sexta-feira, agosto 29, 2008

BROCARDOS (04)

Hoje é o Dia Nacional de Combate ao Fumo. Venhamos e convenhamos, como combater algo tão enraizado na cultura das gentes, tão economicamente rentável e cuja dependência química nem é vista como vício? Das chamadas drogas lícitas é a mais combatida sem nunca ser realmente combalida. Filmes como O Informante (The Insider, Michael Mann, EUA, 1999)demonstram o poderio da indústria do tabaco que não se altera com os pequenos reveses que recebe.
Não é preciso repetir toda a bomba química que o cigarro é nem os malefícios que ele provoca. Todo mundo sabe disso! O que precisa ser discutido numa data dessas são os direitos dos não-fumantes.
Logo eu, contrário a toda forma de intolerância, vou cometer e incentivar uma: toda sanção contra os fumantes é pouca!
Todo tabagista tem um discurso pronto de liberdade e direitos, um sentimento discriminatório por permanecerem “enjaulados” em salinhas de aeroporto, “escorraçados” de lojas e restaurantes (os sérios, claro!) e ainda ter que andar em círculos nas ruas para que a fumaça não se concentre e incomode outrem. Ainda assim as partículas dispersas no ar permanecem no ambiente e o que já é danoso passando pelo filtro do cigarro se torna avassalador para os ditos fumantes passivos.
Pergunto: E o meu direito de não ter minhas roupas e cabelos empestados de fumaça, minha comida e bebida amargados, minha rinite potencializada e meus olhos avermelhados? A única pessoa que o fumante respeita é outro fumante, de vez que um ser humano diverso é sumariamente desconsiderado, esteja ele intra-uterinamente, seja um sexagenário.
Fumar é uma dessas muletas que nós, pessoas, usamos para camuflar nossas dores e dificuldades, tanto quanto o álcool, a comida, fofoca, sexo. Como tudo que vira um vício, lesivo, não importa quanto prazer (sempre momentâneo) ele produza.
No Dia Nacional de Combate ao Fumo o que fica tácito é a falta é educação e respeito, o individualismo de quem quer gozar a despeito da intranqüilidade alheia.
Nessa data eu só peço uma coisa aos fumantes: Vão fumar com o sete peles que é imortal!!!

Hudson Andrade
29 de agosto de 2008.
12h41

quarta-feira, agosto 27, 2008

E ECOA NOITE E DIA. E É ENSURDECEDOR...

As vozes negras...

O riso das crianças...

As cirandas...

A rua se abre para deixar passar quem dela fez palco e vida.

A Companhia Brasileira de Cortejos inaugura suas atividades com o espetáculo No Olho da Rua. Miguel Santa Brígida, que também dirige a Companhia Atores Contemporâneos e está na rua desde 1986 com o Auto do Círio, entre outros, conhece bem o que é estar junto ao povo e interferir nos seus caminhos.

O afro, a quadrilha, o carnaval, a religiosidade não são novidades, assim como a música alta, estranha e estrangeira; o começo nu onde se vão aplicando elementos coloridos que explodem em brilhos e fitas também está lá, marcas tão profundas quanto os movimentos dos intérpretes. A novidade nãoé só o nome, ma sobretudo o acolhimento que os moradores da Rua Dr. Malcher, na Cidade Velha e a administração do colégio D. Mário deram ao grupo, recebendo-os e acompanhando-os atentos, cantarolando os versos repetidos tantas noites. Novidade é o Miguel ir na contramão e abdicar de qualquer incentivo oficial pela tranqüilidade e liberdade de trabalhar, ainda que ao custo próprio,contando sempre com valorosos apoios conquistados pelo seu talento e dedicação à arte, e ainda oferecer tudo isso de graça a um público desacostumado de ver teatro como ofício. Novidade não é fazer da rua o palco, mas o sentido do espetáculo, sua inspiração e razão.

No Olho da Rua é uma colcha de sentimentos. Belo nas suas fitas, pedras falsas, seus sonhos de valsa, ou seus cortes de cetim. É preciso estar atento às tantas sensações de carinho, amor, separação, ódio, solidão, paixão, erotismo, sempre tendo a via pública como a cama, o ponto de partida, ou o caminho de volta.

O cortejo vem pela rua, confirmando sua vocação. Originalmente ele saia de uma garagem, mas um contratempo alterou o ensaio e o resultado alterou a encenação. Entendo o novo sentido dado, mas penso que sair para a rua é mais significativo dentro da história desses atores e seu diretor.

Os intérpretes igualmente oriundos da Companhia Atores Contemporâneos têm novos desafios. Acostumados a dar ao movimento o status de rei,precisam agora integrá-lo à palavra. Os textos de Hudson Andrade e os poemas de Mário Quintana e Drummond carecem de nuances e precisão que, peso, serão garantidos com o curso da temporada e os próximos trabalhos.

Atentem para o belíssimo figurino de Guilherme Repilla e Miguel Santa Brígida, as máscaras de Bruce Macedo, a impressionante interpretação de Canto das Três Raças (Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte, 1974, consagrada na voz de Clara Nunes) pela Sônia Santos. Onde se esperaria o som imenso dos tambores só a voz pungente contra o silêncio da platéia.

Esse canto brasileiro é realmente ensurdecedor e só por descaso, ou hipocrisia é que não se pode escutá-lo!

quinta-feira, julho 31, 2008

DAS TREVAS VÊM OS CAVALEIROS.

Batman, personagem criados pelos americanos Bob Kane (1915 – 1998) e Bill Finger (1914 – 1974), deve ser muito respeitado. Perto das outras adaptações dos quadrinhos, o Paladino de Gothan tem muita sorte. O Homem-Aranha 3 e Superman são peças típicas do mau cinema americano: imperialistas, rasos, medíocres. Homem de Ferro e Hulk 2 eu não vi e não posso opinar. Daí que é correto dizer que Batman veio das trevas. As trevas das adaptações ruins dos heróis dos quadrinhos, da palhaçada em que terminou a série dirigida por Tim Burton e Joel Schumacher. Trevas que nas mãos de Christopher Nolan promoveram o (re)começo do Homem Morcego. Batman Begins (EUA, 2005) e o recente O Cavaleiro das Trevas devolveram ao herói o seu verdadeiro trono: as sombras de Gothan City.

Batman é meu herói preferido dos tempos em que, encarnado por Adam West dava Socs!, Pans! Tuns!, em vilões com figurino duvidosos. Só fui retomar, ou incorporar, o gosto quando Burton lançou Batman, em 1989. Então foi uma enxurrada de revistas, séries, botons, camisetas, figurinhas, tudo, trancafiados depois de Batman e Robim (EUA, 1997) e porque esse negócio de coleção gasta uma boa grana. Hoje os meus olhos de fã compartilham a imagem do Homem Morcego com uma visão crítica e pretensiosa do cinema e da arte em geral.

Batman: O Cavaleiro das Trevas (Batman – The Dark Knight, EUA, 2008) é um ótimo filme. Suas quase três horas de duração mostram que Nolan queria algo além do comercial. O diretor construiu seu filme com calma, desfiou pontas, desfez nós, abriu brechas e amarrou uma história que grita por uma continuação, mas pode viver perfeitamente sem ela. O grande barato do filme é que Batman é o protagonista oficial e quando voltamos a atenção para ele nos desviamos dos personagens secundários. Enquanto expressão artística é a chance de dar aos outros atores uma real função na trama, alicerçando o enredo em vários pilares seguros; enquanto mitologia mostra o Batman (Christian Bale) como a infantaria que abre caminho para o verdadeiro exército: a honestidade de Jim Gordon (Gary Oldman), a sensatez de Alfred (Michael Caine), a obstinação de Harvey Dent (Aaron Eckhart), a nobreza de Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal) e, claro, a loucura do Coringa (Heath Ledger), o contrapeso, o caos e, apesar de representar o mal, a luz sobre quem realmente é o justiceiro que vigia a cidade de dentro da noite.

No filme de Nolan o Coringa é imenso! Em parte pelo proclamado processo de construção do personagem, pela impressionante entrega de Ledger, mas também porque o roteiro põe em seus atos e falas o destino de um mito e de toda Gothan. Sozinho, ele instaura a desordem na já conturbada vida da cidade, enreda todos numa teia intrincada e, não sem a devida e inteligente resistência, vai ganhando terreno até chegar ao seu real objetivo: Batman. Não para detê-lo, mas para justificá-lo, porque só assim sua existência é viável. No entanto, Heath Ledger não merece o Oscar, pelo menos não até sabermos quem concorreria com ele. Há grandes méritos no trabalho do australiano nascido 29 anos atrás e morto no último 22 de janeiro por overdose acidental de medicamentos. Sua propalada indicação ao prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood é motivada claramente pela comoção em torno do trágico incidente e pela propaganda gratuita (?) para a Warner que, ao negar os efeitos devastadores de interpretar o Palhaço do Crime sobre a morte de Ledger, só reforça a lenda de um personagem maior do que o seu intérprete.

