‘Ela diz que apesar de tudo ela tem sonhos
Ela diz que um dia a gente há de ser feliz
Se Deus quiser .”
(Janaína. Biquíni Cavadão)
A Dalva nem tinha apagado no céu quando eu enxuguei o suor da testa com o dorso da mão. Tanque cheio, suspiro fundo, alguma olheira. Mas ainda havia o frescor da madrugada.
Enquanto o sol e-va-po-ra-va – meu caçula tinha dito isso! – a água das roupas, limpei a casa, arrumei as camas, lavei a louça do café, varri o pátio. Na panela, feijão e um restinho de toucinho, cebola, alho e sal. Pra acompanhar, arroz e salsicha. O sol parecia tão mais brilhante aquele dia!
A molecada comia apressada pro filho mais velho lavar a louça antes de ir pro quartel. Hoje era dia de educação física pros menores e eu passei as camisetinhas brancas e os shorts azuis marinhos. Quando havia dobrado a última peça e dado uns pontos na toalha grande e felpuda que protegia a trouxa, a casa estava quieta e o sol rachava o asfalto. Lá longe alguém ouvia uma música que eu gosto muito e o Pirata – o vira-latas do do meio! – latia pro nada, sacudindo o corpo todo.
O ônibus tava lotado, mas o segundo, se Deus quiser, tá mais vazio e algum cristão há de pelo menos pedir pra levar a trouxa. Faz um tempão que eu não escuto um “senta aqui, senhora!” e cada vez esses carros demoram mais a passar. Acho que alguém deu uma boa lavada neles ontem, ou hoje. E o cobrador até me disse bom dia.
A dona gosta da minha lavagem, mas sempre abre a trouxa e olha tudo e confere numa listinha antes de me pagar e sempre pede pra ser menos. “Não dá. O preço do sabão tá pela hora da morte!”. Ela sempre paga e já marca outro serviço. São mais dois ônibus e o ponto é longe, inda mais nesse calor. Sento lá no fundo e vou sorrindo da boniteza que tá ficando essa cidade.
Desço do ônibus e sento numa proteção toda de metal, ferrugem, cartazes molhados-rasgados-desbotados. Na outra ponta do banco de madeira uma mocinha fala ao celular e diz que sente saudades também e que não vê a hora de estar junto e que estar junto é a única coisa que eles têm certeza, mas aí a voz já está mais alta e mais nervosa e mais aguda e ela pergunta por que e quando e de que jeito? Desliga o telefone meio nervosa, enfia na bolsinha verde e azul e me olha meio sem graça. Eu olho de volta, complacente, que eu tenho uma dessas em casa e sei como eles são, ah, se sei!
A mocinha desvia o olhar, encabulada e morta de vergonha enxuga uma lágrima gitinha que vem caindo.
Ela me olha de novo quando eu sento ao lado dela e a abraço sem perguntar se posso, se devo, ou se ela quer. Surpresa! Mas logo ela também abraça e chora um pouco e ri. Lindo! Lindo! E sai correndo que seu ônibus chegou e outro sabe Deus quando.
De dentro do carro é que ela olha e sorri, atendendo novamente o telefone.
Também sorrio e sacudo a cabeça. Ah! esses moços!!
19 de julho de 2007.
11h31
Apaga-te, ó delicada chama! Apaga-te!A vida é sombra passageira. Um mísero ator que chega, agita a cena inteira, diz sua fala e sai. e ninguém mais o nota. MACBETH (William Shakespeare)
domingo, julho 22, 2007
sábado, julho 14, 2007
EU 9
Escrevo-te da prisão na qual me encerraste: cadeias teus braços, correntes teus beijos.
Escrevo-te de dentro de uma novela mexicana: olhares afetados. Gestos grandes, frases tolas.
Escrevo-te do meu quarto vazio e imenso sem estares nele, dormindo sem pressa, óculos no rosto.
Escrevo-te do torvelinho que é a dúvida da tua presença: se quero que me revolvas, se quero que passes ao largo.
Escrevo-te pra fugir do telefone.
Escrevo-te porque não lerás essas linhas (?).
Escrevo-te porque é o que sei e gosto e onde posso te pintar com as cores que deseje: azuis abreus, amarelos van gogh, vermelhos almodóvar e brancos e cinzas e negros eus.
Escrevo-te porque assim não partes.
Escrevo-te porque se rasgar esta folha, não ficas...
Escrevo-te épico, cômico, dramático.
Escrevo-te crônica do meu dia-a-dia alterado (pra melhor?!)
Escrevo-te conto, curto, redondo.
Escrevo-te com detalhes de roteiro, com volteios de romance, com a secura dos jornais, na métrica matemática da música, na precisão da tese, ágil como os quadrinhos.
Escrevo-te porque as palavras sobrevivem aos homens.
Escrevo-te enquanto te aguardo.
Ponto. Três!
Para M. O.
Belém, Pará
13 de julho de 2007 – 9h00
Escrevo-te de dentro de uma novela mexicana: olhares afetados. Gestos grandes, frases tolas.
Escrevo-te do meu quarto vazio e imenso sem estares nele, dormindo sem pressa, óculos no rosto.
Escrevo-te do torvelinho que é a dúvida da tua presença: se quero que me revolvas, se quero que passes ao largo.
Escrevo-te pra fugir do telefone.
Escrevo-te porque não lerás essas linhas (?).
Escrevo-te porque é o que sei e gosto e onde posso te pintar com as cores que deseje: azuis abreus, amarelos van gogh, vermelhos almodóvar e brancos e cinzas e negros eus.
Escrevo-te porque assim não partes.
Escrevo-te porque se rasgar esta folha, não ficas...
Escrevo-te épico, cômico, dramático.
Escrevo-te crônica do meu dia-a-dia alterado (pra melhor?!)
Escrevo-te conto, curto, redondo.
Escrevo-te com detalhes de roteiro, com volteios de romance, com a secura dos jornais, na métrica matemática da música, na precisão da tese, ágil como os quadrinhos.
Escrevo-te porque as palavras sobrevivem aos homens.
Escrevo-te enquanto te aguardo.
Ponto. Três!
Para M. O.
Belém, Pará
13 de julho de 2007 – 9h00
A PROGRAMAÇÃO DO PALCO GIRATÓRIO.
Em 2007, uma feliz coincidência reuniu o SESC e o projeto Balaio Cultural dos Clowns de Shakespeare, grupo de Natal que veio a Belém pela segunda vez através da Caranava Funarte – programa de circulação de espetáculos da Fundação Nacional de Arte. O programa incluiu ainda a cidade de Santarém e o estado de Roraima com a apresentação dos espetáculos Muito Barulho Por Quase Nada e Roda Chico, além do infantil Fábulas. Em todos os locais aconteceram oficinas ofertadas aos artistas locais. Em Belém, intermediadas pelo SESC, as oficinas de jogos teatrais e iluminação, além de debates, aconteceram no Casarão do Boneco, sede da companhia In Bust Teatro com Bonecos.
Dentro da programação normal do Palco Giratório esteve em Belém em maio passado o grupo Lumbra, de Porto Alegre, com Sacy Pererê – A lenda da meia-noite, resultado da pesquisa e trabalho do grupo na área do teatro de sombras. O espetáculo apresentado levou dois anos para ser concluído.
Entre os dias 23 e 28 de junho de 2007 esteve em Belém a Companhia catarinense Trip de Teatro Rio do Sul, com o espetáculo adulto de bonecos O Incrível Ladrão de Calcinhas.
Para a primeira quinzena de agosto está programada a Companhia Informal de Teatro, do Rio de Janeiro, que trará a Belém os musicais Antonio Maria: A Noite é uma Criança e Ai, que saudade de Lago, biografia para o teatro do ator e compositor Mário Lago.
Em setembro, na programação especial, acontecerá a Residência Cênica com a carioca Companhia Etc e Tal, que além das oficinas e bate-papo apresentará três espetáculos: Fulano e Sicrano e as comédias No Buraco e O Macaco e a Boneca de Piche.
Na Aldeia Círio, que começa dia 13 de outubro, as apresentações incluem teatro, dança e música, com intensa participação de grupos locais, valorizando nossa produção artística. Do Rio de Janeiro virá a Companhia Artesanal de Teatro com dois espetáculos infantis: Viagem ao Centro da Terra, baseado na obra de Júlio Verne, e Ciriano de Berinjela.
Fiquem atentos, prestigiem e divulguem.
Dentro da programação normal do Palco Giratório esteve em Belém em maio passado o grupo Lumbra, de Porto Alegre, com Sacy Pererê – A lenda da meia-noite, resultado da pesquisa e trabalho do grupo na área do teatro de sombras. O espetáculo apresentado levou dois anos para ser concluído.
Entre os dias 23 e 28 de junho de 2007 esteve em Belém a Companhia catarinense Trip de Teatro Rio do Sul, com o espetáculo adulto de bonecos O Incrível Ladrão de Calcinhas.
Para a primeira quinzena de agosto está programada a Companhia Informal de Teatro, do Rio de Janeiro, que trará a Belém os musicais Antonio Maria: A Noite é uma Criança e Ai, que saudade de Lago, biografia para o teatro do ator e compositor Mário Lago.
Em setembro, na programação especial, acontecerá a Residência Cênica com a carioca Companhia Etc e Tal, que além das oficinas e bate-papo apresentará três espetáculos: Fulano e Sicrano e as comédias No Buraco e O Macaco e a Boneca de Piche.
Na Aldeia Círio, que começa dia 13 de outubro, as apresentações incluem teatro, dança e música, com intensa participação de grupos locais, valorizando nossa produção artística. Do Rio de Janeiro virá a Companhia Artesanal de Teatro com dois espetáculos infantis: Viagem ao Centro da Terra, baseado na obra de Júlio Verne, e Ciriano de Berinjela.
Fiquem atentos, prestigiem e divulguem.
quarta-feira, julho 11, 2007
PENSE NUMA BESTEIRA!!!
Melhor filme, atriz, atriz coadjuvante, ator, trilha sonora e Prêmio de Crítica do Festival de Brasília.
Melhor diretor no Festival de Cinema de Paris.
Melhor filme no Festival de Roterdã.
Ok! Pira paz!!!
Ou o conceito de arte e de qualidade dos julgadores dos festivais acima citados é completamente diverso do meu – e de boa parte da platéia que assistiu comigo Baixio das Bestas no último dia 08 de julho -, ou eu não entendo nada de cinema, arte, etc. Vá lá que minha experiência não tem dez anos, apenas seis espetáculos e algumas incursões pela literatura, mas por mais obtuso que eu seja ainda tenho sensibilidade bastante para julgar uma obra de arte quando vejo uma. E chamo Baixio das Bestas de obra de arte porque sendo uma produção cinematográfica, etc, pode ser assim classificada, tanto quanto sabonetes de motel pendurados no teto e pedaços de placas de estrada emendadas. No entanto, a tentativa de Cláudio Assis, o mesmo diretor de Amarelo Manga, de “problematizar relações, sugerir narrativas, humanizar questões, aprofundar o cotidiano e dimensionar a existência (*)” se perde nos oitenta longos e desagradáveis minutos de projeção. Não que o comportamento amoral e imoral dos personagens provoque nojo, ou desagrado, anestesiados que estamos pelos telejornais, mas pela completa falta de profundidade e verdade da história. A menina triste, ingênua e explorada que, amarga, decide se entregar sem mais luta ao óbvio de sua vida miserável está lá – como a personagem de Dira Paz em Amarelo Manga -, os jovens bem de vida e revoltados também, espancando domésticas... Ops! Isso é outro filme. Ou pior, não é filme. É real. O que diferencia é que no filme de Assis as cenas são mostradas. Violência explícita, sexo explícito, nu frontal, insinuações homoeróticas e uma avalanche de palavrões – as poucas palavras que se consegue entender no filme -, tudo tenta preencher o vazio de um roteiro raso como a fossa interminavelmente cavada por Maninho (Irandhir Santos, ele mesmo, o Quaderna de A Pedra do Reino!!!). Estratégia simplista. Não dar soluções para os conflitos ao invés de “tirar a platéia da sua passividade (*)” a coloca numa arena romana: diante da vítima inerme, nada há o que fazer senão juntar-se à turba e virar o polegar pra baixo.
A pá de cal vem de Matheus Nachtergaele, um dos personagens unidimensionais e ocos de Baixio das Bestas, quando proclama, grave: “O bom do cinema é que nele a gente pode tudo!”. Sem risos, ou lágrimas.
Baixio das Bestas é uma experiência cinematográfica questionável e absolutamente dispensável. Aliás, perdão pelo comentário infame, mas o título não podia ser mais preciso, já que eu próprio me tornei parte de um lote que se divide com patadas e relinchos, entre os que fingem que entenderam, os que pensam que gostaram, os que lastimam a perda de tempo e dinheiro e os que saíram antes do final da sessão.
(*) Conforme sinopse publicada no informativo Pará 2000, ano I, nº 03, julho de 2007.
Belém, Pará
01h35
Melhor diretor no Festival de Cinema de Paris.
Melhor filme no Festival de Roterdã.
Ok! Pira paz!!!
Ou o conceito de arte e de qualidade dos julgadores dos festivais acima citados é completamente diverso do meu – e de boa parte da platéia que assistiu comigo Baixio das Bestas no último dia 08 de julho -, ou eu não entendo nada de cinema, arte, etc. Vá lá que minha experiência não tem dez anos, apenas seis espetáculos e algumas incursões pela literatura, mas por mais obtuso que eu seja ainda tenho sensibilidade bastante para julgar uma obra de arte quando vejo uma. E chamo Baixio das Bestas de obra de arte porque sendo uma produção cinematográfica, etc, pode ser assim classificada, tanto quanto sabonetes de motel pendurados no teto e pedaços de placas de estrada emendadas. No entanto, a tentativa de Cláudio Assis, o mesmo diretor de Amarelo Manga, de “problematizar relações, sugerir narrativas, humanizar questões, aprofundar o cotidiano e dimensionar a existência (*)” se perde nos oitenta longos e desagradáveis minutos de projeção. Não que o comportamento amoral e imoral dos personagens provoque nojo, ou desagrado, anestesiados que estamos pelos telejornais, mas pela completa falta de profundidade e verdade da história. A menina triste, ingênua e explorada que, amarga, decide se entregar sem mais luta ao óbvio de sua vida miserável está lá – como a personagem de Dira Paz em Amarelo Manga -, os jovens bem de vida e revoltados também, espancando domésticas... Ops! Isso é outro filme. Ou pior, não é filme. É real. O que diferencia é que no filme de Assis as cenas são mostradas. Violência explícita, sexo explícito, nu frontal, insinuações homoeróticas e uma avalanche de palavrões – as poucas palavras que se consegue entender no filme -, tudo tenta preencher o vazio de um roteiro raso como a fossa interminavelmente cavada por Maninho (Irandhir Santos, ele mesmo, o Quaderna de A Pedra do Reino!!!). Estratégia simplista. Não dar soluções para os conflitos ao invés de “tirar a platéia da sua passividade (*)” a coloca numa arena romana: diante da vítima inerme, nada há o que fazer senão juntar-se à turba e virar o polegar pra baixo.
A pá de cal vem de Matheus Nachtergaele, um dos personagens unidimensionais e ocos de Baixio das Bestas, quando proclama, grave: “O bom do cinema é que nele a gente pode tudo!”. Sem risos, ou lágrimas.
Baixio das Bestas é uma experiência cinematográfica questionável e absolutamente dispensável. Aliás, perdão pelo comentário infame, mas o título não podia ser mais preciso, já que eu próprio me tornei parte de um lote que se divide com patadas e relinchos, entre os que fingem que entenderam, os que pensam que gostaram, os que lastimam a perda de tempo e dinheiro e os que saíram antes do final da sessão.
