, ou por a perder uma cena. Essa falta de ritmo faz com que os cerca de 90 minutos de encenação pareçam muito mais, causando mesmo um desconforto na platéia. Afirmo isso por ter assistido O Mão de Vaca duas vezes e constatado o que, à primeira vista, poderia ser só um dia ruim. Nesta segunda vez foi pior, mas sejamos francos que parte do problema está em que por ser um espetáculo “de palhaços” acredita-se que seja um espetáculo infantil. Não demorou para que a molecada dormisse, ou pior, ficasse indócil. Outra questão é que essa apresentação no Maria Sylvia Nunes, da Estação das Docas, criou um distancimento nada interessante. O espetáculo pede o público ali do ladinho, interagindo, cúmplice.
É muito bom ver o crescimento de alguns atores – projeção de voz, articulação, jogo –, assim como a necessidade de amadurecimento de outros; a segurança dos mais antigos garantindo que o espetáculo siga seu curso (seja lá de que jeito for). Teatro de grupo, não vou citar nomes nem elogiar, ou admoestar individualmente. Parabenizo todos e peço cuidado a todos. não se sintam satisfeitos nem confortáveis com os resultados obtidos, ou o aplauso efusivo dos fãs de carteirinha. Pode ser mais. Sempre dá.
(*) O Circo. Quarteto em Cy
SERVIÇO: O Mão de Vaca. Adaptação de O Avarento, de Moliere.
Direção: Marton Maués.
Com: Os Palhaços Trovadores.

TÃO EM BREVE QUANTO POSSÍVEL, visite a CASA DO PALHAÇO, Tv. Piedade, esquina com Tv. Tiradentes.

VEJAM TAMBÉM: http://unha-de-fome.spaceblog.com.br

HUDSON ANDRADE
13 de março de 2010.
9h23

segunda-feira, março 22, 2010

A MALDIÇÃO DISSO E DAQUILO



Pessoas, pensem num sábado de madrugada, Sessão Coruja, em exibição Um Corpo que Cai, Psicose, Disque M para Matar, algo assim! Pensem naquelas letras de corte quadrado, sobre fundo branco, parecendo antiquadas já naquela época; pensem num longa comprido, cheio de personagens que gravitam em torno em um protagonista determinado, mas cheio de recalques, mais um anti-herói do que mocinho, que tem lá o seu charme, mas fuma feito um condenado; mulheres bonitas, cheias de classe e charme, movimentando-se languidamente pelas cenas, cheias de personalidade, criando a confusão e a cizânia na mente do dito personagem principal; homens sérios, calados, irônicos, pulando da sombra e voltando rapidamente pra ela, cheios de meias palavras e verdades completas disfarçadas de mentiras, ou meias verdades disfarçadas de dúvidas, ou mentiras absolutas que parecem reais de tão coerentes.
Assim é Ilha do Medo (Shutter Island, EUA, 2009), a nova produção de Martins Scorcese, o diretor ítalo-americano que já nos deu filmes tão diferentes quanto Depois de Horas, Os Bons Companheiros, A Época da Inocência e Gangues de Nova Iorque. Esse cara meio franzino e grisalho, que parece calmo, de fala mansa e que sugere ter um furacão dentro de si, mostra seu lado hitchcoquiano no longa que trás Leonardo di Caprio, Mark Ruffalo, Ben Kinsley e Michelle Willians (a esposinha de Ennis Del Mar em Brockback Mountain – aqui bem mais bonita e igualmente antipática, o personagem, naquela voz de coitadinha e olhos baixos de cachorro que quebrou panela!)
Na ilha Shutter, que abriga o Hospital Psiquiátrico Correcional de Ashecliffe, os ambientes internos são escuros e opressivos; os externos, íngremes e limitantes. Névoa, faróis sem luz, muros grossos, grades, florestas que despencam, cemitérios, tempestades, céus iluminados por relâmpagos, Gustav Mahler. Fechados nela (como o título sugere), o detetive federal Teddy Daniels (Di Caprio) e seu parceiro Chuck Aule (Ruffalo) devem investigar o desaparecimento de uma paciente e, ao mesmo tempo, empreender uma caçada redentorista a um tal Andrew Laedis, o assassino de Dolores (Willians), esposa de Daniels. Mas como diz um paciente ao detetive, ele não passa ali de um rato num labirinto e continuamente é incitado a partir, ou jamais deixará aquela ilha. Obstinado, Daniels insiste em sua cruzada mesmo percebendo que trilha um caminho sem volta.
Os movimentos de câmera, a trilha sonora, a mistura de verdade, alucinação, sonho, desconfiança, tudo nos coloca junto ao atormentado detetive e se ele enlouquecer, enlouquecemos juntos, ou saímos dali e ficamos todos bem. Talvez por isso algumas pessoas tenham saído do cinema (que bom que saíram, porque se tem uma gentalha que eu não tolero em cinemas e teatros é esse pessoalzinho que fica conversando, comentando e tals!); talvez por isso outras tenham saído logo ao final da exibição, ou ao acenderem as luzes. Semblantes carregados, gargantas secas. Ilha do Medo é um ótimo filme, mas não é um filme pra todo mundo, sobretudo praqueles que cinema é a maior diversão. Tão logo eu me livrei do desgraçado que ficava acendendo o celular bem ao meu lado e ignorei a lesa que ficava dizendo pro namoradinho que tinha medinho de escuro e que não gostava de filme assim que ela ficava nervosa (pensa aonde esse truque vai dar!) ficou zuzubem e eu nem senti as duas horas e vinte minutos de projeção. Saí com vontade de voltar e fiquei pensando que se não fosse a falta de grana pro táxi teria sido legal assistir a última sessão e caminhar na penumbra dos corredores vazios do shopping, brincando que os manequins abriam uns olhos vítreos (como o anjo na sepultura da esposa de Louis em Entrevista com o Vampiro) e os seguranças não eram mesmo quem eles pareciam ser. Brincadeira que acabaria logo na calçada, que a realidade dos pontos de ônibus aqui pelos lados da Marambaia são muito mais assustadoras que qualquer filme gótico.

