quinta-feira, dezembro 14, 2006

DE LABIRINTOS, DA MAGIA E DA REALIDADE.

Se tu fosses uma criança pequena cujo pai morresse e tua mãe se casasse novamente com um homem desagradável e cruel, e te visses obrigado a morar longe da cidade, no meio de uma guerra que não é tua e que não compreendes, onde te refugiarias? Não buscarias na tua imaginação fértil de criança o esconderijo perfeito?
Ajudada pelos livros (sempre eles!), Ofélia (Ivana Baquero) transforma insetos em fadas, velhas pedras amontoadas num labirinto – entrada para seu reino encantado –, e o rangido do vento na madeira velha da casa que a acolheu nos passos de monstros e faunos (o mímico Doug Jones).
Livros, aliás, são uma referência. Carmem (Ariadne Gil), a mãe da menina, não entende porque indo para o campo, para o ar livre, ela precise de “tantos livros”, ou que uma grande surpresa que faça a filha não seja, “claro”, um outro livro, ou que seu padrasto Vidal (Sergi Lopez) se revolte com as atitudes de Ofélia, provocados por “essas coisas que a deixas ler!”. E é um livro de páginas em branco que guia a criança nos testes que deve cumprir para provar ser a princesa Moana, herdeira de um reino subterrâneo.
Ou será que tudo isso é real?!
Guillermo Del Toro escreveu e dirigiu O Labirinto do Fauno (El laberinto del fauno, Espanha, 2006), uma fantasia deliciosa bem ao estilo das nossas estórias de papões, já que foge ao conceito bonitinho do cinema americano, de fadinhas loiras e apenas travessas, violência asséptica e onde a morte jamais alcança os bravos mini-heróis que protagonizam seus fairy tales. É claro que o representante da Espanha para o Oscar 2007 tem lá seus defeitos (?): é lento (ou talvez eu seja acelerado demais!), tem personagens unilaterais: o Malvado, o Corajoso, a Inocente, a Sofredora e (para alguns isso é um problema) uma tecnologia bem simplória, mas que me incomoda menos que o King Kong do Peter Jackson. Del Toro situou sua história em apenas dois ambientes: o acampamento militar onde Ofélia vai morar com a mãe – o mundo ruim – e o Labirinto e seus anexos mágicos, perigosos é verdade, mas onde a menina é capaz de vencer os mais terríveis obstáculos. Criando essa atmosfera de dúvida, a direção pergunta o que é real e o que não é. Numa cena, Ofélia é castigada indo para a cama sem jantar. Na prova que deve cumprir, um fausto banquete do qual não deve provar em hipótese alguma é o divisor entre seu sucesso ou fracasso. Estaria transferindo a jovem seus medos para esse mundo mágico? Se o fauno é real, porque ele nasce das sombras e nunca é visto por outras pessoas? E o momento fatal, ao reunir tantos quantos Ofélia ama na suntuosa sala do trono do Mundo subterrâneo, não seria a compensação das perdas e abandonos pelas quais ela passou?
Em contraponto, a guerra civil espanhola e sua carreira de miséria, fome, destruição e morte, onde os homens e mulheres são apenas o que são, precisam tomar duras decisões, abdicar da felicidade, afastar-se daqueles que amam e reunir-se àqueles por quem não nutrem qualquer afeto. Nesse mundo, diz Carmem, não existe magia, e é sofrendo que a filha vai aprender isso.
Nossa criança interior vai adorar assistir O Labirinto do Fauno. Nossas crianças mesmo, acho que não (a recomendação do filme é 16 anos, por conta das cenas de violência). Será bom lembrá-las que existe mais no mundo que obrigações e que nossos sinais de nascença são, na realidade, marcas do nosso nascimento, quando a Lua nos pariu em seus ombros.

domingo, dezembro 10, 2006

QUEM TEM MEDO DE TURISTAS?