(*) Conforme sinopse publicada no informativo Pará 2000, ano I, nº 03, julho de 2007.
Belém, Pará
01h35
domingo, julho 08, 2007
EU 8
Saí do elevador e subia escadinha vertical chumbada na parede até o ponto mais alto do telhado, sentando numa marquise, a perna esquerda balançando, a direita dobrada, apoio do braço direito, o vento agitando violento meus cabelos. Gosto de me sentir um personagem numa pintura do Caravaggio, assim como gosto de andar nas ruas de madrugada cantarolando e fingindo estar num clipe da Alanis Morrisete.
Apoiei a cabeça na parede e fiquei ouvindo o zumbido do vento e o som do trânsito meio distante, abafado. Ali no alto, o sol quase posto ao fundo, não chegavam sons humanos, só rangidos, estalos, bipes.
Abri os olhos só então eu o vi. No prédio ao lado, também na última laje, o rapaz permanecia de pé, olhar duro, os cabelos negros e finos e lisos agitados com força pelo vento. Como é que eu não o percebera? Estaria ali há muito tempo? Teria me visto? Penso que não. Na verdade nós somos invisíveis uns pros outros; pra alguém mais próximo basta um sorriso bem colocado na cara e uma palavras à toa pra parecer que está tudo bem. Ninguém percebe tua dor e se percebe dá de ombros, “que eu mal consigo resolver as minhas!”
Decidi não me mexer, permanecendo assim ignorado. Fiquei bem mais tempo que de costume, descendo apenas quando o rapaz tinha ido embora. Ainda na escadinha pensei ter visto um vulto num terceiro prédio. Parei e olhei com atenção. Ninguém? Ninguém!
No dia seguinte subi ao telhado como de costume, mas coloquei-me mais à sombra, gárgula, espreitando o rapaz que desta vez, de pé, dava passos vacilantes na direção da beirada do prédio, o olhar perdido, parecendo que queria chorar e prender o choro e gritar e não dizer nada que ali não tinha ninguém e quem é que o escutaria? Também eu prendi um pedido na garganta que ele não fosse adiante; que não brincasse com altura e não desafiasse o vento, ou a boa sorte. Pedi preso na garganta que ele pensasse bem se era aquilo mesmo que ele estava pensando. Como ele eu também me sentia muito só e muito triste e queria colo e que alguém me amasse como eu o-a-os-as amaria. Fiquei imaginando respostas para as perguntas que ele me faria, se soubesse que eu estava li há poucos metros dele, ainda que separado por um abismo “de modo que os que aqui estivessem não poderiam passar para o outro lado e nem os de lá para cá poderiam vir”. Ou eu nem precisaria dar resposta alguma e ele desistiria daquele passeio fatal pelo simples fato de ter sido ouvido. Mas enquanto a minha cabeça pensava todas essas coisas eu fechei os olhos para a pessoa. E seus pés se colocaram na pequena mureta e seu olhar volteou e estava úmido e avermelhado.
Ainda corri na sua direção, gritando que parasse. Em vão. Acompanhei ainda um pouco seu vôo às avessas e depois enterrei o rosto entre os braços para não ver o desfecho daquela tragédia tão minha. E gritei! E meu berro era por demais alto. E não era só meu. De todos os prédios em volta saiam das sombras outros e outras e batiam no peito, dobravam os joelhos e olhando pros céus perguntavam por que e por que e por que?
Corri dali pra não ser o próximo.
Nessa noite eu não dormi e nem nas muitas seguintes. Não voltaria ao telhado enquanto meus ouvidos retivessem aquele grito, enquanto eu lembrasse daquele rosto desconhecido e enquanto eu soubesse quão familiar me eram todos aqueles sentimentos e ausências.
Hoje quando o sol se põe eu me protejo atrás de paredes e janelas.
Hoje, uma linda jovem clara, de cabelos encaracolados e vestido azul subiu pela escadinha vertical chumbada na parede do prédio ao lado do meu, acima da última laje.
Esmurrei a vidraça em prantos e corri porta afora, descendo as escadas quase cego de lágrimas, disposto a invadir a qualquer preço o prédio vizinho.
Belém, Pará, 29 de junho de 2007.
15h56
Apoiei a cabeça na parede e fiquei ouvindo o zumbido do vento e o som do trânsito meio distante, abafado. Ali no alto, o sol quase posto ao fundo, não chegavam sons humanos, só rangidos, estalos, bipes.
Abri os olhos só então eu o vi. No prédio ao lado, também na última laje, o rapaz permanecia de pé, olhar duro, os cabelos negros e finos e lisos agitados com força pelo vento. Como é que eu não o percebera? Estaria ali há muito tempo? Teria me visto? Penso que não. Na verdade nós somos invisíveis uns pros outros; pra alguém mais próximo basta um sorriso bem colocado na cara e uma palavras à toa pra parecer que está tudo bem. Ninguém percebe tua dor e se percebe dá de ombros, “que eu mal consigo resolver as minhas!”
Decidi não me mexer, permanecendo assim ignorado. Fiquei bem mais tempo que de costume, descendo apenas quando o rapaz tinha ido embora. Ainda na escadinha pensei ter visto um vulto num terceiro prédio. Parei e olhei com atenção. Ninguém? Ninguém!
No dia seguinte subi ao telhado como de costume, mas coloquei-me mais à sombra, gárgula, espreitando o rapaz que desta vez, de pé, dava passos vacilantes na direção da beirada do prédio, o olhar perdido, parecendo que queria chorar e prender o choro e gritar e não dizer nada que ali não tinha ninguém e quem é que o escutaria? Também eu prendi um pedido na garganta que ele não fosse adiante; que não brincasse com altura e não desafiasse o vento, ou a boa sorte. Pedi preso na garganta que ele pensasse bem se era aquilo mesmo que ele estava pensando. Como ele eu também me sentia muito só e muito triste e queria colo e que alguém me amasse como eu o-a-os-as amaria. Fiquei imaginando respostas para as perguntas que ele me faria, se soubesse que eu estava li há poucos metros dele, ainda que separado por um abismo “de modo que os que aqui estivessem não poderiam passar para o outro lado e nem os de lá para cá poderiam vir”. Ou eu nem precisaria dar resposta alguma e ele desistiria daquele passeio fatal pelo simples fato de ter sido ouvido. Mas enquanto a minha cabeça pensava todas essas coisas eu fechei os olhos para a pessoa. E seus pés se colocaram na pequena mureta e seu olhar volteou e estava úmido e avermelhado.
Ainda corri na sua direção, gritando que parasse. Em vão. Acompanhei ainda um pouco seu vôo às avessas e depois enterrei o rosto entre os braços para não ver o desfecho daquela tragédia tão minha. E gritei! E meu berro era por demais alto. E não era só meu. De todos os prédios em volta saiam das sombras outros e outras e batiam no peito, dobravam os joelhos e olhando pros céus perguntavam por que e por que e por que?
Corri dali pra não ser o próximo.
Nessa noite eu não dormi e nem nas muitas seguintes. Não voltaria ao telhado enquanto meus ouvidos retivessem aquele grito, enquanto eu lembrasse daquele rosto desconhecido e enquanto eu soubesse quão familiar me eram todos aqueles sentimentos e ausências.
Hoje quando o sol se põe eu me protejo atrás de paredes e janelas.
Hoje, uma linda jovem clara, de cabelos encaracolados e vestido azul subiu pela escadinha vertical chumbada na parede do prédio ao lado do meu, acima da última laje.
Esmurrei a vidraça em prantos e corri porta afora, descendo as escadas quase cego de lágrimas, disposto a invadir a qualquer preço o prédio vizinho.
Belém, Pará, 29 de junho de 2007.
15h56
quarta-feira, junho 27, 2007
EU 7
Pára de me olhar desse jeito.
Pára de me provocar!
Eu sei que não vai acontecer nada entre a gente, mas essa viabilidade mexe com a minha cabeça.
Imagina quantas vezes, desde que tudo isso começou – e foi há muito tempo! – que o chuveiro teve que me lembrar que não havia mais ninguém no quarto?
(- Risos.)
Pára de me olhar assim.
Pára de provocação!
Será que a gente é maduro o suficiente pra encarar uma história dessas?
- Eu sou!
Tu és?! Eu sou?
Tu estás acostumado com essa gente toda atrás de ti, correndo e babando, prontas pra te satisfazer, prontas pra se satisfazer; mas cada uma delas: da paty do cursinho à empregadinha gorda, são só parte de um mesmo rebanho de abate.
Comigo não funciona assim, que eu sempre fui sozinho!
- Pára de me olhar desse jeito!
(...)
- Pára de me censurar que também tiveste participação nisso tudo! Nunca percebeste o jeito que me olhas? Nunca te tocaste do timbre estudado da tua voz? Do teu abraço?
Eu não tive a intenção...
- Ah! Tiveste sim! Cada gesto teu foi pensado, cada palavra estudada. Cada insinuação tinha um objetivo. Me mostraste um mundo diferente do meu que eu nem sei se quero experimentar, mas essa viabilidade mexe com a minha cabeça.
Ficamos olhando um pro outro, a eletricidade dos nossos corpos nos atraindo na proporção direta das nossas massas, na proporção inversa das nossas dúvidas.
Um passo a frente meu. Outro dele.
Pro inferno esse não saber-querer-poder que só se vai se ter certeza se.
Uma leve campainha e a porta do elevador abriu. Passei a mão pelo cabelo, ele estalou os dedos das mãos. A senhora do lado de fora nos olhou de alto a baixo e com um sorriso Monalisa deixou que a porta se fechasse novamente.
Mas aí...
Modificado em 26 de junho de 2007.
23h56
Pára de me provocar!
Eu sei que não vai acontecer nada entre a gente, mas essa viabilidade mexe com a minha cabeça.
Imagina quantas vezes, desde que tudo isso começou – e foi há muito tempo! – que o chuveiro teve que me lembrar que não havia mais ninguém no quarto?
(- Risos.)
Pára de me olhar assim.
Pára de provocação!
Será que a gente é maduro o suficiente pra encarar uma história dessas?
- Eu sou!
Tu és?! Eu sou?
Tu estás acostumado com essa gente toda atrás de ti, correndo e babando, prontas pra te satisfazer, prontas pra se satisfazer; mas cada uma delas: da paty do cursinho à empregadinha gorda, são só parte de um mesmo rebanho de abate.
Comigo não funciona assim, que eu sempre fui sozinho!
- Pára de me olhar desse jeito!
(...)
- Pára de me censurar que também tiveste participação nisso tudo! Nunca percebeste o jeito que me olhas? Nunca te tocaste do timbre estudado da tua voz? Do teu abraço?
Eu não tive a intenção...
- Ah! Tiveste sim! Cada gesto teu foi pensado, cada palavra estudada. Cada insinuação tinha um objetivo. Me mostraste um mundo diferente do meu que eu nem sei se quero experimentar, mas essa viabilidade mexe com a minha cabeça.
Ficamos olhando um pro outro, a eletricidade dos nossos corpos nos atraindo na proporção direta das nossas massas, na proporção inversa das nossas dúvidas.
Um passo a frente meu. Outro dele.
Pro inferno esse não saber-querer-poder que só se vai se ter certeza se.
Uma leve campainha e a porta do elevador abriu. Passei a mão pelo cabelo, ele estalou os dedos das mãos. A senhora do lado de fora nos olhou de alto a baixo e com um sorriso Monalisa deixou que a porta se fechasse novamente.
Mas aí...
Modificado em 26 de junho de 2007.
23h56
NESSES TEMPOS DE DIVERSIDADE.
Brasil. São Paulo. Avenida Paulista. 300 mil pessoas – número que pode colocar a manifestação paulistana no livro dos recordes – se reúnem sob a bandeira do Arco-íris. Da senhora de 92 anos que defende o amor como um fenômeno universal, àqueles que permanecem distantes em camarotes e calçadas, aos que torcem o nariz, todos viram passar a colorida e musical Parada do Orgulho Gay, realizada dia 10 de junho último; gente extravagante que vai às ruas pedir contra o preconceito e a homofobia.
Há quem ache tudo uma grande micareta. Alguns defendem a Parada como um veículo de visibilidade e luta. Difícil chegar a um consenso no meio de tanta gente.
Dois, ou três anos atrás participei da Parada Gay de Belém e estou inclinado a concordar com os primeiros. Não vi nessa oportunidade uma força política capaz de alcançar os objetivos teoricamente indicados. A bem da verdade, será preciso bem mais do que paradas para mudar uma mentalidade arraigada por séculos de formação preconceituosa e de falta de respeito.
Essa mentalidade tolerante precisa começar em casa, numa criação menos machista onde os filhos varões mais novos não sejam servidos pelas mães. Passa pela escola onde as diferenças sociais, econômicas e mesmo culturais sejam tratadas com ética. Consiste numa visão livre de dogmatismos e ordenanças baseadas em opiniões pessoais de qualquer setor religioso. Solicita a retirada das diferentes mídias de personagens caricatos, bichinhas afetadas e vilões afeminados. Está no entendimento preciso do que é diversidade e na busca de um equilíbrio que jamais significará a padronização de comportamentos, sequer sua aceitação parcial, ou plena. Está sobretudo no auto-conhecimento e no respeito a si mesmo e ao próximo.
Ser. Gay, negro, mulher, idoso, especial, menor, suburbano, analfabeto, caipira, caboclo, muçulmano. Alcançar a plenitude de um estado individual que é a célula-tronco de um organismo vivo e saudável. Ser. Aceitar-se, perceber limites – os seus e os alheios –, ajudar a construir com uma postura digna uma imagem.
Ser e ser feliz, meta de toda criatura humana.
Há quem ache tudo uma grande micareta. Alguns defendem a Parada como um veículo de visibilidade e luta. Difícil chegar a um consenso no meio de tanta gente.
Dois, ou três anos atrás participei da Parada Gay de Belém e estou inclinado a concordar com os primeiros. Não vi nessa oportunidade uma força política capaz de alcançar os objetivos teoricamente indicados. A bem da verdade, será preciso bem mais do que paradas para mudar uma mentalidade arraigada por séculos de formação preconceituosa e de falta de respeito.
Essa mentalidade tolerante precisa começar em casa, numa criação menos machista onde os filhos varões mais novos não sejam servidos pelas mães. Passa pela escola onde as diferenças sociais, econômicas e mesmo culturais sejam tratadas com ética. Consiste numa visão livre de dogmatismos e ordenanças baseadas em opiniões pessoais de qualquer setor religioso. Solicita a retirada das diferentes mídias de personagens caricatos, bichinhas afetadas e vilões afeminados. Está no entendimento preciso do que é diversidade e na busca de um equilíbrio que jamais significará a padronização de comportamentos, sequer sua aceitação parcial, ou plena. Está sobretudo no auto-conhecimento e no respeito a si mesmo e ao próximo.
Ser. Gay, negro, mulher, idoso, especial, menor, suburbano, analfabeto, caipira, caboclo, muçulmano. Alcançar a plenitude de um estado individual que é a célula-tronco de um organismo vivo e saudável. Ser. Aceitar-se, perceber limites – os seus e os alheios –, ajudar a construir com uma postura digna uma imagem.
Ser e ser feliz, meta de toda criatura humana.
PALCO GIRATÓRIO I
O QUE É O PALCO GIRATÓRIO.
A alma de um povo é a sua cultura. De que adianta desenvolver a indústria e o comércio, aumentar o PIB, democratizar a informática, alfabetizar jovens e adultos, fornecer bolsas assistencialista (mas válidas) para alimentação e vestuário, se aquilo que o povo é se estiola?
Porque sem cultura só resta a uma nação retornar ao pó de onde veio.
