Apaga-te, ó delicada chama! Apaga-te!A vida é sombra passageira. Um mísero ator que chega, agita a cena inteira, diz sua fala e sai. e ninguém mais o nota. MACBETH (William Shakespeare)
sábado, outubro 18, 2008
É SÓ SENTIR O VENTO FLUIR...
Até novembro, todas as noites de sexta, sábado e domingo serão cinza, prata e preto. Algum branco. Meia maquiagem, música, a alegria e o deboche característico de quem decidiu nadar contra a corrente e dar a cara à tapa pra amar e gozar com quem lhe é semelhante.
Com dramaturgia de Edyr Proença, Quando a sorte... é um espetáculo gay. Retrata em quadros os amores, os desencontros, a solidão, a culpa, a festa, os relacionamentos bem, ou mal resolvidos, os choques – com o outro, consigo –, um jeito de ser que não permite meios termos. O espetáculo também não vai te dar essa opção. Vais gostar, ou não vais gostar. Odiar? Nunca! A diversão é garantida, até alguma identificação. Dá pra pensar em um monte de coisas e até rever alguns conceitos, ou reforçá-los.
No entanto a dramaturgia é exatamente o ponto delicado do espetáculo. Uns textos têm um quê de panfletário, outros ficam nas margens daquilo que se quer dizer sem nunca ir lá no fundo. Todos precisavam dizer mais. Ou menos. E deixar a encenação resolver as coisas como faz em muitos momentos. Em Quando a Sorte... as imagens são muito mais contundentes. O espetáculo começa pra cima, convidando à festa e à dança. O público quer bater palmas (e bate mesmo!), subir no palco (eu queria!), balancê! A cena imediatamente seguinte é dessas em que basta o que se vê: incisiva, dura, um tapa que logo depois é soprado com mais luz e bandalheira. E assim vamos, pra cima e pra baixo, uma gangorra estranha, mas deliciosa. Às vezes o problema do texto nem é o texto em si, mas ser mal dito. Noutros, atores mais experimentados acabam presos numa laçada curta. Os quadros que compõem o espetáculo são criados em cima de uma linha mestra e se resolvem em si mesmos, mas por não conversarem com os demais, deixam uma sensação de incompletude, ou de excesso, como os shows de transformistas numa boate. De repente a idéia é até essa. Por que não?!
O figurino de Maurício Franco é objetivo, bonito, confortável. A luz que se esperaria excessiva, colorida, é pontual, porque ser gay é viver sempre na sombra, uma espécie de segredo guardado cuidadosamente numa Ana Maria que a gente só vê no espelho do banheiro.
Quem sair do Espaço Cuíra depois de Quando a Sorte te Solta um Cisne na Noite (cisnÊ, meus amores, não cisnEM!) vai cantarolando “Tomorrow, tomorrow, I will survive...” até em casa. Ou vai emendar, que dá vontade de esticar a noite na caça dessa ave de canto raro, que parece nunca ter uma nota sequer pra quem decidiu nadar contra a corrente e dar a cara à tapa amando e gozando com quem lhe é semelhante.
Ah! Viado só dá o cú porque é cú que tem que dar mesmo. Se desse buceta não
seria viado. Daí, que graça teria?!
SERVIÇO:
Quando a Sorte te Solta um Cisne na Noite.
Músicas e Dramaturgia: Edyr Proença
Músicas cantadas por Walter Bandeira, Marco Monteiro e Nilson Chaves
Produção executiva: Zé Charone
Direção: Wlad Lima e Karine Jansen
Elenco: Olinda Charone, Paulo Marat, André Mardock, Ronald Bergman, Roma Muniz, Fábio Tavares, Wanderley Lima, Maurício Franco, Thiago Ferradaes, Michel Amorim, Rafael Cabral, Ícaro Gaya e Lucas Gouvêa.
No Espaço Cuíra (Riachuelo com Primeiro de Março), de 17 de outubro a novembro de 2008, sextas e sábados às 21 horas, domingo às 20 horas.
Ingressos: R$ 20,00
Veja imagens no You Tube: http://br.youtube.com/watch?v=jboZZD2geVw
HUDSON ANDRADE
Belém, Pará, 18 de outubro de 2008. 10h15.
sexta-feira, setembro 19, 2008
BROCARDOS (05)
Os Jogos Olímpicos de 2008 aconteceram em Pequim, na China, de 06 a 24 de agosto. As paraolimpíadas aconteceram de 06 a 17 de setembro de 2008. Naquela, grandes delegações, maiores quanto mais rico o país que as enviou. Investimentos altíssimos, alta tecnologia de tecidos a materiais antiderrapantes. Grandes cobranças. Nas paraolimpíadas é o inverso. Países mais pobres, os emergentes, mandaram delegações muito maiores do que os seus primos ricos, que reduziram suas equipes em média pela metade. Isso pode ser compreendido, segundo a Organização Mundial de Saúde, pelo grande número de pessoas com deficiência nos países em desenvolvimento, vítimas da ineficiência no combate a doenças como a poliomielite e por amputações causadas por conflitos armados. O Brasil enviou 200 atletas que competiram em 25 modalidades nestes jogos, contra 188 atletas com deficiência. Uma redução pequena frente a outros países como EUA (600 atletas nas Olimpíadas, contra 213 nas Paraolimpíadas), Japão e Austrália.
Nadando contra a corrente, os atletas paraolímpicos se destacaram em sentido inverso aos seus companheiros ditos “normais”. Primeiro lugar no quadro de medalhas olímpicas, os americanos abocanharam 110 lauréis, sendo 36 de ouro, caindo para terceiro lugar nas Paraolimpíadas, com 99 medalhas, sendo 36 de ouro. A Venezuela terminou as Olimpíadas em 82º lugar, com uma medalha de prata e outra de bronze. Setenta e quatro países sequer subiram ao pódio entre africanos, latinos e países do oriente médio. Já nas Paraolimpíadas o destaque ficou com a Tunísia, país do norte da África, 52º lugar nas Olimpíadas onde competiu com 27 atletas. Na competição para deficientes, foram 35 atletas que angariaram 21 medalhas, 09 delas douradas, ficando em 15º lugar no quadro geral.
Nosso Brasil terminou a competição olímpica em 17º lugar, com 03 medalhas de ouro, 04 de prata e 08 de bronze, logo atrás da Bielo-Rússia, também com 15 medalhas, sendo 04 de ouro. Nas paraolimpíadas foram 47 medalhas, 16 douradas, com destaque para o corredor cego Lucas Prado, que subiu ao pódio mais alto nos 100, 200 e 400 metros.
Terminamos as Olimpíadas com uma sensação de derrota muito grande. Os grandes nomes do esporte nacional com Tiago Camilo e João Derly, judocas, o ginasta Diego Hypólito, os times de vôlei masculino, vôlei de praia masculino e o futebol feminino deixaram uma grande dúvida no ar. O que acontece com nossos atletas? O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman disse haver necessidade de um psicólogo na delegação brasileira, função tão importante quanto fisioterapeutas, preparadores físicos e nutricionistas. Isso já acontece na equipe feminina de vôlei. A psicóloga Sâmia Hallage vem trabalhando as meninas desde o início deste ano e colheu bons frutos: a inédita medalha de ouro para o vôlei feminino do Brasil.
É claro que problemas há em todos os países, em todas as delegações, mesmo as mais ricas. Mas o que interessa falar aqui é do Brasil. Somos um povo apaixonado, torcemos de deixar a cabeça do dedo no osso, beijamos na boca pra logo em seguida, tendo frustradas as nossas expectativas, virar as costas aos nossos candidatos a heróis. E ainda temos que agüentar o Galvão Bueno dizendo aquele clichê idiota de que o que vale é ter chegado até aqui e que ir pra uma final já é uma vitória e que somos maiores do que isso. O escambau! Fora a seleção brasileira de futebol e sua milionária federação, quem tem apoio digno no esporte brazuca, guardadas as devidas proporções aos Correios e Caixa Econômica Federal? Não vou entrar nesse mérito porque serei tendencioso. Não gosto de futebol e renego o tratamento diferenciado que os jogadores desta seleção recebem. Alguém veio aqui no Bengui passar a mão na cabeça da Formiga depois que ela voltou da China? Nada! Toda a preocupação é com as eliminatórias, ou classificatórias, ou a droga que seja pra próxima Copa que eu bem queria que o Brasil não fosse pra ver o que é bom pra tosse!
No meu ver os atletas brasileiros chegam aonde chegam com a garra que nos é peculiar. Vão abrindo caminho no peito e na raça, comendo pelas beiras, caindo de cabeça, dando os pulos até chegar nas semi-finais e finais. Daí esbarram na categoria do treinamento dos países desenvolvidos que investem milhões em seus representantes. Contra a técnica, não tem garra que chegue. E técnica eles têm. A fleuma de chegar, colar um sorriso ACME na cara, fazer o que tem que fazer e aguardar, frios, o resultado que todo mundo já sabe qual é. Isso está longe de ser a nossa realidade. Como é que o Tiago Camilo vai concorrer com um Michael Phelps cuja vida é dedicada à água? E recebe investimentos pesados pra isso. Quantos exemplos temos iguais a este em nosso país. Ruim é só que o povo parece não ver esse tipo de coisa e quer a vitória sempre e nada menos do que o ouro, querendo colher onde não lançou semente alguma!
Esse estado de coisas é ainda mais contundente quando os atletas têm qualquer tipo de deficiência num país que diz não ser preconceituoso, diz não ser racista, diz não ser homofóbico.
Na raiz disso tudo está novamente o descaso com o processo educacional do brasileiro, que precisa ser integral, incluindo não só as matérias formais de estudo, mas igualmente o esporte e a arte como elementos formadores de opinião e da condição de cidadão de qualquer pessoa. De absoluta inclusão! Não se desenvolvem as habilidades do indivíduo, que poderia ser um excelente músico, um dramaturgo maravilhoso, um pintor genial, um grande atleta. Todos somos limitados a fazer contas e entrar no saturado mercado de médicos e advogados e tecnólogos e engenheiros pelo status da profissão. Lamentável!
Americanos, chineses, japoneses, europeus, todos já começaram a se preparar para Londres 2012. Crianças vão ser estimuladas, domadas, doutrinadas, torcidas e ser os novos heróis dos seus países, representando a glória dourada do ideal de superar milésimos de segundos, metros e marcas. Por aqui, vamos correr atrás de um bom tênis, de uma piscina, dividindo tudo isso com um trabalho formal que garanta o do fim do mês. No ritmo que as coisas vão, não será ainda nas próximas Olimpíadas que o Brasil será destaque no quadro de medalhas. Quem sabe na outra, ou na seguinte? Desde que comecemos agora. Desde que comecemos já!