HUDSON ANDRADE
20 de março de 2010.
11h20

OBSCURO REYNO ENCANTADO


Fundo Reyno é um espetáculo difícil!
O trabalho escrito, musicado e dirigido por Walter Freitas estreou no dia 18 de março no Teatro Waldemar Henrique e segue duas semanas de temporada. E por que é difícil?
É difícil porque o enredo da trama até que é simples, mas o desenvolvimento do roteiro é lento e complicado. Até que a gente entenda quem é quem e o que ele está fazendo ali, muito tempo já passou. E o programa – que eu optei por não ler antes – não dá qualquer indicação de pra onde a coisa vai. “Intriga, sexo, feitiço, traição e morte nos rios da Amazônia” é tanta coisa pra dizer e dito como foi pode resultar muito pouco.
Os personagens vão se delineando devagar, confusos, e a proposta brechtiana de estar em cena e trocar de roupa e personagem por não ser mais precisa e assumida nem é só troca de roupa nem cena.
O texto parece ser interessante, mas quer dizer tudo. Não nos sobra espaço pra pensar. Há longas explanações cheias de detalhes e referências parecendo querer evitar que alguém diga “faltou isso, faltou aquilo!”. Por ser em verso as falas precisam ser mais articuladas, projetadas e bem ditas, para que a métrica não caia no ba-ta-ti-nha-quan-do-nas-ce. Essa imprecisão ajudou a tornar ainda mais difícil o entendimento do espetáculo. Um bom trabalho de mesa é imprescindível.
Fundo Reyno tem uma corporeidade frouxa. Trabalhar com objetos invisíveis é criar armadilhas para si – perigosas e risíveis. Os atores não são mímicos e mímica é algo mito mais elaborado e simbólico. Melhor seria codificar os gestos e tornar a encenação corporalmente limpa.
Nos números musicais, o dilema: amplificar os instrumentos de corda e cobrir a voz dos atores, já que nem todos cantavam, ou o faziam bem fraco; não amplificar os instrumentos e fazer seus sons se perderem nas vozes de Mônica Lima e Walter Freitas. Um ponto absolutamente positivo é ter a música ao vivo e executada também pelos atores que, não sendo músicos – a exceção, parece, só o próprio Freitas – carecem de grandes valores musicais. Não estou pedindo virtuosismo. Na minha companhia temos o mesmo problema e basta colocar um caxixi na mão de um ator, ou atriz pra cena virar um caos. Digo que se assuma isso, ou deixe na mão de quem sabe, como temos feito em nossos últimos trabalhos.
A mistura de catolicismo, encantaria, religião afro; a cenografia na entrada que tanto pode ser a sujeira dos personagens quanto um apelo ecológico pelos nossos rios; as ações paralelas, demais, as quase duas horas de ladainha que, ralentadas, parecem muito mais; o calor insuportável e o desconforto do Waldemar Henrique (isso são outros 500!), tudo colabora para tornar Fundo Reyno ainda mais difícil de ser aprecisado. Frente a isso tudo há que se valer da máxima de que, em muitos casos, menos é mais. E isso é pra hodie.
Santo Expedito, ora pro nobis.

SERVIÇO: FUNDO REYNO. Teatro Waldemar Henrique, dias 18 a 21 e 25 a 28 de março de 2010, sempre à 20 horas. Ingressos na bilheteria a R$ 10,00 (com meia).
Música, direção musical, dramaturgia e direção: Walter Freitas.
Cenografia e figurino: Maurício Franco.
Designer de luz: Thiago Ferradaes.
Produção: Cristina Costa.
Elenco: Juliana Medeiros (Pajé Sacaca), Pauli Banhos (viúva Zulmira), Wellingta Macêdo (Nhá Luca / o Bicho), Andréa Rocha (Antero Denizar), Mônica Lima (Bandeireiro), Akel Fares (Rabequeiro) e Walter Freitas (Violeiro).
Projeto agraciado com o Prêmio Miriam Muniz da Fundação Nacional de Artes – FUNARTE, Ministério da Cultura e Governo Federal.