Num sentido mais amplo a cultura de um povo é o cabedal de conhecimentos, a ilustração, o saber de uma pessoa, ou grupo social, padrões de comportamento, crenças e costumes que os distinguem. Suas danças, musicalidade, imaginário; as histórias que formam a base da sua literatura, poesia e cinema; os ritmos que unem nossa ancestralidade e futuro.
No Brasil existem vários projetos de incentivo e apoio a cultura. Longe de tentar estabelecer um juízo de valores, reconhecemos que de uma maneira geral esses programas estão muito aquém das nossas necessidades. Nem falo apenas de patrocínios, faixa riscada de um disco de vinil, mas de formação de platéias, desenvolvimento teórico e prático de artistas, mapeamento, pesquisa e divulgação das muitas formas de arte produzidas no país.
Dentre esses projetos destacamos o Palco Giratório, idealizado pelo Departamento Nacional do Serviço Social do Comércio – SESC, constituindo-se num programa de circulação nacional de teatro e dança. Em sua primeira edição, em 1998, apenas cinco estados foram contemplados. Com o passar dos aos outros estados foram aderindo ao projeto e atualmente, apenas Espírito santo e Minas Gerais não participam do Palco Giratório. Em Belém o projeto chegou somente em 2004, onde ocorreu apenas a última das quatro etapas anuais.
Em cada etapa grupos convidados são levados a outros estados onde apresentam seus trabalhos, ministram oficinas e trocam experiências com os artistas locais.
Não existem uma periodicidade específica para cada etapa, que buscam, principalmente atender as demandas dos locais onde ocorrem.
Em 2007, por conta dos dez anos do Palco Giratório, além das quatro etapas tradicionais – maio, junho, agosto – quando o grupo visitante deverá permanecer pelo menos uma semana em Belém – e outubro – irá acontecer uma programação especial, em setembro.
Hoje o Palco Giratório é conhecido como uma rede de difusão de artes cênicas, porque não se limita a apresentações de espetáculos – sempre com um bate-papo ao final entre a equipe e a platéia –, mas inclui em sua programação oficinas, Pensamentos Giratórios – troca de idéias entre diretores visitantes e locais. Um debate com temática referente ao trabalho do grupo; Intercâmbios – onde o grupo visitante assiste ao espetáculo de uma companhia local e é estabelecido um dia para troca de experiências; Intervenções Urbanas – pequenos esquetes apresentados três vezes ao dia em locais de grande movimento e em horários de pico, além de outros programas relacionados, chamados Aldeias – pólos culturais de ação. Em Belém acontece a Aldeia Círio – Mostra SESC Círio de Artes, reunindo música, teatro, cinema, artes plásticas, numa extensa programação.
O Palco Giratório promove também o Festival Nacional Palco Giratório. Para Belém existe uma proposta para 2008 de um grande festival de teatro que reúna 12 grupos que fazem parte do circuito do Palco Giratório, apresentando dois a três espetáculos, além de companhias locais, com trinta dias de programação com apresentações diárias em diferentes pontos da cidade.
O Palco Giratório prima por buscar trabalhos e companhias fora do eixo comercial Rio – são Paulo, priorizando grupos que desenvolvam pesquisas em artes cênicas, empenho e qualidade nos seus espetáculos. Acredita assim valorizar e democratizar as artes cênicas. Todos os espetáculos têm entrada franca, com ampla divulgação pela mídia. Para conseguir esse feito, o SESC conta com recursos próprios – prova de que instituições sérias prezam a cultura de seu povo e reconhecem o imenso retorno que isso proporciona – e apoios. Em Belém o SESC conta com a colaboração do Instituto de Artes do Pará – IAP, Teatro Maria Sylvia Nunes, da Estação das Docas, Hotel Regente e Casarão do Boneco. Mas nas palavras do Ângelo, o maior apoio é mesmo da classe artística, que participa em peso de toda a programação, assistindo, acolhendo, trocando, incentivando.
Colaborou com este artigo Ângelo Franco, técnico de cultural do SESC-PA.
A alma de um povo é a sua cultura. De que adianta desenvolver a indústria e o comércio, aumentar o PIB, democratizar a informática, alfabetizar jovens e adultos, fornecer bolsas assistencialista (mas válidas) para alimentação e vestuário, se aquilo que o povo é se estiola?
Porque sem cultura só resta a uma nação retornar ao pó de onde veio.
Num sentido mais amplo a cultura de um povo é o cabedal de conhecimentos, a ilustração, o saber de uma pessoa, ou grupo social, padrões de comportamento, crenças e costumes que os distinguem. Suas danças, musicalidade, imaginário; as histórias que formam a base da sua literatura, poesia e cinema; os ritmos que unem nossa ancestralidade e futuro.
No Brasil existem vários projetos de incentivo e apoio a cultura. Longe de tentar estabelecer um juízo de valores, reconhecemos que de uma maneira geral esses programas estão muito aquém das nossas necessidades. Nem falo apenas de patrocínios, faixa riscada de um disco de vinil, mas de formação de platéias, desenvolvimento teórico e prático de artistas, mapeamento, pesquisa e divulgação das muitas formas de arte produzidas no país.
Dentre esses projetos destacamos o Palco Giratório, idealizado pelo Departamento Nacional do Serviço Social do Comércio – SESC, constituindo-se num programa de circulação nacional de teatro e dança. Em sua primeira edição, em 1998, apenas cinco estados foram contemplados. Com o passar dos aos outros estados foram aderindo ao projeto e atualmente, apenas Espírito santo e Minas Gerais não participam do Palco Giratório. Em Belém o projeto chegou somente em 2004, onde ocorreu apenas a última das quatro etapas anuais.
Em cada etapa grupos convidados são levados a outros estados onde apresentam seus trabalhos, ministram oficinas e trocam experiências com os artistas locais.
Não existem uma periodicidade específica para cada etapa, que buscam, principalmente atender as demandas dos locais onde ocorrem.
Em 2007, por conta dos dez anos do Palco Giratório, além das quatro etapas tradicionais – maio, junho, agosto – quando o grupo visitante deverá permanecer pelo menos uma semana em Belém – e outubro – irá acontecer uma programação especial, em setembro.
Hoje o Palco Giratório é conhecido como uma rede de difusão de artes cênicas, porque não se limita a apresentações de espetáculos – sempre com um bate-papo ao final entre a equipe e a platéia –, mas inclui em sua programação oficinas, Pensamentos Giratórios – troca de idéias entre diretores visitantes e locais. Um debate com temática referente ao trabalho do grupo; Intercâmbios – onde o grupo visitante assiste ao espetáculo de uma companhia local e é estabelecido um dia para troca de experiências; Intervenções Urbanas – pequenos esquetes apresentados três vezes ao dia em locais de grande movimento e em horários de pico, além de outros programas relacionados, chamados Aldeias – pólos culturais de ação. Em Belém acontece a Aldeia Círio – Mostra SESC Círio de Artes, reunindo música, teatro, cinema, artes plásticas, numa extensa programação.
O Palco Giratório promove também o Festival Nacional Palco Giratório. Para Belém existe uma proposta para 2008 de um grande festival de teatro que reúna 12 grupos que fazem parte do circuito do Palco Giratório, apresentando dois a três espetáculos, além de companhias locais, com trinta dias de programação com apresentações diárias em diferentes pontos da cidade.
O Palco Giratório prima por buscar trabalhos e companhias fora do eixo comercial Rio – são Paulo, priorizando grupos que desenvolvam pesquisas em artes cênicas, empenho e qualidade nos seus espetáculos. Acredita assim valorizar e democratizar as artes cênicas. Todos os espetáculos têm entrada franca, com ampla divulgação pela mídia. Para conseguir esse feito, o SESC conta com recursos próprios – prova de que instituições sérias prezam a cultura de seu povo e reconhecem o imenso retorno que isso proporciona – e apoios. Em Belém o SESC conta com a colaboração do Instituto de Artes do Pará – IAP, Teatro Maria Sylvia Nunes, da Estação das Docas, Hotel Regente e Casarão do Boneco. Mas nas palavras do Ângelo, o maior apoio é mesmo da classe artística, que participa em peso de toda a programação, assistindo, acolhendo, trocando, incentivando.
Colaborou com este artigo Ângelo Franco, técnico de cultural do SESC-PA.
domingo, junho 24, 2007
EU 6
O telefone tocou ainda umas três vezes. Olhei em volta esperando que outro funcionário atendesse, mas todos estavam ocupados. Entre resignado e irritado, tomei o fone e o engatei entre a orelha e o ombro, falando ao mesmo tempo em que digitava intermináveis planilhas. A primeira fala foi dele:
- Esse teu negócio com aquela menina tem me deixado muito incomodado!
Surpreso, parei os dedos sobre as teclas, peguei o fone, olhei em volta. Todos ainda ocupados, mas da mesma forma que eu atendi, outro poderia tê-lo feito.
- Estás me ouvindo? – ele insista do outro lado da linha.
- Estou...! E também estou muito ocupado... a gente conversa depois...
- Queres realmente levar isso a sério?
- Mas eu não...
- Todo mundo viu vocês juntos na sexta!
Perdi a paciência. Nunca gostei de cobranças e aquela me parecia demasiada.
- E daí que eu estivesse querendo-tendo-ficando alguma coisa com quem quer que seja...?
- ... me incomoda...!
- E por quê? Nas tuas próprias palavras... – e a voz já subia de tom, imitando seu jeito rápido de falar, engolindo o começo e o fim das frases – “eu tenho alguém e estou tão feliz que nem cogito outro relacionamento!”. Pois deixa que eu te diga – subindo uma oitava – eu não tenho ninguém e eu não estou feliz. – acentuando os “eus” – portanto tenho todo o direito...
Foi quando me vi refletido na janela feia que dava pro paredão do prédio feio quase colado ao nosso. Em pé, afrouxando a gravata com gana, a mão um punho segurando o fone, o centro dos olhares: maliciosos uns, cúmplices poucos, repreensivos todos.
Sentei devagar na cadeira, baixei a cabeça,curvei as costas e disse num tom grave:
- Alô...
Não havia mais ninguém na linha. Desde quando?
- Filho da puta!!!
Voltei ao trabalho. Voltamos.
Nem um minuto havia se passado quando o telefone ao meu lado tocou novamente. Todos pararam e olharam na minha direção sem levantar a cabeça. Meu coração ficou aos saltos e minha respiração curta queimava meu peito. Embolei papel, abri e fechei gavetas e dei três leves murros na minha mesa.
Voltei ao trabalho. Voltamos. Um ritmo mais lento, aguardando, enquanto o telefone feria os meus ouvidos.
E logo em seguida outro. A mão foi instintiva na direção do aparelho, congelando no meio do caminho ante meus olhos arregalados. E então outro e mais um e todos.
O chefe olhou pelo vidro que nos separava. Cabeças baixas, teclávamos e escrevíamos e calculávamos freneticamente.
Ninguém atendeu.
- Esse teu negócio com aquela menina tem me deixado muito incomodado!
Surpreso, parei os dedos sobre as teclas, peguei o fone, olhei em volta. Todos ainda ocupados, mas da mesma forma que eu atendi, outro poderia tê-lo feito.
- Estás me ouvindo? – ele insista do outro lado da linha.
- Estou...! E também estou muito ocupado... a gente conversa depois...
- Queres realmente levar isso a sério?
- Mas eu não...
- Todo mundo viu vocês juntos na sexta!
Perdi a paciência. Nunca gostei de cobranças e aquela me parecia demasiada.
- E daí que eu estivesse querendo-tendo-ficando alguma coisa com quem quer que seja...?
- ... me incomoda...!
- E por quê? Nas tuas próprias palavras... – e a voz já subia de tom, imitando seu jeito rápido de falar, engolindo o começo e o fim das frases – “eu tenho alguém e estou tão feliz que nem cogito outro relacionamento!”. Pois deixa que eu te diga – subindo uma oitava – eu não tenho ninguém e eu não estou feliz. – acentuando os “eus” – portanto tenho todo o direito...
Foi quando me vi refletido na janela feia que dava pro paredão do prédio feio quase colado ao nosso. Em pé, afrouxando a gravata com gana, a mão um punho segurando o fone, o centro dos olhares: maliciosos uns, cúmplices poucos, repreensivos todos.
Sentei devagar na cadeira, baixei a cabeça,curvei as costas e disse num tom grave:
- Alô...
Não havia mais ninguém na linha. Desde quando?
- Filho da puta!!!
Voltei ao trabalho. Voltamos.
Nem um minuto havia se passado quando o telefone ao meu lado tocou novamente. Todos pararam e olharam na minha direção sem levantar a cabeça. Meu coração ficou aos saltos e minha respiração curta queimava meu peito. Embolei papel, abri e fechei gavetas e dei três leves murros na minha mesa.
Voltei ao trabalho. Voltamos. Um ritmo mais lento, aguardando, enquanto o telefone feria os meus ouvidos.
E logo em seguida outro. A mão foi instintiva na direção do aparelho, congelando no meio do caminho ante meus olhos arregalados. E então outro e mais um e todos.
O chefe olhou pelo vidro que nos separava. Cabeças baixas, teclávamos e escrevíamos e calculávamos freneticamente.
Ninguém atendeu.
domingo, junho 17, 2007
“CUIDEM BEM DOS ATORES...”
Shakespeare disse isso e completou que somos, os atores, as vozes do nosso tempo
E que tempos são esses? Desde a mudança de governo iniciou-se uma onda de esperança de dias melhores para a cultura do Pará e percebemos algum movimento, tímido, de reforma. A mudança na direção do Teatro Experimental Waldemar Henrique buscou atender uma demanda da própria classe artística, que se mobilizou – sempre com muita língua e poucas mãos – em reuniões, listas tríplices, campanhas, eleições e, espera-se, tenha-se conseguido um bom resultado. Até o momento não foi possível avaliar isso!
Foi criado ainda um Sistema Integrado de Teatros, o SIT, que sob a direção de Aílson Braga tem desenvolvido trabalhos no sentido de revitalizar, unificar, implementar, conhecer, fomentar – e outros verbos no infinitivo – nossa cultura no que ela tem de plural e de melhor, seja em que corrente atue. Sou amigo pessoal do Aílson, já tive o prazer de trabalhar com ele em vários momentos e reconheço suas qualidades como ator, diretor, dramaturgo, escritor e por isso creio que ele entenda nossas necessidades e se esforce para supri-las. Tarefa inglória. Alçado a essa condição, recai em suas costas os anseios de uma classe desunida que costuma ceifar mais do que semeou. Ao mesmo tempo um povo apaixonado pelo que faz, que abre mão de uma (pretensa) estabilidade social e econômica para levar adiante sua arte. O trabalho que o SIT iniciou ainda não é visível, mas eu ponho muita fé nele.