HUDSON ANDRADE
19 de setembro de 2008
16h23
quinta-feira, setembro 04, 2008
EU 16
Então lancei o ataque final: Alguém aí do meu bairro? A resposta: Eu! Nesse deserto de almas (dessa vez é Caio F.) uma igualmente estiolada é capaz de reconhecer a outra. Daí foram conversas, convites para o MSN, web can, números de celular. E promessas!
Duas, mais ou menos três semanas foram de muitos contatos, mas por uma série de contratempos, nenhum encontro, até que num dia desses ele confessou já estar aborrecido com aquela situação. Morávamos tão perto um do outro. Por que nunca nos encontrávamos? Respondi que se eu acreditasse em destino, certamente ele estaria conspirando contra nós. Ele propôs que mudássemos aquilo e marcamos já tarde da noite, quando ambos se tinham desvencilhado de seus compromissos, num ônibus que servisse aos dois para o retorno pra casa. Aguardei no ponto até que ele ligasse, dizendo estar no ônibus tal, número tal, camisa verde, calças jeans. Em quinze minutos eu sentava ao lado dele. Informal: E aí? Fala! Senta aí! Valeu!! E entre muitos silêncios, nenhum olhar direto, um rápido aperto de mão, as pernas que se encontravam nas curvas das ruas, trocamos impressões, informações, bocejos e talvez uns suspiros. Descemos numa rua larga e deserta pelo início do dia seguinte, caminhando lado a lado bem no meio da avenida, uma como que eletricidade entre a gente, até a pergunta: E então? Atendi tuas expectativas? Respondi que não tinha feito nenhuma. Às vezes a gente espera demais e se decepciona. Noutras espera de menos e se surpreende. Prefiro deixar rolar. Ele concordou. No meio do caminho entre as duas casas, novo aperto de mão, dessa vez mais forte, algo demorado e quente, um boa noite e nos separamos.
Depois dessa noite mais nenhum telefone, ou e-mail, ou mensagem. Eu bem que tentei. Será que ele tentou? O fato é que ninguém se falou e eu fiquei pensando em tudo o que nos dissemos sem nunca termos nos visto, na vontade de estar juntos e quando isso finamente aconteceu, qualquer coisa deixou tudo morno e sem graça e uma contrária cuíra de estar perto de novo, de se tocar, de qualquer lance.
Então decidi esperar o mesmo ônibus daquela noite. O mesmo horário, o mesmo número, o mesmo motorista que passou a me cumprimentar. Nada! Cheguei a pensar que algo tinha acontecido, ou que tudo não tivesse passado de um truque e agradeci a Deus por não ter lhe dito onde morava, tão perto de onde nos separamos. Depois de muitas tentativas, já quase desistindo, mas sempre me predispondo a tentar novamente, eu o vi em outro ônibus que cruzou com o meu, ora a minha frente, ora atrás. E foi me dando uma aflição, uma vontade de descer e não ser visto, de pedir explicações, de simplesmente dizer boa noite! Ele desceu. Eu desci. Chamei-o pelo nome. Ele parou, acendeu um cigarro, estendeu a mão. Toquei meu chip, perdi o contato, mas estamos aí e o novo número é facinho de decorar. Anota aí! Lembrou de coisas que eu tinha dito, mostrou-se gentil, mas daquelas gentilezas de vendedor de loja, de corretor de imóveis. Quando nos separamos no mesmo ponto da outra noite eu lhe pedi que esperasse, que eu tinha que lhe falar que eu sentira muita vontade de vê-lo de novo, que... Ele sorriu e disse: Legal, aí! Como eu tava te dizendo, tô pensando uns novos trabalhos aí e aí quando eles estiverem prontos aí eu te chamo pra pedir uma opinião aí! Depois deu um soquinho macho no meu peito e já de costas disse que a gente se falava.
Parado no meio da rua pensei nas pessoas por trás das paredes, das cortinas, vendo TV, lendo, comendo, trepando, dormindo, insones. Alguns mais vazios, outros menos, vários outros satisfeitos.
Minha alma ressequida voltou pra casa, meu corpo foi pra cama, minha mente tratou de apagar mais uma lembrança.
HUDSON ANDRADE
04 de setembro de 2008.
8h48
sexta-feira, agosto 29, 2008
BROCARDOS (04)
Não é preciso repetir toda a bomba química que o cigarro é nem os malefícios que ele provoca. Todo mundo sabe disso! O que precisa ser discutido numa data dessas são os direitos dos não-fumantes.
Logo eu, contrário a toda forma de intolerância, vou cometer e incentivar uma: toda sanção contra os fumantes é pouca!
Todo tabagista tem um discurso pronto de liberdade e direitos, um sentimento discriminatório por permanecerem “enjaulados” em salinhas de aeroporto, “escorraçados” de lojas e restaurantes (os sérios, claro!) e ainda ter que andar em círculos nas ruas para que a fumaça não se concentre e incomode outrem. Ainda assim as partículas dispersas no ar permanecem no ambiente e o que já é danoso passando pelo filtro do cigarro se torna avassalador para os ditos fumantes passivos.
Pergunto: E o meu direito de não ter minhas roupas e cabelos empestados de fumaça, minha comida e bebida amargados, minha rinite potencializada e meus olhos avermelhados? A única pessoa que o fumante respeita é outro fumante, de vez que um ser humano diverso é sumariamente desconsiderado, esteja ele intra-uterinamente, seja um sexagenário.
Fumar é uma dessas muletas que nós, pessoas, usamos para camuflar nossas dores e dificuldades, tanto quanto o álcool, a comida, fofoca, sexo. Como tudo que vira um vício, lesivo, não importa quanto prazer (sempre momentâneo) ele produza.
No Dia Nacional de Combate ao Fumo o que fica tácito é a falta é educação e respeito, o individualismo de quem quer gozar a despeito da intranqüilidade alheia.
Nessa data eu só peço uma coisa aos fumantes: Vão fumar com o sete peles que é imortal!!!
Hudson Andrade
29 de agosto de 2008.
12h41
quarta-feira, agosto 27, 2008
E ECOA NOITE E DIA. E É ENSURDECEDOR...
As vozes negras...
O riso das crianças...
As cirandas...
A rua se abre para deixar passar quem dela fez palco e vida.
A Companhia Brasileira de Cortejos inaugura suas atividades com o espetáculo No Olho da Rua. Miguel Santa Brígida, que também dirige a Companhia Atores Contemporâneos e está na rua desde 1986 com o Auto do Círio, entre outros, conhece bem o que é estar junto ao povo e interferir nos seus caminhos.
O afro, a quadrilha, o carnaval, a religiosidade não são novidades, assim como a música alta, estranha e estrangeira; o começo nu onde se vão aplicando elementos coloridos que explodem em brilhos e fitas também está lá, marcas tão profundas quanto os movimentos dos intérpretes. A novidade nãoé só o nome, ma sobretudo o acolhimento que os moradores da Rua Dr. Malcher, na Cidade Velha e a administração do colégio D. Mário deram ao grupo, recebendo-os e acompanhando-os atentos, cantarolando os versos repetidos tantas noites. Novidade é o Miguel ir na contramão e abdicar de qualquer incentivo oficial pela tranqüilidade e liberdade de trabalhar, ainda que ao custo próprio,contando sempre com valorosos apoios conquistados pelo seu talento e dedicação à arte, e ainda oferecer tudo isso de graça a um público desacostumado de ver teatro como ofício. Novidade não é fazer da rua o palco, mas o sentido do espetáculo, sua inspiração e razão.
No Olho da Rua é uma colcha de sentimentos. Belo nas suas fitas, pedras falsas, seus sonhos de valsa, ou seus cortes de cetim. É preciso estar atento às tantas sensações de carinho, amor, separação, ódio, solidão, paixão, erotismo, sempre tendo a via pública como a cama, o ponto de partida, ou o caminho de volta.
O cortejo vem pela rua, confirmando sua vocação. Originalmente ele saia de uma garagem, mas um contratempo alterou o ensaio e o resultado alterou a encenação. Entendo o novo sentido dado, mas penso que sair para a rua é mais significativo dentro da história desses atores e seu diretor.
Os intérpretes igualmente oriundos da Companhia Atores Contemporâneos têm novos desafios. Acostumados a dar ao movimento o status de rei,precisam agora integrá-lo à palavra. Os textos de Hudson Andrade e os poemas de Mário Quintana e Drummond carecem de nuances e precisão que, peso, serão garantidos com o curso da temporada e os próximos trabalhos.
Atentem para o belíssimo figurino de Guilherme Repilla e Miguel Santa Brígida, as máscaras de Bruce Macedo, a impressionante interpretação de Canto das Três Raças (Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte, 1974, consagrada na voz de Clara Nunes) pela Sônia Santos. Onde se esperaria o som imenso dos tambores só a voz pungente contra o silêncio da platéia.
quinta-feira, julho 31, 2008
DAS TREVAS VÊM OS CAVALEIROS.
Batman é meu herói preferido dos tempos em que, encarnado por Adam West dava Socs!, Pans! Tuns!, em vilões com figurino duvidosos. Só fui retomar, ou incorporar, o gosto quando Burton lançou Batman, em 1989. Então foi uma enxurrada de revistas, séries, botons, camisetas, figurinhas, tudo, trancafiados depois de Batman e Robim (EUA, 1997) e porque esse negócio de coleção gasta uma boa grana. Hoje os meus olhos de fã compartilham a imagem do Homem Morcego com uma visão crítica e pretensiosa do cinema e da arte em geral.
Batman: O Cavaleiro das Trevas (Batman – The Dark Knight, EUA, 2008) é um ótimo filme. Suas quase três horas de duração mostram que Nolan queria algo além do comercial. O diretor construiu seu filme com calma, desfiou pontas, desfez nós, abriu brechas e amarrou uma história que grita por uma continuação, mas pode viver perfeitamente sem ela. O grande barato do filme é que Batman é o protagonista oficial e quando voltamos a atenção para ele nos desviamos dos personagens secundários. Enquanto expressão artística é a chance de dar aos outros atores uma real função na trama, alicerçando o enredo em vários pilares seguros; enquanto mitologia mostra o Batman (Christian Bale) como a infantaria que abre caminho para o verdadeiro exército: a honestidade de Jim Gordon (Gary Oldman), a sensatez de Alfred (Michael Caine), a obstinação de Harvey Dent (Aaron Eckhart), a nobreza de Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal) e, claro, a loucura do Coringa (Heath Ledger), o contrapeso, o caos e, apesar de representar o mal, a luz sobre quem realmente é o justiceiro que vigia a cidade de dentro da noite.