Hudson Andrade
19 de março de 2010
9h28

FACE-OFF




Tenho por princípio para meus comentários no blog não escrever sobre algo que eu não tenha irremediavelmente gostado. Que é que eu diria? “Não gostei. Ponto!” Não sou um crítico de profissão e portanto não me ateria a detalhes técnicos e tal só pra falar de algo. Também não sou um blogueiro por excelência. Até gostaria de ser, mas não tenho tempo, ou desejo de postagens diárias, ainda que elas pudessem ocorrer mais amiúde, diria um desaparecido amigo.
Decidira não escrever sobre Avatar (EUA, 2009), que eu irremediavelmente odiei, mas ao finalmente assistir Guerra ao Terror (The Hunt Locker, EUA, 2009), ponderei que a melhor maneira de falar sobre o filme de Kathryn Bigelow seria comparando-o com o de James Cameron, seu principal concorrente ao Oscar 2010. Faço isso usando os princípios do Big Five: filme, diretor, roteiro, ator e atriz principais.
Um filme precisa ter um roteiro, original, ou adaptado. O resultado vem em grande parte desse roteiro, daí tantos embates, mudanças, exigências da Indústria nesse quesito. Claro que ele deve ser excelente, mas se não for, que seja conciso, coerente, limpo e tenha a propriedade de encantar o público a ponto mesmo de virar um sub-produto do filme, ou levar milhares de pessoas a querer ler o que lhe deu origem. Avatar e Guerra ao Terror têm roteiros simples, sem grandes curvas dramáticas, ou reviravoltas. O segundo, aliás, nem tem reviravoltas. O roteiro de Mark Boal é documental, franco, reflexivo. O roteiro de Cameron é apelativo, maniqueísta e repetitivo.
Cameron deu a cara de Hollywood aos seus personagens: Sam Worthington, um dos atuais queridinhos da Indústria (e que a meu ver ainda não acertou a mão e as escolhas!) e Sigourney Weaver, que tanto já fez Alien, o Oitavo Passageiro, quanto fez Alien, a Ressurreição (!!!); os demais são fantoches unidimensionais, ou personagens virtuais – o povo Na’vi. Interpretações toscas. Guerra aponta em caras novas, exceto as participações especiais e luxuosas de Guy Pierce e Ralph Fiennes (limpando a alma de Lorde Valdemort!). O filme está mesmo nas mãos de Jeremy Renner (Sargento James, concorrente ao Oscar de melhor ator), Anthony Mackie e Brian Geraghty. Seus pequenos e grandes medos, anseios, alegrias, tristezas, uma vida engarrafada nos dias que se escoam perigosos entre o fim de um rodízio e o início de outro. Guerra me ganha porque eu gosto de filmes de gente, suas incoerências, lutas, idiossincrasias (VER ISSO). Aqui os personagens têm uma falha trágica que os humaniza e engrandece. Em Avatar os torna patéticos.
Cameron e Bigelow são excelentes diretores. Rolava nos anos 80 um papo de umas camisetas de equipe onde se lia “Não mexa comigo. Trabalho para Jim Cameron.”. Preciso, inteligente, exigente, detalhista, obstinado. Tudo isso se pode dizer de Cameron e não é a toa que seus filmes são longos (3 horas e meia é demais para os atuais padrões comerciais), caros e levam anos da concepção ao produto. Infelizmente, isso não significa qualidade. O oscarizado e lacrimejante Titanic (sim, eu chorei nele!) e o testoterônico e ecologicamente correto Avatar são duas babas. Dois bolos de noiva com muito glacê e pouca manteiga. Em sua estréia, a primeira mulher a levar um Oscar de melhor direção optou por uma refeição mais simples, balanceada, bem temperada e palatável, não entrando para os clichês sanguinolentos comuns em filmes de guerra; uma violência mais fruto da tensão da cidade (Bagdá), dos seus habitantes (amigos jamais, espiões, submissos?), da vida por um fio de detonador. Seqüências longas e silenciosas que causam uma angústia em quem assiste e dão noção de quanto o tempo – esse inimigo – pode ser ingrato e sufocante.
Filmes pedem uma mão firme. Ambos têm, mas seus objetivos são diametralmente opostos. E não, Kathryn Bigelow não é a ex-senhora James Cameron.
Enquanto filme Avatar é uma embalagem, a forma escolhida por Cameron para vender seu produto. Leia-se a tecnologia para todo o processo de criação da película. E por privilegiar a forma, menosprezou o conteúdo.
Enquanto filme Guerra ao Terror é um veículo, a forma escolhida por Bigelow para questionar a guerra, sobretudo a do Iraque, atravessada na garganta dos americanos, e seus agentes, seja por convicção, vazio, ou obrigação; mas enquanto conteúdo não abriu mão da forma. A seqüência do homem-bomba é fantástica, emocionante e apavorante. Aqui destaco ainda um ponto-chave. Em Guerra os efeitos especiais estão a serviço do roteiro, do filme em si, uma parte importante que soma e dá destaque aquilo que realmente importa, camuflado que está de ocasional. Em Avatar os efeitos especiais premiados com o são o filme. Nesse aspecto Cameron alcançou seus objetivos, mesmo perdendo o Reino dos Céus.
Assistir Guerra ao Terror (esse título é pra induzir alguma coisa na gente?! Afinal, o original faz referência ao trabalho do sargento James e quem sabe sua mania de souvenires de guerra) é uma experiência para ser repetida, multiplicada (não falo em continuações, claro!), discutida. Avatar é acompanhamento de pipoca. Avatar é um filme. Guerra é prosa, poesia, amor e sexo. Fazia tempo que eu precisava ver um filme assim!