De cima da ribalta continuamos nós. E temos trabalhado bastante. Somos grupos muito jovens, como a Nós Outros – que prepara A Comédia dos Erros, de Shakespeare – e os Desabusados com seu Quem vai Levar Mariazinha Pra Passear?, veteranos como Cuíra e Gruta – respectivamente com Laquê e A Peleja dos soca-soca João cupu e Zé Bacu –, outros trabalhos, mais recentes, no entanto sob a tutela de grandes nomes do nosso teatro, como O Império de São Benedito, dirigido por Karine Jansen, que ainda montou uma instalação fotográfica sobre a história do teatro paraense, em exposição no Hall do Espaço cuíra e Em Carne e Osso, da Wlad Lima. Gente muito jovem em idade e experiência também dão seus passos, como o Kronus, que dia 29 de maio apresentou para um Waldemar Henrique lotado, Amor Barato, baseado na obra Amor de Perdição, do português Camilo Castelo Branco. O Nós do teatro estreou no último dia 08 de junho Arlequim, servidor de dois amos, dirigido por Rodrigues Neto – um dos espetáculos contemplados com o prêmio Miriam Muniz, da Fundação Nacional de Arte – FUNARTE, no anfiteatro da praça da República. A In Bust iniciou um projeto chamado Sábado Sim, Sábado Não, tem Teatro Infantil no Casarão, apresentando espetáculos voltados ao público infanto-juvenil, que ao custo de um brinquedo, ingressa no universo mágico de lendas, fantasias e bonecos com a própria In Bust e a Entreatos Companhia de Artes, que também se apresenta no Forte de São Pedro Nolasco, na Estação das Docas, com os espetáculos Histórias de Vagalume e Carro-Céu. No último 28 de abril a Escola de Teatro e Dança da UFPA promoveu o primeiro Cena Aberta de 2007, com performances de teatro, dança, música e uma exposição interativa de figurinos dos espetáculos promovidos pela instituição. Na mesma data a EDTUFPA recebeu oficialmente a posse do antigo prédio do MEC, que passa em definitivo a ser um espaço de aprendizado e, sobretudo, do fazer artístico na capital do Pará, celebrado com um abraço simbólico no prédio, que recebeu ainda recursos para a construção de um teatro experimental num de seus galpões. Na ocasião, Miguel Santa Brígida e o ICA (antigo Núcleo de Arte) lançaram O Auto do Círio 2007, com a apresentação do cartaz oficial do evento e um mini cortejo que reuniu personagens das diferentes matrizes artísticas e culturais que formam o espetáculo que vai à cena sempre na sexta-feira que antecede a procissão do círio de Nossa Senhora de Nazaré, em outubro, na Cidade Velha. Recentemente um movimento chamado Arruassa promoveu um encontro de performances e intervenções na praça do Carmo, reunindo vários artistas de Belém, apresentando teatro, música e artes plásticas. Num segundo momento e com o apoio do Cuíra, o Arruassa alterou a paisagem da Primeiro de Março, no Dia do Trabalho, questionando através de pinturas e grafites o abandono e descaso com aquela área da nossa cidade.
Muito mais gente está trabalhando, escrevendo, dirigindo, dançando – salve Ana Flávia Mendes e a Companhia Moderno de Dança! Salva, Jaime Amaral e seus bailarinos –, cantando – Júlio Freitas, Clepsidra, Vinil Laranja –, atuando dentro e fora dos palcos, iluminando – Milton Aires, David Matos, Sônia Lopes, Patrícia Gondim e Oriana Bitar – e sonorizando – Rutiel Felipe, o tico, Léo Bitar, Fábio Cavalcante, Marcus Paulo, João Paulo e Júnior Cabrali, os fantásticos (desculpem a falta de modéstia) músicos da Nós Outros – cenas, sem falar nos cenários e figurinos de Aníbal Pacha e Nando Lima.
Sei que muito mais gente está em plena atividade em Belém, mas por essas coisas que a gente não compreende, não nos conhecemos, não nos sabemos e não divulgamos o trabalho alheio – o que longe de nos roubar mercado, traria maior visibilidade pela multiplicação da propaganda boca-a-boca, defendida por Éster Sá, escritora, atriz e diretora, atualmente na Desabusados.
Aliás, dia desses, por e-mail, uma publicação carioca especializada em teatro me pediu indicação de iluminadores e cenógrafos para uma matéria. Indiquei quem eu conhecia. Quantos mais eu não conheço e não pude indicar? Saiam da toca! Escrevam pra nos-outros@hotmail.com, ou neste blog e deixem seus contatos. Vamos aparecer!!!
Não gostaria de me delongar e ainda nem comecei propriamente a falar do que pretendia com este artigo, mas antes me seria de muita valia se eu soubesse vossa opinião: quando vemos a Bienal de Música abortada por mesquinhas questões políticas, o declínio alarmante do Festival de Ópera – enquanto o de Manaus cresce maravilhosamente. Parabéns pra eles!!! –, os contratempos trazidos pela mudança do nome do concurso de canto lírico Bidu Sayão por questões de marcas – não questiono (muito) isso, apenas cito –, apesar de tanta gente e trabalhos acima citados, mas pouco vistos, pelo nosso descaso em formar platéias que nos assistam e não questionem boquiabertas que o ingresso ao espetáculo seja cobrado, pela ainda falta de espaço para ensaios, pela sempre dificuldade na captação de recursos para nossas montagens, qual é o futuro da Arte em Belém e no Estado do Pará? O que temos pra oferecer e o que queremos de volta?
Por favor, respondam. Usem este espaço, ou escrevam para nos-outros@hotmail.com.
E que tempos são esses? Desde a mudança de governo iniciou-se uma onda de esperança de dias melhores para a cultura do Pará e percebemos algum movimento, tímido, de reforma. A mudança na direção do Teatro Experimental Waldemar Henrique buscou atender uma demanda da própria classe artística, que se mobilizou – sempre com muita língua e poucas mãos – em reuniões, listas tríplices, campanhas, eleições e, espera-se, tenha-se conseguido um bom resultado. Até o momento não foi possível avaliar isso!
Foi criado ainda um Sistema Integrado de Teatros, o SIT, que sob a direção de Aílson Braga tem desenvolvido trabalhos no sentido de revitalizar, unificar, implementar, conhecer, fomentar – e outros verbos no infinitivo – nossa cultura no que ela tem de plural e de melhor, seja em que corrente atue. Sou amigo pessoal do Aílson, já tive o prazer de trabalhar com ele em vários momentos e reconheço suas qualidades como ator, diretor, dramaturgo, escritor e por isso creio que ele entenda nossas necessidades e se esforce para supri-las. Tarefa inglória. Alçado a essa condição, recai em suas costas os anseios de uma classe desunida que costuma ceifar mais do que semeou. Ao mesmo tempo um povo apaixonado pelo que faz, que abre mão de uma (pretensa) estabilidade social e econômica para levar adiante sua arte. O trabalho que o SIT iniciou ainda não é visível, mas eu ponho muita fé nele.
De cima da ribalta continuamos nós. E temos trabalhado bastante. Somos grupos muito jovens, como a Nós Outros – que prepara A Comédia dos Erros, de Shakespeare – e os Desabusados com seu Quem vai Levar Mariazinha Pra Passear?, veteranos como Cuíra e Gruta – respectivamente com Laquê e A Peleja dos soca-soca João cupu e Zé Bacu –, outros trabalhos, mais recentes, no entanto sob a tutela de grandes nomes do nosso teatro, como O Império de São Benedito, dirigido por Karine Jansen, que ainda montou uma instalação fotográfica sobre a história do teatro paraense, em exposição no Hall do Espaço cuíra e Em Carne e Osso, da Wlad Lima. Gente muito jovem em idade e experiência também dão seus passos, como o Kronus, que dia 29 de maio apresentou para um Waldemar Henrique lotado, Amor Barato, baseado na obra Amor de Perdição, do português Camilo Castelo Branco. O Nós do teatro estreou no último dia 08 de junho Arlequim, servidor de dois amos, dirigido por Rodrigues Neto – um dos espetáculos contemplados com o prêmio Miriam Muniz, da Fundação Nacional de Arte – FUNARTE, no anfiteatro da praça da República. A In Bust iniciou um projeto chamado Sábado Sim, Sábado Não, tem Teatro Infantil no Casarão, apresentando espetáculos voltados ao público infanto-juvenil, que ao custo de um brinquedo, ingressa no universo mágico de lendas, fantasias e bonecos com a própria In Bust e a Entreatos Companhia de Artes, que também se apresenta no Forte de São Pedro Nolasco, na Estação das Docas, com os espetáculos Histórias de Vagalume e Carro-Céu. No último 28 de abril a Escola de Teatro e Dança da UFPA promoveu o primeiro Cena Aberta de 2007, com performances de teatro, dança, música e uma exposição interativa de figurinos dos espetáculos promovidos pela instituição. Na mesma data a EDTUFPA recebeu oficialmente a posse do antigo prédio do MEC, que passa em definitivo a ser um espaço de aprendizado e, sobretudo, do fazer artístico na capital do Pará, celebrado com um abraço simbólico no prédio, que recebeu ainda recursos para a construção de um teatro experimental num de seus galpões. Na ocasião, Miguel Santa Brígida e o ICA (antigo Núcleo de Arte) lançaram O Auto do Círio 2007, com a apresentação do cartaz oficial do evento e um mini cortejo que reuniu personagens das diferentes matrizes artísticas e culturais que formam o espetáculo que vai à cena sempre na sexta-feira que antecede a procissão do círio de Nossa Senhora de Nazaré, em outubro, na Cidade Velha. Recentemente um movimento chamado Arruassa promoveu um encontro de performances e intervenções na praça do Carmo, reunindo vários artistas de Belém, apresentando teatro, música e artes plásticas. Num segundo momento e com o apoio do Cuíra, o Arruassa alterou a paisagem da Primeiro de Março, no Dia do Trabalho, questionando através de pinturas e grafites o abandono e descaso com aquela área da nossa cidade.
Muito mais gente está trabalhando, escrevendo, dirigindo, dançando – salve Ana Flávia Mendes e a Companhia Moderno de Dança! Salva, Jaime Amaral e seus bailarinos –, cantando – Júlio Freitas, Clepsidra, Vinil Laranja –, atuando dentro e fora dos palcos, iluminando – Milton Aires, David Matos, Sônia Lopes, Patrícia Gondim e Oriana Bitar – e sonorizando – Rutiel Felipe, o tico, Léo Bitar, Fábio Cavalcante, Marcus Paulo, João Paulo e Júnior Cabrali, os fantásticos (desculpem a falta de modéstia) músicos da Nós Outros – cenas, sem falar nos cenários e figurinos de Aníbal Pacha e Nando Lima.
Sei que muito mais gente está em plena atividade em Belém, mas por essas coisas que a gente não compreende, não nos conhecemos, não nos sabemos e não divulgamos o trabalho alheio – o que longe de nos roubar mercado, traria maior visibilidade pela multiplicação da propaganda boca-a-boca, defendida por Éster Sá, escritora, atriz e diretora, atualmente na Desabusados.
Aliás, dia desses, por e-mail, uma publicação carioca especializada em teatro me pediu indicação de iluminadores e cenógrafos para uma matéria. Indiquei quem eu conhecia. Quantos mais eu não conheço e não pude indicar? Saiam da toca! Escrevam pra nos-outros@hotmail.com, ou neste blog e deixem seus contatos. Vamos aparecer!!!
Não gostaria de me delongar e ainda nem comecei propriamente a falar do que pretendia com este artigo, mas antes me seria de muita valia se eu soubesse vossa opinião: quando vemos a Bienal de Música abortada por mesquinhas questões políticas, o declínio alarmante do Festival de Ópera – enquanto o de Manaus cresce maravilhosamente. Parabéns pra eles!!! –, os contratempos trazidos pela mudança do nome do concurso de canto lírico Bidu Sayão por questões de marcas – não questiono (muito) isso, apenas cito –, apesar de tanta gente e trabalhos acima citados, mas pouco vistos, pelo nosso descaso em formar platéias que nos assistam e não questionem boquiabertas que o ingresso ao espetáculo seja cobrado, pela ainda falta de espaço para ensaios, pela sempre dificuldade na captação de recursos para nossas montagens, qual é o futuro da Arte em Belém e no Estado do Pará? O que temos pra oferecer e o que queremos de volta?
Por favor, respondam. Usem este espaço, ou escrevam para nos-outros@hotmail.com.
sábado, junho 02, 2007
EU 5
O porteiro sequer olhou na minha cara. Tão automático quanto o portou, clicou meu acesso e voltou à TV com bundas e peitos sacolejantes.
No hall do primeiro bloco um casal de namorados, um rapaz ao celular, gesticulando. Ninguém viu a sombra que passou. “Fosse uma cobra...” diria minha avó num outro contexto.
O elevador subiu segundos antes que eu o alcançasse e como foi até o último andar, demorou a voltar. Esperei que ele trouxesse alguém e seria quase impossível abrir a porta e não dizer oi-boa-noite-e-aí-como-vai. Vazio, claro!
Segurei ainda a porta alguns minutos esperando que alguém chegasse e quisesse subir. Duas da manhã. Quem viria? Suspirei. Subi.
Na metade do caminho enfiei os dedos nos botões, travei o elevador entre dois andares e o mantive assim. Sorri ante meu próprio ato terrorista, meu momento de mando; rei de um cubículo prateado com súditos numéricos: x pessoas, ou tantos quilos. Até que era muita coisa!
O tempo foi passando. Dei de ombros.
Dane-se o porteiro mal-humorado recebendo dezenas de chamadas de gente querendo descer e reclamações de gente querendo subir. Dane-se o síndico acordado pela impaciente do 407 gritando que o elevador quebrara de novo. Às favas a gorda do 703 que só faz compras em supermercados 24 horas, bobes na cabeça. Pro inferno as gêmeas do 202. dollies mal-criadas e choronas à caminho da escola. Foda-se o boyzinho do 805, o tanquinho aparecendo toda vez que ele levanta os braços pra arrumar as mangas da camisa. E ele as ajeita muitas vezes. Morra da infarto a cobra do 501 comentando com a empregada sonolenta que a putinha do 304 já estava de sacanagem com o cara casado do 906.
Dane-se eu, se acho que alguém vai se incomodar com o elevador, comigo, ou com o que quer que seja.
Cinco da manhã. Quem?!
Suspirei. Desci.
Belém, Pará, 01 de junho de 2007.
15h54, modificado em 02.06.2007, 01h13.
No hall do primeiro bloco um casal de namorados, um rapaz ao celular, gesticulando. Ninguém viu a sombra que passou. “Fosse uma cobra...” diria minha avó num outro contexto.
O elevador subiu segundos antes que eu o alcançasse e como foi até o último andar, demorou a voltar. Esperei que ele trouxesse alguém e seria quase impossível abrir a porta e não dizer oi-boa-noite-e-aí-como-vai. Vazio, claro!
Segurei ainda a porta alguns minutos esperando que alguém chegasse e quisesse subir. Duas da manhã. Quem viria? Suspirei. Subi.
Na metade do caminho enfiei os dedos nos botões, travei o elevador entre dois andares e o mantive assim. Sorri ante meu próprio ato terrorista, meu momento de mando; rei de um cubículo prateado com súditos numéricos: x pessoas, ou tantos quilos. Até que era muita coisa!
O tempo foi passando. Dei de ombros.
Dane-se o porteiro mal-humorado recebendo dezenas de chamadas de gente querendo descer e reclamações de gente querendo subir. Dane-se o síndico acordado pela impaciente do 407 gritando que o elevador quebrara de novo. Às favas a gorda do 703 que só faz compras em supermercados 24 horas, bobes na cabeça. Pro inferno as gêmeas do 202. dollies mal-criadas e choronas à caminho da escola. Foda-se o boyzinho do 805, o tanquinho aparecendo toda vez que ele levanta os braços pra arrumar as mangas da camisa. E ele as ajeita muitas vezes. Morra da infarto a cobra do 501 comentando com a empregada sonolenta que a putinha do 304 já estava de sacanagem com o cara casado do 906.
Dane-se eu, se acho que alguém vai se incomodar com o elevador, comigo, ou com o que quer que seja.
Cinco da manhã. Quem?!
Suspirei. Desci.
Belém, Pará, 01 de junho de 2007.
15h54, modificado em 02.06.2007, 01h13.
segunda-feira, maio 21, 2007
EU 4
O ônibus dobrou à esquerda e naquela rua o sol recém parido subia forte. Pego de surpresa, fechei os olhos, mas a luz que avançava pelas frestas das minhas pálpebras criava para mim um mundo laranja levemente sanguíneo. Enterrei a cabeça entre os braços, contra o encosto do banco da frente. Pouca melhora. A luz me invadia por todos os lados.