No filme de Nolan o Coringa é imenso! Em parte pelo proclamado processo de construção do personagem, pela impressionante entrega de Ledger, mas também porque o roteiro põe em seus atos e falas o destino de um mito e de toda Gothan. Sozinho, ele instaura a desordem na já conturbada vida da cidade, enreda todos numa teia intrincada e, não sem a devida e inteligente resistência, vai ganhando terreno até chegar ao seu real objetivo: Batman. Não para detê-lo, mas para justificá-lo, porque só assim sua existência é viável. No entanto, Heath Ledger não merece o Oscar, pelo menos não até sabermos quem concorreria com ele. Há grandes méritos no trabalho do australiano nascido 29 anos atrás e morto no último 22 de janeiro por overdose acidental de medicamentos. Sua propalada indicação ao prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood é motivada claramente pela comoção em torno do trágico incidente e pela propaganda gratuita (?) para a Warner que, ao negar os efeitos devastadores de interpretar o Palhaço do Crime sobre a morte de Ledger, só reforça a lenda de um personagem maior do que o seu intérprete.
O Coringa nasceu das mãos de Jerry Robinson* em parceria com os criadores do Batman, em 1940. Robinson afirma que originalmente ele era um palhaço metido a gênio do crime e sua caracterização remetia a traquinagem. O Coringa psicopata e maldito foi ganhando corpo e crescendo posteriormente. Ainda assim o cartunista não acredita que interpretá-lo perturbe os atores, como afirmou Jack Nicholson que viveu o algoz do Batman no longa de Burton. Para Robinson, César Romero (1907 – 1994) que interpretou o vilão na série de TV dos anos 1960 é quem fisicamente mais se aproxima da sua criatura, mas faz coro com os amigos de set e o diretor Terry Gilliam – para quem o ator trabalhou
A loucura salta aos olhos
Ao mergulhar nas sombras, Batman nos dá a verdadeira dimensão da palavra herói.
HUDSON ANDRADE
Belém, Pará, 30 de julho de 2008 AD. 12h50
(*) Conforme artigo de Rodrigo Fonseca, publicado
NOTA: Alguns links remetem a informações
BROCARDOS. (2)
Já para Percival Menon Maricato, diretor jurídico da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, ir e vir é um direito constitucional e dirigir um veículo está implicitamente relacionado a esse direito. Logo, o Estado tem obrigação de conceder carteira de motorista já que exige esse documento para a condução de automóveis. Se não fosse assim estaria indo de encontro a sua própria constituição. Maricato conseguiu junto ao Tribunal de Justiça de São Paulo habeas corpus para não ser punido por recusar se submeter ao teste do bafômetro. O documento se baseia no artigo 8º da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, de 1969, da qual o Brasil é signatário e que diz ser direito de cada pessoa não depor contra si mesma.
Muito se discutiu desde que a lei que prevê penas graves àqueles pegos dirigindo após o consumo de bebidas alcoólicas foi instituída. E muito ainda se discutirá. E muitos ainda morrerão no trânsito vitimados não pelo álcool em si, mas pela irresponsabilidade de alguns motoristas com a vida alheia. Se eu defendo a Lei Seca? Claro! Seus benefícios são inegáveis e os prejuízos mínimos. Nenhum bar vai fechar as portas, não haverá desemprego em massa de garçons e condutores, as indústrias de bebidas não vão falir e os taxistas agradecem. O povo já deu o seu jeitinho de garantir sua ração de álcool: aluguel de vans, táxis, ônibus, rodízio de quem bebe e quem dirige, a troca por bebidas não alcoólicas (o que, pasmem, não diminuiu a diversão!!!) e por aí vai.
Mas a alegria ainda está longe de ser total. As estatísticas indicam um número menor de acidentes e vítimas no trânsito porque um dos elementos responsáveis por esses eventos foi atenuado. No entanto, o desrespeito à vida continua. Muitos, amparados pela impossibilidade das autoridades em fiscalizar devidamente o cumprimento das leis, na sensação de impunidade que é contundente neste Brasil de Murietas e Dantas, na despersonalização do outro enquanto indivíduo, concidadão e irmão, na sensação egoísta de superioridade num claro desvio de valores, bebem e dirigem, trafegam em alta velocidade, avançam sinais, pilotam de forma arriscada, exibem-se despropositalmente, tratam veículos menores e pedestres como obstáculos ao seu livre trânsito, ignoram sinalizações, corrompem agentes de trânsito e tratam a via pública numa deturpada idéia de coisa própria. Para esta questão não há lei – ainda que de leis precisem os homens –, mas educação, uma que extrapole o significado de símbolos e cores, uma educação moral e ética, onde liberdade e direitos andem a braços com ordem e deveres.
HUDSON ANDRADE
24 de julho de 2008 AD. 11h31
sábado, julho 12, 2008
EU 15
A festa tinha um quê de tradição. Minha casa, meus vizinhos, nossos parentes e amigos, todos vinham, comida à vontade, bebida no balde, música. Eu olhando aquilo de longe que ainda estava triste. Enchi uma caneca com leite e saí pra rua como estava: chinelo, bermuda, peito nu. Andei na calçada, fui olhar a pracinha, vi os carros chegando, o povo chegando. Um amigo passou por mim, cerveja na mão, e seguiu reto. Não me viu, ou fez que não me viu. Também, eu tava um saco mesmo. Deixa ele! Só que fiquei mais triste. Queria atenção, que ele falasse comigo. Mas ele ria de alguma piada idiota e entornava cerveja. Que se dane! Dei de ombros e entrei
Quando comecei a lavar a caneca ele entrou na cozinha, o copo novamente cheio, o mesmo sorriso aberto. Que tinha me visto – que foi falar com um amigo – que quando olhou eu tinha sumido – que disseram que eu tava ali. Falava tanto e tão rápido, sempre rindo, intercalando com cerveja, que eu não tinha tempo pra responder. Daí ele começou a dizer que entendia como eu me sentia (?!) e que voltava depois pra gente colocar o papo
Permanecemos onde estávamos, sem uma palavra, ou ruído, só nossas respirações e uma vontade de ficar juntos que era a primeira vez que a gente tinha que sempre fomos amigos e nada daquilo tinha sequer passado pelas nossas cabeças. E fomos ficando, uns movimentos leves, uns suspiros e sem mais nada subimos correndo as escadas.
Ele entrou, tirou a camisa, abriu um botão e deitou na cama.
Eu entrei, tranquei a porta e fiquei (penso) longos minutos com a testa na madeira e a mão na chave.
Quando ele me perguntou o que é que a gente fazia agora eu pedi silêncio. Falar pra quê? Melhor não.
Ele acordou bem tarde. Eu nem tinha dormido, mas me deixei ficar ali quieto, deitado, olhando seu sono que era satisfação e álcool e algum cansaço. Continuamos calados ouvindo a música abafada de uma festa sem hora pra acabar. Perguntou se eu queria descer, eu disse que não; se ele podia voltar, respondi que sem problemas... se ele quisesse... que sim, claro!
A gente se fala, ele disse.
Sim. Obrigado!
Belém, Pará
11 de julho de 2008.
19h00 (revisado)
quarta-feira, maio 21, 2008
BROCARDOS. (2)
Outras tentativas já aconteceram. Quando do lançamento do filme Dias Melhores Virão (Brasil, 1989), a aposta era na simultaneidade cinema e televisão. Então, numa segunda-feira, a Tela Quente da Globo exibia o filme de Cacá Diegues, uma forma de incentivar as pessoas a vê-lo na tela grande. Alguém aí conhece alguém que foi ao cinema? Alguém aí pelo menos sabia da existência desse filme?
A chamada Cota de Tela lembra muito as outras Cotas do Brasil. A tentativa é louvável: garantir a exibição da produção cinematográfica nacional, mas como toda ação compulsória, esbarra no desconforto e na arbitrariedade. O que deveria garantir a exibição de filmes, qualquer que seja a sua nacionalidade, é sua qualidade. Ninguém pode negar a existência de filmes de extremo bom gosto e refinado senso estético em nossa produção brazuca, desde os feitos pelos glamourizados Walter Salles e Fernando Meireles, passando por pequenas jóias de outros e talentosos diretores e diretoras. Todos têm impresso a alma brasileira e nossos costumes. Existe como uma assinatura auriverde que nem sempre agrada ao público comum. Quantos comentários já não foram feitos sobre “mais um filme sobre a ditadura”? E, no entanto, (quase) ninguém se furta a ver “mais um filme sobre o Vietnã”. Desnecessário dizer que temos muita, mas muita porcaria, filmes de apelo fácil e de humor duvidoso em nada diferentes das imundícies americanas com tortas, pânicos, bichos, bebês e outras sandices envolvendo minorias e sexo. A diferença é que eles têm dinheiro pra gastar e nós não. Além do mais, se percebem que o filme será um fiasco, mandam direto para as locadoras e não ocupam as concorridas salas de projeção com algo sabidamente inviável. Este um exemplo que pode ser seguido!
A defesa que Rodrigo Santoro fez da filmografia brasileira nesta edição do Festival de Cannes é justa, tanto quanto citar produções menores como A Festa da Menina Morta (2008), estréia na direção do talentosíssimo Matheus Nachtergaele, louvando-lhe a qualidade. Pronto, voltamos a ela!
Os investimentos em áudio-visual no país ainda são modestos (estou sendo educado!) – ainda que muito superiores aos investimentos
(Só pra constar. Ainda não vi o filme de Nachtegaele. Não sei dizer nada dele além do que li e isso não é muita base para avaliações. Apenas confio no seu trabalho.)
Hudson Andrade
Belém, Pará, 21 de maio de 2008 AD
12h25
quinta-feira, maio 08, 2008
BROCARDOS. (1)
Segundo esse mesmo meu irmão, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá devem aguardar o julgamento
Outro caso tipicamente movido pela homofobia e preconceito da nossa liberal sociedade brasileira. Fossem mulheres e não haveria razão pra tanto rebuliço, afinal, todo macho que se preza tem o direito de sair “pá pega umas puta!”
E o que sobra em homofobia falta em visibilidade num caso bem mais próximo de nós: o assassinado de Benedito Rodrigues Neto, simplesmente Neto para nós que vivíamos mais ou menos próximos dele. Professor universitário, ator, diretor de teatro, estudioso das artes cênicas. Nenhum desses predicados é capaz de motivar uma investigação decente. Tudo se resume a mais um caso em que a bichinha abriu a porta pra Morte. Nada que valha um esforço policial, capa de revista, primeira página de jornal. Todos nós abrimos nossas portas a quem conhecemos e confiamos. Nenhum de nós, no entanto, merece ser julgado, condenado e punido pelas orientações que tomamos na vida.