Hudson Andrade
18 de março de 2010
10h27

EU 23


Acordei porque tinha que acordar. O despertador não tocou. Jogado na cama estranhei o silêncio da casa. Desci as escadas e percebi que apesar de ainda cedo, todos os cômodos estavam impecavelmente arrumados e limpos. Não havia café no bule nem leite na geladeira e ninguém também comprara o pão.
Aliás, não havia ninguém em casa. Onde estariam todos? peguei o telefone para ligar para minha mãe mas a linha fazia seu som ininterrupto e monocórdico sem que eu conseguisse acessar qualquer número que fosse. E ao ligar o celular percebi que toda a minha agenda estava vazia, assim como no bloco telefônico todos os números tinham simplesmente apagado.
Me deu um medo de sei-lá-o-quê e eu sentei na poltrona em frente a TV que não passava programa algum e fiquei lá sabe Deus quanto tempo sem fome, ou sede, só uma sensação de vazio na boca do estômago e que foi ocupando minha cabeça com um zumbido.
Decidi descobrir o que havia acontecido, mas ninguém ocupava as casas da vizinhança. Os portões estavam sem cadeados, os carros frios, os brinquedos das crianças no quarto das crianças. Não havia cachorros nos quintais, gatos nos telhados, peixes nos aquários e as gaiolas estavam vazias com seus jornais no fundo, intactos e sem data.
Depois de passar por escolas sem alunos, academias sem atletas, nenhum fiel, beata, ou vela acesa nas igrejas, semáforos desligados e vitrines vazias, considerei a total insanidade daquela situação e cogitei que se o fim do mundo acontecera eu não era joio nem trigo.
Se eu não podia telefonar também não poderia enviar e-mails, então decidi escrever cartas, ou bilhetes, mas percebi, horrorizado, que se houvesse um endereço para onde enviá-las – e não havia! – eu não lembrava o nome de qualquer destinatário. Além do mais, que carteiro as entregaria se nem a bandeira do quartel havia sido hasteada?
Foi em frente à baia sem marolas ou urubus que eu ao não sentir o vento desisti de ir embora. Pra onde?! E foi quando constatei que tinha atravessado a cidade inteira sem cansaço, sem que o sol me incomodasse, sem chuva. Devo ter morrido, pensei, mas onde estão Deus, as outras almas, os vales de enxofre, o Nirvana, os Campos Elíseos?
Aquele vazio que subira do estômago para a cabeça com um zumbido agora rodopiava na minha pele arrepiada e eu teria de bom grado elaborado alguma teoria se uma inconsciência não bloqueasse meus pensares.
E então meu corpo leve começou a subir do chão e num alto, cercado de cadeiras, mesas, ursos de pelúcia, canetas, tesouras, camisas, vasos, muletas, garrafas, sapatos, fraldas, livros, pneus, esponjas, martelos, retratos de ninguém, talheres, vassouras, gerânios, enfim, de um tudo leve e furta-cor como bolhas de sabão, fui subindo contra um fundo preto e silencioso e naquele vazio não ouvi nada, não disse nada e sem cheiro, frio ou calor, fechando os olhos, não vi mais nada!

Hudson Andrade
15 de março de 2010.
16h49

ACEITA ESSA CONTRADANÇA?



20 anos e dezenas de Sessões da Tarde depois eu assisti pela primeira vez Dirty Dancing. Lembro que (I’ve had) The Time of my Life concorreu ao Oscar de melhor canção (levou?) e de eu ter adorado a apresentação: um teatro de sombras em que um cavaleiro lutava por sua amada princesa. Depois nada. Afinal não é o tipo de filme que me encha os olhos. De fato a história é tosca, cafona, datada; os personagens não têm nuances, as interpretações têm a profundidade de um pires, o figurino demonstra todo o horror dos anos 80 – apesar de a trama se passar em 1963! – e até mesmo o tal dirty dancing do título (suja em contraponto aos tradicionalistas e comportados bailados do acampamento de férias Castkill´s) não passa de uma esfregação tímida e inócua nesses tempos de rebolados em velocidades ascendentes. Será que na época alguém sentiu algum comichão?! Eu não sentiria vendo casais – todos heteros e nenhum interracial – mexendo e remexendo e aqui e ali uma mão na bundinha.
Por que diabos então eu estou aqui escrevendo sobre o filme de Emile Ardolino? É que um fato interessante aconteceu. Ao assistir o tal, a famosa cena final: todo mundo dançando parece final de novela das 7; o Johnny Castle (Patrick Swayze, que Deus o tenha!) cantarolando The Time of my Life para Baby (Jennifer Grey), fiquei com os olhos marejados. Talvez isso tenha levado tanta gente ao cinema e aos recentes casamentos que usaram a cena para a entrada dos noivos. Gente como eu que vive ganhando sorteios, bingos e quermesses. Pra mim tem um adicional: eu quero ser um ator-bailarino, fazer coreografias, sair cantando e dançando pelos palcos. Mas o que realmente me tocou foi ver o beijinho apaixonado do casalzinho no salão cheio de gente feliz e redimida.
Continuo afirmando que obras de arte estimulam o pensamento, o questionamento, nossos valores. Comunicam coisas. Que não se confronta uma obra de arte incólume nem ela passa por nós “...like the wind through my tree”*. Mas arte também é emoção – o que só reforça o que eu digo! – e que bom que seja. Esse mundinho estéril em que nos tornamos precisa disso!

(*) She´s Like the Wind, canção do filme interpretada por Patrick Swayze.