Sempre disse que não queria viver longe da minha terra e se preciso fosse um afastamento, queria tornar a ela antes de morrer e aqui terminar os meus dias, como os velhos elefantes, ou os peixes piracema acima. E por mais contraditório que isso possa parecer, o que mais eu sentiria falta do berço seria a luz. Uma luminosidade quente, branca, que dá às mangueiras um tom esmeralda, fazendo brilhar as Marias dos poucos azulejos sobreviventes, tornando o asfalto um rio barrento e duro. Uma luz que esquentava brotando poças nos sovacos, costas, nas barrigas proeminentes, escorrendo pelas pernas com um certo nojo salgado.
Ontem, na escuridão da minha noite insone, o que me iluminava era a tela pela qual conversávamos; desde há muito, a única forma de contato, nosso único elo. Eu poderia encarar isso como uma fuga do momento em que diríamos o que era evidente? Que não mais me querias, ou que nunca me quiseste, que eu te deixei faltar algo, ou que exagerei nos cuidados? Que ele te fazia mais feliz que eu... que o deixaste, encantado pelas minhas palavras melífluas, vazias, o que só tardiamente descobriste. Ou talvez o vazio fosse teu, pois te jogaste com um furor apaixonado, típico da juventude, bebendo direto na veia, deixando a mim, minha cama e meu dia exaustos quando partias com essa luz azul-dourada do nascer do sol.
Ontem eu não dormi. Encerrar a conexão fora um presságio, minhas fundas olheiras e os pequenos vasos nos olhos aumentando minha fotofobia mesmo debaixo dos óculos escuros.
Ontem tu dormiste? Se ao te encontrar estiveres bem disposto, os olhos castanhos ainda mais claros pela luz branco-quente da minha cidade natal; se te sentares sorridente, mastigando salgadinhos, saberei que acabou.
Desço do ônibus desejando te encontrar mortificado, um boné escondendo os cabelos despenteados, a camisa – a primeira que encontraste – meio amassada e um pouco torta no corpo. Ao mesmo tempo entro numa lanchonete, lavo cuidadosamente o rosto, arrumo meticuloso os cabelos e as roupas. Examino meu andar, o hálito, o pulso. Ensaio sorrisos e cumprimentos másculos.
Depois de longos minutos e por causa do chuvisco, vou embora.
Na caixa de entrada, o recado: “Desculpa, não deu. Dormi demais!”
Pela janela os astros vaticinavam mais uma noite em claro.
Belém, Pará, 18 de maio de 2007 AD
11h01
Sempre disse que não queria viver longe da minha terra e se preciso fosse um afastamento, queria tornar a ela antes de morrer e aqui terminar os meus dias, como os velhos elefantes, ou os peixes piracema acima. E por mais contraditório que isso possa parecer, o que mais eu sentiria falta do berço seria a luz. Uma luminosidade quente, branca, que dá às mangueiras um tom esmeralda, fazendo brilhar as Marias dos poucos azulejos sobreviventes, tornando o asfalto um rio barrento e duro. Uma luz que esquentava brotando poças nos sovacos, costas, nas barrigas proeminentes, escorrendo pelas pernas com um certo nojo salgado.
Ontem, na escuridão da minha noite insone, o que me iluminava era a tela pela qual conversávamos; desde há muito, a única forma de contato, nosso único elo. Eu poderia encarar isso como uma fuga do momento em que diríamos o que era evidente? Que não mais me querias, ou que nunca me quiseste, que eu te deixei faltar algo, ou que exagerei nos cuidados? Que ele te fazia mais feliz que eu... que o deixaste, encantado pelas minhas palavras melífluas, vazias, o que só tardiamente descobriste. Ou talvez o vazio fosse teu, pois te jogaste com um furor apaixonado, típico da juventude, bebendo direto na veia, deixando a mim, minha cama e meu dia exaustos quando partias com essa luz azul-dourada do nascer do sol.
Ontem eu não dormi. Encerrar a conexão fora um presságio, minhas fundas olheiras e os pequenos vasos nos olhos aumentando minha fotofobia mesmo debaixo dos óculos escuros.
Ontem tu dormiste? Se ao te encontrar estiveres bem disposto, os olhos castanhos ainda mais claros pela luz branco-quente da minha cidade natal; se te sentares sorridente, mastigando salgadinhos, saberei que acabou.
Desço do ônibus desejando te encontrar mortificado, um boné escondendo os cabelos despenteados, a camisa – a primeira que encontraste – meio amassada e um pouco torta no corpo. Ao mesmo tempo entro numa lanchonete, lavo cuidadosamente o rosto, arrumo meticuloso os cabelos e as roupas. Examino meu andar, o hálito, o pulso. Ensaio sorrisos e cumprimentos másculos.
Depois de longos minutos e por causa do chuvisco, vou embora.
Na caixa de entrada, o recado: “Desculpa, não deu. Dormi demais!”
Pela janela os astros vaticinavam mais uma noite em claro.
Belém, Pará, 18 de maio de 2007 AD
11h01
quinta-feira, abril 12, 2007
EU 3
Subi as escadas pesado. Sapatos nas mãos, livros no sovaco.
A porta do meu quarto escuro, aberta e convidativa, anunciava cama, sono e repouso há muito esperados.
Mal eu entrara no quarto e a luz se acendera, senti o impacto seco e estalado sobre a boca. Assustado, respiração presa, olhei em volta. Nada! Imediatamente o cérebro raciocinou: uma barata! Daquelas enormes, pretas e voadoras, que Satanás botou na Terra pra separar homens de meninos e pôr à prova as mulheres.
Mas onde estaria a desgraçada?
Patético, fiquei girando em torno de mim, olhando carrancudo cada canto, enquanto a manga da camisa esfregava repetidamente os lábios, tentando livrá-los da imundície daquele que e o mais asqueroso de todos os insetos. (Claro que eu odeio infinitamente mais as aranhas, mas estas, apesar de artrópodes, não são insetos, mas aracnídeos da ordem araneidos.)
Pois bem. Patético, fiquei girando em torno de mim, olhando carrancudo cada canto, quando um arrepio percorreu minha espinha. Matreira, a barata saía de dentro do sapato que eu segurava e subia vitoriosa pelo meu braço. Eu tinha lhe dado guarita; eu lhe dera asilo. Agora ela reclamava aconchego.
Agitei os braços lançando inseto, sapatos e raiva pra longe. A barata caiu no chão, arrumou as asas cor de sombra, aprumou as antenas e fixou os ocelos em mim. Durante vários minutos ficamos assim, face-off, inimigos declarados. Eu, animália, primata, superior em tudo, raça dominante pela tecnologia e inteligência, visão em cores, fala articulada, inconsciente de mim. No canto oposto ela, a barata, animália, blattaria, apenas alguns gramas, de uma classe numericamente capaz de dominar meu mundo civilizado, rudimentos de sistema nervoso, inconsciente de si.
Não éramos, afinal, tão diversos um do outro.
Ainda assim exigia o mundo que eu a destruísse e prevalecesse sobre a mesquinhez da sua existência. Avancei lento, apanhei um dos sapatos. Empertiguei o corpo. A barata agitou as asas, pulou para a parede e dali para a janela aberta, à escuridão e ao vento fresco da madrugada.
Eu fiquei ali parado contra as grades do meu quarto, enfim vencido.
Sem poder voar, minha inconsciência pesava mais que meus exaustos passos escada acima.
10.abril.2007 – 10h56
Modificado em 12.abril.2007 – 02h04
A porta do meu quarto escuro, aberta e convidativa, anunciava cama, sono e repouso há muito esperados.
Mal eu entrara no quarto e a luz se acendera, senti o impacto seco e estalado sobre a boca. Assustado, respiração presa, olhei em volta. Nada! Imediatamente o cérebro raciocinou: uma barata! Daquelas enormes, pretas e voadoras, que Satanás botou na Terra pra separar homens de meninos e pôr à prova as mulheres.
Mas onde estaria a desgraçada?
Patético, fiquei girando em torno de mim, olhando carrancudo cada canto, enquanto a manga da camisa esfregava repetidamente os lábios, tentando livrá-los da imundície daquele que e o mais asqueroso de todos os insetos. (Claro que eu odeio infinitamente mais as aranhas, mas estas, apesar de artrópodes, não são insetos, mas aracnídeos da ordem araneidos.)
Pois bem. Patético, fiquei girando em torno de mim, olhando carrancudo cada canto, quando um arrepio percorreu minha espinha. Matreira, a barata saía de dentro do sapato que eu segurava e subia vitoriosa pelo meu braço. Eu tinha lhe dado guarita; eu lhe dera asilo. Agora ela reclamava aconchego.
Agitei os braços lançando inseto, sapatos e raiva pra longe. A barata caiu no chão, arrumou as asas cor de sombra, aprumou as antenas e fixou os ocelos em mim. Durante vários minutos ficamos assim, face-off, inimigos declarados. Eu, animália, primata, superior em tudo, raça dominante pela tecnologia e inteligência, visão em cores, fala articulada, inconsciente de mim. No canto oposto ela, a barata, animália, blattaria, apenas alguns gramas, de uma classe numericamente capaz de dominar meu mundo civilizado, rudimentos de sistema nervoso, inconsciente de si.
Não éramos, afinal, tão diversos um do outro.
Ainda assim exigia o mundo que eu a destruísse e prevalecesse sobre a mesquinhez da sua existência. Avancei lento, apanhei um dos sapatos. Empertiguei o corpo. A barata agitou as asas, pulou para a parede e dali para a janela aberta, à escuridão e ao vento fresco da madrugada.
Eu fiquei ali parado contra as grades do meu quarto, enfim vencido.
Sem poder voar, minha inconsciência pesava mais que meus exaustos passos escada acima.
10.abril.2007 – 10h56
Modificado em 12.abril.2007 – 02h04
quarta-feira, abril 04, 2007
AH, SENHOR, A VAIDADE!
Muito já se falou deste que é um dos sete Pecados Capitais e nas artes ele parece assumir um caráter quase de obrigatoriedade. Astros e estrelas se esmeram em exigências absurdas e comportamentos anti-éticos em nome de suas famas, crentes no poder que lhes foi outorgado pela admiração pública. Julgam que podem agir livremente, quando em verdade precisam ter o dobro da responsabilidade.
Não foi nem um nem dois que tombou! Um caso clássico é do Kevin Costner, alguém que eu julgava um bom ator e que fez filmes que me encantaram e emocionaram, só pra citar Dança com Lobos, um dos primeiros exemplares desses filmes (dizque) proposta falados em línguas diversas do inglês, idioma oficial dos egípcios da I Dinastia aos Klingons. Com O Segredo das Águas e O Carteiro ele enterrou sua carreira com os milhões investidos numa megalomania suja e feia. Recentemente uma crítica sobre Superman – O Retorno, comentava a vaidade do diretor Brian Singer – outro que eu considero um ótimo profissional e que afirmava, nunca tinha me decepcionado – em fazer do Escoteiro de Metrópolis em deus, em cenas que traçavam paralelos esdrúxulos entre ele e o Cristo, além de outros pecados. Penso que Singer errou feio mesmo, da escolha do elenco ao uso spilbergueriano do cinema.
Então vislumbrei mais uma queda: Apocalypto, de Mel Gibson, é um filme horroroso! O americano criado na Austrália fez uma carreira brilhante em Hollywood. Começou sendo dublado em Mad Max, porque ninguém entendia o que ele dizia no inglês “complicado” da Oceania, passando por momentos memoráveis do cinema-pipoca – os tantos Máquina Mortífera – até a fundação de sua produtora, a Icon. Gibson fez de tudo: drama, comédia, suspense e até Shakespeare. Produziu, dirigiu e protagonizou um dos campeões do Oscar, Coração Valente, desses épicos tão bons que não podem ter continuação. Daí investiu nas línguas mortas e levou às telas em aramaico e latim A Paixão de Cristo, onde já brotava a semente da árvore na qual ele se enforcaria. Sectarista religioso e extremista foram adjetivos que se juntaram ao homofóbico e intransigente, mas o alarido em torno do filme só fez aumentar a propaganda e os outros estúdios, espertamente, inauguraram setores que trabalhariam filmes com temáticas semelhantes, ainda que menos, digamos, artísticos, para garantir o leite das crianças e colaborar com a evolução moral da humanidade.
Apocalypto deveria mostrar outra dessas histórias de sofrimento e dor e começa com uma frase que demonstraria a que o filme veio: “Uma nação só pode ser destruída se já estiver consumida por dentro”. Mais ou menos isso! O que se vê, no entanto, é uma piada de péssimo gosto, com referências sexuais dignas de A Turma do Didi, filosofia de almanaque, atuações inspiradas nas modelos das novelas globais das oito; filmado com um grande contingente de populares, falado nas línguas nativas, o filme começa num ritmo lento, apresentando aqueles que seriam as vítimas dos vilões malvados e facínoras como um povo alegre, orgulhoso de sua força e tradição, familiar, amoroso. No segundo momento, somos apresentados ao lado negro da força: os maias, gente sem coração (será por isso que eles arrancam o dos outros?!), violenta, debochada, sensual, supersticiosa, canalha mesmo! Nesses dois momentos vemos os cenários pífios – digitais, ou de pau a pique, mas pífios. Daí começa o momento corra-lola-corra (sem o charme germânico) e o típico cinema americano: o exército de um homem só, abatido, ferido, de quem se tirou tudo, ou quase tudo, que depois de levar muita peia destrói na moral a cambada que o persegue. O filme termina onde a propaganda dizia que ele começaria: a chegada dos espanhóis, o verdadeiro inimigo, mas daí já tinham passado umas duas horas e seria necessária uma continuação, que Deus nos proteja! A imensa samaumeira que tomba lá pelas tantas (pra que essa cena mesmo?) há de erguer-se para servir de cadafalso ao cara que sabe o que as mulheres gostam.
No começo deste texto eu falava da vaidade. Mel Gibson em Apocalypto é um típico exemplo disso. Outros tantos artistas criam obras que só eles mesmos entendem. Defendo que a avaliação de uma obra de arte seja antes sentimento do que razão e que o distinto público não precisa entender de escalas cromáticas, semi-tons, etnocenologia para apreciá-las. Igualmente defendo que é preciso pensar no público, a fim de evitar resultados tão obscuros, acessíveis quiçá à pitonisa de Delfos. Da mesma forma defendo que precisamos tirar a platéia da mesmice. Dia desses fui chamado de vaidoso por defender um trabalho que fugisse do lugar-comum, porque esse lugar-comum é o que o público deseja. O povo que assiste Pé na Jaca, talvez. Acredito que as fórmulas requentadas das novelas – atualmente o pior produto da cultura de massa em exibição na TV – são a porta larga depois de um dia exaustivo de escritórios e paradas de ônibus. Mas a ousadia não seria bem vinda? Pequenas jóias produzidas aqui e ali não encantam pela antevisão do novo e/ou do diferente?
Ao fugir do clichê podemos sim optar pelo hermetismo e do alto da nossa arrogância exigir que as pessoas subam ao nosso empíreo por um fio de teia. Mas igualmente podemos oferecer-lhes novos sabores, como descobrir que a melhor canção do CD não é aquela que toca na rádio.
A vaidade é sim inerente ao artista, pela busca do belo e do perfeito. Pecamos porque ao filtrar o belo e o bom pelos nossos humores mortais conseguimos apenas resultados pálidos que, no entanto, enfiamos goela abaixo do povo, sem discernimento.
Contraditoriamente, não defendo que haja algo de bom na vaidade, mas abraço a causa da busca, do experimento; de buscar as pérolas no fundo do mar escuro, mesmo que à custa de todo o ar do nosso peito.