Na minha opinião o casal Nardoni e Jatobá são responsáveis pela morte da Isabela, mas não devem se tornar os bodes expiatórios de uma sociedade desestruturada e deseducada. O grande mote dessa condenação é dar uma satisfação ao povo que clama desesperado por justiça. Tão desesperado que se pudesse, a tomaria nas próprias mãos, como não tão eventualmente assim acontece. Puni-los exemplarmente nos dará chance de respirarmos mais aliviados até a Copa de 2010, quando ninguém mais se lembrará de Isabelas, Pedrinhos, Otas e outros tantos anônimos.
A meu ver, o cardápio do Sr. Ronaldo Nazário e suas variações pouco se me dão. Os travestis vão aproveitar o momento fugaz para dar um close a mais e aumentar seus cachês, mas logo, logo voltarão à pasmaceira. Quando muito haverá uma marchinha sobre isso no próximo carnaval, se é que alguém ainda faz marchinhas de carnaval.
O Neto, Genú, Melo e sabe-se lá mais quantos vão continuar avermelhando as páginas dos jornais e as faces dos cidadãos de bem de nossa provinciana cidade. Núbia Goiano e dezenas de outros cidadãos vão se tornar estatística e seus números vão se confundir aos outros, velhos e futuros.
Nós – não tantos – vamos nos indignar (não tanto).
O Sr. Raifran Neves, de coração tão grande e bom, poderia também assumir essas responsabilidades. Se permitiu que um homem honesto voltasse ao seio da sua família, pode perfeitamente permitir que um casal tão emocionalmente abalado retome sua vida e cuidados com os filhos pequenos, dessa vez numa casa térrea e confortável. Se gritar que odeia esse bando de viados, permitirá que suspiremos aliviados por não sermos os únicos, dando calma ao nosso coração. Cada um de nós saberá recompensá-lo no que for de direito!
Bons tempos o da Inquisição, em que bastava atear fogo a uma tora de madeira pra que as portas do Paraíso se abrissem aos bons e aos justos.
HUDSON ANDRADE
07 de maio de 2008 AD
9h10
terça-feira, abril 22, 2008
ELIZABETH: A ERA DE OURO
Parece um retalho muito pequeno, mas a direção consegue fazê-lo render nas conspirações internas entre os dois reinos, jogos de espionagem e dissimulação, atos de traição, covardia e bravura. Na visão de Khapur a decapitação de Mary Stuart (Samantha Morton), rainha dos escoceses e pretendente ao trono inglês, aprisionada por Elizabeth no castelo de Fotheringhay e estopim para a guerra santa de Felipe II, é responsabilidade indireta e dolorosa da rainha inglesa, enredada na conspiração espanhola que não mede esforços, dinheiro e amoralidade para alcançar seu intento. A cobertura do bolo, atrativo para o público habitual das vesperais é o amor proibido entre Elizabeth e o aventureiro Sir Walter Raleigh (Clive Owen). O filme todo é pródigo em referências às responsabilidades, limites e castrações que o poder traz, seja dos súditos, “mortais, mas com a possibilidade de amar”, nas palavras de Raleigh, sobretudo na realeza, no choro sufocado da rainha entre suntuosos vestidos, palácios e pretendentes tão prisioneiros quanto ela. Mesmo a morte de Stuart é imposta pela sua condição de regente. Ante a relutância de Elizabeth, seu conselheiro Sir Francis Walsingham (o excelente Geoffrey Rush) lembra que a misericórdia real custará a paz de todo o povo.
Com uma cenografia e direção de arte econômicas, mas belas, iluminação eficiente, que dá um ar dramático às cenas, locações suntuosas, figurino arrebatador vencedor do Oscar 2008, e uma trilha sonora coerente que age nos momentos certos criando devidamente os climas das cenas – vide a narrativa das viagens de Raleigh à monarca e suas aias, Elizabeth: A Era de Ouro é um filme que vale a pena assistir sem ser inesquecível. Não é histórico o bastante, nem totalmente romântico, ou cheio de batalhas. Tem o bom e velho discurso da rainha ante seus minguados soldados prestes a oferecer o pescoço ao evidentemente maior poderio inimigo e fatos quase miraculosos que favorecem os poucos e bons ingleses contra os numerosos e malvados espanhóis e seus aliados. Aliás, mais de uma vez a luz incide sobre Blanchett dando à rainha ares de criatura divina que do alto dos rochedos comanda os ventos e tempestades, iniciando uma nova e próspera era que se eu quiser conhecer melhor, terei de buscar nos livros de história.
HUDSON ANDRADE
Belém, Pará, 22 de abril de 2008 AD
10h05
segunda-feira, abril 14, 2008
FRIO POR DENTRO E POR FORA
Nos últimos dias 06 e 13 de abril estive no Teatro Margarida Schiwazzappa, no CENTUR. No primeiro dia assisti Homem de Barro, da Companhia de Intérpretes Independentes (AM), dirigida pelo paraense Ricardo Risuenho, radicado em Manaus. Ontem foi a vez de Amor e Loucura, do grupo baiano A Roda, que utiliza a linguagem de formas animadas.
Homem de Barro surge de um trabalho interdisciplinar de profissionais das áreas de humanas e biológicas. Enquanto estudo está perfeitamente embasado na teoria e experimentação que Risuenho propôs. Como espetáculo, é frio e distanciado como uma aula expositiva; tão burocrático e formal quanto o capítulo sobre doenças da pele lido em cena pelo coreógrafo e diretor. Em cerca de 40 minutos de coreografias simples e recursos áudio-visuais, o espetáculo se arrasta confuso e ao final sem que a campa toque, o público (pelo menos os não iniciados) sai sem ter compreendido bem a matéria.
Amor e Loucura utiliza elementos mitológicos para falar de dois sentimentos humanos que parecem andar lado a lado. Na seqüência final o Amor – Cupido cego – montado na Loucura, dispara continuamente suas setas a esmo. Apesar de bela a significativa, a imagem não me emocionou. Na verdade o espetáculo não emociona. Amor e Loucura é a prova de que teatro só funciona pelo encadeamento total dos elementos que o constituem. O texto, suntuoso, mas um tanto obscuro, entra em off numa voz feminina e monocórdia que em poucos dos quase 90 minutos de espetáculo provoca uma sonolência quase tão irresistível quanto as flechas envenenada do Amor. A luz não delineia bem as cenas que em alguns momentos ficam na penumbra, mal definidas se fazem parte do espetáculo, ou se são transições de uma cena para outra. Os belíssimos bonecos e elementos em madeira e ferro, detalhados, articulados, criam imagens que se seguem a imagens sem, no entanto, deixarem de ser apenas isso: imagens. Essa falta de conexão cria aquelas situações constrangedoras de se dizer, “o espetáculo?... bonito o cenário, não?!”
Saí para a rua numa Belém vazia e chuvosa sem que tivesse conseguido aquecer meus sentidos e coração.
O que será que me aguarda daqui sete dias?
Ah! Vou procurar ser mais presente.
Belém, Pará, 14 de abril de 2008.
11h30
terça-feira, dezembro 18, 2007
EU 14
Ninguém pode ter certeza do que essa frase significa até ter o objeto do seu desejo bem ao lado: o calor da pele, a proximidade do toque, o hálito. A possibilidade! Ninguém pode saber o que essa frase significa até ter ao lado o objeto do seu desejo separado por uma muralha invisível e silenciosa – moral e tola para alguns, falsa e sem sentido para outros. Dolorosamente real e necessária para mim e pros passos que eu decidi dar aos meus pés.
Meus olhos vão acostumando à penumbra do quarto. A parede em frente, a estante e os livros vão ganhando contornos definidos em escalas de preto e cinza. Afinal, à noite, todos os gatos são realmente pardos. Deito sobre meu flanco esquerdo. Às minhas costas eles dois, abraçados, dividem o mesmo lençol.
A cada movimento, sussurro, respiração entrecortada, meus sentidos se apuram e eu fecho os olhos e o coração num arremedo de sono.
Ouço vozes roucas e baixas. Pequenas risadas – camundongos riscando o assoalho – e minha respiração fica suspensa.
Muitos meses atrás eu o reencontrei e me apaixonei. Depois soube do outro. E soube também que apenas por um desleixo não sou eu que hoje completa dois anos de namoro. Os três estavam no mesmo lugar. Os três queriam uns aos outros. Mas eu não soube ler os sinais.
Quase um ano depois desse encontro, eis os três novamente reunidos e hoje, depois de comemorar suas bodas de papel, eu lhes disse que não queria dormir sozinho. Não lhes disse diretamente (penso que não poderia fazê-lo!). Só eles aceitaram meu convite e agora estão aqui enchendo minha cabeça e pêlos de arrepios.
Ouço vozes roucas e baixas, pequenas risadas, e minha inspiração fica suspensa enquanto o peito liso, de mamilos salientes, toca minhas costas, ofega levemente no meu pescoço e sem palavras, que elas são completamente desnecessárias, me vira na sua direção.
E são muitas mãos e dedos e lábios. Calor da tua coxa na minha. Calor da minha coxa na tua, diria Caio F. Isso e algo mais, tudo multiplicado.
Abro os olhos. A estante começa a se desenha novamente com seus livros de fuligem. Então não foi real?! Deixo escapar um suspiro de alívio.
Então um leve movimento enquanto os dois se acomodam. Eles estão aqui, meu Deus! Eles estão realmente aqui!!!
O sol vai me encontrar insone, a testa empapada de suor, o corpo rijo. O silêncio. A solidão!!!
17.dez.2007.
16h52
quinta-feira, dezembro 13, 2007
EU 13
Numa feita meu irmão sumiu. Mais velho, eu era o responsável. Saí atrás dele desesperado, um misto de querê-lo de volta e o medo da repreensão da minha mãe. Procurei por várias horas e já tinha passado do almoço quando eu andando em prantos pelas ruas, gritava por ele. Nada de mais. Numa época em que se colocavam cadeiras à porta das casas, meu irmão saíra passeando e sem limites ou temores, ora simplesmente se afastado, descobrindo ruas e praças novas, depois voltando pelo mesmo caminho com a naturalidade e calma que devem ter os passeios.Hoje meu filho não passeia. As ruas que ele conhece são as que vê aqui do alto, ou as que são percorridas de casa pra escola pra natação pro inglês pra casa. Nossas vidas se transformaram numa espécie de mapa do tesouro: tantos passos pra direita, uns metros ao lado do grande prédio cinzento, mais passos pra esquerda. No final, nosso baú, nunca suficientemente enterrados contra os piratas contemporâneos sem código de honra, sem ética, amorais.