Hudson Andrade
13 de março de 2010
11h57

OSCAR 2010



Antes de mais nada deixa eu dizer que tenho ido pouco ao cinema. Por falta de tempo mesmo e sobretudo por falta de paciência. Sabe aquela exigência que eu já comentei antes e que alguns amigos reclamam que tem ficado demais? Poizé! Quanto mais eu trabalho com teatro, tenho contato com teóricos, trabalhos os mais diversos e, recentemente, com a filosofia da arte, começo a perceber que tenho que ser seletivo, pro bem, claro. Ainda devo continuar a ver de tudo e ter base para discutir de tudo. No entanto o fator financeiro é algo que vai ser agregado nessa equação e já que meu dinheiro não dá em árvore, coloco esse também como um critério. Devo ver tal trabalho, mas isso vai me custar dinheiro além do aborrecimento, então não vejo (é claro que não vou só a sessões gratuitas, afinal estou pagando o trabalho de alguém!). Nessa categoria já estavam todas as comédias americanas, todos os filmes romanticozinhos, todos os com adolescentes, sobretudo se eles cantam e dançam e andam as voltas com o outro mundo, todos os com bichinhos, muitas refilmagens, alguns de diretores como Steven Spilberg, Chris Columbus (seu seguidor fiel), os antigos filmes de aventura, agora testosterônicos, as terceiras continuações e além (mesmo com o Johnny Deep nelas!), enfim. A lista é grande e não estamos aqui pra discutir isso. Essa arenga toda foi pra dizer que eu não vi quase nenhum filme concorrente ao Oscar e nem sabia de muitos e desconhecia os concorrentes ao prêmio. E tinha decidido não assistir a entrega do Oscar, que aconteceu domingo , 07 de março. O motivo? Birra! Não queria ver a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood premiando a cultura de massa e entretenimento representada por Avatar, a colorida (mesmo!) embalagem que James Cameron usou pra vender sua nova tecnologia cinematográfica e que ele chama de filme.
Aliás, de tanto as pessoas dizerem que só eu não gosto de Avatar, estou pensando seriamente em criar uma comunidade no Orkut: “Ei! Mais alguém aí NÃO gosta de Avatar?”. Vamos ver no que é que dá! Justifico não gostar do dito porque gosto de filmes de pessoas e para pessoas, que roteiros simples não precisam ser rasos, que as histórias, os personagens, têm que ter nuances, curvas, precisam ser verossímeis, criando identificação com quem os assiste. Só pra justificar o roteiro, ele é absolutamente igual a Dança com Lobos e foi mesmo comparado com ele, mas interpretações tocantes (Kevin Costner estava ainda em sua boa forma naqueles tempos!), uma trilha sonora fantástica, uma busca pelo emocional (mesmo piegas em muitos momentos, como a cena final!) e detalhes outros me ganharam para a história do soldado que se envolve com os indígenas nas pradarias norte-americanas e me fizeram, pela total ausência, odiar o soldado que se envolve com os indígenas das drag-queenérrimas florestas de Pandora, o mundo fictício do povo Na´vi.
Daí que não assisti a premiação e qual não foi minha surpresa ao ver no dia seguinte o resultado. Avatar ficou com apenas três estatuetas para os chamados prêmios técnicos: Efeitos visuais, fotografia (que eu questiono, mas chega!!!) e direção de arte. Acho justo (com aquela ressalva ali atrás). Para os fins a que se destina, o filme recebeu o que merecia. O que me surpreende é que a Indústria do cinema tenha optado por outros caminhos, outros valores. Pra ter certeza disso eu precisaria assistir Um Sonho Possível e Preciosa, pra saber se a Sandra Bullock está realmente melhor no papel da mãe adotiva, ou se eu com algum protecionismo disfarçado de discurso moral não estou privilegiando Gaboury Sidibi por ela ser negra, obesa e fora de qualquer padrão para estar no elenco de uma produção decente, vivendo um personagem que mal dirigido pode virar um estereótipo desagradável.
Não vi o grande vencedor da noite, Guerra ao Terror, da diretora premiada Kathryn Bigelow, apresentada sempre como a ex-senhora James Cameron, como se isso fosse cartão de visitas. Além desse, recebeu ainda o oscar para melhor filme, edição de som, mixagem de som, edição (segundo Martin Scorcese, a essência da Sétima Arte!) e roteiro original, do jornalista BLÁ-BLÁ-BLÁ, o que me fez desejar ainda mais vê-lo e lamentar profundamente que ele tenha sido exibido em Belém ao longo de uma única semana, na chamada sessão Moviecom Arte, o que significa uma medíocre exibição única às 17 horas. Filmes considerados de arte tendem a ser algo obscuros, metafísicos, intelectualóides, destinados a um público seleto, privilegiado e pelo visto, ocioso. Às vezes, quando Deus dá bom tempo, os vencedores de melhor filme voltam à cena. Tomara. Desta vez, em seu devido lugar, já que na verdade a tal sessão de arte é destinada a filmes de baixo apelo público e que não arriscaria a rentabilidade da empresa que ainda pode pagar de séria e apoiadora da cultura. Afinal, dentro de um contexto obra de arte, Xuxa e o Mistério de Feiurinha, há semanas em cartaz em várias sessões também é arte.
Né?!!

sábado, março 06, 2010

AQUELES DOIS...




Para ler e depois ler Caio F, que faz, ele sim, parecer essa coisa de igual ser de verdade!)