O Coringa nasceu das mãos de Jerry Robinson* em parceria com os criadores do Batman, em 1940. Robinson afirma que originalmente ele era um palhaço metido a gênio do crime e sua caracterização remetia a traquinagem. O Coringa psicopata e maldito foi ganhando corpo e crescendo posteriormente. Ainda assim o cartunista não acredita que interpretá-lo perturbe os atores, como afirmou Jack Nicholson que viveu o algoz do Batman no longa de Burton. Para Robinson, César Romero (1907 – 1994) que interpretou o vilão na série de TV dos anos 1960 é quem fisicamente mais se aproxima da sua criatura, mas faz coro com os amigos de set e o diretor Terry Gilliam – para quem o ator trabalhou em The Imaginarium of Doctor Parnassus, que ficou incompleto – de que Heath Ledger era um grande ator. Exatamente por isso,diz, ele não se deixaria “contaminar” pelo personagem. Afirmam ainda que a criação de Ledger para o Coringa é definitiva, o que certamente impedirá, ou dificultará Nolan de substituir o ator ao usar o personagem na possibilidade de um terceiro filme.

A loucura salta aos olhos em O Cavaleiro das Trevas. Se o Coringa a cospe na nossa cara, é no cidadão comum que ela realmente vive, ora gritando por socorro para logo em seguida condenar, num senso de justiça que é distorcido pela dor, nos dois pesos e duas medidas em que se pesa a vida humana, na corrupção. E como falamos em humanos, é preciso também dizer da retidão ainda que ao preço da própria vida.

Ao mergulhar nas sombras, Batman nos dá a verdadeira dimensão da palavra herói.

HUDSON ANDRADE

Belém, Pará, 30 de julho de 2008 AD. 12h50

(*) Conforme artigo de Rodrigo Fonseca, publicado em O Diário do Pará, caderno D, página 4, em 15 de julho de 2008.

NOTA: Alguns links remetem a informações em inglês. Desculpem os que não dominam o idioma. Tentei dar ao texto um conteúdo maior e exatamente a busca de um conteúdo mais completo e/ou mais confiável é que direcionaram a escolha dos links. Meu texto, contudo, pode ser lido sem a necessidade de acesso às referidas informações.

BROCARDOS. (2)

Em entrevista durante as comemorações dos 80 anos da Policia Rodoviária Federal, em Brasília, seu coordenador social, inspetor Alexandre Castilho disse que um motorista não pode se recusar a fazer o teste do bafômetro como preceitua a Lei Seca em vigor no país. Segundo Castilho, todo cidadão temo direito de ir e vir, mas não de dirigir. Esta seria uma concessão do Estado. Ao solicitar permissão para dirigir o cidadão aceita os critérios para tal e se não se submete a elas torna-se passível de ter seus direitos caçados.

Já para Percival Menon Maricato, diretor jurídico da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, ir e vir é um direito constitucional e dirigir um veículo está implicitamente relacionado a esse direito. Logo, o Estado tem obrigação de conceder carteira de motorista já que exige esse documento para a condução de automóveis. Se não fosse assim estaria indo de encontro a sua própria constituição. Maricato conseguiu junto ao Tribunal de Justiça de São Paulo habeas corpus para não ser punido por recusar se submeter ao teste do bafômetro. O documento se baseia no artigo 8º da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, de 1969, da qual o Brasil é signatário e que diz ser direito de cada pessoa não depor contra si mesma.

Muito se discutiu desde que a lei que prevê penas graves àqueles pegos dirigindo após o consumo de bebidas alcoólicas foi instituída. E muito ainda se discutirá. E muitos ainda morrerão no trânsito vitimados não pelo álcool em si, mas pela irresponsabilidade de alguns motoristas com a vida alheia. Se eu defendo a Lei Seca? Claro! Seus benefícios são inegáveis e os prejuízos mínimos. Nenhum bar vai fechar as portas, não haverá desemprego em massa de garçons e condutores, as indústrias de bebidas não vão falir e os taxistas agradecem. O povo já deu o seu jeitinho de garantir sua ração de álcool: aluguel de vans, táxis, ônibus, rodízio de quem bebe e quem dirige, a troca por bebidas não alcoólicas (o que, pasmem, não diminuiu a diversão!!!) e por aí vai.

Mas a alegria ainda está longe de ser total. As estatísticas indicam um número menor de acidentes e vítimas no trânsito porque um dos elementos responsáveis por esses eventos foi atenuado. No entanto, o desrespeito à vida continua. Muitos, amparados pela impossibilidade das autoridades em fiscalizar devidamente o cumprimento das leis, na sensação de impunidade que é contundente neste Brasil de Murietas e Dantas, na despersonalização do outro enquanto indivíduo, concidadão e irmão, na sensação egoísta de superioridade num claro desvio de valores, bebem e dirigem, trafegam em alta velocidade, avançam sinais, pilotam de forma arriscada, exibem-se despropositalmente, tratam veículos menores e pedestres como obstáculos ao seu livre trânsito, ignoram sinalizações, corrompem agentes de trânsito e tratam a via pública numa deturpada idéia de coisa própria. Para esta questão não há lei – ainda que de leis precisem os homens –, mas educação, uma que extrapole o significado de símbolos e cores, uma educação moral e ética, onde liberdade e direitos andem a braços com ordem e deveres.

HUDSON ANDRADE

24 de julho de 2008 AD. 11h31


sábado, julho 12, 2008

EU 15

Entrei numa de ficas triste. Essas tristezas injustificadas que só fazem bem a ninguém; dessas em que só a gente pensa que a gente é coitadinho. O fato é que eu dei pra ficar triste, calado, cenho franzido, pelos cantos. Nenhum convite era bom, nenhuma comida gostosa, o barulho incomodava, o silêncio incomodava. Tudo, enfim, incomodava.

A festa tinha um quê de tradição. Minha casa, meus vizinhos, nossos parentes e amigos, todos vinham, comida à vontade, bebida no balde, música. Eu olhando aquilo de longe que ainda estava triste. Enchi uma caneca com leite e saí pra rua como estava: chinelo, bermuda, peito nu. Andei na calçada, fui olhar a pracinha, vi os carros chegando, o povo chegando. Um amigo passou por mim, cerveja na mão, e seguiu reto. Não me viu, ou fez que não me viu. Também, eu tava um saco mesmo. Deixa ele! Só que fiquei mais triste. Queria atenção, que ele falasse comigo. Mas ele ria de alguma piada idiota e entornava cerveja. Que se dane! Dei de ombros e entrei em casa. Joguei o leite na pia, abri a torneira até que a água passasse de leitosa à cristalina.

Quando comecei a lavar a caneca ele entrou na cozinha, o copo novamente cheio, o mesmo sorriso aberto. Que tinha me visto – que foi falar com um amigo – que quando olhou eu tinha sumido – que disseram que eu tava ali. Falava tanto e tão rápido, sempre rindo, intercalando com cerveja, que eu não tinha tempo pra responder. Daí ele começou a dizer que entendia como eu me sentia (?!) e que voltava depois pra gente colocar o papo em dia. E como eu ainda estivesse na pia, caneca cheia de sabão, me abraçou colando o peito às minhas costas. Afastou o copo de cerveja e enlaçou com o braço direito minha barriga. Disse que a gente se falava e eu disse que sim, obrigado.

Permanecemos onde estávamos, sem uma palavra, ou ruído, só nossas respirações e uma vontade de ficar juntos que era a primeira vez que a gente tinha que sempre fomos amigos e nada daquilo tinha sequer passado pelas nossas cabeças. E fomos ficando, uns movimentos leves, uns suspiros e sem mais nada subimos correndo as escadas.

Ele entrou, tirou a camisa, abriu um botão e deitou na cama.

Eu entrei, tranquei a porta e fiquei (penso) longos minutos com a testa na madeira e a mão na chave.

Quando ele me perguntou o que é que a gente fazia agora eu pedi silêncio. Falar pra quê? Melhor não.

Ele acordou bem tarde. Eu nem tinha dormido, mas me deixei ficar ali quieto, deitado, olhando seu sono que era satisfação e álcool e algum cansaço. Continuamos calados ouvindo a música abafada de uma festa sem hora pra acabar. Perguntou se eu queria descer, eu disse que não; se ele podia voltar, respondi que sem problemas... se ele quisesse... que sim, claro!

A gente se fala, ele disse.

Sim. Obrigado!

Belém, Pará

11 de julho de 2008.

19h00 (revisado)

quarta-feira, maio 21, 2008

BROCARDOS. (2)

Através do Decreto Nº 6.325, de 27 de dezembro de 2007, a ANCINE – Agência Nacional do Cinema estabelece cotas para a exibição de filmes nacionais de longa metragem. Dia desses num jornal, li que algumas empresas preferiam pagar a multa aplicada em caso de não cumprimento do referido decreto do que ocupar suas salas com filmes ruins (no caso citado, Os Poralokinhas – pelo título, já se vê tudo!). Quem pode culpá-los? Distribuidores e exibidoras são, antes de mais nada, empresas. Prestam um serviço e esperam retorno financeiro.