A bem da verdade, quando eu também tinha sete anos, na minha casa de periferia, com praças cheias de castanheiras e bancos de madeira, o eu reinava era uma tranqüilidade de fachada. Eu olhava por uma janela térrea e sem grades, mas também tinha os passos limitados. Lembro que 39 anos atrás eu passaria o natal sem o meu pai. Professor universitário, ao sair em defesa de seus alunos contra o então presidente Costa e Silva, teve seu cargo posto em disponibilidade e a partir de então um carro preto com dois homens que fumavam continuamente enquanto as horas passavam permaneceria estacionado do outro lado da minha calçada; imóvel, impassível, enquanto um flamboyant lhe tingia de vermelho o capô e o teto.
Meu pai viajou num final de tarde depois que aqueles homens falaram com a minha mãe. Apesar da mala dele permanecer sobre o guarda-roupa, a história da viagem se espalhou pela vizinhança e alguns meninos já não jogavam mais bola comigo. Meu pai só voltou em janeiro. Tão cansado, tão abatido, que por três dias trancou-se no quarto onde apenas minha mãe entrava com caldos, sucos e frutas. Foi dessa época que veio o hábito de olhar pela janela: primeiro para esperar meu pai, depois para constatar, horrorizado, que aquele carro preto ainda passava muito lentamente em frente de casa.
Quando meu pai saiu do quarto deu a mim e ao meu irmão presentes atrasados de natal e nos abraçou tão forte que quase sufocamos. A partir de então, nossos brinquedos seriam sempre no quintal.
Meu filho nem um quintal tem! Eu o chamei e abracei tão forte que ele pediu que eu o soltasse. Pedi desculpas e como se faz nesses filmes do cinema, ou nos contos, pedi que minha mulher ligasse pro meu escritório e desse qualquer desculpa que quisesse. Pegamos o carro e fomos pro Mosqueiro, vazio e nublado nessa época do ano. Corremos na areia, empinamos pipa, tomamos sorvete e comemos tapioquinha.
Voltando tardezinha pra nossa gaiola dourada, olhei pelo retrovisor meu filho que dormia no banco traseiro, no colo de sua mãe exausta, e como nesses finais piegas de novela, não segurei umas lágrimas.
Pensei no meu pai.
Ennio Morricone caberia muito bem ao fundo.
13 de dezembro de 2007.
16h56
EU 13
Numa feita meu irmão sumiu. Mais velho, eu era o responsável. Saí atrás dele desesperado, um misto de querê-lo de volta e o medo da repreensão da minha mãe. Procurei por várias horas e já tinha passado do almoço quando eu andando em prantos pelas ruas, gritava por ele. Nada de mais. Numa época em que se colocavam cadeiras à porta das casas, meu irmão saíra passeando e sem limites ou temores, ora simplesmente se afastado, descobrindo ruas e praças novas, depois voltando pelo mesmo caminho com a naturalidade e calma que devem ter os passeios.
Hoje meu filho não passeia. As ruas que ele conhece são as que vê aqui do alto, ou as que são percorridas de casa pra escola pra natação pro inglês pra casa. Nossas vidas se transformaram numa espécie de mapa do tesouro: tantos passos pra direita, uns metros ao lado do grande prédio cinzento, mais passos pra esquerda. No final, nosso baú, nunca suficientemente enterrados contra os piratas contemporâneos sem código de honra, sem ética, amorais.
A bem da verdade, quando eu também tinha sete anos, na minha casa de periferia, com praças cheias de castanheiras e bancos de madeira, o eu reinava era uma tranqüilidade de fachada. Eu olhava por uma janela térrea e sem grades, mas também tinha os passos limitados. Lembro que 39 anos atrás eu passaria o natal sem o meu pai. Professor universitário, ao sair em defesa de seus alunos contra o então presidente Costa e Silva, teve seu cargo posto em disponibilidade e a partir de então um carro preto com dois homens que fumavam continuamente enquanto as horas passavam permaneceria estacionado do outro lado da minha calçada; imóvel, impassível, enquanto um flamboyant lhe tingia de vermelho o capô e o teto.
Meu pai viajou num final de tarde depois que aqueles homens falaram com a minha mãe. Apesar da mala dele permanecer sobre o guarda-roupa, a história da viagem se espalhou pela vizinhança e alguns meninos já não jogavam mais bola comigo. Meu pai só voltou em janeiro. Tão cansado, tão abatido, que por três dias trancou-se no quarto onde apenas minha mãe entrava com caldos, sucos e frutas. Foi dessa época que veio o hábito de olhar pela janela: primeiro para esperar meu pai, depois para constatar, horrorizado, que aquele carro preto ainda passava muito lentamente em frente de casa.
Quando meu pai saiu do quarto deu a mim e ao meu irmão presentes atrasados de natal e nos abraçou tão forte que quase sufocamos. A partir de então, nossos brinquedos seriam sempre no quintal.
Meu filho nem um quintal tem! Eu o chamei e abracei tão forte que ele pediu que eu o soltasse. Pedi desculpas e como se faz nesses filmes do cinema, ou nos contos, pedi que minha mulher ligasse pro meu escritório e desse qualquer desculpa que quisesse. Pegamos o carro e fomos pro Mosqueiro, vazio e nublado nessa época do ano. Corremos na areia, empinamos pipa, tomamos sorvete e comemos tapioquinha.
Voltando tardezinha pra nossa gaiola dourada, olheipelo retrovisor meu filho que dormia no banco traseiro, no colo de sua mãe exausta, e como nesses finais piegas de novela, não segurei umas lágrimas.
Pensei no meu pai.
Ennio Morricone caberia muito bem ao fundo.
13 de dezembro de 2007.
16h56
domingo, novembro 18, 2007
DANÇARÁS, DANÇARÁS ETERNAMENTE
O FEDAP que tem como objetivo reunir os diversos grupos pertencentes às instituições de ensino formal do estado, oportunizando o espaço para a divulgação das produções coreográficas das escolas paraenses públicas e privadas e propiciando o intercâmbio de informações artísticas entre essas instituições. Não há premiações em dinheiro, mas três grupos recebem destaque pela sua produção e todos são premiados com troféus.
Nos três dias de festival se viu de tudo: singelas coreografias com crianças que mal davam dois passos sem trocar as pernas, enchendo sua mães de orgulho, até trabalhos mais elaborados. A modéstia, certíssimo, passou longe e mesmo os figurinos mais simples tinham cor e brilho; outros, abusando da criatividade, criavam estranhas figuras em cena, ou dificultavam a dança; uns poucos absolutamente equivocados, certamente pela falta de um suporte técnico maior.
Os números apresentados abriram mão e cenários, apontamentos, adereços e mesmo um desenho próprio de luz, buscando, quem sabe, concentrar-se na coreografia.
As coreografias são o capítulo principal desta história. Fui chamado a avaliar os grupos dentro de uma visão mais teatral e nem poderia se diferente porque eu no tenho formação, ou estudo em dança, mas estava ladeado por dois dos melhores da área no Pará, Marilene Melo e Ronald Bergman, que comentavam entre si e não se furtavam a responder meus questionamentos, esclarecer dúvidas, ou generosamente tecer comentários que muito ajudaram na minha avaliação. De qualquer forma o menor conhecimento teórico não diminuiu meu senso crítico, muito menos minha emoção. Aqui reside minha pedra de toque!
Reunidos no mesmo palco e sob os mesmos olhares dançarinos de escolas públicas, de onde destaco a EEEM Luís Nunes Direito, cujos dançarinos ratearam entre seus professores a taxa de inscrição no evento – palmas a esses educadores que entenderam o valor da arte e a importância de se fazer presente num evento como esse, seja para os alunos, seja para a instituição que os acolhe –, o Centro Performático de DANÇA Fragmento, da escola Aluísio da Costa Chaves, de Concórdia do Pará, que enfrentou quatro horas de viagem de balsa e ônibus, alunos de projetos sociais, até os nomes mais tradicionais da educação belemense. Aos primeiros o meu aplauso e o merecido reconhecimento, dado em conjunto pelos três jurados. As distâncias e dificuldades lhes deram a garra para estar em cena. Nenhum grupo participante demonstrou mais energia, precisão e harmonia do que eles. Era possível ver a técnica despontando, o talento nato que horas de estudo e treino tornarão virtuosismo. E se as coreografias careciam de técnica apurada , ou maior aprofundamento teórico, a afinação do grupo, agilidade, precisão e força cativaram o público, que os aplaudiu veementemente. Uma boa parte dos grupos de Belém,sobretudo s de escolas particulares (mas não por exatamente por isso!) optaram pelo lugar-comum, pela porta larga, apresentando coreografias opacas, repetitivas, sem técnica, ou estudo, na palavra dos meus parceiros; algumas parecendo ter sido feitas em série, alterando apenas o figurino e a música, ou nem isso, usando canções diferentes com o mesmo arranjo eletrônico. Essa apatia ficou visível quando do bate papo com o bailarino Ed Louzardo, convidado do festival, que falou para uma pequena platéia que foi conferir mais do que uma história de vida, mas uma história de aprendizado, assim como na ausência de oficinas que, segundo os organizadores, não acontecem pela falta de interesse dos inscritos. O que justificaria isso?
Bom é ver que em sua grande maioria, as escolas têm investido em grupos de arte entre seus alunos, seja na dança, teatro ou outra forma de expressão. É inegável o valor dessa atitude na formação cultural, social, intelectual e mesmo moral desses jovens cidadãos, criando a consciência de que o fazer artístico não é algo para iniciados, tampouco marginal; é absolutamente importante que se veja e faça, que se saiba não serem apenas os gênios isolados que nascem aqui e ali os dotados de um pretenso dom artístico. O conhecimento, a pesquisa séria, o estudo aprofundado e muito, muito, muito treino podem tornar qualquer um Artista, assim mesmo, com A maiúsculo. Que o diga Ed Louzardo, que iniciou seus estudos nos projetos sociais da comunidade Riacho Doce e hoje brilha em São Paulo, aplaudido entusiastica e merecidamente em sua terra natal. Louzardo e outros convidados: Cia. Ribalta de Dança, Grupo Coreográfico da UFPA, Cia. Compassos da Dança, SESC Cia. de Dança, o projeto Aluno Bailarino Cidadão, Grupo de Dança Moderno em Cena, Cia. Moderno de Dança (ver RITUAL DE PASSAGEM), entre outros, são capítulos à parte, um trabalho brilhante, perfeito pelo menos aos meus olhos (invejoso lá o meu canto!).