Não foi nem um nem dois que tombou! Um caso clássico é do Kevin Costner, alguém que eu julgava um bom ator e que fez filmes que me encantaram e emocionaram, só pra citar Dança com Lobos, um dos primeiros exemplares desses filmes (dizque) proposta falados em línguas diversas do inglês, idioma oficial dos egípcios da I Dinastia aos Klingons. Com O Segredo das Águas e O Carteiro ele enterrou sua carreira com os milhões investidos numa megalomania suja e feia. Recentemente uma crítica sobre Superman – O Retorno, comentava a vaidade do diretor Brian Singer – outro que eu considero um ótimo profissional e que afirmava, nunca tinha me decepcionado – em fazer do Escoteiro de Metrópolis em deus, em cenas que traçavam paralelos esdrúxulos entre ele e o Cristo, além de outros pecados. Penso que Singer errou feio mesmo, da escolha do elenco ao uso spilbergueriano do cinema.
Então vislumbrei mais uma queda: Apocalypto, de Mel Gibson, é um filme horroroso! O americano criado na Austrália fez uma carreira brilhante em Hollywood. Começou sendo dublado em Mad Max, porque ninguém entendia o que ele dizia no inglês “complicado” da Oceania, passando por momentos memoráveis do cinema-pipoca – os tantos Máquina Mortífera – até a fundação de sua produtora, a Icon. Gibson fez de tudo: drama, comédia, suspense e até Shakespeare. Produziu, dirigiu e protagonizou um dos campeões do Oscar, Coração Valente, desses épicos tão bons que não podem ter continuação. Daí investiu nas línguas mortas e levou às telas em aramaico e latim A Paixão de Cristo, onde já brotava a semente da árvore na qual ele se enforcaria. Sectarista religioso e extremista foram adjetivos que se juntaram ao homofóbico e intransigente, mas o alarido em torno do filme só fez aumentar a propaganda e os outros estúdios, espertamente, inauguraram setores que trabalhariam filmes com temáticas semelhantes, ainda que menos, digamos, artísticos, para garantir o leite das crianças e colaborar com a evolução moral da humanidade.
Apocalypto deveria mostrar outra dessas histórias de sofrimento e dor e começa com uma frase que demonstraria a que o filme veio: “Uma nação só pode ser destruída se já estiver consumida por dentro”. Mais ou menos isso! O que se vê, no entanto, é uma piada de péssimo gosto, com referências sexuais dignas de A Turma do Didi, filosofia de almanaque, atuações inspiradas nas modelos das novelas globais das oito; filmado com um grande contingente de populares, falado nas línguas nativas, o filme começa num ritmo lento, apresentando aqueles que seriam as vítimas dos vilões malvados e facínoras como um povo alegre, orgulhoso de sua força e tradição, familiar, amoroso. No segundo momento, somos apresentados ao lado negro da força: os maias, gente sem coração (será por isso que eles arrancam o dos outros?!), violenta, debochada, sensual, supersticiosa, canalha mesmo! Nesses dois momentos vemos os cenários pífios – digitais, ou de pau a pique, mas pífios. Daí começa o momento corra-lola-corra (sem o charme germânico) e o típico cinema americano: o exército de um homem só, abatido, ferido, de quem se tirou tudo, ou quase tudo, que depois de levar muita peia destrói na moral a cambada que o persegue. O filme termina onde a propaganda dizia que ele começaria: a chegada dos espanhóis, o verdadeiro inimigo, mas daí já tinham passado umas duas horas e seria necessária uma continuação, que Deus nos proteja! A imensa samaumeira que tomba lá pelas tantas (pra que essa cena mesmo?) há de erguer-se para servir de cadafalso ao cara que sabe o que as mulheres gostam.
No começo deste texto eu falava da vaidade. Mel Gibson em Apocalypto é um típico exemplo disso. Outros tantos artistas criam obras que só eles mesmos entendem. Defendo que a avaliação de uma obra de arte seja antes sentimento do que razão e que o distinto público não precisa entender de escalas cromáticas, semi-tons, etnocenologia para apreciá-las. Igualmente defendo que é preciso pensar no público, a fim de evitar resultados tão obscuros, acessíveis quiçá à pitonisa de Delfos. Da mesma forma defendo que precisamos tirar a platéia da mesmice. Dia desses fui chamado de vaidoso por defender um trabalho que fugisse do lugar-comum, porque esse lugar-comum é o que o público deseja. O povo que assiste Pé na Jaca, talvez. Acredito que as fórmulas requentadas das novelas – atualmente o pior produto da cultura de massa em exibição na TV – são a porta larga depois de um dia exaustivo de escritórios e paradas de ônibus. Mas a ousadia não seria bem vinda? Pequenas jóias produzidas aqui e ali não encantam pela antevisão do novo e/ou do diferente?
Ao fugir do clichê podemos sim optar pelo hermetismo e do alto da nossa arrogância exigir que as pessoas subam ao nosso empíreo por um fio de teia. Mas igualmente podemos oferecer-lhes novos sabores, como descobrir que a melhor canção do CD não é aquela que toca na rádio.
A vaidade é sim inerente ao artista, pela busca do belo e do perfeito. Pecamos porque ao filtrar o belo e o bom pelos nossos humores mortais conseguimos apenas resultados pálidos que, no entanto, enfiamos goela abaixo do povo, sem discernimento.
Contraditoriamente, não defendo que haja algo de bom na vaidade, mas abraço a causa da busca, do experimento; de buscar as pérolas no fundo do mar escuro, mesmo que à custa de todo o ar do nosso peito.
quarta-feira, março 28, 2007
EU 2
Quando a gente olha pra cima nessas horas em que o dia vai nascendo, pensa poder acompanhar o espetáculo desse sol que desabrocha, despetalando luz por sobre a Terra. Vã ilusão! Num momento o céu é azul anil, escuro, pesado e as estrelas ainda estão lá, pálidas, mas presentes. Logo depois o céu está raiado de tons de laranja e de vermelho. Nenhuma estrela mais é visível. E então o sol irrompe com força pintando o alto de azul celeste, desses tons angelicais que apertam o coração. A luz, mesmo que insista em não se recolher, tem de se acomodar a sua posição de coadjuvante, apagada como um fantasma.
Num desses reveillons quando todo mundo decidiu sair, uns pra praia, outros pra ver uns tais fogos de artifício, outros pra cama mesmo – que dia primeiro de janeiro não tem nada de diferente –, sentei-me na varanda do meu quarto e decidi olhar o céu e perceber a noite que se ia e o dia novo do ano novo que chegava. O silêncio era quebrado pelos risos, fogos, músicas, festas. Um carro que passava, aplausos, uma taça que quebrava, um palavrão, ou dois que sabe; até mesmo alguns zumbidos de inseto. Vento nas folhas. Minha respiração.
O céu não tinha nuvem alguma. Consultei o relógio. Duas horas. Li, ouvi música, cochilei. Três horas! Tomei água, mastiguei qualquer coisa e com os olhos injetados vi a carta sobre a cama. Quatro horas! Num suspiro desalentado reli pela enésima vez a despedida e olhei a foto em que, abraçados, nunca imaginaríamos que hoje não fôssemos mais nós. Cinco horas. Falta pouco! Concentrei-me em, com as mãos, recortar aquele retrato, separando ali o que já não tinha mais nenhum nó.
Pensei que eu também não pudera perceber como as coisas tinham mudado entre a gente. Não prestara atenção, ou não tivera tempo?
Com as duas metades da foto nas mãos sentei novamente em minha cadeira e concentrei-me no espaço, esforçando-me para sequer piscar, e fui vendo milhares de mãos solares espalharem suas bênçãos pelo céu. Sorri.
Então baixei os olhos para os teus naquela metade de papel brilhante (um instantinho só!) e isso foi o bastante para que ao levantá-los eu tivesse perdido aquela fase final em que é dia e é noite. O sol já tinha se instalado e aquecia o meu rosto.
Sorri novamente. Agora entendia perfeitamente porque tinha te perdido!
Num desses reveillons quando todo mundo decidiu sair, uns pra praia, outros pra ver uns tais fogos de artifício, outros pra cama mesmo – que dia primeiro de janeiro não tem nada de diferente –, sentei-me na varanda do meu quarto e decidi olhar o céu e perceber a noite que se ia e o dia novo do ano novo que chegava. O silêncio era quebrado pelos risos, fogos, músicas, festas. Um carro que passava, aplausos, uma taça que quebrava, um palavrão, ou dois que sabe; até mesmo alguns zumbidos de inseto. Vento nas folhas. Minha respiração.
O céu não tinha nuvem alguma. Consultei o relógio. Duas horas. Li, ouvi música, cochilei. Três horas! Tomei água, mastiguei qualquer coisa e com os olhos injetados vi a carta sobre a cama. Quatro horas! Num suspiro desalentado reli pela enésima vez a despedida e olhei a foto em que, abraçados, nunca imaginaríamos que hoje não fôssemos mais nós. Cinco horas. Falta pouco! Concentrei-me em, com as mãos, recortar aquele retrato, separando ali o que já não tinha mais nenhum nó.
Pensei que eu também não pudera perceber como as coisas tinham mudado entre a gente. Não prestara atenção, ou não tivera tempo?
Com as duas metades da foto nas mãos sentei novamente em minha cadeira e concentrei-me no espaço, esforçando-me para sequer piscar, e fui vendo milhares de mãos solares espalharem suas bênçãos pelo céu. Sorri.
Então baixei os olhos para os teus naquela metade de papel brilhante (um instantinho só!) e isso foi o bastante para que ao levantá-los eu tivesse perdido aquela fase final em que é dia e é noite. O sol já tinha se instalado e aquecia o meu rosto.
Sorri novamente. Agora entendia perfeitamente porque tinha te perdido!
sábado, março 17, 2007
EU 1
Da cama larga onde eu dormia podia ver pela janela a parede.
Nela um dia eu vi nascer uma dessas plantinhas impertinentes cujas sementes vindas sabem-se Deus de onde, instaladas, insistem em brotar. Esta brotou nas trincas do cimento.
Primeiro eu pensei em arrancá-la, impulso inicial. Depois, em cultivá-la, tomado de paixão pela sua comovente coragem. Por essa mesma coragem decidi deixá-la à própria sorte. Que fizesse por merecer estar ali.
E não é que a danada vingou?! Virou suas folhas pro sol, cresceu na direção na chuva e fincou raízes sabe-se Deus onde.
Um dia inventou de dar flor. Acompanhei aquela gestação com interesse e carinho, borrifando água fria em suas folhas miúdas com um frasquinho de desodorante, espantando formigas com borra de café. Por dias e dias ela ficou ali, dobrando delicadamente as pétalas dentro de um botão verde claro, miúdo e solitário.
Por fim abriu-se a flor, vermelho claro, um pouco laranja, riscada de amarelo por dentro. Quente! Maior do que o botão denunciava e mais bela do que eu jamais imaginara, buscava compensar nas cores detalhadamente distribuídas e nos brilhantes riscos padronizados de suas pétalas a falta de perfume.
Chorei emocionado.
A flor abriu cedo e logo ao final da tarde murchava. Suspirei resignado.
Mas ao olhar pela janela no dia seguinte vi que toda a planta havia morrido, exaurida.
Fechei os olhos por algum momento.
Antes de fechar definitivamente aquela janela depositei o cadáver verde musgo ao meu lado, puxei as cobertas e fechei os olhos.
Nela um dia eu vi nascer uma dessas plantinhas impertinentes cujas sementes vindas sabem-se Deus de onde, instaladas, insistem em brotar. Esta brotou nas trincas do cimento.
Primeiro eu pensei em arrancá-la, impulso inicial. Depois, em cultivá-la, tomado de paixão pela sua comovente coragem. Por essa mesma coragem decidi deixá-la à própria sorte. Que fizesse por merecer estar ali.
E não é que a danada vingou?! Virou suas folhas pro sol, cresceu na direção na chuva e fincou raízes sabe-se Deus onde.
Um dia inventou de dar flor. Acompanhei aquela gestação com interesse e carinho, borrifando água fria em suas folhas miúdas com um frasquinho de desodorante, espantando formigas com borra de café. Por dias e dias ela ficou ali, dobrando delicadamente as pétalas dentro de um botão verde claro, miúdo e solitário.
Por fim abriu-se a flor, vermelho claro, um pouco laranja, riscada de amarelo por dentro. Quente! Maior do que o botão denunciava e mais bela do que eu jamais imaginara, buscava compensar nas cores detalhadamente distribuídas e nos brilhantes riscos padronizados de suas pétalas a falta de perfume.
Chorei emocionado.
A flor abriu cedo e logo ao final da tarde murchava. Suspirei resignado.
Mas ao olhar pela janela no dia seguinte vi que toda a planta havia morrido, exaurida.
Fechei os olhos por algum momento.
Antes de fechar definitivamente aquela janela depositei o cadáver verde musgo ao meu lado, puxei as cobertas e fechei os olhos.
terça-feira, março 06, 2007
SOB O PESO DA CRUZ
Cada vez que olhamos uma coisa, ela ganha um novo significado. Talvez por isso o poeta Sthépane Mallarmé tenha dito que nomear um objeto é destruir três quartos do prazer que reside no adivinhar gradual de sua verdadeira natureza.
Quantas vezes eu já não havia lido os poemas de Cruz e Sousa (1861 – 1898), poeta catarinente que introduziu em nosso país o simbolismo e foi o seu representante mais significativo. De influências realistas, compôs textos marcados por profundo pessimismo e materialismo; dos parnasianos, demonstrou excessiva preocupação com a forma. Aliás, a forma era algo de profunda importância para os simbolistas, com a poesia e a música expressando os mistérios da alma humana. Não é à toa que as aliterações tão comuns nos textos simbolistas nos remetem a uma musicalidade que por vezes extrapola o próprio sentido das palavras. Quantas vezes não tinha eu lido seus versos, gostado sim, mas nunca apreendido um sentido mais profundo em suas palavras. Nunca tinha me identificado com ele e com sua poesia como me envolvi recentemente. Na busca de material para um novo espetáculo da Companhia Teatral Nós Outros garimpávamos vários autores na busca de textos e idéias. Encarreguei-me do Cruz e Souza porque disse que queria falar sobre gente e ele pareceu que me proporcionaria isso, que também tenho lá minhas inclinações pessimistas.
E como o próprio poeta desci aos seus infernos de sombras e azeites, não para encontrar Baudelaire, mas para achar a mim mesmo capro e revel, com os fabulosos cornos, num momento de saudade e tédio, de grande tédio e singular saudade (...) já das culpas sem remédio. E me vi lendo por todos os lados, em casa, ônibus, consultórios, ruas e em voz alta, que não há como ler um poema sem escutar a própria voz que o canta. E lê-los repetidamente, porque a cada nova leitura a tal música simbolista aparecia em acordes diferentes e eu, ator, queria saber como ela seria melhor executada.
E fiquei absolutamente fascinado. Absolutamente atado por uma trança negra e desmanchada a essa flor branca como um jarmim-do-Cabo cujo perfume me inquietou sobremaneira.
Inicialmente não mais levaremos Cruz e Sousa aos palcos. Pelo menos não por enquanto. O diretor deste espetáculo, Adriano Barroso, crê que nos falta estofo e entende nossa ansiedade (minha ansiedade!) em querer experimentar novos campos além do que tenho feito. Seu conselho reside em aprofundar mais em mim mesmo, como pessoa e sobretudo como profissional do teatro, para dar um passo tão largo com absoluta segurança. Experimentar sempre se pode, mas os resultados poderiam ser questionados e pesa o nome daquele eleito para nos dar as palavras que sairiam de nossas bocas. Acedi. Iniciamos um processo muito interessante de estudo do que é o teatro e suas muitas nuances e possibilidades. Na verdade, retomamos o que fizéramos em Medéia – A tragédia do feminino ultrajado, agora com maior maturidade e leveza e um desejo muito maior de fazer do teatro a arte de pescar homens e conduzi-los pela mão a um labirinto onde tudo o que existe é o que ele – homem comum – quer ser, mas não pode. Ou não deixam!