Outras tentativas já aconteceram. Quando do lançamento do filme Dias Melhores Virão (Brasil, 1989), a aposta era na simultaneidade cinema e televisão. Então, numa segunda-feira, a Tela Quente da Globo exibia o filme de Cacá Diegues, uma forma de incentivar as pessoas a vê-lo na tela grande. Alguém aí conhece alguém que foi ao cinema? Alguém aí pelo menos sabia da existência desse filme?

A chamada Cota de Tela lembra muito as outras Cotas do Brasil. A tentativa é louvável: garantir a exibição da produção cinematográfica nacional, mas como toda ação compulsória, esbarra no desconforto e na arbitrariedade. O que deveria garantir a exibição de filmes, qualquer que seja a sua nacionalidade, é sua qualidade. Ninguém pode negar a existência de filmes de extremo bom gosto e refinado senso estético em nossa produção brazuca, desde os feitos pelos glamourizados Walter Salles e Fernando Meireles, passando por pequenas jóias de outros e talentosos diretores e diretoras. Todos têm impresso a alma brasileira e nossos costumes. Existe como uma assinatura auriverde que nem sempre agrada ao público comum. Quantos comentários já não foram feitos sobre “mais um filme sobre a ditadura”? E, no entanto, (quase) ninguém se furta a ver “mais um filme sobre o Vietnã”. Desnecessário dizer que temos muita, mas muita porcaria, filmes de apelo fácil e de humor duvidoso em nada diferentes das imundícies americanas com tortas, pânicos, bichos, bebês e outras sandices envolvendo minorias e sexo. A diferença é que eles têm dinheiro pra gastar e nós não. Além do mais, se percebem que o filme será um fiasco, mandam direto para as locadoras e não ocupam as concorridas salas de projeção com algo sabidamente inviável. Este um exemplo que pode ser seguido!

A defesa que Rodrigo Santoro fez da filmografia brasileira nesta edição do Festival de Cannes é justa, tanto quanto citar produções menores como A Festa da Menina Morta (2008), estréia na direção do talentosíssimo Matheus Nachtergaele, louvando-lhe a qualidade. Pronto, voltamos a ela!

Os investimentos em áudio-visual no país ainda são modestos (estou sendo educado!) – ainda que muito superiores aos investimentos em teatro. Uma vergonha que eu comento depois! –. Não existem empresas (os chamados estúdios) cuja ação seja a de produzir filmes; essa dependência estatal é ridícula e me faz pensar que ainda não saíamos de todo dos regimes opressores de governo. Como esperar alguma coisa que possamos realmente chamar de produção nacional? Daí a criar cotas como paliativo é abusar da minha inteligência. Vá pagar na cabeça de outro!!!

(Só pra constar. Ainda não vi o filme de Nachtegaele. Não sei dizer nada dele além do que li e isso não é muita base para avaliações. Apenas confio no seu trabalho.)

Hudson Andrade

Belém, Pará, 21 de maio de 2008 AD

12h25

quinta-feira, maio 08, 2008

BROCARDOS. (1)

Eu não entendo de leis. Meu irmão, sim. Restrinjo-me, vagamente a dizer o que acho certo e errado; bom, ou mau, justo, incoerente, ilegal, ou moral, por isso não vou tentar argumentar em seara desconhecida. Falo movido pela indignação!

Segundo esse mesmo meu irmão, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá devem aguardar o julgamento em liberdade. Pela lei é assim. A promotoria, no entanto, corre contra o tempo para que eles sejam submetidos a júri popular, onde as chances de condenação são maiores. Para isso é preciso aproveitar o rumor dos fatos, as capas de revista, as primeiras páginas dos jornais, as chamadas nos telejornais, que já estão rareando, ou ficando em segundo, terceiro, quarto plano, preocupados “que estamos” com Ronaldo Fenômeno e seus travestis.

Outro caso tipicamente movido pela homofobia e preconceito da nossa liberal sociedade brasileira. Fossem mulheres e não haveria razão pra tanto rebuliço, afinal, todo macho que se preza tem o direito de sair “pá pega umas puta!”

E o que sobra em homofobia falta em visibilidade num caso bem mais próximo de nós: o assassinado de Benedito Rodrigues Neto, simplesmente Neto para nós que vivíamos mais ou menos próximos dele. Professor universitário, ator, diretor de teatro, estudioso das artes cênicas. Nenhum desses predicados é capaz de motivar uma investigação decente. Tudo se resume a mais um caso em que a bichinha abriu a porta pra Morte. Nada que valha um esforço policial, capa de revista, primeira página de jornal. Todos nós abrimos nossas portas a quem conhecemos e confiamos. Nenhum de nós, no entanto, merece ser julgado, condenado e punido pelas orientações que tomamos na vida.

Na minha opinião o casal Nardoni e Jatobá são responsáveis pela morte da Isabela, mas não devem se tornar os bodes expiatórios de uma sociedade desestruturada e deseducada. O grande mote dessa condenação é dar uma satisfação ao povo que clama desesperado por justiça. Tão desesperado que se pudesse, a tomaria nas próprias mãos, como não tão eventualmente assim acontece. Puni-los exemplarmente nos dará chance de respirarmos mais aliviados até a Copa de 2010, quando ninguém mais se lembrará de Isabelas, Pedrinhos, Otas e outros tantos anônimos.

A meu ver, o cardápio do Sr. Ronaldo Nazário e suas variações pouco se me dão. Os travestis vão aproveitar o momento fugaz para dar um close a mais e aumentar seus cachês, mas logo, logo voltarão à pasmaceira. Quando muito haverá uma marchinha sobre isso no próximo carnaval, se é que alguém ainda faz marchinhas de carnaval.

O Neto, Genú, Melo e sabe-se lá mais quantos vão continuar avermelhando as páginas dos jornais e as faces dos cidadãos de bem de nossa provinciana cidade. Núbia Goiano e dezenas de outros cidadãos vão se tornar estatística e seus números vão se confundir aos outros, velhos e futuros.

Nós – não tantos – vamos nos indignar (não tanto).

O Sr. Raifran Neves, de coração tão grande e bom, poderia também assumir essas responsabilidades. Se permitiu que um homem honesto voltasse ao seio da sua família, pode perfeitamente permitir que um casal tão emocionalmente abalado retome sua vida e cuidados com os filhos pequenos, dessa vez numa casa térrea e confortável. Se gritar que odeia esse bando de viados, permitirá que suspiremos aliviados por não sermos os únicos, dando calma ao nosso coração. Cada um de nós saberá recompensá-lo no que for de direito!

Bons tempos o da Inquisição, em que bastava atear fogo a uma tora de madeira pra que as portas do Paraíso se abrissem aos bons e aos justos.

HUDSON ANDRADE

07 de maio de 2008 AD

9h10

terça-feira, abril 22, 2008

ELIZABETH: A ERA DE OURO

Domingo, 20 de abril, assisti Elizabeth: A Era de Ouro (Elizabeth: The Golden Age, Inglaterra / França, 2007). Saí de casa naquele impulso básico de fazer algo decente num domingo fim-de-tarde-feriadão chuvoso e porque era meu interesse ver como funcionava a corte na qual William Shakespeare – atual objeto do meu trabalho, em A Comédia dos Erros – prosperou. Isso o diretor Shekar Khapur ficou devendo. Na verdade o subtítulo é um equívoco. Da tal Era de Ouro vemos apenas uma referência enquanto a câmera gira em torno de Elizabeth I (Cate Blanchett) num brilhante vestido branco, coroada como a Estátua da Liberdade (a referência e o desagrado são meus. O filme nem americano é!). A história é um recorte da disputa entre a protestante Rainha Virgem e Felipe II (Jordi Mollá), rei da Espanha, fundamentalista, testa de ferro da igreja católica e que por artimanhas políticas consegue apoio do Vaticano e da Inquisição para atacar o reino inglês.
Parece um retalho muito pequeno, mas a direção consegue fazê-lo render nas conspirações internas entre os dois reinos, jogos de espionagem e dissimulação, atos de traição, covardia e bravura. Na visão de Khapur a decapitação de Mary Stuart (Samantha Morton), rainha dos escoceses e pretendente ao trono inglês, aprisionada por Elizabeth no castelo de Fotheringhay e estopim para a guerra santa de Felipe II, é responsabilidade indireta e dolorosa da rainha inglesa, enredada na conspiração espanhola que não mede esforços, dinheiro e amoralidade para alcançar seu intento. A cobertura do bolo, atrativo para o público habitual das vesperais é o amor proibido entre Elizabeth e o aventureiro Sir Walter Raleigh (Clive Owen). O filme todo é pródigo em referências às responsabilidades, limites e castrações que o poder traz, seja dos súditos, “mortais, mas com a possibilidade de amar”, nas palavras de Raleigh, sobretudo na realeza, no choro sufocado da rainha entre suntuosos vestidos, palácios e pretendentes tão prisioneiros quanto ela. Mesmo a morte de Stuart é imposta pela sua condição de regente. Ante a relutância de Elizabeth, seu conselheiro Sir Francis Walsingham (o excelente Geoffrey Rush) lembra que a misericórdia real custará a paz de todo o povo.
Com uma cenografia e direção de arte econômicas, mas belas, iluminação eficiente, que dá um ar dramático às cenas, locações suntuosas, figurino arrebatador vencedor do Oscar 2008, e uma trilha sonora coerente que age nos momentos certos criando devidamente os climas das cenas – vide a narrativa das viagens de Raleigh à monarca e suas aias, Elizabeth: A Era de Ouro é um filme que vale a pena assistir sem ser inesquecível. Não é histórico o bastante, nem totalmente romântico, ou cheio de batalhas. Tem o bom e velho discurso da rainha ante seus minguados soldados prestes a oferecer o pescoço ao evidentemente maior poderio inimigo e fatos quase miraculosos que favorecem os poucos e bons ingleses contra os numerosos e malvados espanhóis e seus aliados. Aliás, mais de uma vez a luz incide sobre Blanchett dando à rainha ares de criatura divina que do alto dos rochedos comanda os ventos e tempestades, iniciando uma nova e próspera era que se eu quiser conhecer melhor, terei de buscar nos livros de história.