Calcem todos seus sapatinhos vermelhos e dancem. Aqueles que não abraçaram a dança, ou não foram por ela abraçados, simplesmente sucumbirão exaustos. Aos outros, Dançarinos, Bailarinos, pequenos, grandes, de ambos os sexos, de todas as cores, os passos enfeitiçados e nossos reiterados aplausos.
sábado, novembro 17, 2007
EU 12
Eu desci a alameda da Praça da República que leva ao anfiteatro e sentei num banco sob uma mangueira. Uns poucos centímetros me separavam de uma mancha de luz que avançava conforme o sol se movimentava no céu. Não deve me alcançar, pensei. Vou ficar por aqui mesmo. Abri os botões da camisa até o final do peito, apoiei os cotovelos nos joelhos e dobrei o corpo pra frente, fechando os olhos, tentando abstrair aquela sensação quente e levemente úmida do ar, que fazia pequenas gotas brotarem entre os pêlos do meu braço. Em volta o ruído do trânsito e as vozes de algumas pessoas e periquitos.
Ele sentou a me lado tão em silêncio que quando o percebi já deveria estar ali há vários minutos. Olhei-o por baixo, pelo canto dos olhos. Parecia funcionário de algum banco. Calças sociais, sapatos combinando com o cinto, a camisa de mangas longas enroladas até acima dos cotovelos, um cabelo estiloso, pulseira de metal no pulso esquerdo, gravata. Ele sentou-se na beira do banco e espreguiçou-se longamente, gemendo baixinho. Depois tirou os sapatos e apoiando os pés sobre eles sacudiu-lhes os dedos, protegidos por meias pretas, ou marrons, não sei ao certo agora. Apoiou a nunca com as duas mãos e bocejou alto. Estava tão à vontade que quase se assustou comigo ao seu lado, olhando-o com um leve sorriso nos lábios. Ele também sorriu e comentou algo sobre o calor e o expediente da tarde, que eu respondi meio atravessado, que não gosto muito que estranhos falem comigo. Como que adivinhando meus pensamentos, ele estendeu a mão e se apresentou, ao que eu respondi com o mesmo gesto, algo afetuoso.
Engraçado que depois disso nos calamos, olhando pra frente, ele com a nuca ainda entre as mãos, esticado no banco, os dedinhos dos pés sacudindo. Eu empertigado, as mãos juntas entre as pernas. Não corria um vento, ninguém passava por ali, nenhuma pessoa gritava vendendo nada e mesmo os carros não cruzaram aquela rua em frente de onde estávamos. Era um silêncio tão grande, tão presente, que parecia uma terceira pessoa sentada entre nós.
- Tens namorada? – ele perguntou, súbito
- O quê?” – perguntei sem me virar.
Ele também, parado:
- Namorada. Tens?
Permaneci na mesma posição e respondi:
- Não!
- E namorado?
Olhei aquele rapaz com surpresa. Isso é pergunta que se faça? Ele também me olhou, as mãos no mesmo lugar, com uma cara de o–que-é-que-foi-que-eu-disse-de-errado? Sorri:
- Não, também não tenho namorado!
De repente aquele silêncio de novo. Desta vez mais forte, angustiante até. Na minha cabeça uma separação recente e mal resolvida. Uma sensação desagradável de abandono, de não ter sido bom o bastante, de ter sido bom demais, de não ter dado a devida atenção, de ter grudado muito. Dúvidas demais, ausências demais pra sustentar um relacionamento.
Virei levemente o rosto. O rapaz ao meu lado também. O que estaria se passando naquela cabeça aureolada de castanho?
Nós ficamos nos olhando, tentando entrar na mente um do outro, entender o que se passava, adivinhar o que o outro queria. O que cada um de nós queria. Então todo o burburinho da cidade encheu a nossa volta e nunca nos sentimos tão invadidos quanto naquele momento. Foi um tal de ajeita daqui, senta direito dali, fecha os botões da camisa (então era ali que ele estivera olhando um tempo! Será que pro meu peito, ou pra medalhinha dourada de São Francisco de Assis?). Confesso que também tinha olhado muito pra ele. Quanto tempo gastamos naquele jogo? Por que tudo parecia tão difuso? E tão promissor?
Agora, sentados socialmente um ao lado do outro, parecia que não havia muito mais a fazer, ou dizer. Então ele levou o joelho devagar contra a minha perna e eu levei o meu joelho devagar contra a perna dele e pressionamos um ao outro, olhando sempre em frente.
- Tenho que ir! Ele disse, pondo-se rapidamente de pé.
Girou o corpo e saiu caminhando. Pensei apenas um segundo e também fiquei de pé.
Dei de cara com um senhor barrigudo, pasta executiva na mão, acendendo um cigarro e nos olhando. Encarei o homem. Dei um suspiro. Olhei o rapaz que já ia longe e me enchi novamente de dúvidas...
AGORA A DECISÃO É SUA, LEITOR. O QUE EU DEVE FAZER?
FINAL 1
Sabe quando pinta aquela dúvida? Será isso, será aquilo? Aquele homem a minha frente, cigarro em punho, era a imagem de tudo o que eu deveria fazer da minha vida. Acomodar-me no que é certo, justo e bom. Não investir em algo tão improvável. O que é que aquele rapaz poderia querer com um cara com eu? Ele queria mesmo alguma coisa comigo, ou meu vazio estava me fazendo imaginar coisas?
Segundo suspiro. Vi o rapaz parado na esquina da Oswaldo Cruz, me olhando de lá no exato momento em que o sinal abriu. Ele seguiu no meio de todo mundo e sumiu na esquina do INSS.
Passei a destra no cabelo e caminhei na direção da Assis de Vasconcelos.
Estava quase certo que tinha feito a melhor escolha. Quase!
FINAL 2
Sabe quando pinta aquela dúvida? Será isso, será aquilo? Aquele homem a minha frente, cigarro em punho, era a imagem de tudo o que eu deveria fazer da minha vida. Acomodar-me no que é certo, justo e bom. Não investir em algo tão improvável. O que é que aquele rapaz poderia querer com um cara com eu? Ele queria mesmo alguma coisa comigo, ou meu vazio estava me fazendo imaginar coisas?
Só tinha um jeito de saber. Passei correndo pelo velhote que amassou com violência o cigarro ainda inteiro no chão e resmungou alguma coisa.
Alcancei o rapaz na esquina da Oswaldo Cruz justamente no momento em que o sinal abriu e uma multidão avançou rua abaixo. Menos nós dois. Nenhum de nós arredou pé. O sinal fechou, abriu de novo e nós ali. Rimos.
Mãos nos bolsos, caminhamos pelo calçadão na direção do Teatro da Paz. Olhei pra cima.
- Vai chover!
- Seria bom, não seria?
Sorri:
- Seria, sim. Muito bom!
ESCOLHA O FINAL E RESPONDA NA ENQUETE NESSE MESMO BLOG. ESTOU ESPERADO TUA RESPOSTA.
OBRIGADO E BEIJOS!
terça-feira, novembro 13, 2007
RITUAL DE PASSAGEM
Assisti Homo Mutabilis (é, decididamente eu não gosto desse nome!) coreografia de Ana Flávia Mendes vencedora do Prêmio Secult no VIII Encontro Internacional de Dança do Pará – EIDAP (*) no último dia do VI FEDAD (Leia DANÇARÁS, DANÇARÁS ETERNAMENTE), domingo, 11 de novembro. A saga do homem sobre a Terra, do primitivismo animal ao sapiens sapiens (e além?) é contada nos gestos precisos dos intérpretes-criadores da Companhia Moderno de Dança. Assumindo todo o palco e todos os planos e ângulos disponíveis, vemos esse bicho estranho avançar e crescer. Signos como agrupamentos, a roda ancestral, reforçam a idéia de sociabilidade, que se nos animais mais inferiores é o elemento básico de proteção e conquista de alimento e moradia, nos humanos alcança o ponto máximo, permitindo que nos tornemos senhores deste mundo e mesmo subvertamos essa lógica, deturpando-a na pressão de uns povos sobre outros, na contramão da própria razão evolucionista.
Em Homo Mutabilis a luz ora apaixonada, ora branca espalha e agrupa os seres; o uso de tipitis evoca a natureza, nossa regionalidade. Presentes no palco desde o início da cena e incorporados aos bailarinos, é ressignificado enquanto corpo, elemento de mudança. Os gestos são vigorosos, a música batuca na carne, porque toda mudança exige energia. Energia que extrapola os corpos que rodopiam e saltam no palco e invadem os nossos que, tensos, esperam que eles e nós mesmos, num estalo, sejamos outros. Sejamos novos.
Ana Flávia e seus co-criadores conseguem dar mais um passo na afirmação de sua identidade e excelência, sobrevivendo ainda uma vez nesse turbilhão de tantas experimentações infrutíferas.
Para eles, a eternidade. Inconclusa. Porque para não serem extintos, a Arte lhes exigirá uma nova mutação.
(*) O prêmio Secult contempla companhias com trabalhos autorais e experimentais em dança. O EIDAP é uma promoção do Centro de Danças Ana Unger e aconteceu de 13 a 16 de setembro passado.
terça-feira, outubro 30, 2007
POLÍCIA E BANDIDO
Mas ontem decidi quebrar meu jejum e prestigiar a prata da casa. Saí embaixo de um toró paraense pra assistir Tropa de Elite. Tem gente falando bem – a maioria – e outros falando mal. Sempre! Decidi tirar minhas próprias conclusões e fui ao cinema, como acho que deve ser, apesar de dois terços dos meus amigos já terem visto o filme por “3 real”.
Com direção e roteiro de José Padilha (Ônibus 174) e com o excelente Wagner Moura (capitão Nascimento) encabeçando o elenco que tem ainda André Ramiro (André Matias), Caio Junqueira (Neto), Maria Ribeiro (Rosane), Fernanda Machado (Maria) e Milhen Cortaz (capitão Fábio), o filme conta a trajetória de Nascimento, capitão do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) do Rio de Janeiro, os Caveiras, na busca de um homem à altura de substituí-lo no comando de sua tropa. Dividido entre a esposa às vésperas de ter seu primeiro filho, uma missão que ele considera insana e um senso de dever e justiça muito próprios, Nascimento vai se aproximando perigosamente de um limite que na sua função, seria fatal.