Cada vez mais essa arte - minha arte! – se entranha em mim e cria frutos, meu caminho onde encontra-se o tesouro pelo qual tantas almas estremecem. Mais eu descubro que quero ser ator e que isso é o que melhor eu sei fazer e quero compartilhar isso com o mundo, seja pelo simbolismo do Cruz e Souza, pela prosa urbana, solitária e caminhante de Caio F., pelos desvios trágicos de heróis, ou semi-deuses e nos qüiproquós vitorianos. Quero afundar o povo desta cidade em Sertões e Amazônias, trancafiá-los em castelos, porões e matas escuras, cercá-los de anjos e demônios, fadas e feitiços, danças, mamulengos e muita música, aquisição recente e benfazeja da nossa companhia na figura de quatro criaturas de talento ímpar e ainda desconhecido.
Vamos nos encontrar pra que eu lhes mostre objetos estranhos e palavras aparentemente sem sentido, para que cada um de vós possa descobrir (-se).
E gozar do vinho sempiterno de Baco.
Evoé!!!
Despeço-me com dois momentos muito distintos de Cruz e Souza: um quando ele ainda vivia sobre a Terra e outro, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, coletado do Parnaso de Além-Túmulo, primeiro livro publicado pelo médium mineiro.
Anima Mea (Últimos Sonetos, 1905)
Ó, minh´alma, ó, minh´alma, ó, meu Abrigo,
meu sol e minha sombra peregrina,
luz imortal que os mundos ilumina
do velho Sonho, meu fiel Amigo;
Estrada ideal de São Tiago, antigo
templo da minha Fé, casta e divina,
de onde é que vem toda esta mágoa fina
que é, no entanto, consolo e que eu bendigo?
De onde é que vem tanta esperança vaga,
de onde vem tanto anseio que me alaga,
tanta diluída e sempiterna mágoa?
Ah! de onde vem toda essa estranha essência
De tanta misteriosa transcendência,
Que estes olhos me deixa rasos de água?!
Alma Livre (Parnaso de Além-Túmulo, 1978)
Um soluço divino de alegria
Percorre a todo Espírito liberto
Das pesadas cadeias do deserto,
Desse mundo de sobra e de agonia.
A alma livre contempla o novo dia,
Longe das dores do passado incerto,
Mergulhada no esplêndido concerto
De outros mundos, que a luz acaricia!
Alma liberta, redimida e pura,
Vê a aurora, depois da noite escura,
Numa visão mirífica, superna...
Penetra o mundo da imortalidade,
Entre canções de luz e liberdade,
Forçando as portas da Beleza Eterna.
Citações dos poemas Satã e Serpente de Cabelos (Broquéis, 1893); Flor do Diabo (Faróis, 1900); Caminho da Glória (Últimos Sonetos, 1905) e de No Inferno, prosa poética publicada em Evocações (1897-1888)
Quantas vezes eu já não havia lido os poemas de Cruz e Sousa (1861 – 1898), poeta catarinente que introduziu em nosso país o simbolismo e foi o seu representante mais significativo. De influências realistas, compôs textos marcados por profundo pessimismo e materialismo; dos parnasianos, demonstrou excessiva preocupação com a forma. Aliás, a forma era algo de profunda importância para os simbolistas, com a poesia e a música expressando os mistérios da alma humana. Não é à toa que as aliterações tão comuns nos textos simbolistas nos remetem a uma musicalidade que por vezes extrapola o próprio sentido das palavras. Quantas vezes não tinha eu lido seus versos, gostado sim, mas nunca apreendido um sentido mais profundo em suas palavras. Nunca tinha me identificado com ele e com sua poesia como me envolvi recentemente. Na busca de material para um novo espetáculo da Companhia Teatral Nós Outros garimpávamos vários autores na busca de textos e idéias. Encarreguei-me do Cruz e Souza porque disse que queria falar sobre gente e ele pareceu que me proporcionaria isso, que também tenho lá minhas inclinações pessimistas.
E como o próprio poeta desci aos seus infernos de sombras e azeites, não para encontrar Baudelaire, mas para achar a mim mesmo capro e revel, com os fabulosos cornos, num momento de saudade e tédio, de grande tédio e singular saudade (...) já das culpas sem remédio. E me vi lendo por todos os lados, em casa, ônibus, consultórios, ruas e em voz alta, que não há como ler um poema sem escutar a própria voz que o canta. E lê-los repetidamente, porque a cada nova leitura a tal música simbolista aparecia em acordes diferentes e eu, ator, queria saber como ela seria melhor executada.
E fiquei absolutamente fascinado. Absolutamente atado por uma trança negra e desmanchada a essa flor branca como um jarmim-do-Cabo cujo perfume me inquietou sobremaneira.
Inicialmente não mais levaremos Cruz e Sousa aos palcos. Pelo menos não por enquanto. O diretor deste espetáculo, Adriano Barroso, crê que nos falta estofo e entende nossa ansiedade (minha ansiedade!) em querer experimentar novos campos além do que tenho feito. Seu conselho reside em aprofundar mais em mim mesmo, como pessoa e sobretudo como profissional do teatro, para dar um passo tão largo com absoluta segurança. Experimentar sempre se pode, mas os resultados poderiam ser questionados e pesa o nome daquele eleito para nos dar as palavras que sairiam de nossas bocas. Acedi. Iniciamos um processo muito interessante de estudo do que é o teatro e suas muitas nuances e possibilidades. Na verdade, retomamos o que fizéramos em Medéia – A tragédia do feminino ultrajado, agora com maior maturidade e leveza e um desejo muito maior de fazer do teatro a arte de pescar homens e conduzi-los pela mão a um labirinto onde tudo o que existe é o que ele – homem comum – quer ser, mas não pode. Ou não deixam!
Cada vez mais essa arte - minha arte! – se entranha em mim e cria frutos, meu caminho onde encontra-se o tesouro pelo qual tantas almas estremecem. Mais eu descubro que quero ser ator e que isso é o que melhor eu sei fazer e quero compartilhar isso com o mundo, seja pelo simbolismo do Cruz e Souza, pela prosa urbana, solitária e caminhante de Caio F., pelos desvios trágicos de heróis, ou semi-deuses e nos qüiproquós vitorianos. Quero afundar o povo desta cidade em Sertões e Amazônias, trancafiá-los em castelos, porões e matas escuras, cercá-los de anjos e demônios, fadas e feitiços, danças, mamulengos e muita música, aquisição recente e benfazeja da nossa companhia na figura de quatro criaturas de talento ímpar e ainda desconhecido.
Vamos nos encontrar pra que eu lhes mostre objetos estranhos e palavras aparentemente sem sentido, para que cada um de vós possa descobrir (-se).
E gozar do vinho sempiterno de Baco.
Evoé!!!
Despeço-me com dois momentos muito distintos de Cruz e Souza: um quando ele ainda vivia sobre a Terra e outro, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, coletado do Parnaso de Além-Túmulo, primeiro livro publicado pelo médium mineiro.
Anima Mea (Últimos Sonetos, 1905)
Ó, minh´alma, ó, minh´alma, ó, meu Abrigo,
meu sol e minha sombra peregrina,
luz imortal que os mundos ilumina
do velho Sonho, meu fiel Amigo;
Estrada ideal de São Tiago, antigo
templo da minha Fé, casta e divina,
de onde é que vem toda esta mágoa fina
que é, no entanto, consolo e que eu bendigo?
De onde é que vem tanta esperança vaga,
de onde vem tanto anseio que me alaga,
tanta diluída e sempiterna mágoa?
Ah! de onde vem toda essa estranha essência
De tanta misteriosa transcendência,
Que estes olhos me deixa rasos de água?!
Alma Livre (Parnaso de Além-Túmulo, 1978)
Um soluço divino de alegria
Percorre a todo Espírito liberto
Das pesadas cadeias do deserto,
Desse mundo de sobra e de agonia.
A alma livre contempla o novo dia,
Longe das dores do passado incerto,
Mergulhada no esplêndido concerto
De outros mundos, que a luz acaricia!
Alma liberta, redimida e pura,
Vê a aurora, depois da noite escura,
Numa visão mirífica, superna...
Penetra o mundo da imortalidade,
Entre canções de luz e liberdade,
Forçando as portas da Beleza Eterna.
Citações dos poemas Satã e Serpente de Cabelos (Broquéis, 1893); Flor do Diabo (Faróis, 1900); Caminho da Glória (Últimos Sonetos, 1905) e de No Inferno, prosa poética publicada em Evocações (1897-1888)
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
PALAVRAS POR TRÁS DOS CORAÇÕES.
Este texto foi escrito para ser publicado no programa oferecido ao público quando das apresentações 2006 - 2007 de O Glorioso Auto do Nascimento do Cristo-Rei. Reflete um momento por que passava a Companhia Teatral Nós Outros e minha própria visão do teatro.
Estejam comigo neste devaneio.
Evoé!!!
O Bem e o Mal. Água e azeite. A Luz e a Escuridão.
Tão diametralmente separados quanto irremediavelmente reunidos, pois é exatamente a antítese de um que faz a possibilidade do outro.
O Glorioso Auto do Nascimento do Cristo-Rei vem falar destes contrastes e mostrar que nem mesmo na letra, na ribalta, existe quem caminhe sobre a Terra que abrace um estado (conceito, dogma...) em detrimento total do outro. Que cedemos às obrigações, mas pesamos valores; tomamos decisões movidos pelo incontrolável desejo de sermos felizes e, portanto, acreditamos estar fazendo nosso melhor. E muitas vezes estamos!
Para dar vida a esses personagens míticos como íntimos, nós, atores. Perfectíveis como eles, pela nossa humanidade. Arrogantes e vaidosos como apenas nós sabemos ser! Num processo lento que só funciona se dermos nossas mãos suadas, construímos este espetáculo na esperança de alcançarmos vosso coração e entendimento, forrando com nossa história as personalidades que representamos, usando a música e a dança como indutores das nossas sensações, materializando e metamorfoseando o que antes estava apenas no plano das idéias.
Enfim curvamos nossas cabeças ao vosso aplauso, pois não há quem melhor nos julgue do que vós.
Porque no Teatro, como na Vida, como em Tudo, o joio cresce estreitamente abraçado ao trigo!!!
Estejam comigo neste devaneio.
Evoé!!!
O Bem e o Mal. Água e azeite. A Luz e a Escuridão.
Tão diametralmente separados quanto irremediavelmente reunidos, pois é exatamente a antítese de um que faz a possibilidade do outro.
O Glorioso Auto do Nascimento do Cristo-Rei vem falar destes contrastes e mostrar que nem mesmo na letra, na ribalta, existe quem caminhe sobre a Terra que abrace um estado (conceito, dogma...) em detrimento total do outro. Que cedemos às obrigações, mas pesamos valores; tomamos decisões movidos pelo incontrolável desejo de sermos felizes e, portanto, acreditamos estar fazendo nosso melhor. E muitas vezes estamos!
Para dar vida a esses personagens míticos como íntimos, nós, atores. Perfectíveis como eles, pela nossa humanidade. Arrogantes e vaidosos como apenas nós sabemos ser! Num processo lento que só funciona se dermos nossas mãos suadas, construímos este espetáculo na esperança de alcançarmos vosso coração e entendimento, forrando com nossa história as personalidades que representamos, usando a música e a dança como indutores das nossas sensações, materializando e metamorfoseando o que antes estava apenas no plano das idéias.
Enfim curvamos nossas cabeças ao vosso aplauso, pois não há quem melhor nos julgue do que vós.
Porque no Teatro, como na Vida, como em Tudo, o joio cresce estreitamente abraçado ao trigo!!!
domingo, janeiro 14, 2007
OS SETE SELOS
Este texto foi originalmente escrito para integrar a campanha da blogueira Luciane Fiúza de Mello, ou simplesmente Lu.
Visitem o blog dela e leiam as demais virtudes já postadas e outros textos. Prestigiem!
Transcrevo este, cria minha, para vossa apreciação.
1. HONESTIDADE: Eis que um homem saiu a caminhar. Tinha ele quatro anos para dar a volta ao mundo, retornando ao ponto exato da partida. De si, um facho de luz, sapatos confortáveis, um cajado onde se apoiasse, a roupa do corpo, mãos operosas e uma cabeça fervilhando de idéias. Deveria atender a demanda de muitos, dormir pouco, ouvir atentamente, falar com clareza. Essa talvez a sua maior virtude: suas palavras não teriam sentido diverso daquilo que expressavam e por isso ele tinha sido escolhido para essa missão. Já outros o antecederam e falharam exatamente neste ponto. O homem sabia – como seus antecessores – que as pessoas gostavam de ouvir promessas, porque é da natureza humana ter esperança; mas era seu dever ir além dos dizeres, não iludindo o povo com o ouro falso da oratória vã e não comprometendo assim aquele que lhe enviara.
2. SIMPLICIDADE: Consciente do poder que lhe fora conferido, o homem tivera dois caminhos a escolher: deixar que o povo fosse até ele, que os receberia em dia e hora acertados, atrás de uma grande mesa de madeira negra e lustrosa. Ricamente vestido, ele sabia que muitos sequer levantariam os olhos na direção do seu rosto, balbuciando meios pedidos e menosprezando suas próprias necessidades. Por outra, sairia ele mesmo do templo. Nessa condição, estava certo do escárnio de muitos que vêem a forma antes do fundo, e mais certo ainda de que tudo o que lhe fosse dito seria a expressão da verdade, porque também é da natureza dos homens se tratarem com irmãos quando se sentem acolhidos entre os seus pares.
3. EQÜIDADE: A ordem do seu senhor era de que servisse a todos e a todos contemplasse. Ele dissera ao homem que haveria grandes desejos, anseios equivocados, necessidades reais, pequenos favores. Cada um deveria ser recebido e justificado. Atendê-los significava buscar o interesse coletivo: um único e soberbo edifício, ou vários menores e confortáveis, formando diversos núcleos de trabalho e estudo? Pautas distribuídas pela relevância da obra, ou pela pomba de seus participantes? Áreas públicas livres, limpas e seguras, ou logradouros cercados de grades e taxas? Garantir o espaço de cada um e os recursos necessários a sua manutenção era um trabalho complexo, mas perfeitamente exeqüível.
4. SOLIDARIEDADE: Se é verdade que tempo é posto, é igualmente verdade que se alguém, ou grupo não receber oportunidades, nunca terá adquirido experiência bastante. O homem então precisaria dar chances a todos e premiá-los pelos seus esforços e méritos. Algumas decisões não pereceriam justas. Todas seriam questionadas, por ser ainda da natureza humana pedir mais do que precisa e colher onde não plantou (e isso não é privilégio dos menos humildes!), mas sua decisão seria acatada, não que ele fosse infalível – porque humano –, mas porque o precedia a fama de reto e justo.
5. RESPONSABILIDADE: Firmemente preso à cintura o homem levava um saco de couro cru. Nas dobras da roupa, papel e pena. No saco, parte do erário real que se destinava às suas múltiplas atividades, que eram cuidadosamente registradas. As moedas tinham uso variado, mas um único destino: tornar o povo mais ciente de si enquanto cidadão. Como um lavrador, o homem espalhou livros, mapas, tratados, códigos; mandou construir salas de estudo e trabalho, bibliotecas, móveis, instrumentos musicais, peças de calçado e vestuário. Distribuiu tintas, telas, pincéis e sapatilhas. Deu ainda condições de uso aos espaços existentes, seja por equipamentos, seja por recursos humanos qualificados e dedicados. Através de edital afixado em placa pública, qualquer pessoa poderia concorrer à ajuda real, reforçada por súditos abastados e zelosos do seu país, por entenderem que o povo letrado e culto é mais livre e mais feliz. E eram os próprios financiadores que decidiam com quanto e a quem iriam auxiliar. Em cada cidade havia um festival e bastava dobrar uma esquina para ser tomado pela música, poesia e teatro. E mesmo na maior festa religiosa do reino, quando cada grupo homenageava a padroeira conforme sua própria filosofia, havia um cuidado especial do senhor – não sem alguns olhares de esguelha! – para um grande cortejo promovido pelos artistas. E era tão belo e verdadeiro o espetáculo que ele ficou conhecido por todo o país e muito além dele, atraindo os descontentes, pois é da soberba humana denegrir, macular, ou destruir o que é feito com alegria e fora de levianos interesses.