Homossexualidade não é tema novo no cinema. Desde a sutileza dos diálogos de Ben Hur passando pelos vários matizes e glitteres de deboche, violência, romantismo, até o recente desencontrado amor de Jack Twist e Ennis Del Mar em Brokeback Mountain. Logo, contar uma história cujo foco seja esse precisa de um diferencial. E Aluísio Abranches apostou na consangüinidade e no incesto para contar seu Do Começo ao Fim (Brasil, 2009). Mas a ousadia acaba aí! Desde o início percebemos que aquilo não pode dar em outra coisa e quando Pedro (Jean P. Noher), pai de Francisco, questiona Julieta (Julia Lemmert), ex-esposa e mãe do garoto se ela não teme que a intimidade excessiva com o meio-irmão Tomás acabe sexualizada, a resposta é um tímido “sim” de olhos perdidos. E nada mais. Aliás, esse negócio de meio-irmão é só pra atenuar o climão de incesto da coisa.
Francisco e Tomás (... e ... quando crianças e ... e ..., adultos) vivem um e para o outro num mundo idílico: uma mãe incondicionalmente amorosa e compreensiva, Alexandre (Fábio Assunção), um pai-padrastro capaz de sufocar suas dúvidas e medos pelo amor à esposa, uma ama (seria esse o papel de Louise Cardoso?), uma casa linda, confortável, dinheiro bamburrando e ninguém mais. Nenhuma outra criança, empregados, escola, vizinhos e até mesmo o esporte dos meninos, a natação, prescinde de uma equipe. Como não se apaixonar (ou criar uma dependência?) daquele que é a sua mais presente referência?!
Daí tão logo se vêem sós Francisco e Tomás se entregam um ao outro como se aquilo fosse o mais natural e plausível possível, sem qualquer impedimento moral (o fato de serem irmãos), social, ou o que quer que seja. E a cama que os recebe, branca, imaculada, num quarto branco, imaculado, numa penumbra acolhedora e um discurso de “eu te amo porque...” que faz o sol nascer amarelinho, cedinho, cheio de um amor azulzinho, azulzinho, os redime de qualquer pecado, seja lá em que hemisfério for.
Aliás, ninguém questiona nada. Nem Alexandre, ou o treinador, ninguém. O que Abranches quer que pareça natural tira do roteiro o conflito, a falha trágica dos heróis lindos, másculos, honestos, queridos. Não existem curvas emocionais. O filme engata uma velocidade de cruzeiro e navega sem procelas. Daí eu vou discutir o quê?! O mundo não existe. Só existem Francisco e Tontom.
Quando os dois se separam pelo treinamento de Tomás na Rússia (!) os textinhos sobre ciúmes não convencem ninguém, assim como o sexo virtual. Francisco definha como um dependente químico e sua tentativa de transgressão é frustrada não por culpa ou moralidade própria, mas da moça que ao ver a aliança em seu dedo decide ir embora mesmo desmentindo a própria fala anterior “Se ele tem alguém esse alguém tem um problema porque ele é meu!”. Cadê aquela atitude? De fêmea fatal a madre da Castíssima Irmandade das Mantenedoras de Lares em alguns poucos fotogramas!
Francisco não resiste e vai atrás do irmão e amante. Putz! Contei o final. Relaxa. Em dez minutos de filme a gente saca isso. E o filme termina, abrupto, e eu fiquei pensando numa frase da Elen Vaneau, personagem de Andréia Beltrão em Som & Fúria: “Essa história é uma idiotice. Um amor assim não existe!”

HUDSON ANDRADE
09 de fevereiro de 2010 – 11h06

A MENINA, O MOÇO, RITINHA, A AMA DE LEITE




“O ator deve sempre começar de si mesmo, da própria qualidade natural (...). A arte começa quando não existe papel, existe somente o ‘eu’(...)”. (Stanislavski)


É do eu que nasce Solo de Marajó, um eu coletivo, como diz seu diretor Alberto Silva Neto, um eu de profundas raízes familiares, nas palavras de Cláudio Barros, um eu que se reparte na escrita de Dalcídio Jurandir e Carlos Correia Santos. Marajó da obra de Dalcídio, vigorosa; solo de se estar só e se bastar e precisar de complemento e solo de um chão onde o ator se mistura na cenografia de Nando Lima e na luz de Tarik Coelho. Tudo absolutamente minimalista, claro, limpo, fazendo aparecer quem realmente deve aparecer: o ator – o primeiro dos ingredientes desse fazer teatro. O segundo é a platéia. Nada mais é necessário.
E estávamos lá, ator e platéia para quarenta e cinco minutos de tanto tempo, tantos dias, tantas histórias. Ele virado muitos, mimetizado, os sons saindo do próprio peito, a voz firme e clara, o corpo transformando-se nesse e naquela, cada qual com sua particularidade, seus trejeitos, sua prosódia sem a necessidade de recorrer a sotaques e tucandeiras para que nos reconhecêssemos naquelas pessoas antes de tudo, pessoas; e nós daqui, atentos, a cabeça fervendo de criar caixinhas de fósforos, igarapés, redes, toalhas, altares. Entremeando tudo isso uma escuridão que me incomoda mais porque não gosto do breu e aprecio ver tudo acontecendo diante da assistência que acompanha quem é o ator e quem é o personagem; no entanto os blecautes são necessários – talvez um pouco longos – para que a encenação possa marcar bem onde termina cada “causo” e nos deixar no suspenso para o que vem depois.
Cláudio Barros assume a difícil tarefa de contador de histórias e se propõe com maestria a nos encantar com luas, indignar com o tratar mal não porque se é malino, mas porque a vida secou, desejar, amar, crescer, envelhecer.
Eu precisava ver isso. Todo mundo nessa cidade precisava ver Solo de Marajó. Teatro por excelência. Direção segura, texto preciso e sobretudo (sua majestade) o ator, que aqui e com Claudinho – como vou, abusado, me permitir chamar – encontra um parâmetro a ser seguido.
Pena que temporadas tão curtas. Bom que volte logo e nos alague de sentimentos.
HUDSON ANDRADE
18 de dezembro de 2010 – 10h31
Escrito quando da estréia do espetáculo. Desculpem aí a demora!

terça-feira, novembro 10, 2009

“SE TEM UMA COISA QUE EU NÃO TENHO... É MEDO!”

para ler ao som de Pecado, de Carlos Balk e Pontier y Francini.

“Yo no sé si es prohibido
Si no tiene perdón
Si me lleva ao abismo
Solo sé que és amor.”