Enquanto produto cinematográfico, Tropa de Elite é um ótimo filme, apesar dos sempre presentes problemas de som e aqueles buracos comuns nos roteiros: pra onde foi a família de Nascimento? Ou isso não importa? Pra linha mestra do filme, não. Para quem se identificou com o capitão, talvez. E o maconheirozinho que provoca, por vingança, a morte do aspirante Neto? Depois da surra em uma dessas passeatas pela paz – ação onde André Matias reforça todo o imaginário sobre violência e arbitrariedade da polícia que ele próprio negara anteriormente -, o personagem some pra nunca mais. Pequenas coisas talvez, mas que não passam despercebidas.
Voltando: é muito bom ver o cinema nacional maduro, falando de coisas que lhe são próprias, sem tentar encampar ideais estéticos e falas alheias. Os americanos têm o Vietnam, nós, a ditadura militar. Os gringos têm seus serial killers, nós, os traficantes, a miséria, uma desesperança mulata, carnavalesca, girando na sujeira das periferias e aridez dos sertões como uma velha baiana na quarta-feira de cinzas. Tropa de Elite é um filme enxuto, interpretações de boas a excelentes, uma trilha sonora condizente e que jamais estará na minha estante, uma câmera nervosa que compartilha da nossa angústia morro acima, uma luz nublada, diversa dos cartões postais que aqui não têm espaço. Tropa de Elite é um filme maniqueísta. E ele se diz assim na fala do próprio Nascimento: polícia no Rio de Janeiro ou é corrupta, ou é honesta, ou mete a cara. Bandido é bandido e bem melhor se estiver morto! Infelizmente não dá pra não ser maniqueísta. O roteiro constrói personagens a quem não se dá o direito de escolha, com nuances de personalidade muito pálidas, como os deuses do Olimpo, invejosos dos homens mortais que podem ser o que quiserem. Nascimento é um desses deuses, criado para ser eficiente, honesto, inflexível, objetivo, mas que deseja um domingo de sol com a esposa e filho na beira da praia de um Rio de Janeiro que continua lindo. Que continua sendo...Padilha, no entanto, nos brinda com uma pequena jóia. Assistir Tropa de Elite é um exercício de entregar-se, ou de recuar. Queira o não queria, o estômago vai estar sempre embrulhado e é bom que seja assim. Os risos nervosos da platéia, o silêncio, o mexer-se na cadeira dizem que aquilo nos diz respeito. Parabéns, Padilha. Missão dada. Missão cumprida!
sexta-feira, outubro 05, 2007
EU 11
Olhando o céu quase escuro, em parte pela chuva, em parte pela hora, pensei se demorarias, me recusando a olhar o relógio.
E assim foi por 20 minutos.
Bem em frente, num coreto, um casal se abraçava, ele protegendo a namorada – penso que era sua namorada – do vento frio que corria. Ela, aconchegada, colocava as mãos por sob a camisa dele, às costas, aquecendo as palmas. Nenhum dos dois dizia nada. A moça permanecia mesmo de olhos fechados, entregue, um leve sorriso no rosto, enquanto o jovem, atento, olhava sério o entorno.
Fazia muito tempo desde a última vez que estivemos abraçados daquele jeito quase displicente. Nos poucos momentos em que estivemos juntos, os abraços foram sociais, apertos de mão burocráticos, cumprimentos formais, olhares e sorrisos camuflados. Procurei não pensar que não sentias falta do meu calor.
E assim foi por 30 minutos.
Um rapaz moreno sentou na outra ponta do banco. Parecia um pouco ansioso. Perguntou as horas. Menti que não sabia dizê-las! Num instante um grupo ruidoso de rapazes apareceu e meu vizinho se foi, deixando um rastro desagradável de fumaça de cigarro. Uma senhora, cabelos brancos, também sentou no meu banco. Chegou lenta, permaneceu com a calma de quem não espera muito mais da vida e foi embora devagar, apoiando o corpo em uma perna de cada vez. E um rapaz com um violão, mas ele não tocou; e um senhor que discutia negócios ao celular e uma mocinha que procurava emprego nos classificados do jornal, marcando círculos com hidrocor vermelha.
Nenhuma daquelas pessoas me dirigiu mais do que um olhar, ou uma pergunta simples. Ficamos sentados em lados opostos de um mesmo banco de praça, indiferentes um aos outros. Me esforcei pra não pensar em nós, que há muito permanecíamos (indiferentes) em lados opostos de uma conexão virtual.
E assim foi por uma hora!
Quando por fim levantei não havia mais quase ninguém na praça e as luzes dos postes já tinham se acendido há tempos. Não vieste. Nunca vinhas! Esperei porque... Por que?
Iria pra casa, trocaria os lençóis, colocaria no cesto de roupa suja as peças que usaste pra dormir muito tempo atrás, trocaria o retrato no criado mudo, alteraria meu perfil no Orkut e te escreveria um e-mail de despedida... Deu saudade dos bilhetes com letra caprichada no papel, com algum perfume de quem os escreveu e que dava vontade de guardar entre as folhas de algum livro. Deu saudade de tanta coisa. Até mesmo de ti. Mas rápido deletei aquele pensamento, julgando por orgulho que eu não tinha lugar nos teus.
E foi assim pra sempre!!
10.09.2007. 3h05 – 9h26.
domingo, julho 22, 2007
EU 10
Ela diz que um dia a gente há de ser feliz
Se Deus quiser .”
(Janaína. Biquíni Cavadão)
A Dalva nem tinha apagado no céu quando eu enxuguei o suor da testa com o dorso da mão. Tanque cheio, suspiro fundo, alguma olheira. Mas ainda havia o frescor da madrugada.
Enquanto o sol e-va-po-ra-va – meu caçula tinha dito isso! – a água das roupas, limpei a casa, arrumei as camas, lavei a louça do café, varri o pátio. Na panela, feijão e um restinho de toucinho, cebola, alho e sal. Pra acompanhar, arroz e salsicha. O sol parecia tão mais brilhante aquele dia!
A molecada comia apressada pro filho mais velho lavar a louça antes de ir pro quartel. Hoje era dia de educação física pros menores e eu passei as camisetinhas brancas e os shorts azuis marinhos. Quando havia dobrado a última peça e dado uns pontos na toalha grande e felpuda que protegia a trouxa, a casa estava quieta e o sol rachava o asfalto. Lá longe alguém ouvia uma música que eu gosto muito e o Pirata – o vira-latas do do meio! – latia pro nada, sacudindo o corpo todo.
O ônibus tava lotado, mas o segundo, se Deus quiser, tá mais vazio e algum cristão há de pelo menos pedir pra levar a trouxa. Faz um tempão que eu não escuto um “senta aqui, senhora!” e cada vez esses carros demoram mais a passar. Acho que alguém deu uma boa lavada neles ontem, ou hoje. E o cobrador até me disse bom dia.
A dona gosta da minha lavagem, mas sempre abre a trouxa e olha tudo e confere numa listinha antes de me pagar e sempre pede pra ser menos. “Não dá. O preço do sabão tá pela hora da morte!”. Ela sempre paga e já marca outro serviço. São mais dois ônibus e o ponto é longe, inda mais nesse calor. Sento lá no fundo e vou sorrindo da boniteza que tá ficando essa cidade.
Desço do ônibus e sento numa proteção toda de metal, ferrugem, cartazes molhados-rasgados-desbotados. Na outra ponta do banco de madeira uma mocinha fala ao celular e diz que sente saudades também e que não vê a hora de estar junto e que estar junto é a única coisa que eles têm certeza, mas aí a voz já está mais alta e mais nervosa e mais aguda e ela pergunta por que e quando e de que jeito? Desliga o telefone meio nervosa, enfia na bolsinha verde e azul e me olha meio sem graça. Eu olho de volta, complacente, que eu tenho uma dessas em casa e sei como eles são, ah, se sei!
A mocinha desvia o olhar, encabulada e morta de vergonha enxuga uma lágrima gitinha que vem caindo.
Ela me olha de novo quando eu sento ao lado dela e a abraço sem perguntar se posso, se devo, ou se ela quer. Surpresa! Mas logo ela também abraça e chora um pouco e ri. Lindo! Lindo! E sai correndo que seu ônibus chegou e outro sabe Deus quando.
De dentro do carro é que ela olha e sorri, atendendo novamente o telefone.
Também sorrio e sacudo a cabeça. Ah! esses moços!!
19 de julho de 2007.
11h31
sábado, julho 14, 2007
EU 9
Escrevo-te de dentro de uma novela mexicana: olhares afetados. Gestos grandes, frases tolas.
Escrevo-te do meu quarto vazio e imenso sem estares nele, dormindo sem pressa, óculos no rosto.
Escrevo-te do torvelinho que é a dúvida da tua presença: se quero que me revolvas, se quero que passes ao largo.
Escrevo-te pra fugir do telefone.
Escrevo-te porque não lerás essas linhas (?).
Escrevo-te porque é o que sei e gosto e onde posso te pintar com as cores que deseje: azuis abreus, amarelos van gogh, vermelhos almodóvar e brancos e cinzas e negros eus.
Escrevo-te porque assim não partes.
Escrevo-te porque se rasgar esta folha, não ficas...
Escrevo-te épico, cômico, dramático.
Escrevo-te crônica do meu dia-a-dia alterado (pra melhor?!)
Escrevo-te conto, curto, redondo.
Escrevo-te com detalhes de roteiro, com volteios de romance, com a secura dos jornais, na métrica matemática da música, na precisão da tese, ágil como os quadrinhos.
Escrevo-te porque as palavras sobrevivem aos homens.
Escrevo-te enquanto te aguardo.
Ponto. Três!
Para M. O.
Belém, Pará
13 de julho de 2007 – 9h00
A PROGRAMAÇÃO DO PALCO GIRATÓRIO.
Dentro da programação normal do Palco Giratório esteve em Belém em maio passado o grupo Lumbra, de Porto Alegre, com Sacy Pererê – A lenda da meia-noite, resultado da pesquisa e trabalho do grupo na área do teatro de sombras. O espetáculo apresentado levou dois anos para ser concluído.
Entre os dias 23 e 28 de junho de 2007 esteve em Belém a Companhia catarinense Trip de Teatro Rio do Sul, com o espetáculo adulto de bonecos O Incrível Ladrão de Calcinhas.
Para a primeira quinzena de agosto está programada a Companhia Informal de Teatro, do Rio de Janeiro, que trará a Belém os musicais Antonio Maria: A Noite é uma Criança e Ai, que saudade de Lago, biografia para o teatro do ator e compositor Mário Lago.
Em setembro, na programação especial, acontecerá a Residência Cênica com a carioca Companhia Etc e Tal, que além das oficinas e bate-papo apresentará três espetáculos: Fulano e Sicrano e as comédias No Buraco e O Macaco e a Boneca de Piche.