HUDSON ANDRADE
Belém, Pará, 22 de abril de 2008 AD
10h05

segunda-feira, abril 14, 2008

FRIO POR DENTRO E POR FORA

Depois de um longo e tenebroso inverno eis que voltamos. Mas o frio persiste.
Nos últimos dias 06 e 13 de abril estive no Teatro Margarida Schiwazzappa, no CENTUR. No primeiro dia assisti Homem de Barro, da Companhia de Intérpretes Independentes (AM), dirigida pelo paraense Ricardo Risuenho, radicado em Manaus. Ontem foi a vez de Amor e Loucura, do grupo baiano A Roda, que utiliza a linguagem de formas animadas.
Homem de Barro surge de um trabalho interdisciplinar de profissionais das áreas de humanas e biológicas. Enquanto estudo está perfeitamente embasado na teoria e experimentação que Risuenho propôs. Como espetáculo, é frio e distanciado como uma aula expositiva; tão burocrático e formal quanto o capítulo sobre doenças da pele lido em cena pelo coreógrafo e diretor. Em cerca de 40 minutos de coreografias simples e recursos áudio-visuais, o espetáculo se arrasta confuso e ao final sem que a campa toque, o público (pelo menos os não iniciados) sai sem ter compreendido bem a matéria.
Amor e Loucura utiliza elementos mitológicos para falar de dois sentimentos humanos que parecem andar lado a lado. Na seqüência final o Amor – Cupido cego – montado na Loucura, dispara continuamente suas setas a esmo. Apesar de bela a significativa, a imagem não me emocionou. Na verdade o espetáculo não emociona. Amor e Loucura é a prova de que teatro só funciona pelo encadeamento total dos elementos que o constituem. O texto, suntuoso, mas um tanto obscuro, entra em off numa voz feminina e monocórdia que em poucos dos quase 90 minutos de espetáculo provoca uma sonolência quase tão irresistível quanto as flechas envenenada do Amor. A luz não delineia bem as cenas que em alguns momentos ficam na penumbra, mal definidas se fazem parte do espetáculo, ou se são transições de uma cena para outra. Os belíssimos bonecos e elementos em madeira e ferro, detalhados, articulados, criam imagens que se seguem a imagens sem, no entanto, deixarem de ser apenas isso: imagens. Essa falta de conexão cria aquelas situações constrangedoras de se dizer, “o espetáculo?... bonito o cenário, não?!”
Saí para a rua numa Belém vazia e chuvosa sem que tivesse conseguido aquecer meus sentidos e coração.
O que será que me aguarda daqui sete dias?

Ah! Vou procurar ser mais presente.

Belém, Pará, 14 de abril de 2008.
11h30

terça-feira, dezembro 18, 2007

EU 14

“Era uma vez um faminto!”. Raduan Nassar conta em Lavoura Arcaica a história do homem que ganha as benesses de um poderoso sultão após faminto, sedento e exausto, suportar com paciência e resignação um jogo proposto pelo monarca.
Ninguém pode ter certeza do que essa frase significa até ter o objeto do seu desejo bem ao lado: o calor da pele, a proximidade do toque, o hálito. A possibilidade! Ninguém pode saber o que essa frase significa até ter ao lado o objeto do seu desejo separado por uma muralha invisível e silenciosa – moral e tola para alguns, falsa e sem sentido para outros. Dolorosamente real e necessária para mim e pros passos que eu decidi dar aos meus pés.

Meus olhos vão acostumando à penumbra do quarto. A parede em frente, a estante e os livros vão ganhando contornos definidos em escalas de preto e cinza. Afinal, à noite, todos os gatos são realmente pardos. Deito sobre meu flanco esquerdo. Às minhas costas eles dois, abraçados, dividem o mesmo lençol.
A cada movimento, sussurro, respiração entrecortada, meus sentidos se apuram e eu fecho os olhos e o coração num arremedo de sono.
Ouço vozes roucas e baixas. Pequenas risadas – camundongos riscando o assoalho – e minha respiração fica suspensa.

Muitos meses atrás eu o reencontrei e me apaixonei. Depois soube do outro. E soube também que apenas por um desleixo não sou eu que hoje completa dois anos de namoro. Os três estavam no mesmo lugar. Os três queriam uns aos outros. Mas eu não soube ler os sinais.
Quase um ano depois desse encontro, eis os três novamente reunidos e hoje, depois de comemorar suas bodas de papel, eu lhes disse que não queria dormir sozinho. Não lhes disse diretamente (penso que não poderia fazê-lo!). Só eles aceitaram meu convite e agora estão aqui enchendo minha cabeça e pêlos de arrepios.

Ouço vozes roucas e baixas, pequenas risadas, e minha inspiração fica suspensa enquanto o peito liso, de mamilos salientes, toca minhas costas, ofega levemente no meu pescoço e sem palavras, que elas são completamente desnecessárias, me vira na sua direção.
E são muitas mãos e dedos e lábios. Calor da tua coxa na minha. Calor da minha coxa na tua, diria Caio F. Isso e algo mais, tudo multiplicado.

Abro os olhos. A estante começa a se desenha novamente com seus livros de fuligem. Então não foi real?! Deixo escapar um suspiro de alívio.
Então um leve movimento enquanto os dois se acomodam. Eles estão aqui, meu Deus! Eles estão realmente aqui!!!
O sol vai me encontrar insone, a testa empapada de suor, o corpo rijo. O silêncio. A solidão!!!