Se pecar é querer-ser feliz, então meu amigo João Lucas pecou um bocado. (Ele e toda a humanidade!)
E se é verdade que não existe pecado do lado de baixo do Equador, então tá tudo certo e ele foi pro Céu! Não esse Paraíso idílico, níveo, modorrento, mas aquele que nós e o Milton(1) perdemos por desejarmos viver além da conta.
E o João Lucas viveu! Viveu, não, vive!!! Vamos acabar com essa finitude judaico-cristã que até onde me conste ele nem era partidário disso e eu muito menos! Parece que depois do acidente de um tempo atrás um pisca-alerta acendeu. Um contador de dias às avessas, diminuindo o tempo ao invés de somá-lo como deveria ser o que chamamos natural. E ciente disso ele investiu tempo, saúde, inteligência, desejo, tesão, insônia, sono, sonho, tudo quanto tinha pelo Direito – seu e alheio –, pela Arte, pela Vida, vertida na mesa dos homens de vida vazia-vadia(2). Mas, vida, ali, quem sabe, meu caro Lucas, foste feliz. Eu sei que foste. Quem te ama sabe que foste. Agora precisaste dar um tempo e apesar da curta temporada gregoriana que estiveste conosco em carne que nos faz sentir tanta saudade, temos que te deixar ir porque isso é devido a quem se ama!
Da minha parte, vai. Ainda parafraseando o Chico, sei que além das cortinas há palcos azuis e infinitas cortinas com palcos atrás e isso vai até o infinito, meu caro. Essa vida, mano, é só um véu e nos cabe tirá-lo. Mais um se foi pra ti. Espero que consigas ver melhor agora. Te conhecendo como te conheço, tenho certeza que sim!
Espeju, Lucas. Nós se encontra (não, eu não errei!) pra lá dos rio das Icamiabas, longe, longe(3), mundiados desse bem-querer sem termo.
Até lá!

HUDSON ANDRADE
10 de novembro de 2009 AD
12h08
Belém – Pará

(1) Paraíso Perdido. John Milton
(2) Vida. Chico Buarque
(3) O Uirapuru. Hudson Andrade

BROCARDOS (13)



“E disse o Senhor a Gedeão: Tu tens contigo muito povo (...). Fala (...): Aquele que for medroso e tímido, volte (...). E ele com trezentos homens saiu à batalha.”
(Juízes, 7: 2-3, 8)


Deus prometeu aos israelitas uma terra de fartura e paz, mas nunca disse que seria de graça. Foram quarenta nos dando voltas no deserto até chegarem a Madian onde um exército se estendia pelos vales como um bando de gafanhotos. E Deus disse a Gedeão que então comandava os batalhões de Israel que apenas com homens de valor lutasse e que assim seria vitorioso.
Não, este não é um artigo de caráter religioso. Nem é um artigo propriamente dito, mas um pensar sobre coisas muito próximas a mim e que, creio, faça parte da realidade de outras companhias de teatro.
O teatro é uma Arte e um ofício. As companhias precisam se entender não apenas como um agrupamento, sobretudo enquanto entidade com objetivos claros e comuns e mesmo como uma empresa, distribuindo tarefas bem definidas e provendo seu próprio sustento. Infelizmente carecemos desse entendimento e nos vangloriamos amadores no sentido menor do termo, tirando do bolso a produção de nossas pecinhas e juntando a renda da bilheteria pra comprar três cervejas, dois refris e tira-gosto de mortadela. E o pior é que muitos se satisfazem em trabalhar por comida, criando um vício nos contratantes que oferecem cachês missérimos porque sabem que se um não aceitar outros dez aceitarão. E trabalhos de qualidade vão para o limbo porque não conseguem se manter enquanto o entulho vai amontoando.
No cerne desse problema está uma multidão de gente medrosa e tímida que ainda não entendeu teatro como trabalho: com responsabilidades, horários, normas, necessidades, investimentos e até algum sacrifício. Se a estabilidade de uma empresa mais formal demora a chegar, avalie de uma companhia teatral?
Nessa busca por leite e mel, horas incontáveis de sexo e reconhecimento público muitos se decepcionam e abandonam tudo, criando algumas situações constrangedoras. Os cursos, mini-cursos, oficinas, workshops, palestras sobre teatro ficam cheias de pessoas ávidas, desinibidas, descoladas, ou extremamente tímidas querendo se soltar, ou que alguém disse que leva jeito pra coisa, ou que foi porque a namorada também vai, ou porque não tem mais vaga no curso de reike freudiano de linha branca. Se é só um dia, depois de algumas horas, mais da metade já sentou contra a parede. Se o negócio é mais sério e leva dias, ou anos, apenas meia dúzia de seis pessoas resistem e desses, uns dois, quem sabe três conseguem o entendimento real dessa profissão e se não podem viver exclusivamente dela (um sonho dourado nosso!), pelo menos a tem como algo se não prioritário, relevante. Estabelecem uma rotina de ensaios, lêem exaustivamente, pesquisam e dividem com a equipe seus conhecimentos, assumem tarefas burocráticas que garantam o funcionamento do grupo e rendimentos que lhes são diretamente interessantes; mantêm um clima de harmonia tentando herculeanente não deixar o ego, o orgulho, a vaidade falar mais alto. Ou o que é pior, mais baixo, aos cochichos, pelos cantos, nos pés dos ouvidos, que fulano é isso, que sicrano é aquilo, que beltrano podia-devia-seria.
Muito povo vem e a gente até quer ter todos por perto, achando mesmo que quantidade é sinônimo de qualidade. Ledo engano. Só com aqueles verdadeiramente valorosos é que venceremos.
Antes de investir tempo, dinheiro, trabalho próprio e alheio, pensa: Eu realmente quero isso? Pesquisa primeiro como é que funcionam as companhias, como são montados os espetáculos, os protocolos determinados para geri-los, no macro e no micro, que meu grupo de amigos não é, necessariamente, meu grupo de trabalho, ainda que meu grupo de trabalho precise ser um grupo fraterno. Veja suas próprias necessidades e disponibilidades, que essa é uma Arte difícil e um ofício ainda mais que hoje te paga mil reais por 10 minutos de cena e que por semanas vai te exigir grana de ônibus (tô falando da minha realidade), redistribuição de horários e alguma insônia.
Se ainda não é o teu momento, mesmo que ames, que querias, que até entendas o teatro, paciência. Façamos escolhas e escolhamos o que naquele momento é o que nos fará feliz. Continuaremos amigos. Mas pra frente, quem sabe não dá certo?!