Recentemente tenho recebido muitas mensagens (e-mail, orkut, fumaça...) me conclamando a participar de uma campanha de boicote ao filme “Turistas”, que deve ter sua estréia por esses dias lá pelos lados ianques. Na película, um grupo de inocentes e belos turistas vêm ao Brasil tropical e exótico para merecidas férias quando são surpreendidos por facínoras-criminosos-felas-da-pata que apoiados numa boa dose de entorpecentes, seqüestra os incautos para roubar-lhes os órgãos, cujo mercado é, no mínimo, promissor. (informações lidas em jornais e nas próprias mensagens enviadas.)
Munidos de um inexplicável (ou pelo menos surpreendente) senso patriótico, algumas pessoas decidiram que esse filme seria extremamente negativo para a imagem do nosso país (!), daí o boicote.
Mas vamos ao que interessa: esse tipo de trabalho, classificado por mim como caça-níqueis-americano-da-pior-qualidade, muito freqüente em nossas salas de exibição, sobretudo nos gêneros comédia e terror, já tem o meu boicote natural e não merece sequer a minha atenção. Não gastaria um centavos com ele, sobretudo para assisti-lo no Moviecom. Quanto às justificativas para o boicote, lembro que li num jornal a fala do produtor brasileiro do filme – extremamente auri-verde com o próprio bolso! – “Mudem a imagem do país que mudam as opiniões sobre ele!”. Eu posso tirar a razão de uma pessoa dessas? Os produtores afirmam ainda que nenhuma produção americana similar situada no próprio berço teve qualquer repercussão negativa para o potencial turístico do país. Aliás, 70% dos filmes americanos tem esse quê de Teoria da Conspiração e vendendo uma falsa mea culpa, querem nos fazer crer na bondade dos seus corações; o restante são heróis da virtude lutando contra criaturas que possuem o recessivo gene da maldade ativo no corpo, ensinando a nós, pobres mortais, como tornar esse mundo melhor através da milenar técnica das estalactitites de gelo no olho. Claro que há muitos filmes bons e contestadores, mas o Michael Moore não os dirigiu! Pois bem. Só pra citar um caso recente, o acidente com o boing da Gol. O governo americano tentou de um tudo para livrar a cara dos seus patrícios, pilotos do Legacy (o pequeno avião que se chocou contra o vôo 1907). O governo brasileiro bateu pé até a corda não ter mais o que esticar; daí, foi só o choro das vítimas não interessar mais à imprensa para todos os aeroportos do Brasil virarem uma sucursal do inferno, jogando por terra toda a competência do nosso sistema aeronáutico. Se um estúdio americano fizesse um filme onde uma linda criança loira com uma doença rara e mortal sofresse mais que peru às vésperas do dia de Ação de Graças por causa de um vôo que deveria levá-la do nosso ensolarado rincão para um lugar onde ela pudesse ser salva (o que aconteceria miraculosamente nos minutos finais da história ao som de uma música do John Willians), haveria uma nova campanha de restabelecimento da nossa moral? Ou será que esse tumulto todo é porque um gringo otário é que está dizendo todas essas coisas? Ninguém falou nada do premiado, aclamado e desesperançado Anjos do Sol e a sua cruel realidade de tráfico e prostituição infantil por esse meu Brasil varonil, que tanto sustenta o potencial turístico de nossas praias e carnaval!
Boicotem o filme do Rudi Lagemann, também, oras! E Cidade de Deus e suas histórias de tráfico de drogas, assassinatos e corrupção policial. Boicotem tantos Jogos Mortais quantos aparecerem e todos os seu congêneres pela simples razão de que fazem mal ao estômago e aos neurônios. Boicotem cada historieta açucarada em que sequer a Morte pode separar dois corações apaixonados. Boicotem os maniqueistas filmes da Disney e todos os estúdios que desde os lucros da Paixão de Cristo do Mel Gibson inauguraram segmentos dedicados a filmes família de religiosidade, moral e justiça. Boicotem O Código Da Vinci porque ainda existem pessoas que não conhecem Jesus o bastante para saber que aquilo é só uma muito bem urdida ficção para instigar nossa curiosidade e vender muitos livros, ingressos, DVDs (no que o Dan Brown está certíssimo!). Boicotem os telejornais e a imprensa local que insistem em direcionar nosso olhar de expectadores.
Ou, o que é minha opinião, não boicotem ninguém. Desenvolvamos senso crítico, eduquemo-nos e eduquemos nossos tutelados para que saibamos diferenciar o que é justo do que não nos cabe. Vamos ler muito, pesquisar, formar grupos de discussão filosófica nas instituições de ensino desde o interior do Acre até os avançados centros tecnológicos do sul e sudeste do Brasil.
Educação, consciência e discernimento: a trindade que vai manter no passado as fogueiras da Inquisição e os ordálios do Santo Ofício.

NÃO VALE O CORPO MAIS DO QUE A ROUPA?