17.dez.2007.
16h52

quinta-feira, dezembro 13, 2007

EU 13

Hoje me senti nostálgico. Ao passar do quarto pra cozinha, vi meu filho parado em frente à janela gradeada do 13º andar, um de seus brinquedos preferidos debaixo do braço, olhando para fora enquanto a barca do sol apenas começava seu passeio pelo céu. Fiquei olhando pra ele enquanto ajeitava a gravata, pensando que há não tanto tempo assim, eu mesmo tivera aquela idade e corria com meu irmão pelo quintal da nossa casa no subúrbio, comendo fruta no pé e inventando brincadeiras de jornal.
Numa feita meu irmão sumiu. Mais velho, eu era o responsável. Saí atrás dele desesperado, um misto de querê-lo de volta e o medo da repreensão da minha mãe. Procurei por várias horas e já tinha passado do almoço quando eu andando em prantos pelas ruas, gritava por ele. Nada de mais. Numa época em que se colocavam cadeiras à porta das casas, meu irmão saíra passeando e sem limites ou temores, ora simplesmente se afastado, descobrindo ruas e praças novas, depois voltando pelo mesmo caminho com a naturalidade e calma que devem ter os passeios.Hoje meu filho não passeia. As ruas que ele conhece são as que vê aqui do alto, ou as que são percorridas de casa pra escola pra natação pro inglês pra casa. Nossas vidas se transformaram numa espécie de mapa do tesouro: tantos passos pra direita, uns metros ao lado do grande prédio cinzento, mais passos pra esquerda. No final, nosso baú, nunca suficientemente enterrados contra os piratas contemporâneos sem código de honra, sem ética, amorais.
A bem da verdade, quando eu também tinha sete anos, na minha casa de periferia, com praças cheias de castanheiras e bancos de madeira, o eu reinava era uma tranqüilidade de fachada. Eu olhava por uma janela térrea e sem grades, mas também tinha os passos limitados. Lembro que 39 anos atrás eu passaria o natal sem o meu pai. Professor universitário, ao sair em defesa de seus alunos contra o então presidente Costa e Silva, teve seu cargo posto em disponibilidade e a partir de então um carro preto com dois homens que fumavam continuamente enquanto as horas passavam permaneceria estacionado do outro lado da minha calçada; imóvel, impassível, enquanto um flamboyant lhe tingia de vermelho o capô e o teto.
Meu pai viajou num final de tarde depois que aqueles homens falaram com a minha mãe. Apesar da mala dele permanecer sobre o guarda-roupa, a história da viagem se espalhou pela vizinhança e alguns meninos já não jogavam mais bola comigo. Meu pai só voltou em janeiro. Tão cansado, tão abatido, que por três dias trancou-se no quarto onde apenas minha mãe entrava com caldos, sucos e frutas. Foi dessa época que veio o hábito de olhar pela janela: primeiro para esperar meu pai, depois para constatar, horrorizado, que aquele carro preto ainda passava muito lentamente em frente de casa.
Quando meu pai saiu do quarto deu a mim e ao meu irmão presentes atrasados de natal e nos abraçou tão forte que quase sufocamos. A partir de então, nossos brinquedos seriam sempre no quintal.
Meu filho nem um quintal tem! Eu o chamei e abracei tão forte que ele pediu que eu o soltasse. Pedi desculpas e como se faz nesses filmes do cinema, ou nos contos, pedi que minha mulher ligasse pro meu escritório e desse qualquer desculpa que quisesse. Pegamos o carro e fomos pro Mosqueiro, vazio e nublado nessa época do ano. Corremos na areia, empinamos pipa, tomamos sorvete e comemos tapioquinha.
Voltando tardezinha pra nossa gaiola dourada, olhei pelo retrovisor meu filho que dormia no banco traseiro, no colo de sua mãe exausta, e como nesses finais piegas de novela, não segurei umas lágrimas.
Pensei no meu pai.
Ennio Morricone caberia muito bem ao fundo.

13 de dezembro de 2007.
16h56

EU 13

Hoje me senti nostálgico. Ao passar do quarto pra cozinha, vi meu filho parado em frente à janela gradeada do 13º andar, um de seus brinquedos preferidos debaixo do braço, olhando para fora enquanto a barca do sol apenas começava seu passeio pelo céu. Fiquei olhando pra ele enquanto ajeitava a gravata, pensando que há não tanto tempo assim, eu mesmo tivera aquela idade e corria com meu irmão pelo quintal da nossa casa no subúrbio, comendo fruta no pé e inventando brincadeiras de jornal.
Numa feita meu irmão sumiu. Mais velho, eu era o responsável. Saí atrás dele desesperado, um misto de querê-lo de volta e o medo da repreensão da minha mãe. Procurei por várias horas e já tinha passado do almoço quando eu andando em prantos pelas ruas, gritava por ele. Nada de mais. Numa época em que se colocavam cadeiras à porta das casas, meu irmão saíra passeando e sem limites ou temores, ora simplesmente se afastado, descobrindo ruas e praças novas, depois voltando pelo mesmo caminho com a naturalidade e calma que devem ter os passeios.
Hoje meu filho não passeia. As ruas que ele conhece são as que vê aqui do alto, ou as que são percorridas de casa pra escola pra natação pro inglês pra casa. Nossas vidas se transformaram numa espécie de mapa do tesouro: tantos passos pra direita, uns metros ao lado do grande prédio cinzento, mais passos pra esquerda. No final, nosso baú, nunca suficientemente enterrados contra os piratas contemporâneos sem código de honra, sem ética, amorais.
A bem da verdade, quando eu também tinha sete anos, na minha casa de periferia, com praças cheias de castanheiras e bancos de madeira, o eu reinava era uma tranqüilidade de fachada. Eu olhava por uma janela térrea e sem grades, mas também tinha os passos limitados. Lembro que 39 anos atrás eu passaria o natal sem o meu pai. Professor universitário, ao sair em defesa de seus alunos contra o então presidente Costa e Silva, teve seu cargo posto em disponibilidade e a partir de então um carro preto com dois homens que fumavam continuamente enquanto as horas passavam permaneceria estacionado do outro lado da minha calçada; imóvel, impassível, enquanto um flamboyant lhe tingia de vermelho o capô e o teto.
Meu pai viajou num final de tarde depois que aqueles homens falaram com a minha mãe. Apesar da mala dele permanecer sobre o guarda-roupa, a história da viagem se espalhou pela vizinhança e alguns meninos já não jogavam mais bola comigo. Meu pai só voltou em janeiro. Tão cansado, tão abatido, que por três dias trancou-se no quarto onde apenas minha mãe entrava com caldos, sucos e frutas. Foi dessa época que veio o hábito de olhar pela janela: primeiro para esperar meu pai, depois para constatar, horrorizado, que aquele carro preto ainda passava muito lentamente em frente de casa.
Quando meu pai saiu do quarto deu a mim e ao meu irmão presentes atrasados de natal e nos abraçou tão forte que quase sufocamos. A partir de então, nossos brinquedos seriam sempre no quintal.
Meu filho nem um quintal tem! Eu o chamei e abracei tão forte que ele pediu que eu o soltasse. Pedi desculpas e como se faz nesses filmes do cinema, ou nos contos, pedi que minha mulher ligasse pro meu escritório e desse qualquer desculpa que quisesse. Pegamos o carro e fomos pro Mosqueiro, vazio e nublado nessa época do ano. Corremos na areia, empinamos pipa, tomamos sorvete e comemos tapioquinha.
Voltando tardezinha pra nossa gaiola dourada, olheipelo retrovisor meu filho que dormia no banco traseiro, no colo de sua mãe exausta, e como nesses finais piegas de novela, não segurei umas lágrimas.
Pensei no meu pai.
Ennio Morricone caberia muito bem ao fundo.

13 de dezembro de 2007.
16h56

domingo, novembro 18, 2007

DANÇARÁS, DANÇARÁS ETERNAMENTE

De 09 a 11 de novembro últimos aconteceu no teatro Gabriel Hermes, do SESI, a 6ª edição do FEDAP – Festival Escolar de Dança o Pará, promovido pelo Colégio Moderno e Companhia Moderno de Dança, com o patrocínio (isso é sempre bom que se diga), de LUMAR, Delta Gráfica, Doc Brasil e FIDESA, e o apoio de O paidégua.com, CAD, Gol sports e InterCrédito.
O FEDAP que tem como objetivo reunir os diversos grupos pertencentes às instituições de ensino formal do estado, oportunizando o espaço para a divulgação das produções coreográficas das escolas paraenses públicas e privadas e propiciando o intercâmbio de informações artísticas entre essas instituições. Não há premiações em dinheiro, mas três grupos recebem destaque pela sua produção e todos são premiados com troféus.
Nos três dias de festival se viu de tudo: singelas coreografias com crianças que mal davam dois passos sem trocar as pernas, enchendo sua mães de orgulho, até trabalhos mais elaborados. A modéstia, certíssimo, passou longe e mesmo os figurinos mais simples tinham cor e brilho; outros, abusando da criatividade, criavam estranhas figuras em cena, ou dificultavam a dança; uns poucos absolutamente equivocados, certamente pela falta de um suporte técnico maior.
Os números apresentados abriram mão e cenários, apontamentos, adereços e mesmo um desenho próprio de luz, buscando, quem sabe, concentrar-se na coreografia.
As coreografias são o capítulo principal desta história. Fui chamado a avaliar os grupos dentro de uma visão mais teatral e nem poderia se diferente porque eu no tenho formação, ou estudo em dança, mas estava ladeado por dois dos melhores da área no Pará, Marilene Melo e Ronald Bergman, que comentavam entre si e não se furtavam a responder meus questionamentos, esclarecer dúvidas, ou generosamente tecer comentários que muito ajudaram na minha avaliação. De qualquer forma o menor conhecimento teórico não diminuiu meu senso crítico, muito menos minha emoção. Aqui reside minha pedra de toque!
Reunidos no mesmo palco e sob os mesmos olhares dançarinos de escolas públicas, de onde destaco a EEEM Luís Nunes Direito, cujos dançarinos ratearam entre seus professores a taxa de inscrição no evento – palmas a esses educadores que entenderam o valor da arte e a importância de se fazer presente num evento como esse, seja para os alunos, seja para a instituição que os acolhe –, o Centro Performático de DANÇA Fragmento, da escola Aluísio da Costa Chaves, de Concórdia do Pará, que enfrentou quatro horas de viagem de balsa e ônibus, alunos de projetos sociais, até os nomes mais tradicionais da educação belemense. Aos primeiros o meu aplauso e o merecido reconhecimento, dado em conjunto pelos três jurados. As distâncias e dificuldades lhes deram a garra para estar em cena. Nenhum grupo participante demonstrou mais energia, precisão e harmonia do que eles. Era possível ver a técnica despontando, o talento nato que horas de estudo e treino tornarão virtuosismo. E se as coreografias careciam de técnica apurada , ou maior aprofundamento teórico, a afinação do grupo, agilidade, precisão e força cativaram o público, que os aplaudiu veementemente. Uma boa parte dos grupos de Belém,sobretudo s de escolas particulares (mas não por exatamente por isso!) optaram pelo lugar-comum, pela porta larga, apresentando coreografias opacas, repetitivas, sem técnica, ou estudo, na palavra dos meus parceiros; algumas parecendo ter sido feitas em série, alterando apenas o figurino e a música, ou nem isso, usando canções diferentes com o mesmo arranjo eletrônico. Essa apatia ficou visível quando do bate papo com o bailarino Ed Louzardo, convidado do festival, que falou para uma pequena platéia que foi conferir mais do que uma história de vida, mas uma história de aprendizado, assim como na ausência de oficinas que, segundo os organizadores, não acontecem pela falta de interesse dos inscritos. O que justificaria isso?
Bom é ver que em sua grande maioria, as escolas têm investido em grupos de arte entre seus alunos, seja na dança, teatro ou outra forma de expressão. É inegável o valor dessa atitude na formação cultural, social, intelectual e mesmo moral desses jovens cidadãos, criando a consciência de que o fazer artístico não é algo para iniciados, tampouco marginal; é absolutamente importante que se veja e faça, que se saiba não serem apenas os gênios isolados que nascem aqui e ali os dotados de um pretenso dom artístico. O conhecimento, a pesquisa séria, o estudo aprofundado e muito, muito, muito treino podem tornar qualquer um Artista, assim mesmo, com A maiúsculo. Que o diga Ed Louzardo, que iniciou seus estudos nos projetos sociais da comunidade Riacho Doce e hoje brilha em São Paulo, aplaudido entusiastica e merecidamente em sua terra natal. Louzardo e outros convidados: Cia. Ribalta de Dança, Grupo Coreográfico da UFPA, Cia. Compassos da Dança, SESC Cia. de Dança, o projeto Aluno Bailarino Cidadão, Grupo de Dança Moderno em Cena, Cia. Moderno de Dança (ver RITUAL DE PASSAGEM), entre outros, são capítulos à parte, um trabalho brilhante, perfeito pelo menos aos meus olhos (invejoso lá o meu canto!).
Calcem todos seus sapatinhos vermelhos e dancem. Aqueles que não abraçaram a dança, ou não foram por ela abraçados, simplesmente sucumbirão exaustos. Aos outros, Dançarinos, Bailarinos, pequenos, grandes, de ambos os sexos, de todas as cores, os passos enfeitiçados e nossos reiterados aplausos.