Na Aldeia Círio, que começa dia 13 de outubro, as apresentações incluem teatro, dança e música, com intensa participação de grupos locais, valorizando nossa produção artística. Do Rio de Janeiro virá a Companhia Artesanal de Teatro com dois espetáculos infantis: Viagem ao Centro da Terra, baseado na obra de Júlio Verne, e Ciriano de Berinjela.
Fiquem atentos, prestigiem e divulguem.
quarta-feira, julho 11, 2007
PENSE NUMA BESTEIRA!!!
Melhor diretor no Festival de Cinema de Paris.
Melhor filme no Festival de Roterdã.
Ok! Pira paz!!!
Ou o conceito de arte e de qualidade dos julgadores dos festivais acima citados é completamente diverso do meu – e de boa parte da platéia que assistiu comigo Baixio das Bestas no último dia 08 de julho -, ou eu não entendo nada de cinema, arte, etc. Vá lá que minha experiência não tem dez anos, apenas seis espetáculos e algumas incursões pela literatura, mas por mais obtuso que eu seja ainda tenho sensibilidade bastante para julgar uma obra de arte quando vejo uma. E chamo Baixio das Bestas de obra de arte porque sendo uma produção cinematográfica, etc, pode ser assim classificada, tanto quanto sabonetes de motel pendurados no teto e pedaços de placas de estrada emendadas. No entanto, a tentativa de Cláudio Assis, o mesmo diretor de Amarelo Manga, de “problematizar relações, sugerir narrativas, humanizar questões, aprofundar o cotidiano e dimensionar a existência (*)” se perde nos oitenta longos e desagradáveis minutos de projeção. Não que o comportamento amoral e imoral dos personagens provoque nojo, ou desagrado, anestesiados que estamos pelos telejornais, mas pela completa falta de profundidade e verdade da história. A menina triste, ingênua e explorada que, amarga, decide se entregar sem mais luta ao óbvio de sua vida miserável está lá – como a personagem de Dira Paz em Amarelo Manga -, os jovens bem de vida e revoltados também, espancando domésticas... Ops! Isso é outro filme. Ou pior, não é filme. É real. O que diferencia é que no filme de Assis as cenas são mostradas. Violência explícita, sexo explícito, nu frontal, insinuações homoeróticas e uma avalanche de palavrões – as poucas palavras que se consegue entender no filme -, tudo tenta preencher o vazio de um roteiro raso como a fossa interminavelmente cavada por Maninho (Irandhir Santos, ele mesmo, o Quaderna de A Pedra do Reino!!!). Estratégia simplista. Não dar soluções para os conflitos ao invés de “tirar a platéia da sua passividade (*)” a coloca numa arena romana: diante da vítima inerme, nada há o que fazer senão juntar-se à turba e virar o polegar pra baixo.
A pá de cal vem de Matheus Nachtergaele, um dos personagens unidimensionais e ocos de Baixio das Bestas, quando proclama, grave: “O bom do cinema é que nele a gente pode tudo!”. Sem risos, ou lágrimas.
Baixio das Bestas é uma experiência cinematográfica questionável e absolutamente dispensável. Aliás, perdão pelo comentário infame, mas o título não podia ser mais preciso, já que eu próprio me tornei parte de um lote que se divide com patadas e relinchos, entre os que fingem que entenderam, os que pensam que gostaram, os que lastimam a perda de tempo e dinheiro e os que saíram antes do final da sessão.
(*) Conforme sinopse publicada no informativo Pará 2000, ano I, nº 03, julho de 2007.
Belém, Pará
01h35
domingo, julho 08, 2007
EU 8
Apoiei a cabeça na parede e fiquei ouvindo o zumbido do vento e o som do trânsito meio distante, abafado. Ali no alto, o sol quase posto ao fundo, não chegavam sons humanos, só rangidos, estalos, bipes.
Abri os olhos só então eu o vi. No prédio ao lado, também na última laje, o rapaz permanecia de pé, olhar duro, os cabelos negros e finos e lisos agitados com força pelo vento. Como é que eu não o percebera? Estaria ali há muito tempo? Teria me visto? Penso que não. Na verdade nós somos invisíveis uns pros outros; pra alguém mais próximo basta um sorriso bem colocado na cara e uma palavras à toa pra parecer que está tudo bem. Ninguém percebe tua dor e se percebe dá de ombros, “que eu mal consigo resolver as minhas!”
Decidi não me mexer, permanecendo assim ignorado. Fiquei bem mais tempo que de costume, descendo apenas quando o rapaz tinha ido embora. Ainda na escadinha pensei ter visto um vulto num terceiro prédio. Parei e olhei com atenção. Ninguém? Ninguém!
No dia seguinte subi ao telhado como de costume, mas coloquei-me mais à sombra, gárgula, espreitando o rapaz que desta vez, de pé, dava passos vacilantes na direção da beirada do prédio, o olhar perdido, parecendo que queria chorar e prender o choro e gritar e não dizer nada que ali não tinha ninguém e quem é que o escutaria? Também eu prendi um pedido na garganta que ele não fosse adiante; que não brincasse com altura e não desafiasse o vento, ou a boa sorte. Pedi preso na garganta que ele pensasse bem se era aquilo mesmo que ele estava pensando. Como ele eu também me sentia muito só e muito triste e queria colo e que alguém me amasse como eu o-a-os-as amaria. Fiquei imaginando respostas para as perguntas que ele me faria, se soubesse que eu estava li há poucos metros dele, ainda que separado por um abismo “de modo que os que aqui estivessem não poderiam passar para o outro lado e nem os de lá para cá poderiam vir”. Ou eu nem precisaria dar resposta alguma e ele desistiria daquele passeio fatal pelo simples fato de ter sido ouvido. Mas enquanto a minha cabeça pensava todas essas coisas eu fechei os olhos para a pessoa. E seus pés se colocaram na pequena mureta e seu olhar volteou e estava úmido e avermelhado.
Ainda corri na sua direção, gritando que parasse. Em vão. Acompanhei ainda um pouco seu vôo às avessas e depois enterrei o rosto entre os braços para não ver o desfecho daquela tragédia tão minha. E gritei! E meu berro era por demais alto. E não era só meu. De todos os prédios em volta saiam das sombras outros e outras e batiam no peito, dobravam os joelhos e olhando pros céus perguntavam por que e por que e por que?
Corri dali pra não ser o próximo.
Nessa noite eu não dormi e nem nas muitas seguintes. Não voltaria ao telhado enquanto meus ouvidos retivessem aquele grito, enquanto eu lembrasse daquele rosto desconhecido e enquanto eu soubesse quão familiar me eram todos aqueles sentimentos e ausências.
Hoje quando o sol se põe eu me protejo atrás de paredes e janelas.
Hoje, uma linda jovem clara, de cabelos encaracolados e vestido azul subiu pela escadinha vertical chumbada na parede do prédio ao lado do meu, acima da última laje.
Esmurrei a vidraça em prantos e corri porta afora, descendo as escadas quase cego de lágrimas, disposto a invadir a qualquer preço o prédio vizinho.
Belém, Pará, 29 de junho de 2007.
15h56
quarta-feira, junho 27, 2007
EU 7
Pára de me provocar!
Eu sei que não vai acontecer nada entre a gente, mas essa viabilidade mexe com a minha cabeça.
Imagina quantas vezes, desde que tudo isso começou – e foi há muito tempo! – que o chuveiro teve que me lembrar que não havia mais ninguém no quarto?
(- Risos.)
Pára de me olhar assim.
Pára de provocação!
Será que a gente é maduro o suficiente pra encarar uma história dessas?
- Eu sou!
Tu és?! Eu sou?
Tu estás acostumado com essa gente toda atrás de ti, correndo e babando, prontas pra te satisfazer, prontas pra se satisfazer; mas cada uma delas: da paty do cursinho à empregadinha gorda, são só parte de um mesmo rebanho de abate.
Comigo não funciona assim, que eu sempre fui sozinho!
- Pára de me olhar desse jeito!
(...)
- Pára de me censurar que também tiveste participação nisso tudo! Nunca percebeste o jeito que me olhas? Nunca te tocaste do timbre estudado da tua voz? Do teu abraço?
Eu não tive a intenção...
- Ah! Tiveste sim! Cada gesto teu foi pensado, cada palavra estudada. Cada insinuação tinha um objetivo. Me mostraste um mundo diferente do meu que eu nem sei se quero experimentar, mas essa viabilidade mexe com a minha cabeça.
Ficamos olhando um pro outro, a eletricidade dos nossos corpos nos atraindo na proporção direta das nossas massas, na proporção inversa das nossas dúvidas.
Um passo a frente meu. Outro dele.
Pro inferno esse não saber-querer-poder que só se vai se ter certeza se.
Uma leve campainha e a porta do elevador abriu. Passei a mão pelo cabelo, ele estalou os dedos das mãos. A senhora do lado de fora nos olhou de alto a baixo e com um sorriso Monalisa deixou que a porta se fechasse novamente.
Mas aí...
Modificado em 26 de junho de 2007.
23h56
NESSES TEMPOS DE DIVERSIDADE.
Há quem ache tudo uma grande micareta. Alguns defendem a Parada como um veículo de visibilidade e luta. Difícil chegar a um consenso no meio de tanta gente.
Dois, ou três anos atrás participei da Parada Gay de Belém e estou inclinado a concordar com os primeiros. Não vi nessa oportunidade uma força política capaz de alcançar os objetivos teoricamente indicados. A bem da verdade, será preciso bem mais do que paradas para mudar uma mentalidade arraigada por séculos de formação preconceituosa e de falta de respeito.
Essa mentalidade tolerante precisa começar em casa, numa criação menos machista onde os filhos varões mais novos não sejam servidos pelas mães. Passa pela escola onde as diferenças sociais, econômicas e mesmo culturais sejam tratadas com ética. Consiste numa visão livre de dogmatismos e ordenanças baseadas em opiniões pessoais de qualquer setor religioso. Solicita a retirada das diferentes mídias de personagens caricatos, bichinhas afetadas e vilões afeminados. Está no entendimento preciso do que é diversidade e na busca de um equilíbrio que jamais significará a padronização de comportamentos, sequer sua aceitação parcial, ou plena. Está sobretudo no auto-conhecimento e no respeito a si mesmo e ao próximo.
Ser. Gay, negro, mulher, idoso, especial, menor, suburbano, analfabeto, caipira, caboclo, muçulmano. Alcançar a plenitude de um estado individual que é a célula-tronco de um organismo vivo e saudável. Ser. Aceitar-se, perceber limites – os seus e os alheios –, ajudar a construir com uma postura digna uma imagem.
Ser e ser feliz, meta de toda criatura humana.