BROCARDOS (12)


Racca! Entre os judeus a expressão Racca! era dita com asco, cuspindo-se de lado. A pessoa a quem era endereçada a injúria poderia se considerar absolutamente desprezada. A ofensa era tão séria que o próprio Cristo criticou duramente quem a usava. Nos dias de hoje, olhando desolado o mundo em volta, particularmente o Brasil, percebo que algumas criaturas merecem um sonoro Racca! com direito a cuspe, pipoqueiro, banda de música e todo o rito. Seguem alguns:
01. Nesses tempos de H1N1 manter as janelas dos ônibus fechadas é, no mínimo, uma insensatez. Independente da gripe A, outras doenças respiratórias podem ser evitadas por mantermos os espaços – sobretudo os coletivos – arejados. Pras bonitas (e bonitos também!) que supervalorizam seus penteados em detrimento do bem-estar geral: Racca!

02. Aos nossos governos municipal e estadual. Votei em Ana Júlia Carepa e, obviamente não votei em Duciomar Costa (esse pecado eu não levo pro Inferno!), mas hoje me vejo vítima e refém da incompetência de ambos. O pior é agüentar o risinho de alguns amigos e aquela cara de eu-já-sabia! Claro que seus motivos anti-PT e afins ainda são preconceituosos e maniqueístas, mas o resultado foi o previsto. Pelo descaso e desrespeito imoral com a saúde, segurança, educação, cultura, limpeza e conservação de praças, monumentos, vias públicas, pelos sumiços e pelas mochilas: Racca!

03. Emendamos, por natural, com o governo federal. Votei no Lula (esse pecado eu levo pro Inferno, ainda que não me arrependa dele dado o contexto de então!). Digo sempre que o PT perde pra ele mesmo e ele perdeu o meu voto (e de muitos outros, se a razão assim o permitir!). O caso é que agora as coisas beiram o caos e sentir vergonha não chega (muito menos medo, D. Regina!). Ao Lula, aos seus seguidores cegos, às bolsas disso e daquilo, a essa politicagem abjeta de auto-favorecimento e troca de favores: Racca!

04. Só pra manter na política, a cada sem-noção que eleger um só desses que aí estão: Racca! Racca! Racca!

05. A todo aquele que compensa seu deficit peniano com decibéis, principalmente se for um vizinho: Racca!

06. A todo o que se prevalece do desamparo alheio e usa qualquer religião para se favorecer: Racca!

07. Ao tecnobrega e todos os seus símbolos e variações distorcidas e esganiçadas: Racca!

08. E se no volume máximo: Racca!
09. Ao trânsito de Belém, sobretudo no complexo vi(ot)ário do Entroncamento: Racca!

10. Aos caras (e algumas mulheres que eu sei!) que mijam em postes, placas, muros, praças, enfim... Racca!

11. A quem, podendo, acha que porque eu estou no teatro não estou trabalhando e não quer pagar o ingresso justo – exceto pra gorda galinha do vizinho: Racca!

12. Se és emo, simpatizante, amigo, correligionário, amante de, namorado (a) de, e não fazes nada pela evolução humana: Racca!

E tu? A quem tu mandarias um sonoro Racca!

HUDSON ANDRADE
28 de agosto de 2009 AD
9h00

PENSANDO NESSE TAL DE AMOR



“O nosso amor a gente inventa pra se distrair. E quando acaba, a gente pensa que ele nunca existiu.”
(Cazuza)


A maior artimanha do Diabo, dizem, é nos fazer acreditar que ele não existe. A maior artimanha do Amor é exatamente nos fazer crer nele.
Nós nos relacionamos pela nossa necessidade antropológica de contato físico, casamos por convenções sociais, temos filhos pela manutenção do nosso patrimônio material e genético, transamos pela satisfação de um prazer individual e momentâneo. Depois de um tempo, dizemos: O Amor acabou! Daí os relacionamentos ficam frios, os casamentos enfadonhos, as trepadas espaçadas e burocráticas. Então partimos pra outra, certos de que dessa vez vamos acertar. E tudo se repete.
Como é que pode acabar aquele que é dito como o sentimento humano por excelência? A sublimação de todas as virtudes, o que cobre a multidão das nossas faltas? Como é que vamos da felicidade absoluta para a depressão mórbida? Do desejo incontrolável de estar junto para a apatia e o descaso? Das cartas todas ridículas para o esquecimento e até mesmo a indisposição (pra não dizer ódio, que isso aqui já está seco demais)?
Mas a culpa, afinal, nem deve ser do Amor. Eros é só uma criança inconseqüente brincando de índio. Que sabe ele da vida, da malícia do mundo, dos nossos jogos de sedução? Que culpa ele tem se só vemos o imediato?
No final das contas o problema é meu. Tem tanta gente aí super satisfeita. Senta num banquinho na porta de casa e tá tudo muito bom. Não sabe se é carnaval, semana santa, julho, ou natal e tá tudo muito certo. Não se pergunta se ama alguém, ou se alguém lhe ama, que essa palavra é tão clichê, ou esse sentimento parece que só cabe na novela e leva a vida sem um beijo e tá tudo muito justo. Ou tudo isso é tão significativo porque é simples e natural que aconteça que a rua tem todo o sentido, os dias a mesma importância, o amor é algo que simplesmente vem e quando o beijo acompanha, é terno e doce e calmo e dado porque um beijo só tem sentido se sair da gente. E eu aqui querendo e me consumindo nesses quereres. Leso!
Comecei com música e termino com música. Quase um pedido de socorro: “Só peço a você um favor, se puder: não me esqueça num canto qualquer.”*

(*) O Caderno. Chico Buarque.