sábado, novembro 17, 2007

EU 12

Tem umas horas em Belém que nem mesmo quem nasceu aqui agüenta. Nesses momentos desafiar um tacacá pelando com pimenta é praticamente um suicídio. Alguns fazem!
Eu desci a alameda da Praça da República que leva ao anfiteatro e sentei num banco sob uma mangueira. Uns poucos centímetros me separavam de uma mancha de luz que avançava conforme o sol se movimentava no céu. Não deve me alcançar, pensei. Vou ficar por aqui mesmo. Abri os botões da camisa até o final do peito, apoiei os cotovelos nos joelhos e dobrei o corpo pra frente, fechando os olhos, tentando abstrair aquela sensação quente e levemente úmida do ar, que fazia pequenas gotas brotarem entre os pêlos do meu braço. Em volta o ruído do trânsito e as vozes de algumas pessoas e periquitos.
Ele sentou a me lado tão em silêncio que quando o percebi já deveria estar ali há vários minutos. Olhei-o por baixo, pelo canto dos olhos. Parecia funcionário de algum banco. Calças sociais, sapatos combinando com o cinto, a camisa de mangas longas enroladas até acima dos cotovelos, um cabelo estiloso, pulseira de metal no pulso esquerdo, gravata. Ele sentou-se na beira do banco e espreguiçou-se longamente, gemendo baixinho. Depois tirou os sapatos e apoiando os pés sobre eles sacudiu-lhes os dedos, protegidos por meias pretas, ou marrons, não sei ao certo agora. Apoiou a nunca com as duas mãos e bocejou alto. Estava tão à vontade que quase se assustou comigo ao seu lado, olhando-o com um leve sorriso nos lábios. Ele também sorriu e comentou algo sobre o calor e o expediente da tarde, que eu respondi meio atravessado, que não gosto muito que estranhos falem comigo. Como que adivinhando meus pensamentos, ele estendeu a mão e se apresentou, ao que eu respondi com o mesmo gesto, algo afetuoso.
Engraçado que depois disso nos calamos, olhando pra frente, ele com a nuca ainda entre as mãos, esticado no banco, os dedinhos dos pés sacudindo. Eu empertigado, as mãos juntas entre as pernas. Não corria um vento, ninguém passava por ali, nenhuma pessoa gritava vendendo nada e mesmo os carros não cruzaram aquela rua em frente de onde estávamos. Era um silêncio tão grande, tão presente, que parecia uma terceira pessoa sentada entre nós.
- Tens namorada? – ele perguntou, súbito
- O quê?” – perguntei sem me virar.
Ele também, parado:
- Namorada. Tens?
Permaneci na mesma posição e respondi:
- Não!
- E namorado?
Olhei aquele rapaz com surpresa. Isso é pergunta que se faça? Ele também me olhou, as mãos no mesmo lugar, com uma cara de o–que-é-que-foi-que-eu-disse-de-errado? Sorri:
- Não, também não tenho namorado!
De repente aquele silêncio de novo. Desta vez mais forte, angustiante até. Na minha cabeça uma separação recente e mal resolvida. Uma sensação desagradável de abandono, de não ter sido bom o bastante, de ter sido bom demais, de não ter dado a devida atenção, de ter grudado muito. Dúvidas demais, ausências demais pra sustentar um relacionamento.
Virei levemente o rosto. O rapaz ao meu lado também. O que estaria se passando naquela cabeça aureolada de castanho?
Nós ficamos nos olhando, tentando entrar na mente um do outro, entender o que se passava, adivinhar o que o outro queria. O que cada um de nós queria. Então todo o burburinho da cidade encheu a nossa volta e nunca nos sentimos tão invadidos quanto naquele momento. Foi um tal de ajeita daqui, senta direito dali, fecha os botões da camisa (então era ali que ele estivera olhando um tempo! Será que pro meu peito, ou pra medalhinha dourada de São Francisco de Assis?). Confesso que também tinha olhado muito pra ele. Quanto tempo gastamos naquele jogo? Por que tudo parecia tão difuso? E tão promissor?
Agora, sentados socialmente um ao lado do outro, parecia que não havia muito mais a fazer, ou dizer. Então ele levou o joelho devagar contra a minha perna e eu levei o meu joelho devagar contra a perna dele e pressionamos um ao outro, olhando sempre em frente.
- Tenho que ir! Ele disse, pondo-se rapidamente de pé.
Girou o corpo e saiu caminhando. Pensei apenas um segundo e também fiquei de pé.
Dei de cara com um senhor barrigudo, pasta executiva na mão, acendendo um cigarro e nos olhando. Encarei o homem. Dei um suspiro. Olhei o rapaz que já ia longe e me enchi novamente de dúvidas...

AGORA A DECISÃO É SUA, LEITOR. O QUE EU DEVE FAZER?

FINAL 1


Sabe quando pinta aquela dúvida? Será isso, será aquilo? Aquele homem a minha frente, cigarro em punho, era a imagem de tudo o que eu deveria fazer da minha vida. Acomodar-me no que é certo, justo e bom. Não investir em algo tão improvável. O que é que aquele rapaz poderia querer com um cara com eu? Ele queria mesmo alguma coisa comigo, ou meu vazio estava me fazendo imaginar coisas?
Segundo suspiro. Vi o rapaz parado na esquina da Oswaldo Cruz, me olhando de lá no exato momento em que o sinal abriu. Ele seguiu no meio de todo mundo e sumiu na esquina do INSS.
Passei a destra no cabelo e caminhei na direção da Assis de Vasconcelos.
Estava quase certo que tinha feito a melhor escolha. Quase!

FINAL 2

Sabe quando pinta aquela dúvida? Será isso, será aquilo? Aquele homem a minha frente, cigarro em punho, era a imagem de tudo o que eu deveria fazer da minha vida. Acomodar-me no que é certo, justo e bom. Não investir em algo tão improvável. O que é que aquele rapaz poderia querer com um cara com eu? Ele queria mesmo alguma coisa comigo, ou meu vazio estava me fazendo imaginar coisas?
Só tinha um jeito de saber. Passei correndo pelo velhote que amassou com violência o cigarro ainda inteiro no chão e resmungou alguma coisa.
Alcancei o rapaz na esquina da Oswaldo Cruz justamente no momento em que o sinal abriu e uma multidão avançou rua abaixo. Menos nós dois. Nenhum de nós arredou pé. O sinal fechou, abriu de novo e nós ali. Rimos.
Mãos nos bolsos, caminhamos pelo calçadão na direção do Teatro da Paz. Olhei pra cima.
- Vai chover!
- Seria bom, não seria?
Sorri:
- Seria, sim. Muito bom!