Não quis cair no clichê de intitular este artigo com algo como “apesar de você...”, mas a canção de Chico Buarque acaba voltando à minha cabeça. Talvez por tudo o que já disse sobre a tal falta de política cultural no Estado, sobretudo em Belém, capital que ergueu o Teatro da Paz para comportar o fausto artístico a que sua sociedade se dedicava e que hoje amarga o ostracismo; ou para louvar ainda uma vez a saída de Paulo Chaves do (des) mando da cultura paraense, que ao mesmo tempo em que mordia o necessário para raspar paredes em busca de uma pintura original escondida pela idiotice de uns, assoprava para longe os desejos artísticos de tantos outros, aquém da sua casta artística.
Com a mudança de governo, renovam-se as esperanças de que as coisas tenham novo rumo. Em todos os sentidos: social, político, educacional, na saúde. Talvez o que se mais queira é que tudo o que seja feito possa ser uma obra usufruída pela massa da população. Há que se entender que potencial turístico envolve o povo do lugar; que oferecer grandes museus, palacetes e chafarizes em praças atapetadas de flores exóticas é um luxo para os olhos e uma necessidade, mas que carimbó não deve ser executado por um bando de macacos ensaiados para gringo ver (Não me refiro àqueles que trabalham nessa área. Esta é apenas uma imagem figurativa e contundente para demonstrar o que sinto!). O povo precisa de espaços onde possa exercer, difundir, transmitir, praticar e (por que não?) vender sua arte: das varandas coloridas das redes, os bonecos de miriti e patchouli, às garrafadas e cestos de folhas trançadas que carregam deliciosas frutas das ilhas pra cá. Esse investimento voltado ao povo não foi feito e agora esperamos...
O que será de nós, artistas paraenses?
No último dia 26 de novembro, no Iphan, um grupo articulou um seminário, ou fórum de discussões para tentar responder a tantas perguntas e encaminhar à governadora eleita um documento sobre política cultural. Não posso dizer nada sobre isso, porque não estive na reunião, que aconteceu em um sábado pela manhã, estando eu (e quantos mais?) em minhas atividades profissionais, batalhando o pão de cada dia!
Mesmo diante desse cenário desolador, o artista mostra que fazer arte é algo vital! Na contramão de tanta displicência das autoridades, falta de espaços para ensaios e investimento / patrocínio, Belém está tendo um final de ano repleto de produções cuja qualidade avança Pará afora, angariando reconhecimento e investimento de entidades e empresas locais e nacionais.
A Fundação Nacional de Arte – FUNARTE, premiou vários grupos paraenses, dando-lhes a oportunidade de apresentar o seu trabalho com a qualidade que mecerem: fruto da pesquisa para a obtenção do título de doutorado por Ana Flávia Mendes, Avesso (VER Vide o Verso), com a Companhia Moderno de Dança recebeu o prêmio Klauss Vianna e o investimento da Petrobrás. Os Palhaços Trovadores e a Companhia de Teatro Madalenas foram premiados pela Funarte com o Myriam Muniz, montando respectivamente O Hipocondríaco e A Aurora da Minha Vida (VER Poucos, Loucos e Afins...).
Novos espaços abrigam espetáculos em Belém, como o Espaço Cuíra (VER Bem Vindo a um Mundo Novo), que inaugurou com A Peleja dos Soca-socas João Cupu e Zé Bacu (VER É Nazaré lá na Porta da Sé), do grupo Gruta de Teatro, o U.Porão (Tv. Campos Sales, 628), apresentando até o próximo dia 10 de dezembro Frozen, criado e dirigido por Nando Lima, enquanto que o Teatro Porão Puta Merda abrigou até o último dia 26 O Império de São Benedito, resultado também de pesquisa de mestrado, feita por Karine Jansen, atriz e diretora, professora da ETDUPA.
Ainda na Escola de Teatro as turmas de formação de atores encaminham suas montagens anuais e os alunos de teatro infantil e juvenil apresentam seus resultados, Cidade nas Nuvens e Um Conto de Natal, revelando uma turma que cresceu fazendo teatro e que tem tudo para criar uma nova geração de artistas cada vez mais questionadores, mais engajados, mais famintos de dança, literatura, música, artes plásticas e teatro.
Além dos espetáculos citados, o grupo Palha apresenta Júlio irá Voar, texto de Carlos Correia vencedor do Prêmio Funarte de Literatura. Premiado do mesmo concurso em 2004, O Glorioso Auto do Nascimento do Cristo-Rei, de Hudson Andrade (VER artigo homônimo) entra em sua terceira edição, o Terceiro Milagre, como o chamamos, por contar finalmente com patrocínio financeiro via Lei Semear. O investimento feito pela Sol Informática garantiu à Companhia Teatral Nós Outros a possibilidade de criar um espetáculo a partir de longos meses de trabalho em oficinas de capacitação em música, figurino, cenografia, adereçagem e dança, um sonho que a companhia precisou esperar quatro anos para ver acontecer.
Os recentes Festival de Dança Contemporânea, da Companhia Experimental de Dança Waldete Brito, igualmente patrocinado pela Funarte e Petrobras, o Festival Internacional de Dança da Amazônia (FIDA), promovido pela Escola de Danças Clara Pinto, que chegou a sua 12ª edição e o VII EIDAP, criado pelo Centro de Danças Ana Unger, que em 2006 contou com o selo de incentivo da Lei Semear, apesar de muitos e difíceis percalços, veio à cena. Problemas não menos dramáticos passou o Instituto Arraial do Pavulagem para conseguir botar na rua o seu Cordão do Peixe-boi, tradicional manifestação do grupo durante a quadra nazarena que já havia perdido sua maior manifestação artística, o Auto do Círio, orfão do patrocínio necessário à sua execução pela incompetência da instituição que deveria preservá-lo, sobretudo por ser patrimônio imaterial e cultural da humanidade. Seus criadores, diretores e artistas se quedaram impotentes e viram desfilar pelas ruas da Cidade Velha um triste arremedo de seu belíssimo cortejo.
2006 também foi o ano em que a Companhia Atores Contemporâneos completou 15 anos de atividades. Reconhecida e premiada dentro e fora de Belém e do Brasil, com um trabalho de pesquisa criativo, sofre, como 99% dos grupos de Belém, com a falta de uma sede que lhe abrigue e onde possa trabalhar com a calma e segurança necessárias.
Querer trabalhar nós queremos! Talento pra fazer coisa que preste nós temos!Quem há de nos estender as mão?