6. DISPONIBILIDADE: Algumas palavras não eram jamais pronunciadas pelo homem: “Não é possível!”,“Não há condições!”, “Não temos espaço, ou verba, ou pessoal para isso...”,“Seu pedido não atende o perfil do nosso trabalho...”, “ Lamentamos informar...”, precedido pelo irritante “Neste momento que o parabenizamos pela iniciativa...” Por outra, seus auxiliares possuíam carga horária a cumprir e a executavam incontinenti, pois deveria ser da natureza humana ter responsabilidade com o que lhe é próprio e maior responsabilidade ainda com o que é alheio. E, mãos estendidas e sorriso franco – às vezes sob forte cansaço! – diziam sempre “Pois não?”, “Em que posso ajudar?”, “Sou eu quem deve ajudá-lo nessa tarefa!”, “Por favor, disponha de meus serviços!”, “Todos aqui são responsáveis por todas as atividades do espaço!”, “Será providenciado imediatamente!”. Os bons serviços de uns tornavam fácil o bom serviço dos outros e todos terminavam suas atividades com a certeza do dever cumprido e a felicidade natural que isso acarreta.
7. CONFIABILIDADE: Eis então o homem de volta ao local de onde partira quatro anos antes. Chegara no dia e hora combinados. Nada de seu se perdera porque por onde passava havia quem o acolhesse e o salário por seus serviços. Nada de mais nem de menos. Estava cansado, é certo, mas realizado. E o povo todo lhe pediu que ficasse e que estivesse com eles mais quatro anos. Com um sorriso bondoso o homem recusou. Já cumprira sua cota na obra do seu senhor e era tempo de ser substituído por outro, mais jovem, com um novo entusiasmo, novas idéias e mãos ainda mais ativas. Seu senhor também descansaria, pois o cetro que passa de mão recebe impulso novo e jamais se acomoda!
Visitem o blog dela e leiam as demais virtudes já postadas e outros textos. Prestigiem!
Transcrevo este, cria minha, para vossa apreciação.
1. HONESTIDADE: Eis que um homem saiu a caminhar. Tinha ele quatro anos para dar a volta ao mundo, retornando ao ponto exato da partida. De si, um facho de luz, sapatos confortáveis, um cajado onde se apoiasse, a roupa do corpo, mãos operosas e uma cabeça fervilhando de idéias. Deveria atender a demanda de muitos, dormir pouco, ouvir atentamente, falar com clareza. Essa talvez a sua maior virtude: suas palavras não teriam sentido diverso daquilo que expressavam e por isso ele tinha sido escolhido para essa missão. Já outros o antecederam e falharam exatamente neste ponto. O homem sabia – como seus antecessores – que as pessoas gostavam de ouvir promessas, porque é da natureza humana ter esperança; mas era seu dever ir além dos dizeres, não iludindo o povo com o ouro falso da oratória vã e não comprometendo assim aquele que lhe enviara.
2. SIMPLICIDADE: Consciente do poder que lhe fora conferido, o homem tivera dois caminhos a escolher: deixar que o povo fosse até ele, que os receberia em dia e hora acertados, atrás de uma grande mesa de madeira negra e lustrosa. Ricamente vestido, ele sabia que muitos sequer levantariam os olhos na direção do seu rosto, balbuciando meios pedidos e menosprezando suas próprias necessidades. Por outra, sairia ele mesmo do templo. Nessa condição, estava certo do escárnio de muitos que vêem a forma antes do fundo, e mais certo ainda de que tudo o que lhe fosse dito seria a expressão da verdade, porque também é da natureza dos homens se tratarem com irmãos quando se sentem acolhidos entre os seus pares.
3. EQÜIDADE: A ordem do seu senhor era de que servisse a todos e a todos contemplasse. Ele dissera ao homem que haveria grandes desejos, anseios equivocados, necessidades reais, pequenos favores. Cada um deveria ser recebido e justificado. Atendê-los significava buscar o interesse coletivo: um único e soberbo edifício, ou vários menores e confortáveis, formando diversos núcleos de trabalho e estudo? Pautas distribuídas pela relevância da obra, ou pela pomba de seus participantes? Áreas públicas livres, limpas e seguras, ou logradouros cercados de grades e taxas? Garantir o espaço de cada um e os recursos necessários a sua manutenção era um trabalho complexo, mas perfeitamente exeqüível.
4. SOLIDARIEDADE: Se é verdade que tempo é posto, é igualmente verdade que se alguém, ou grupo não receber oportunidades, nunca terá adquirido experiência bastante. O homem então precisaria dar chances a todos e premiá-los pelos seus esforços e méritos. Algumas decisões não pereceriam justas. Todas seriam questionadas, por ser ainda da natureza humana pedir mais do que precisa e colher onde não plantou (e isso não é privilégio dos menos humildes!), mas sua decisão seria acatada, não que ele fosse infalível – porque humano –, mas porque o precedia a fama de reto e justo.
5. RESPONSABILIDADE: Firmemente preso à cintura o homem levava um saco de couro cru. Nas dobras da roupa, papel e pena. No saco, parte do erário real que se destinava às suas múltiplas atividades, que eram cuidadosamente registradas. As moedas tinham uso variado, mas um único destino: tornar o povo mais ciente de si enquanto cidadão. Como um lavrador, o homem espalhou livros, mapas, tratados, códigos; mandou construir salas de estudo e trabalho, bibliotecas, móveis, instrumentos musicais, peças de calçado e vestuário. Distribuiu tintas, telas, pincéis e sapatilhas. Deu ainda condições de uso aos espaços existentes, seja por equipamentos, seja por recursos humanos qualificados e dedicados. Através de edital afixado em placa pública, qualquer pessoa poderia concorrer à ajuda real, reforçada por súditos abastados e zelosos do seu país, por entenderem que o povo letrado e culto é mais livre e mais feliz. E eram os próprios financiadores que decidiam com quanto e a quem iriam auxiliar. Em cada cidade havia um festival e bastava dobrar uma esquina para ser tomado pela música, poesia e teatro. E mesmo na maior festa religiosa do reino, quando cada grupo homenageava a padroeira conforme sua própria filosofia, havia um cuidado especial do senhor – não sem alguns olhares de esguelha! – para um grande cortejo promovido pelos artistas. E era tão belo e verdadeiro o espetáculo que ele ficou conhecido por todo o país e muito além dele, atraindo os descontentes, pois é da soberba humana denegrir, macular, ou destruir o que é feito com alegria e fora de levianos interesses.
6. DISPONIBILIDADE: Algumas palavras não eram jamais pronunciadas pelo homem: “Não é possível!”,“Não há condições!”, “Não temos espaço, ou verba, ou pessoal para isso...”,“Seu pedido não atende o perfil do nosso trabalho...”, “ Lamentamos informar...”, precedido pelo irritante “Neste momento que o parabenizamos pela iniciativa...” Por outra, seus auxiliares possuíam carga horária a cumprir e a executavam incontinenti, pois deveria ser da natureza humana ter responsabilidade com o que lhe é próprio e maior responsabilidade ainda com o que é alheio. E, mãos estendidas e sorriso franco – às vezes sob forte cansaço! – diziam sempre “Pois não?”, “Em que posso ajudar?”, “Sou eu quem deve ajudá-lo nessa tarefa!”, “Por favor, disponha de meus serviços!”, “Todos aqui são responsáveis por todas as atividades do espaço!”, “Será providenciado imediatamente!”. Os bons serviços de uns tornavam fácil o bom serviço dos outros e todos terminavam suas atividades com a certeza do dever cumprido e a felicidade natural que isso acarreta.
7. CONFIABILIDADE: Eis então o homem de volta ao local de onde partira quatro anos antes. Chegara no dia e hora combinados. Nada de seu se perdera porque por onde passava havia quem o acolhesse e o salário por seus serviços. Nada de mais nem de menos. Estava cansado, é certo, mas realizado. E o povo todo lhe pediu que ficasse e que estivesse com eles mais quatro anos. Com um sorriso bondoso o homem recusou. Já cumprira sua cota na obra do seu senhor e era tempo de ser substituído por outro, mais jovem, com um novo entusiasmo, novas idéias e mãos ainda mais ativas. Seu senhor também descansaria, pois o cetro que passa de mão recebe impulso novo e jamais se acomoda!
quinta-feira, dezembro 14, 2006
DE LABIRINTOS, DA MAGIA E DA REALIDADE.
Se tu fosses uma criança pequena cujo pai morresse e tua mãe se casasse novamente com um homem desagradável e cruel, e te visses obrigado a morar longe da cidade, no meio de uma guerra que não é tua e que não compreendes, onde te refugiarias? Não buscarias na tua imaginação fértil de criança o esconderijo perfeito?
Ajudada pelos livros (sempre eles!), Ofélia (Ivana Baquero) transforma insetos em fadas, velhas pedras amontoadas num labirinto – entrada para seu reino encantado –, e o rangido do vento na madeira velha da casa que a acolheu nos passos de monstros e faunos (o mímico Doug Jones).
Livros, aliás, são uma referência. Carmem (Ariadne Gil), a mãe da menina, não entende porque indo para o campo, para o ar livre, ela precise de “tantos livros”, ou que uma grande surpresa que faça a filha não seja, “claro”, um outro livro, ou que seu padrasto Vidal (Sergi Lopez) se revolte com as atitudes de Ofélia, provocados por “essas coisas que a deixas ler!”. E é um livro de páginas em branco que guia a criança nos testes que deve cumprir para provar ser a princesa Moana, herdeira de um reino subterrâneo.
Ou será que tudo isso é real?!
Guillermo Del Toro escreveu e dirigiu O Labirinto do Fauno (El laberinto del fauno, Espanha, 2006), uma fantasia deliciosa bem ao estilo das nossas estórias de papões, já que foge ao conceito bonitinho do cinema americano, de fadinhas loiras e apenas travessas, violência asséptica e onde a morte jamais alcança os bravos mini-heróis que protagonizam seus fairy tales. É claro que o representante da Espanha para o Oscar 2007 tem lá seus defeitos (?): é lento (ou talvez eu seja acelerado demais!), tem personagens unilaterais: o Malvado, o Corajoso, a Inocente, a Sofredora e (para alguns isso é um problema) uma tecnologia bem simplória, mas que me incomoda menos que o King Kong do Peter Jackson. Del Toro situou sua história em apenas dois ambientes: o acampamento militar onde Ofélia vai morar com a mãe – o mundo ruim – e o Labirinto e seus anexos mágicos, perigosos é verdade, mas onde a menina é capaz de vencer os mais terríveis obstáculos. Criando essa atmosfera de dúvida, a direção pergunta o que é real e o que não é. Numa cena, Ofélia é castigada indo para a cama sem jantar. Na prova que deve cumprir, um fausto banquete do qual não deve provar em hipótese alguma é o divisor entre seu sucesso ou fracasso. Estaria transferindo a jovem seus medos para esse mundo mágico? Se o fauno é real, porque ele nasce das sombras e nunca é visto por outras pessoas? E o momento fatal, ao reunir tantos quantos Ofélia ama na suntuosa sala do trono do Mundo subterrâneo, não seria a compensação das perdas e abandonos pelas quais ela passou?
Em contraponto, a guerra civil espanhola e sua carreira de miséria, fome, destruição e morte, onde os homens e mulheres são apenas o que são, precisam tomar duras decisões, abdicar da felicidade, afastar-se daqueles que amam e reunir-se àqueles por quem não nutrem qualquer afeto. Nesse mundo, diz Carmem, não existe magia, e é sofrendo que a filha vai aprender isso.
Nossa criança interior vai adorar assistir O Labirinto do Fauno. Nossas crianças mesmo, acho que não (a recomendação do filme é 16 anos, por conta das cenas de violência). Será bom lembrá-las que existe mais no mundo que obrigações e que nossos sinais de nascença são, na realidade, marcas do nosso nascimento, quando a Lua nos pariu em seus ombros.
Ajudada pelos livros (sempre eles!), Ofélia (Ivana Baquero) transforma insetos em fadas, velhas pedras amontoadas num labirinto – entrada para seu reino encantado –, e o rangido do vento na madeira velha da casa que a acolheu nos passos de monstros e faunos (o mímico Doug Jones).
Livros, aliás, são uma referência. Carmem (Ariadne Gil), a mãe da menina, não entende porque indo para o campo, para o ar livre, ela precise de “tantos livros”, ou que uma grande surpresa que faça a filha não seja, “claro”, um outro livro, ou que seu padrasto Vidal (Sergi Lopez) se revolte com as atitudes de Ofélia, provocados por “essas coisas que a deixas ler!”. E é um livro de páginas em branco que guia a criança nos testes que deve cumprir para provar ser a princesa Moana, herdeira de um reino subterrâneo.
Ou será que tudo isso é real?!
Guillermo Del Toro escreveu e dirigiu O Labirinto do Fauno (El laberinto del fauno, Espanha, 2006), uma fantasia deliciosa bem ao estilo das nossas estórias de papões, já que foge ao conceito bonitinho do cinema americano, de fadinhas loiras e apenas travessas, violência asséptica e onde a morte jamais alcança os bravos mini-heróis que protagonizam seus fairy tales. É claro que o representante da Espanha para o Oscar 2007 tem lá seus defeitos (?): é lento (ou talvez eu seja acelerado demais!), tem personagens unilaterais: o Malvado, o Corajoso, a Inocente, a Sofredora e (para alguns isso é um problema) uma tecnologia bem simplória, mas que me incomoda menos que o King Kong do Peter Jackson. Del Toro situou sua história em apenas dois ambientes: o acampamento militar onde Ofélia vai morar com a mãe – o mundo ruim – e o Labirinto e seus anexos mágicos, perigosos é verdade, mas onde a menina é capaz de vencer os mais terríveis obstáculos. Criando essa atmosfera de dúvida, a direção pergunta o que é real e o que não é. Numa cena, Ofélia é castigada indo para a cama sem jantar. Na prova que deve cumprir, um fausto banquete do qual não deve provar em hipótese alguma é o divisor entre seu sucesso ou fracasso. Estaria transferindo a jovem seus medos para esse mundo mágico? Se o fauno é real, porque ele nasce das sombras e nunca é visto por outras pessoas? E o momento fatal, ao reunir tantos quantos Ofélia ama na suntuosa sala do trono do Mundo subterrâneo, não seria a compensação das perdas e abandonos pelas quais ela passou?
Em contraponto, a guerra civil espanhola e sua carreira de miséria, fome, destruição e morte, onde os homens e mulheres são apenas o que são, precisam tomar duras decisões, abdicar da felicidade, afastar-se daqueles que amam e reunir-se àqueles por quem não nutrem qualquer afeto. Nesse mundo, diz Carmem, não existe magia, e é sofrendo que a filha vai aprender isso.
Nossa criança interior vai adorar assistir O Labirinto do Fauno. Nossas crianças mesmo, acho que não (a recomendação do filme é 16 anos, por conta das cenas de violência). Será bom lembrá-las que existe mais no mundo que obrigações e que nossos sinais de nascença são, na realidade, marcas do nosso nascimento, quando a Lua nos pariu em seus ombros.
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