ESCOLHA O FINAL E RESPONDA NA ENQUETE NESSE MESMO BLOG. ESTOU ESPERADO TUA RESPOSTA.
OBRIGADO E BEIJOS!

terça-feira, novembro 13, 2007

RITUAL DE PASSAGEM

A matéria tem diferentes estados físicos e passar de um para o outro demanda ganho, ou perda de energia. Noutro aspecto, uma recombinação atômica permite que determinado corpo se altere. É assim que a simples adição de um átomo de oxigênio transforma a água essencial à vida num elemento corrosivo. Esse ponto de mutação é delicado e exige uma intrincada combinação de fatores. Entre os seres vivos essa recombinação pode dar origem a indivíduos que sequer vingam, outros que expostos às implacáveis leis da natureza, não resistem e morrem. Aos que sobrevivem, a eternidade, até que uma nova mutação os transforme novamente em algo melhor.
Assisti Homo Mutabilis (é, decididamente eu não gosto desse nome!) coreografia de Ana Flávia Mendes vencedora do Prêmio Secult no VIII Encontro Internacional de Dança do Pará – EIDAP (*) no último dia do VI FEDAD (Leia DANÇARÁS, DANÇARÁS ETERNAMENTE), domingo, 11 de novembro. A saga do homem sobre a Terra, do primitivismo animal ao sapiens sapiens (e além?) é contada nos gestos precisos dos intérpretes-criadores da Companhia Moderno de Dança. Assumindo todo o palco e todos os planos e ângulos disponíveis, vemos esse bicho estranho avançar e crescer. Signos como agrupamentos, a roda ancestral, reforçam a idéia de sociabilidade, que se nos animais mais inferiores é o elemento básico de proteção e conquista de alimento e moradia, nos humanos alcança o ponto máximo, permitindo que nos tornemos senhores deste mundo e mesmo subvertamos essa lógica, deturpando-a na pressão de uns povos sobre outros, na contramão da própria razão evolucionista.
Em Homo Mutabilis a luz ora apaixonada, ora branca espalha e agrupa os seres; o uso de tipitis evoca a natureza, nossa regionalidade. Presentes no palco desde o início da cena e incorporados aos bailarinos, é ressignificado enquanto corpo, elemento de mudança. Os gestos são vigorosos, a música batuca na carne, porque toda mudança exige energia. Energia que extrapola os corpos que rodopiam e saltam no palco e invadem os nossos que, tensos, esperam que eles e nós mesmos, num estalo, sejamos outros. Sejamos novos.
Ana Flávia e seus co-criadores conseguem dar mais um passo na afirmação de sua identidade e excelência, sobrevivendo ainda uma vez nesse turbilhão de tantas experimentações infrutíferas.
Para eles, a eternidade. Inconclusa. Porque para não serem extintos, a Arte lhes exigirá uma nova mutação.

(*) O prêmio Secult contempla companhias com trabalhos autorais e experimentais em dança. O EIDAP é uma promoção do Centro de Danças Ana Unger e aconteceu de 13 a 16 de setembro passado.

terça-feira, outubro 30, 2007

POLÍCIA E BANDIDO

Faz um tempo considerável que não vou ao cinema e o maior motivo disso é a baixa produção cinematográfica atual. Sempre me questionei quanto à indústria americana que tem dinheiro pra investir em cada porcaria que meu-pai-do-céu! Enquanto comércio eu tenho certeza que eles têm consciência o que estão fazendo. Sabem que tem público pra comédias românticas, ou adolescentes, sexualidade mal-resolvido, ou irrefletida, muita pancadaria, melodrama e mensagens de como o mundo poderia ser melhor se todos nos curvássemos a eles. Tudo isso com grossas camadas de glacê, calda, cereja e confeito colorido! Por conta da minha dieta restritiva, declino da oferta!
Mas ontem decidi quebrar meu jejum e prestigiar a prata da casa. Saí embaixo de um toró paraense pra assistir Tropa de Elite. Tem gente falando bem – a maioria – e outros falando mal. Sempre! Decidi tirar minhas próprias conclusões e fui ao cinema, como acho que deve ser, apesar de dois terços dos meus amigos já terem visto o filme por “3 real”.
Com direção e roteiro de José Padilha (Ônibus 174) e com o excelente Wagner Moura (capitão Nascimento) encabeçando o elenco que tem ainda André Ramiro (André Matias), Caio Junqueira (Neto), Maria Ribeiro (Rosane), Fernanda Machado (Maria) e Milhen Cortaz (capitão Fábio), o filme conta a trajetória de Nascimento, capitão do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) do Rio de Janeiro, os Caveiras, na busca de um homem à altura de substituí-lo no comando de sua tropa. Dividido entre a esposa às vésperas de ter seu primeiro filho, uma missão que ele considera insana e um senso de dever e justiça muito próprios, Nascimento vai se aproximando perigosamente de um limite que na sua função, seria fatal.
Enquanto produto cinematográfico, Tropa de Elite é um ótimo filme, apesar dos sempre presentes problemas de som e aqueles buracos comuns nos roteiros: pra onde foi a família de Nascimento? Ou isso não importa? Pra linha mestra do filme, não. Para quem se identificou com o capitão, talvez. E o maconheirozinho que provoca, por vingança, a morte do aspirante Neto? Depois da surra em uma dessas passeatas pela paz – ação onde André Matias reforça todo o imaginário sobre violência e arbitrariedade da polícia que ele próprio negara anteriormente -, o personagem some pra nunca mais. Pequenas coisas talvez, mas que não passam despercebidas.
Voltando: é muito bom ver o cinema nacional maduro, falando de coisas que lhe são próprias, sem tentar encampar ideais estéticos e falas alheias. Os americanos têm o Vietnam, nós, a ditadura militar. Os gringos têm seus serial killers, nós, os traficantes, a miséria, uma desesperança mulata, carnavalesca, girando na sujeira das periferias e aridez dos sertões como uma velha baiana na quarta-feira de cinzas. Tropa de Elite é um filme enxuto, interpretações de boas a excelentes, uma trilha sonora condizente e que jamais estará na minha estante, uma câmera nervosa que compartilha da nossa angústia morro acima, uma luz nublada, diversa dos cartões postais que aqui não têm espaço. Tropa de Elite é um filme maniqueísta. E ele se diz assim na fala do próprio Nascimento: polícia no Rio de Janeiro ou é corrupta, ou é honesta, ou mete a cara. Bandido é bandido e bem melhor se estiver morto! Infelizmente não dá pra não ser maniqueísta. O roteiro constrói personagens a quem não se dá o direito de escolha, com nuances de personalidade muito pálidas, como os deuses do Olimpo, invejosos dos homens mortais que podem ser o que quiserem. Nascimento é um desses deuses, criado para ser eficiente, honesto, inflexível, objetivo, mas que deseja um domingo de sol com a esposa e filho na beira da praia de um Rio de Janeiro que continua lindo. Que continua sendo...Padilha, no entanto, nos brinda com uma pequena jóia. Assistir Tropa de Elite é um exercício de entregar-se, ou de recuar. Queira o não queria, o estômago vai estar sempre embrulhado e é bom que seja assim. Os risos nervosos da platéia, o silêncio, o mexer-se na cadeira dizem que aquilo nos diz respeito. Parabéns, Padilha. Missão dada. Missão cumprida!

sexta-feira, outubro 05, 2007

EU 11

Sentei no banco e procurei controlar a respiração. O pequeno telhado que nos protegia ainda pingava e os arbustos e flores em torno, enfeitados de pingentes, permaneciam imóveis. No alto, algumas nuvens se desfaziam em gotas pequenas e esparsas; outras eram desfiadas pelo vento.
Olhando o céu quase escuro, em parte pela chuva, em parte pela hora, pensei se demorarias, me recusando a olhar o relógio.
E assim foi por 20 minutos.

Bem em frente, num coreto, um casal se abraçava, ele protegendo a namorada – penso que era sua namorada – do vento frio que corria. Ela, aconchegada, colocava as mãos por sob a camisa dele, às costas, aquecendo as palmas. Nenhum dos dois dizia nada. A moça permanecia mesmo de olhos fechados, entregue, um leve sorriso no rosto, enquanto o jovem, atento, olhava sério o entorno.
Fazia muito tempo desde a última vez que estivemos abraçados daquele jeito quase displicente. Nos poucos momentos em que estivemos juntos, os abraços foram sociais, apertos de mão burocráticos, cumprimentos formais, olhares e sorrisos camuflados. Procurei não pensar que não sentias falta do meu calor.
E assim foi por 30 minutos.

Um rapaz moreno sentou na outra ponta do banco. Parecia um pouco ansioso. Perguntou as horas. Menti que não sabia dizê-las! Num instante um grupo ruidoso de rapazes apareceu e meu vizinho se foi, deixando um rastro desagradável de fumaça de cigarro. Uma senhora, cabelos brancos, também sentou no meu banco. Chegou lenta, permaneceu com a calma de quem não espera muito mais da vida e foi embora devagar, apoiando o corpo em uma perna de cada vez. E um rapaz com um violão, mas ele não tocou; e um senhor que discutia negócios ao celular e uma mocinha que procurava emprego nos classificados do jornal, marcando círculos com hidrocor vermelha.
Nenhuma daquelas pessoas me dirigiu mais do que um olhar, ou uma pergunta simples. Ficamos sentados em lados opostos de um mesmo banco de praça, indiferentes um aos outros. Me esforcei pra não pensar em nós, que há muito permanecíamos (indiferentes) em lados opostos de uma conexão virtual.
E assim foi por uma hora!

Quando por fim levantei não havia mais quase ninguém na praça e as luzes dos postes já tinham se acendido há tempos. Não vieste. Nunca vinhas! Esperei porque... Por que?
Iria pra casa, trocaria os lençóis, colocaria no cesto de roupa suja as peças que usaste pra dormir muito tempo atrás, trocaria o retrato no criado mudo, alteraria meu perfil no Orkut e te escreveria um e-mail de despedida... Deu saudade dos bilhetes com letra caprichada no papel, com algum perfume de quem os escreveu e que dava vontade de guardar entre as folhas de algum livro. Deu saudade de tanta coisa. Até mesmo de ti. Mas rápido deletei aquele pensamento, julgando por orgulho que eu não tinha lugar nos teus.
E foi assim pra sempre!!

10.09.2007. 3h05 – 9h26.

domingo, julho 22, 2007

EU 10

‘Ela diz que apesar de tudo ela tem sonhos
Ela diz que um dia a gente há de ser feliz
Se Deus quiser .”
(Janaína. Biquíni Cavadão)

A Dalva nem tinha apagado no céu quando eu enxuguei o suor da testa com o dorso da mão. Tanque cheio, suspiro fundo, alguma olheira. Mas ainda havia o frescor da madrugada.
Enquanto o sol e-va-po-ra-va – meu caçula tinha dito isso! – a água das roupas, limpei a casa, arrumei as camas, lavei a louça do café, varri o pátio. Na panela, feijão e um restinho de toucinho, cebola, alho e sal. Pra acompanhar, arroz e salsicha. O sol parecia tão mais brilhante aquele dia!
A molecada comia apressada pro filho mais velho lavar a louça antes de ir pro quartel. Hoje era dia de educação física pros menores e eu passei as camisetinhas brancas e os shorts azuis marinhos. Quando havia dobrado a última peça e dado uns pontos na toalha grande e felpuda que protegia a trouxa, a casa estava quieta e o sol rachava o asfalto. Lá longe alguém ouvia uma música que eu gosto muito e o Pirata – o vira-latas do do meio! – latia pro nada, sacudindo o corpo todo.
O ônibus tava lotado, mas o segundo, se Deus quiser, tá mais vazio e algum cristão há de pelo menos pedir pra levar a trouxa. Faz um tempão que eu não escuto um “senta aqui, senhora!” e cada vez esses carros demoram mais a passar. Acho que alguém deu uma boa lavada neles ontem, ou hoje. E o cobrador até me disse bom dia.
A dona gosta da minha lavagem, mas sempre abre a trouxa e olha tudo e confere numa listinha antes de me pagar e sempre pede pra ser menos. “Não dá. O preço do sabão tá pela hora da morte!”. Ela sempre paga e já marca outro serviço. São mais dois ônibus e o ponto é longe, inda mais nesse calor. Sento lá no fundo e vou sorrindo da boniteza que tá ficando essa cidade.
Desço do ônibus e sento numa proteção toda de metal, ferrugem, cartazes molhados-rasgados-desbotados. Na outra ponta do banco de madeira uma mocinha fala ao celular e diz que sente saudades também e que não vê a hora de estar junto e que estar junto é a única coisa que eles têm certeza, mas aí a voz já está mais alta e mais nervosa e mais aguda e ela pergunta por que e quando e de que jeito? Desliga o telefone meio nervosa, enfia na bolsinha verde e azul e me olha meio sem graça. Eu olho de volta, complacente, que eu tenho uma dessas em casa e sei como eles são, ah, se sei!
A mocinha desvia o olhar, encabulada e morta de vergonha enxuga uma lágrima gitinha que vem caindo.
Ela me olha de novo quando eu sento ao lado dela e a abraço sem perguntar se posso, se devo, ou se ela quer. Surpresa! Mas logo ela também abraça e chora um pouco e ri. Lindo! Lindo! E sai correndo que seu ônibus chegou e outro sabe Deus quando.
De dentro do carro é que ela olha e sorri, atendendo novamente o telefone.
Também sorrio e sacudo a cabeça. Ah! esses moços!!

19 de julho de 2007.
11h31

sábado, julho 14, 2007

EU 9

Escrevo-te da prisão na qual me encerraste: cadeias teus braços, correntes teus beijos.
Escrevo-te de dentro de uma novela mexicana: olhares afetados. Gestos grandes, frases tolas.
Escrevo-te do meu quarto vazio e imenso sem estares nele, dormindo sem pressa, óculos no rosto.
Escrevo-te do torvelinho que é a dúvida da tua presença: se quero que me revolvas, se quero que passes ao largo.
Escrevo-te pra fugir do telefone.
Escrevo-te porque não lerás essas linhas (?).
Escrevo-te porque é o que sei e gosto e onde posso te pintar com as cores que deseje: azuis abreus, amarelos van gogh, vermelhos almodóvar e brancos e cinzas e negros eus.
Escrevo-te porque assim não partes.
Escrevo-te porque se rasgar esta folha, não ficas...
Escrevo-te épico, cômico, dramático.
Escrevo-te crônica do meu dia-a-dia alterado (pra melhor?!)
Escrevo-te conto, curto, redondo.
Escrevo-te com detalhes de roteiro, com volteios de romance, com a secura dos jornais, na métrica matemática da música, na precisão da tese, ágil como os quadrinhos.
Escrevo-te porque as palavras sobrevivem aos homens.
Escrevo-te enquanto te aguardo.
Ponto. Três!

Para M. O.
Belém, Pará
13 de julho de 2007 – 9h00

A PROGRAMAÇÃO DO PALCO GIRATÓRIO.

Em 2007, uma feliz coincidência reuniu o SESC e o projeto Balaio Cultural dos Clowns de Shakespeare, grupo de Natal que veio a Belém pela segunda vez através da Caranava Funarte – programa de circulação de espetáculos da Fundação Nacional de Arte. O programa incluiu ainda a cidade de Santarém e o estado de Roraima com a apresentação dos espetáculos Muito Barulho Por Quase Nada e Roda Chico, além do infantil Fábulas. Em todos os locais aconteceram oficinas ofertadas aos artistas locais. Em Belém, intermediadas pelo SESC, as oficinas de jogos teatrais e iluminação, além de debates, aconteceram no Casarão do Boneco, sede da companhia In Bust Teatro com Bonecos.

Dentro da programação normal do Palco Giratório esteve em Belém em maio passado o grupo Lumbra, de Porto Alegre, com Sacy Pererê – A lenda da meia-noite, resultado da pesquisa e trabalho do grupo na área do teatro de sombras. O espetáculo apresentado levou dois anos para ser concluído.

Entre os dias 23 e 28 de junho de 2007 esteve em Belém a Companhia catarinense Trip de Teatro Rio do Sul, com o espetáculo adulto de bonecos O Incrível Ladrão de Calcinhas.

Para a primeira quinzena de agosto está programada a Companhia Informal de Teatro, do Rio de Janeiro, que trará a Belém os musicais Antonio Maria: A Noite é uma Criança e Ai, que saudade de Lago, biografia para o teatro do ator e compositor Mário Lago.

Em setembro, na programação especial, acontecerá a Residência Cênica com a carioca Companhia Etc e Tal, que além das oficinas e bate-papo apresentará três espetáculos: Fulano e Sicrano e as comédias No Buraco e O Macaco e a Boneca de Piche.

Na Aldeia Círio, que começa dia 13 de outubro, as apresentações incluem teatro, dança e música, com intensa participação de grupos locais, valorizando nossa produção artística. Do Rio de Janeiro virá a Companhia Artesanal de Teatro com dois espetáculos infantis: Viagem ao Centro da Terra, baseado na obra de Júlio Verne, e Ciriano de Berinjela.

Fiquem atentos, prestigiem e divulguem.